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Deve-se considerar que, em uma pesquisa qualitativa, “os dados são predominantemente descritivos” (LUDKE e ANDRÉ, 1986, p. 12). Segundo Chizzotti (1991, p. 82), “a descrição minudente, cuidadosa e atilada é muito importante, uma vez que deve captar o universo das percepções, das emoções e das interpretações dos informantes em seu contexto”.

A pesquisa qualitativa é aquela que busca o entendimento em profundidade de um fenômeno específico. Ela trabalha com descrições, comparações e interpretações, em detrimento das estatísticas, regras e outras generalizações. A opção pela pesquisa qualitativa não exclui, entretanto, aspectos de cunho quantitativo. Entendemos que as duas abordagens podem ser conciliadas e nesse aspecto acompanhamos e somos acompanhados por outros autores.

O que se convencionou chamar de pesquisa qualitativa, prioriza procedimentos descritivos à medida que sua visão de conhecimento explicitamente admite a interferência subjetiva, o conhecimento como compreensão que é sempre contingente, negociada e não é verdade rígida. O que é considerado "verdadeiro", dentro dessa concepção, é sempre dinâmico e passível de ser mudado. Isso não quer dizer que se deva ignorar qualquer dado do tipo quantitativo ou mesmo qualquer pesquisa que seja feita baseada em outra noção de conhecimento... Assim, dados quantitativos podem ser utilizados dentro de uma pesquisa qualitativa. (BORBA, 2004, p. 2).

A abordagem qualitativa é usualmente utilizada para que possamos compreender fenômenos que se caracterizem por um alto grau de

complexidade interna. Ela realça conhecimentos, valores, crenças, representações, opiniões e atitudes dos sujeitos participantes da pesquisa. Em uma abordagem qualitativa, a preocupação está mais focada nos processos do que nos produtos. Sendo assim, os dados são coletados e analisados durante a execução das ações planejadas.

Os procedimentos utilizados em uma pesquisa moldam o tipo de pergunta que é feito, a interrogação de pesquisa e a visão de conhecimento também constituem e definem os procedimentos. Dessa forma, quando falo de pesquisa qualitativa, estou falando de uma forma de conhecer o mundo que se materializa fundamentalmente através dos procedimentos conhecidos como qualitativos, que entende que o conhecimento não é isento de valores, de intenção e da história de vida do pesquisador, e muito menos das condições sociopolíticas do momento. (BORBA, 2004, p. 2).

Uma pesquisa qualitativa se caracteriza, também, pelo contato direto do pesquisador com a realidade a ser investigada. Nesse sentido, procuramos trabalhar com um grupo de sujeitos que dominam as novas tecnologias e delas se utilizam cotidianamente, com finalidades educacionais ou não. Tendo por foco analisar problemas decorrentes da mudança de linguagem, é necessário que os sujeitos participantes dominem as linguagens envolvidas no trabalho. No presente estudo, o pesquisador desempenha papel ativo, seja na identificação dos problemas, na organização das ações, ou na avaliação da proposta aplicada. Além disso, em alguns momentos da análise dos dados levantados, o pesquisador precisa colocar-se no lugar do sujeito participante da pesquisa, para perceber o sentido das ações desse participante.

Observadas essas características, nossa atenção deve estar direcionada para a forma de registro dos dados observados. Essa tarefa exige do pesquisador capacidade de observação e registro das atitudes dos sujeitos, combinada com notas e anotações para que, após a observação, tenha condições de complementá-la e analisar os resultados. Vale observar que a qualidade dos dados depende da distinção que o pesquisador faz entre a descrição dos fatos observados e sua impressão sobre eles (LA FRANCE, 1987).

Em uma pesquisa com abordagem qualitativa predomina o tratamento descritivo dos dados. Mais do que apontar estatísticas e comportamentos, ela retrata situações e relações entre os sujeitos que compõem o universo da pesquisa. Dessa forma, este estudo apresenta situações vividas pelos sujeitos durante a aplicação dos problemas, buscando identificar suas concepções acerca do processo de leitura e interpretação de problemas matemáticos.

Após a coleta dos dados, é necessário organizar sua análise. Em uma pesquisa qualitativa, essa talvez seja a etapa mais difícil, em função da inexistência de categorias predeterminadas. Nessa fase, o pesquisador deve estabelecer uma teoria que compreenda as categorias geradas com base no processo de investigação.

Segundo Ludke e André (1986, p. 13): “O fato de não existirem hipóteses ou questões específicas formuladas a priori não implica a inexistência de um quadro teórico que oriente a coleta e a análise dos dados”. Outros autores também concordam com essas ideias:

Apesar de ser mais sistemático e formal após a coleta de dados, o trabalho de análise permeia todo o estudo, o que, em uma abordagem qualitativa, é extremamente importante, já que o objeto, as hipóteses, as categorias não permanecem engessadas, mas submetem-se às variações constantes em quaisquer elementos presentes no tecido social em foco. (OLIVEIRA, 2007, p. 34).

Portanto, ao optar pela abordagem qualitativa para a realização deste trabalho, levamos em consideração que o pesquisador não é apenas espectador dos fatos. Sua participação é ativa e efetiva, ainda que isso possa causar, em algumas análises, contaminação de determinados aspectos da pesquisa. É importante observar que uma pesquisa dessa natureza exige do pesquisador grande disposição para sua execução. Ainda que não seja necessário um plano rigoroso de ação, o pesquisador que optar por uma pesquisa de cunho qualitativo deve ser cuidadoso em extrair das ações percebidas nos sujeitos, elementos para sua análise.

Cabe ressaltar ainda que estudos que envolvam recursos tecnológicos e Educação Matemática precisam, no que trata da metodologia

de pesquisa a ser utilizada, de análises mais aprofundadas, pois em função de sua história recente ainda carecem de aprofundamento.

Do ponto de vista da articulação de nossa visão de conhecimento com a visão sobre informática, temos observado que a Internet tem se tornado importante ator, na medida em que coletivos compostos por seres humanos e Internet podem, em ambientes como salas de bate-papo, gerar múltiplos diálogos simultâneos. Dessa forma, detectamos novas formas em que atores informáticos participam da construção de conhecimento em ambientes educacionais. Por outro lado, o conhecimento tem sempre uma parte subjetiva, que é determinada a partir da visão daquele que pesquisa, dos temas que escolhe, dos valores que carrega e das preocupações que levanta na mesma, a partir da própria visão de conhecimento que possui. O conhecimento é, também, sempre social, na medida em que a subjetividade é constituída socialmente, ou seja, nossas preocupações e foco nunca são somente “internos”. De forma análoga, as câmeras, softwares, lápis-e-papel, salas-de-bate-papo ou videoconferências são também atores, do ponto de vista da constituição do conhecimento gerado. A visão de conhecimento que permeia e sustenta a pesquisa e a pergunta apresentada também impregna a forma como os procedimentos são vistos e como o uso da tecnologia é ponderado.

... Por outro lado, fica evidente que há uma nova oralidade e uma nova escrita, no “texto” que emerge na sala de bate-papo. Como lidar precisamente com esse aspecto e outros, como a própria virtualidade, ainda não estão resolvidos do ponto de vista metodológico, no sentido amplo. (BORBA, 2004, p. 11).

Estamos, com base no que foi exposto até aqui e nos autores citados, convictos de que a pesquisa qualitativa, mesmo com as carências indicadas, é, neste trabalho, a melhor opção a ser empregada.