Ali, no gozar, a conquista desse saber se renova de cada vez que ele é exercido, e o poder que ele dá, resta sempre voltado para seu gozo.
(LACAN, 1972-73, p. 130)
O princípio da transmissão do amor pelo Real nos é fundamental, porque se trata de um amor que gera uma curiosidade subjetiva inesgotável. Na perspectiva da psicanálise, é o amor pelo Real o que move e dá uma orientação a alguém. É o que mantém alguém na direção de construir respostas inéditas para as suas perguntas.
É o amor pelo Real que permite, como colocado por Lacan no trecho de epígrafe desta seção, a mobilização para que uma pessoa conquiste, sempre de maneira renovada, um saber. Trata-se de amar o que, para cada um, é da ordem do inapreensível. Só para constar, cumpre dizer que a transmissão do amor pelo Real é um dos aspectos que marca um final produtivo de análise.
Vejamos como se dá esse processo. Ao longo de uma análise, uma pessoa desconstrói aqueles pontos de identificação simbólicos e imaginários que a impediam de seguir a via do desejo. Esse movimento de desconstrução, para todo e qualquer um, causa angústia. Inicialmente, a pessoa sente-se perdida, como se alguém tivesse tirado o chão. Como colocado por Lacan (1962-63), a angústia surge diante da presença de um objeto que não pôde ser capturado pelas palavras. Outro modo de dizer isso é afirmar que ela surge a partir do contato com o Real.
Algumas pessoas temem o Real e, frente a ele, paralisam. Outras, porém, aprendem a amá-lo e a usá-lo como reitor para a construção de sua vida. Nessa perspectiva, considera-se que o Real dá uma orientação, um ponto de ancoragem, e não um sentido para quem é tocado por ele. A respeito da diferença entre orientação do Real e sentido, Lacan (1975-76, p. 117) afirmou:
Há uma orientação, mas essa orientação não é um sentido. O que quer dizer isso? Retomo o que disse da última vez sugerindo que o sentido seja, talvez, a orientação. Mas a orientação não é um sentido, uma vez que ela exclui o único fato da copulação do simbólico e do imaginário em que consiste o sentido. A orientação do real, no território que me concerne, foraclui o sentido.
Essa orientação não inclui o sentido porque é ancorada no corpo da pessoa que, enganchada no seu desejo, vai trabalhar para construir e demarcar seu lugar no mundo.
Como bem colocado por Lacan, no Seminário XX, a construção e a conquista de um saber não são fáceis de serem alcançadas. Exigem coragem e um trabalho insistente de implicar a própria pele até sua concretização. Nas palavras de Lacan: “O saber vale justo quanto ele custa, ele é custoso, ou gustoso, pelo que é preciso, para tê-lo, empenhar a própria pele, pois que ele é difícil”. (LACAN, 1972-73, p. 130)
No escopo desta pesquisa, entendemos que é por meio do amor pelo Real que um pesquisador pode, frente às transformações por meio das quais passará ao longo de uma formação, ancorar suas escolhas e implicar seu corpo em uma investigação que lhe seja própria. Isso porque quem decide enfrentar com radicalidade o desafio de elaborar uma pesquisa precisa desapegar-se de um imaginário a respeito do próprio trabalho, do mundo e até de si mesmo. Sem essas construções que eram alheias ao pesquisador, esse poderá amparar-se no Real para elaborar algo inédito.
Como vimos, para que haja a transmissão do amor pelo Real, alguém precisa, via um saber-fazer, dirigir sua atenção a outra pessoa. Assim, buscaremos indícios de como o orientador, por meio de suas intervenções, também transmitiu o amor pelo Real aos pesquisadores em formação.
Nesse contexto, podemos perguntar: quais as facetas do amor pelo Real? A partir da definição de Real, depuramos cinco:
1. A implicação do corpo nas suas ações: Refere-se à articulação, pela dimensão pulsional, de corpo e linguagem. Como consequência dessa amarração, uma pessoa que ama o Real nunca “tira o corpo fora” diante dos desafios. São justamente eles que fazem o seu corpo se sentir vivo;
2. A inclusão do desejo inconsciente no modo de realizar seu trabalho: Refere- se à possibilidade de ensinar por escolha e não, meramente, por dever burocrático. Quem não cede ao seu desejo (LACAN, 1962-63), não é escravo das expectativas dos outros, e, portanto, não tem medo da esquisitice do Real; 3. A mobilização da posição sexuada: Refere-se à possibilidade de “estar bem dentro de sua própria pele”, o que inclui as contingências corporais dos traços definidores de sexo. Tendo “feito as pazes” com o que a loteria da natureza lhe
reservou, a pessoa não teme assumir a posição desde onde fala, seja de homem ou seja de mulher. Não teme, inclusive, caso isso se mostre produtivo, fazer semblante de um sexo, ou de uma opção sexuada que não é a sua;
4. A utilização da angústia como combustível para a criação: Refere-se à possibilidade de transmutar a “adrenalina” mobilizada pela angústia em energia para tocar adiante os projetos de alguém. É essa possiblidade que faz com que uma pessoa não se canse do que está fazendo e sustente uma curiosidade inesgotável frente às novas possibilidades de trabalho;
5. A vontade de fazer diferente: Refere-se à vontade renovada de trabalhar. Como o Real é, por excelência, aquilo que nunca deixa de não se inscrever, ele gera em buraco impossível de ser preenchido. Por esse motivo, acossada pelo Real, mas sem se assustar com seus efeitos, a pessoa nunca vai reproduzir o que já fez. Insatisfeita com o já obtido, vai buscar, de diferentes modos, encontrar uma elaboração que, naquele momento, dê conta de expressar uma ideia.