Ê olha lá a cartilha de Umbanda, a cartilha de Umbanda. O chefe da Quimbanda mandou me chamar. Todo mundo já quer Saravá O chefe da Quimbanda mandou me chamar. Ê cocoré, senhor Ogum tá na aruanda. Ê cocoré, senhor Egum tá na Quimbanda. Olha a linha virou deixa virar. Ô virou na Quimbanda, deixa o pau quebrar. ( Pontos de Quimbanda da R.G.U.M. 47).
A Quimbanda comumente é concebida como o lado esquerdo da Umbanda. Brumana e Martinez ( 1991, p.459),a definem como “Tipo de ritual no qual se trabalha na esquerda: identificável com feitiçaria”. Nesta perspectiva, a Umbanda possuiria, então, um caráter ambivalente, uma vez que seus sacerdotes exercem a prática quimbandeira. A despeito de mencionada como a esquerda, a Quimbanda, na visão dos sacerdotes sertanejos, é diferente da Umbanda, apesar de imprescindível para a existência desta. No norte de Minas Gerais, na maioria dos terreiros, Umbanda e Quimbanda coexistem, não havendo possibilidade de existirem isoladamente. Isto é, em todos os terreiros de Umbanda no sertão norte-mineiro há o toque de Quimbanda. Em alguns existe a prioridade de uma sobre a outra, em outros a Quimbanda é negada, mas nestes constatamos que o toque aberto ao público não acontece, entretanto, trabalhos particulares são realizados. Enfim, Física e Jurídica Benjamim Versiani. Trata-se da Casa Nossa Senhora das Graças.
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esta religião é uma realidade inegável nos terreiros afros do território sertanejo, sendo que identificamos as seguintes linhas de trabalho desta religião: Escora, Pomba-Gira, Exu, Exu-mirim, Tranca-Rua e Preto-Velho quimbandeiro. Destacam-se no panteão sertanejo as linhas de Escora e Pomba-Gira, considerados como Exus evoluídos se comparados a entidades popularmente conhecidas como Exus. Estes se diferenciam dos Escoras por serem considerados como trevosos, elementos sem procedência, elementos das profundezas ou Kiumbas.
Nos terreiros estudados o universo quimbandeiro é acentuado, mesmo que concebido de forma diferenciada, a exemplo do Recanto de Pai João Velho que, visivelmente, não considera a Quimbanda de forma convencional. No calendário48 desse templo é notória a sua presença através dos rituais de Escoras e Pomba-Gira. No entanto, com um diferencial: estas personalidades compõem uma linha de Umbanda comandada por um Escora-chefe líder de subchefes de falanges de Exus. Não se trata aqui de questionar a legitimidade desta Umbanda, mas de demonstrar que seu diferencial ilustra hibridez e ambivalência ao inserir como elemento do bem o que vulgarmente é visto como mal.
O ritual, Festa das Moças, endossa esta afirmação. O seu valor simbólico ultrapassa a religiosidade tradicional. É perceptível que, para seus médiuns e adeptos, as Moças são mais que espíritos, são amigas. Fazem parte da sua realidade social e familiar. As Moças, assim chamadas carinhosamente pelos integrantes do terreiro, são espíritos de Pomba-Gira que, na cosmologia afro-brasileira, pertencem à Quimbanda. Permeia no senso-comum, no Recanto de Pai João Velho, a concepção de que este ritual é de Umbanda e não de Quimbanda. Vejamos um fragmento onde Dona Nair, sacerdotisa deste terreiro, estabelece, a partir da entidade Pomba-Gira, a diferenciação entre as duas religiões.
Então a gente quando fala em Pomba-Gira não vamos pensar que é mulher depravada, que é mulher que se incorporar com uma pessoa vai levar a pessoa pro mau caminho, nada disso, elas são mulheres educadíssimas, mulheres que só nos ensinam, [...]. Então a gente tem que ter um grande respeito, um amor muito grande por elas [...]. Então as Pomba-Gira são essas mulheres assim. Agora nós temos as Pomba-Gira... lá é igual aqui, igual na terra, se aqui nós temos nível alto, tem lá também o nível baixo. Já no nível baixo, já fala já vira a Quimbanda. Aí agora já entra aquelas que topa tudo, elas ta pro que der e vier então essas... aí não é dizer que a gente vai desfazer que a gente vai desprezar a
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gente vai falar que elas são ruim, não, de forma nenhuma, cada uma no seu lugar, cada uma recebendo o respeito da forma que deve ser.
Neste templo, a Pomba-Gira, não é uma personalidade exclusiva da Quimbanda. Nesta, esta personalidade é menos evoluída por isso topa tudo. O mal, então, pode se tornar bem quando direcionado para esta finalidade. A Moça é companheira, amiga, protetora, é a guardiã de sua médium e protegidos49. Sua função é guardar, proteger, sendo que proteção significa afastar o mal. Todas as Moças sabem o que fazer para manter sua protegida livre de possíveis perseguições espirituais e materiais. Em troca, recebem o carinho e a fidelidade da médium, que são demonstrados na riqueza e beleza de suas roupas e na vela vermelha que acendem para sua evolução. A ligação com as Moças é tão estreita que se acredita na permanência destas e suas convidadas no momento profano que se segue após o ritual50. A intimidade desta relação e a linha tênue que separa o sagrado do profano superam a idéia negativa que popularmente se tem de uma Pomba- Gira, transformando-a em amiga e aliada. Sobre a Pomba-Gira, Prandi (1996, p.140) coloca que:
No Brasil, sobretudo entre as populações pobres urbanas, é comum apelar a Pombagira para a solução de problemas relacionados a fracassos e desejos da vida amorosa e da sexualidade, além de inúmeros outros que envolvem situações de aflição. Estudar os cultos da Pombagira permite-nos entender algo das aspirações e frustrações de largas parcelas da população que estão muito distantes de um código de ética e moralidade embasado em valores da tradição ocidental cristã. Pois para a Pombagira qualquer desejo pode ser atendido: não há limites para a fantasia humana.
No Recanto de Pai João Velho, o que observamos, foi que a Pomba-Gira/ Moça Bonita não pode atender a todos os desejos. A presença de um cambono ou cambona ao lado de cada uma, é sinal claro de que existe uma censura. Caso o pedido seja contrário a moral kardecista, o próprio cambono alerta a Moça dizendo-lhe que naquele terreiro não lhe é permitido atender o/a consulente naquele pedido. É lhe dito também que o atendimento daquele desejo pode comprometer sua evolução e consequentemente a evolução de sua médium.
49 Aqueles que procuram sua proteção. 50
Após o ritual se inicia a festa profana com convidados. A beira da piscina foram distribuídas mesas com cadeiras e de frente a elas um telão que transmitia clips promovendo a animação da festa.
O profano assume ares de sagrado. O espaço sagrado emerge, no Recanto de Pai João Velho, como híbrido, como entre-lugar, onde elementos ambivalentes se misturam e sincretizam. Visivelmente, neste ritual, a hibridez está visualizada no requinte das oferendas. Observam-se no sertão, entre outros, os seguintes ingredientes para a comida de uma Pomba-Gira: farofa de frango caipira com cebola, farofa de lingüiça, frango caipira assado, almôndega (carne de porco e galinha caipira) com azeitona e tomate. Frutas como a maçã também é oferecida, completa a oferenda, a bebida do gosto da Pomba-Gira sendo as mais comuns o champanhe, vinho e Martini. O utensílio usado para que se coloque a oferenda é uma gamela de barro ou madeira, para bebidas as taças são as preferidas. No Recanto de Pai João Velho a mesa de oferendas retrata o caráter híbrido da sua Umbanda, divide o espaço da mesa a comida que, tradicionalmente, se oferece à Pomba-Gira, e frutos do mar, casquinha de siri, canapés, melões com gelatina de frutas, frios, mouses, licores, ponche, frutas como morango, kiwi, cereja e caqui, gelatinas em frutas, camarão, torradas, pão sírio, e salpicão com castanhas e palmito.
Neste terreiro, as entidades nunca comem ou bebem. Fazem uso de suas oferendas como instrumentos terapêuticos. Orientado pela Moça, o consulente ingere o alimento se concentrando no objetivo que quer alcançar seja um emprego, saúde, bem estar emocional ou defesa. Pedidos que tenham como finalidade prejudicar o outro são descartados pela Moça. Após a retirada destas, todos partilham da mesa. Os alimentos perdem o caráter de oferenda e assumem definitivamente a função terapêutica. Acredita-se que as Moças, para trabalharem, apenas retiram das oferendas sua essência, não precisando ingeri-las. Ao mesmo tempo em que se alimentam energeticamente das oferendas, aplicam sobre estas sua força para que os consulentes ao consumi-las tenham, além das condições materiais, condições espirituais para alcançarem a realização dos seus desejos.
Os cantos da festa, ou pontos, na linguagem umbandista, também revelam o hibridismo cultural sertanejo. Vejamos alguns:
Eu tenho, eu tenho, eu tenho gente boa na gaiola. Eu tenho, eu tenho, eu tenho gente boa na gaiola. Eu não sei o que é que eu tenho,
quando eu canto as Moças chora
A luz é vermelha, ela veio pra clarear,
No símbolo desta luz é que eu posso te ajudar A luz é vermelha, ela veio pra clarear,
No símbolo desta luz é que eu posso te ajudar
Oi na fumaça eu vim, na fumaça eu vou voltar. Todo mal que aqui tiver levo pra ondas do mar. Oi na fumaça eu vim, na fumaça eu vou voltar. Todo mal que aqui tiver levo pra ondas do mar.
Oi quem vem lá sou eu, oi quem vem lá sou. Oi a cancela bateu, e o cavaleiro sou eu. Oi a cancela bateu, eu vi poeira subir. Eu vi no pé do cavalo, eu vi a espora tinir.
O primeiro ponto é uma adaptação do ponto do Escora Zé Papagaio ( José Fernandes Guimarães), onde hoje se menciona Gente Boa, na década de 40, mencionava-se Papagaio. O terceiro também é uma adaptação de um ponto cantado pelo ex-chefe dos Escoras deste terreiro: Sete Pingo. Onde se menciona fumaça, Sete Pingo mencionava maré. O quarto ponto pertencia exclusivamente ao Escora Pilão, anteriormente, subchefe de Sete Pingo, sendo que na atualidade, é cantado para chamar qualquer outro Escora. O segundo retrata a visão tradicional da Pomba-Gira apesar de sua denominação neste terreiro ser Moça Bonita - o que lhe concede um caráter moral diferente do concebido no senso comum - sugere-se no canto a origem imoral da entidade: A luz é vermelha, mas a terminologia Moça Bonita indica evolução moral. Para estes umbandistas, quanto mais evoluída é a entidade mais discernimento ela possui sobre o que é o bem e mal, o certo e o errado. Portanto, a entidade Pomba-Gira, para trabalhar neste terreiro, deve aceitar as condições morais do seu imaginário. Entendem que suas médiuns, mulheres de família, não podem ser expostas com comportamentos considerados moralmente inadequados. O quarto canto contém em si retratos do sertão: a cancela, o cavalo, o cavaleiro, a espora e a poeira. A letra anuncia a chegada, pelo barulho da cancela, do cavaleiro (Escora) prestes a montar (incorporar) seu cavalo (o médium). O terceiro mistura elementos do litoral, o mar, com um elemento banal no sertão, a fumaça tão comum nesta região em função das queimadas.
O culto à Iemanjá, é uma tradição neste terreiro, sendo realizado anualmente no mês de janeiro51. Banhadas com champanhe, as personalidades sereias do mar, lideradas por Iemanjá e Nanã trabalhavam em prol do progresso e da saúde do grupo. Apesar de
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serem entidades marinhas, suas oferendas eram entregues no Rio Jequitaí. Nos últimos anos, o culto ganhou como extensão o Oceano com a participação de parte dos integrantes do terreiro. Explica-se: após o falecimento do chefe e fundador Nelson Dias, alguns integrantes, anualmente, cumprem em uma praia na Bahia, na dia 31 de dezembro, um ritual à Iemanjá. No mês seguinte, em janeiro, realizam a Festa das Águas completando o culto, ou seja, Iemanjá é cultuada no sertão e no litoral pelo mesmo grupo religioso. Embora estejam no sertão, esses umbandistas encaram o mar como mais um ponto de força. Normalmente, o que se observa nos terreiros sertanejos é a prioridade em se cultuar a deusa das águas doce: Oxum, uma vez que seus pontos de força, os rios, são encontrados no sertão. No entanto, os fundadores da Umbanda no Recanto de Pai João Velho sempre privilegiaram o culto à Iemanjá e, somente no ano de 2007, seu sucessor Norivaldo Lopes Dias, realizou o primeiro culto de homenagem a Oxum, denunciando mudanças e transformações que apontam o sertão como prioridade.
Retornando ao rito Festa das Moças, há elementos que o identificam como convencionalmente de Quimbanda e não de Umbanda, como exemplo, as saudações dirigidas a Exu. Após a saída das Moças e dos Escoras, o sacerdote até então fora do transe, saúda seu Escora e companheiros52 além de invocar a força do orixá Ogum, chamado na Umbanda de “Senhor das demandas”. Segundo o teólogo umbandista Saraceni ( 2006, p.66), “Quando a lei quer recompensar, é Ogum que dá. Mas quando quer cobrar, é seu lado negativo, quem executa” e mais “Os Exus de Lei da Umbanda são entidades atuantes no nosso plano como agentes carmáticos, sob as ordens de Ogum [...]”. Para este teólogo, Ogum rege os Exus aplicando através de punições a lei Kármica. Em sessões de Quimbanda noutros terreiros, observamos que após a defumação, a gira se inicia com a invocação de Ogum através de cantos como:
Ê cocoré, senhor Ogum tá na aruanda. Ê cocoré, senhor Egum tá na Quimbanda.
Este Orixá, portanto, está ligado tanto à Umbanda quanto a Quimbanda, o que pode identificar o rito Festa das Moças como uma atitude religiosa híbrida.
A relação de colaboração entre Umbanda e Quimbanda é bem representada no período da quaresma. Juntas, emergem como forças de proteção e defesa durante uma fase
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considerada pelos umbandistas como delicada e que requer cuidados. A quaresma é um tempo do calendário católico em que a Igreja relembra os 40 dias que Jesus passou no deserto rezando e jejuando. Neste período, a Igreja convida seus fiéis à meditação e ao recolhimento espiritual a fim de se lembrarem das tentações vividas por Jesus. Sabemos que a Umbanda recebeu influências do catolicismo, como: a adoção de datas comemorativas dos santos católicos para homenagearem os orixás e a quaresma como um tempo sagrado. No imaginário umbandista sertanejo, no entanto, esse período não tem a conotação de reflexão, mas de preservação. Permeia neste imaginário a idéia de que durante este tempo as almas são soltas por São Miguel para que procurem luz. Sendo assim, consideram que a incorporação nos médiuns só é possível com Exus53.
Em alguns terreiros, durante a quaresma, praticamente as atividades são interrompidas ou ficam restritas às firmezas54 do sacerdote e médiuns a fim de garantir proteção a todos os integrantes. No sábado de Aleluia as atividades retornam. É comum que seu retorno ocorra com uma festa oferecida aos Escoras e Pomba-Gira comemorando a reaproximação destes. Na Roça Gongobiro Unguzu Moxicongo, nesta temporada, são realizadas sessões de Quimbanda com os Exus, Escoras, Pomba-Gira e elementos das profundezas55. Algumas sessões acontecem no salão do terreiro, em outras o sacerdote pode entrar em transe na casa do Exu e, possuído por esta personalidade, realiza magia. São desempenhadas também sessões ao ar livre sobre a terra ao luar do sertão, quando personalidades-Exu, consideradas vindas das profundezas, se manifestam. Conforme seu calendário, para o início e término desse momento recorre-se ao sincretismo umbandista. Na quarta-feira de cinzas é realizado um rito para o fechamento do corpo dos integrantes do terreiro que se assemelha ao rito católico: o terço. Neste templo, a reza do terço é dirigida pelo Baiano - entidade de Umbanda - que em outro ritual encerra o período. No entanto, uma semana antes da cerimônia de abertura faz-se necessário reunir os integrantes do terreiro com a finalidade de orientá-los sobre o momento e assegurar ao pai-de-santo, bem como ao seu Preto-Velho que todos estão sob a proteção do templo. O trabalho de reunir é de responsabilidade do Boiadeiro.
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Apesar de termos verificado que em alguns terreiros acontece também a incorporação com Boiadeiros.
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Vide significado página 82.
55 No imaginário cristão as profundezas corresponderia ao inferno, no Kardecismo ao Umbral. No
imaginário umbandista para uns as profundezas significam o umbral kardecista ou baixo astral formado pelos maus pensamentos e sentimentos baixos.
Segundo o sacerdote Maurício Pereira de Jesus, os Boiadeiros são entidades que retratam a natureza simples, romântica e exploradora do homem do sertão. É o caboclo sertanejo, o vaqueiro, o peão, o tocador de viola. É o mestiço brasileiro que, com luta e trabalho, desbravou o sertão. Na sua lida com esta terra aprendeu com os índios a respeitá- la e a colocá-la a seu favor manipulando suas ervas e plantas. Com os negros conheceu a natureza pelos orixás e, conseqüentemente, os feitiços, com os brancos herdou o catolicismo que sincretizou com o conhecimento religioso indígena e negro. Desta forma, os Boiadeiros na Umbanda representam a miscigenação do povo brasileiro. Segundo Prandi ( 1996, p.141), “ o boiadeiro é um caboclo que em vida foi um valente do Sertão. Veste-se como o sertanejo, com roupas e chapéu de couro”.
No rito em questão, o Boiadeiro “desce” no sacerdote dançando como se estivesse segurando o ferrão, bradando ou boiando realiza seu trabalho. Figura híbrida e ambivalente, que traduz visivelmente o sertão, acredita-se que o Boiadeiro livra com o ferrão seus protegidos dos perigos trazidos pela Quaresma, agindo contra os inimigos ocultos que intencionam prejudicá-los. Para tanto, precisa reuni-los, e saber onde se encontram. Antes da chegada da Sudene, o sertão norte-mineiro era conhecido como “mundão sem cancela”, significando uma terra geograficamente sem limite. Desta forma, era natural criar o gado “na solta” 56 principalmente no período da seca. Vez em quando, segundo a lógica dos criadores de gado este deveria ser reunido para evitar que se misturassem com o gado alheio ou se perdesse nas matas do sertão. Aos olhos do Boiadeiro, os adeptos são a boiada que não pode estar dispersa ou perdida, a unidade do templo se garante com a unidade da corrente. É ele quem canta:[...] minha corda é de laçar.[...[ se correr, vou buscar57
. Na sua fala percebemos a preocupação com a quaresma e a insatisfação quanto à ausência de médiuns naquela noite,
Deixar pro meu aparelho de que passando agora quaresma possa o Boiadeiro até vim... Para a quaresma, para isto tamo sempre trabalhando, correndo a gira para dar a condição dos meu filhos de trabalhar, de caminhar, e fazer as caminhadas na busca daquilo que está querendo, né meus filhos?
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Isto é, na mata virgem.
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Vejo meu gado esparramado, vejo até mesmo algumas cabeças lançadas por aí, o Boiadeiro vai usar até a chibata para colocar meu gado na trilha, no caminho certo.
Sua função, então, é reunir para garantir unidade e proteção. Para isto retira sua força da natureza sertaneja: a chapada e a lapa.
A força da lapa e a proteção do Boiadeiro há de ser um bom caminho, um bom guiar, um bom destino, um bom passo em vossas vidas. Que a força do meu ferrão, que há de livrar vosmices contra o feitiço, a magia e a negatividade em seus caminhos[...]vamos vosmicê nessa quaresma contra os inimigos ocultos que na espreita e que queira até mesmo desdobrar ou trabalhar na intenção de querer fazer uma desdobrada, e atrapalhar vosso caminhos.
Ir contra é defender. No universo umbandista defender é atacar quem ataca, pois o feitiço, mais que possibilidade de doença, significa atraso material, isto é, o não- progresso. Portanto, o Boiadeiro, ao mesmo tempo em que livra, abre as estradas, os caminhos para novas possibilidades e oportunidades. De acordo com o teólogo Rubens Saraceni (2006), um dos orixás que regem os Boiadeiros é Ogum58 - orixá da guerra e do combate - o que, para muitos pais de santo, pode sugerir que estes espíritos já foram Exus e como Boiadeiros se encontram em fase transitória de evolução. A transitoriedade, a formação sincrética, a função ambígua e ambivalente torna o Boiadeiro uma personalidade híbrida que se encaixa na a relação entre Umbanda e Quimbanda: a irmanação dos contrários.
Conforme mencionamos, o ritual de Preto-Velho e Boiadeiro antecede ao rito de fechamento do corpo com as cinzas que tem entre outros o objetivo de proteger fisicamente os médiuns. Com o corpo fechado, o médium está apto a participar das sessões de Quimbanda num movimento duplo: atrair mais força espiritual e realizar magia. Com esta finalidade, durante a quaresma, sessões diversas de Quimbanda às segundas-feiras foram realizadas: rituais no salão do terreiro, ritual no terreno ao lado a céu aberto59, ritual na casa de Exu e a Festa da Bombogira. A diferença entre os terreiros que “guardam” a quaresma e a Roça Gongobiro Unguzu Moxicongo pode ser considerada ideológica. Podemos afirmar que os primeiros mantém elementos da tradição católica ao interromper