A compreensão e interpretação de textos estão diretamente relacionadas ao substrato em que eles estão escritos. Os leitores leem e assimilam de forma diferente as informações escritas em livros, sites ou livros eletrônicos, por exemplo. Existem diferenças importantes entre o impresso e digital, em especial nos processos de leitura de ambos.
O fluxo sequencial do texto na tela, a continuidade que lhe é dada, o fato de que suas fronteiras não são mais tão radicalmente visíveis, como no livro que encerra, no interior de sua encadernação ou de sua capa, o texto que ele carrega, a possibilidade para o leitor de embaralhar, de entrecruzar, de reunir textos que são inscritos na mesma memória eletrônica: todos esses traços indicam que a revolução do livro eletrônico é uma revolução nas estruturas do suporte material do escrito assim como nas maneiras de ler. (CHARTIER, 1998, p. 12).
O entendimento das diferenças entre as formas de leitura nos diferentes substratos e mídias tem sido alvo de vários trabalhos, entre os quais destacamos Nielsen (1997), Chartier (1998), Mito (2003), Outing e Ruel (2004) e Ribeiro (2006). Esses autores apontam que há diferenças
substanciais na forma de leitura de textos disponibilizados em mídias distintas, em especial nas mídias papel e computador.
Na web desenvolve-se uma forma de leitura conceituada como varredura. Nessa concepção, os usuários “varrem” as telas à procura de informações (ou pontos) que lhes digam como prosseguir. Um documento que pode ser facilmente “varrido” pelo usuário é chamado de scannability. Esse conceito foi cunhado por Jakob Nielsen e pressupõe que as pessoas não leem uma página web em detalhe, mas a “leem em diagonal”. Em função disso, é muito importante que o texto escrito seja scannable. Uma das formas de fazê-lo é através da marcação de palavras importantes com distinções tipográficas adequadas. Para Nielsen (1997, p. 1) “People rarely read Web pages word by word; instead, they scan the page, picking out individual words and sentences”. Esse tipo de leitura é diferente daquele realizado em textos impressos em livros, por exemplo.
Para justificar esse problema, esse autor dá algumas características de como são feitas as leituras (ou varreduras) de textos em ambientes web. Para Nielsen (2000) os usuários varrem os textos da tela, pois:
• Ler na tela do computador é cansativo para aos olhos e cerca de vinte e cinco por cento mais lento do que ler no papel.
• A web é um meio orientado ao usuário, no qual os usuários sentem que precisam movimentar-se e clicar nas coisas.
• Cada página tem de competir com centenas de milhões de outras páginas pela atenção dos usuários. Os usuários não sabem se essa página é a que eles precisam ou se alguma outra página seria melhor.
• A vida moderna é frenética e as pessoas simplesmente não têm tempo para dedicar-se muito à busca de informações.
Esses aspectos estão diretamente relacionados à interação existente entre o usuário e o substrato no qual ele realiza a leitura, seja ele um livro, um jornal ou um ambiente web.
Um modelo digital não é lido ou interpretado como um texto clássico, ele geralmente é explorado de forma interativa. Contrariamente à maioria das descrições funcionais sobre papel ou aos modelos reduzidos analógicos, o modelo informático é essencialmente plástico, dinâmico, dotado de uma certa autonomia de ação e reação. (LEVY, 1993, p. 121).
Outros estudos também comprovam que a leitura na tela do computador se dá de forma diferente daquela que acontece na mídia papel (OUTING e RUEL, 2004). Ao analisar o movimento dos olhos de usuários de
sites na web, constatou-se que há um padrão comum. Os olhos se fixam
inicialmente na parte superior esquerda da página. Na sequência movem-se da esquerda para a direita e após ler a parte superior da página, exploram a sua parte inferior. Esse estudo permitiu a criação de um modelo no qual se pode verificar em que locais dos sites os olhos fixam-se com mais atenção.
Figura 8: Zonas de importância dos sites para os olhos dos usuários21
A utilização de modernos recursos tecnológicos instaura novas formas de relações sociais e culturais, dando origem a um momento histórico no qual, através dos artefatos técnicos, é possível produzir, organizar, armazenar e distribuir informações em grande escala, além de produzir novos gêneros textuais.
O leitor conectado vem estabelecendo novos usos para a linguagem e isso traz gêneros textuais novos, novas formas de comunicação, novas maneiras de escrever. Se tanto, então também traz novas formas de ler e interagir. O trabalho da escola pode viabilizar a entrada de mais interlocutores na Rede, tanto na função de escritores quanto na de leitores, coautores e aprendizes
das maneiras dinâmicas de lidar com textos, calibrando cada vez melhor as atualizações de sentido e a leitura crítica, a triagem de informação e a seletividade, na era do zapear, ainda que ela nos pareça apenas mais uma boa oportunidade de fazer o que o leitor e o escritor sempre fizeram nos modos unplugged de ler e escrever. (RIBEIRO, 2006, p. 30).
Além disso, surgem novas formas de comunicação através das redes digitais. Elas afetam decisivamente a organização sociocultural, uma vez que surgem, no ápice de uma relação mediatizada pelos recursos de comunicação e informação, novas relações de negócios, de lazer, de entretenimento, de produção cultural e de saberes (SARTORI e ROESLER, 2004). Essa visão acompanha algumas tecnologias, em especial os computadores, desde o início da sua popularização, como também observa Thikomirov.
Como resultado do uso dos computadores, uma transformação da atividade humana ocorre, e uma nova forma de atividade emerge. Essas mudanças são uma expressão da revolução científico- tecnológica. A distribuição de informação bibliográfica e a computação em um banco, o planejamento de novas máquinas e a adoção de complexas decisões em um sistema de gerenciamento, diagnóstico médico e o controle do movimento de aeronaves, pesquisa científica, instrução, e a criação de arte estão todas construídas em novos meios. (THIKOMIROV, 1981, p. 9).
Essa forma de ler textos em sites da internet pode afetar o entendimento de problemas matemáticos neles disponibilizados. Como a leitura na mídia computador apresenta aspectos diferenciados em relação à mídia papel é interessante observar se ela traz implicações na interpretação dos problemas matemáticos propostos. Ao utilizarmos novas mídias, podemos alterar a forma de ler, interpretar e resolver problemas, em especial os relacionados à matemática. Moran22 também aborda essa forma de ler segmentada e de analisar textos na web.
Na França 85% dos alunos de ensino fundamental (8ª série) se contentam com os resultados trazidos pelo primeiro site de busca consultado e somente leem rapidamente os primeiros três resultados trazidos. Isso quer dizer que a maior parte dos alunos procura o que é mais fácil, o imediato e o lê de forma fragmentada,
superficial. E quanto mais possibilidades de informação, mais rapidamente tendemos a navegar, a ler pedaços de informação, a passear por muitas telas de forma superficial.
Acreditamos que a inserção dos recursos tecnológicos nas atividades humanas, em especial aquelas relacionadas à cognição e aprendizagem, cria novas formas de relação entre o homem e o conhecimento (LEVY, 1993). Essas novas relações merecem destaque e vamos abordá-las sob o ponto de vista de dois autores que se complementam: Marcelo Borba e Oleg Thikomirov.