As crianças apresentaram denominações esperadas, denominações não esperadas, denominações esperadas modificadas, produziram mímicas, classificadores e realizaram comentários, diferentemente dos adultos, cujas produções não apresentaram sinais modificados, classificadores, mímica nem realizaram comentários.
A seguir, a análise será realizada conforme cada item da avaliação da consciência fonológica, pois, conforme referido anteriormente, cada item agrupa sinais com mesma formação.
No item I as figuras ‘barata’, ‘mosquito’, ‘mulher’, ‘onze’, ‘refrigerante’ e ‘soldado’ foram denominadas diferentemente do esperado por dez ou menos informantes. Foi comum a respectiva produção: ARANHA, ARANHA, MÃE, UM UM, GUARANÁ e POLÍCIA.
A figura ‘refrigerante’ não propiciou a evocação esperada em dois adultos e, somente dez crianças a denominaram conforme o esperado. Possivelmente essa figura necessite ser substituída, sendo considerada a possibilidade de este instrumento continuar sendo aperfeiçoado em futuras pesquisas sobre consciência fonológica.
A figura ‘Brasil’ foi denominada por apenas sete informantes. É possível que a figura selecionada para evocação do conceito não esteja adequada à faixa etária das crianças.
A figura ‘limão’ não foi denominada (ND) por sete informantes. O pouco reconhecimento sugere ter ocorrido pela inadequação da imagem e/ou por as crianças não terem sido expostas ao sinal, apesar de conhecerem a fruta.
A figura ‘copo’ foi associada à função que tem. Algumas crianças comentaram “É para beber”.
Na denominação esperada modificada, houve três ocorrências. As mudanças em dois sinais, PIPA e PRETO foram, respectivamente, nos parâmetros M e CM, e no sinal BICO a produção foi realizada com duas mãos.
No item II as figuras ‘arroz’, ‘barraca’, ‘burro’, ‘chuva’, ‘futebol’, ‘saia’ e ‘vestido’ foram denominadas conforme esperado por dez ou menos informantes. Foi
comum a respectiva produção: BRANCO/PEDRA, CASA, CAVALO, ÁRVORE, BOLA, ROUPA e ROUPA.
A figura ‘arroz’ foi denominada de forma esperada por somente dois informantes. Essa figura também foi considerada de pouca definição ao analisarmos o nível de reconhecimento das figuras pelos adultos e, possivelmente, necessite ser substituída.
Não foram denominadas por vários informantes as figuras ‘coco’ e ‘robô’. As figuras parecem estar bem definidas, no entanto é possível que esses sinais não sejam muito utilizados no dia-a-dia.
A denominação das figuras ‘biblioteca’, ‘milho’, ‘videocassete’ foram produzidos com comentários e classificadores, respectivamente, como: “Tem livros”, um classificador de morder o milho e um classificador de colocar a fita no videocassete. Nessas três figuras, a ‘biblioteca’ parece ser a mais difícil de ser reconhecida, pois na figura há, realmente, vários livros. As outras duas figuras parecem ter sido reconhecidas pelas crianças, mas o uso do classificador foi uma estratégia para denominá-las. Na figura ‘videocassete’, quando a criança não reconheceu a figura, foi mostrado um aparelho de videocassete e, mesmo assim, algumas crianças repetiram o classificador.
Os sinais CAMA e EDIFÍCIO foram produzidos com modificação na CM. O primeiro sinal foi modificado por sete e o segundo por três informantes. Todos os informantes selecionaram um dedo a mais, o polegar, em ambas as mãos. No sinal ‘BARRACA’ vários informantes, após a visualização da produção do sinal realizado pela examinadora, produziram o sinal com a seleção do polegar.
A CM
[ ]
com a seleção do polegar foi produzida somente pelas crianças nos sinais CAMA, EDIFÍCIO e BARRACA.Sobre a seleção do polegar Karnopp (1999), após a análise do funcionamento do mesmo na produção da informante Ana, refere o seguinte:
O funcionamento aparentemente livre do polegar e a propriedade distintiva que ele carrega são investigações necessárias em futuras pesquisas. O modelo proposto por BHKS42 somente prediz que as posições do polegar são propriedades fonéticas e que a única especificação necessária na representação é [selecionado]. (KARNOPP, 1999, p.179).
42
BHKS é a notação utilizada em Karnopp (1999) para a noção de marcação em sinais adotada por Brentari, Hulst, Kooij e Sandler (manuscr.). O conceito de Marcação usado pelos autores citados é utilizado nas análises das línguas de sinais e descreve a relação entre marcação e complexidade.
Dessa forma, é possível que, nesses sinais, as crianças selecionem o polegar devido a uma mudança a nível fonético, sem valor distintivo nesse sinal. Ainda há a possibilidade de que essa CM seja de aquisição mais tardia.
No item III as figuras ‘bailarina’, ‘borracha’, ‘gelatina’ e ‘jornal’ foram denominadas conforme o esperado por dez ou menos informantes. Foi comum a respectiva produção: DANÇAR, BATOM/LUZES DE CARRO (polícia ou ambulância), BOLO e LIVRO.
A variação na produção do sinal JORNAL, constatada na avaliação dos adultos, ocorreu também na avaliação com crianças.
No sinal MORCEGO, os informantes utilizaram classificadores para representar o vôo, a posição das asas do mesmo ao dormir, e os dentes. Em duas denominações não esperadas produzidas, os informantes produziram o sinal VAMPIRO, o mesmo sinal utilizado por alguns adultos. Nesse sinal ainda foram observadas modificações, na produção, na locação, pois o sinal foi realizado no antebraço.
A CM do sinal MORCEGO é a mesma utilizada nos sinais EDIFÍCIO e CAMA, cujas produções sofreram modificações, conforme foi comentado anteriormente.
No item IV as figuras ‘baleia’, ‘filho’, ‘homem’, ‘leite’, ‘lobo’ e ‘tucano’ foram denominadas diferentemente do esperado por dez ou menos informantes. Foi comum a respectiva produção: PEIXE, MENINO, PAI, VACA, CACHORRRO e PASSARINHO. A figura ‘homem’ foi assim denominada por, apenas, quatro informantes e parece não estar adequada, pois também não foi identificada por dois adultos. As figuras ‘baleia’, ‘tucano’ e ‘lobo’ foram diferentemente denominadas, sendo possível que esse resultado deva-se à qualidade da imagem, pois as duas primeiras também geraram dúvida em informantes adultos, e/ou ao pouco uso desses sinais no dia-a-dia pelas crianças.
Os sinais LOBO e LUZ APAGADA foram os sinais com mais ocorrência de C/CL/Mm. No sinal LOBO os classificadores de ‘dentes e orelhas do lobo’ foram produzidos. No sinal LUZ APAGADA foi realizado o comentário “Não tem”.
Conforme os dados apresentados, as figuras cujos sinais são formados por 1m1cm foram as mais denominadas, conforme o esperado. O índice máximo de denominação esperada foi de 83,18 % (item I) e o mínimo 68,33% (item III – 2m2cm).
O maior índice de figuras não denominadas conforme o esperado foi de 18,33%, ocorrendo nos sinais formados por 1m2cm, no item IV. O menor índice de denominações não esperadas, 9,24%, ocorreu no item I (1m1cm),
A denominação esperada modificada foi mais freqüente, 5,41%, nos sinais com 2m2cm, no item III. O menor índice de modificações, 0,45%, ocorreu no item I (1m1cm).
A produção de comentários, classificadores e mímica foi mais freqüente, 6,66%, nos sinais com 2m2cm (item III) e, menos freqüente, 3,03%, nos sinais com 1m1cm (item I).
A maioria das figuras não denominadas, 5,60%, ocorreu em sinais com 2m1cm (item II). O menor índice de não denominações foi de 1,25%, no item IV, em sinais com 1m2cm.
Estes resultados apontam que, na avaliação da proficiência lexical no item I, cujos sinais são formados por 1m1cm, houve mais denominações esperadas, menos denominações não esperadas, menos sinais modificados e menos produções de comentários, classificadores e mímica. No item III, por outro lado, cujos sinais são formados por 2m2cm, houve menos denominações esperadas, mais sinais modificados, classificadores, comentários e mímica.
Em Karnopp (1994), corroborando Carter (1983) e McIntire (1977), é referido que há vários fatores que afetam a produção de CMs pelas crianças, principalmente a complexidade do movimento e a área onde são articuladas as CMs. Além disso, conforme a pesquisa da autora, os sinais produzidos com 1m1cm foram produzidos por todos os informantes e em maior proporção do que os produzidos com duas mãos. Sinais com 2m1cm parecem ser adquiridos mais cedo do que aqueles com 2m2cm. Assim, considerando os dados da avaliação da proficiência lexical, observa- se que os informantes também produziram mais sinais com 1m1cm, sendo que na produção dos sinais com 2m2cm, de aquisição mais tardia, houve maior índice de sinais modificados.
É fundamental referir que os informantes da pesquisa de Karnopp (1994) e da presente pesquisa, diferem em relação ao início de aquisição da linguagem, idade cronológica e período de exposição lingüística.
Na pesquisa de Karnopp (1994) os quatro informantes eram crianças com faixa etária entre 2:8 e 5:9, surdas filhas de pais surdos. Nesta pesquisa, conforme apresentado no item 3.2.2, a faixa etária está entre 6:0 e 11:1. Entre as quinze
crianças somente uma é filha de pais surdos. O início da aquisição da linguagem variou entre 0:0 e 4:1. No entanto, as comparações são estabelecidas, pois os dados referem-se a crianças em processo de aquisição da linguagem, em que o aspecto analisado é a fonologia.
Os dados apresentados demonstram que o nível de reconhecimento adequado de figuras (denominações esperadas) foi de 77,4%. Esse percentual foi considerado como índice que indica a boa qualidade das figuras selecionadas para este instrumento.
Certamente a qualidade de definição das figuras influenciou no desempenho dos informantes, mas os dados sugerem que aspectos fonológicos como complexidade da CM, movimento, área em que é articulado o sinal e como o sinal é formado afetaram a produção dos sinais dos informantes desta pesquisa.