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Segundo Santos (2002, p. 89), no que diz respeito à formação de professores no Brasil, a década de 60 foi estabelecida por uma demarcação entre os processos de ensino e os resultados da aprendizagem. Ou seja, nesse período, em termos de debate e pesquisa sobre o tema, o objetivo maior esteve centrado na busca por ferramentas e estratégias de ensino e, em consequência, a preparação dos professores para a sua utilização. No entanto, essas perspectivas originaram-se não de necessidades educacionais propriamente ditas, mas, e principalmente, a partir de necessidades econômicas, políticas, sociais e culturais na sociedade, dentro e fora do Brasil, que fazem com que a percepção e o debate acerca da educação tomem sempre rumos semelhantes em termos globais.

Em consonância às discussões até aqui delineadas, Fonseca (2009, p. 154) afirma:

[...] a ação educativa não é mero reflexo dos planos oficiais. Primeiro, porque a política educacional é condicionada por fatores externos ao governo central de um país, entre eles, a autodeterminação dos entes federados (estados e municípios); as demandas forjadas no campo da economia e do mercado de trabalho e as que provêm da mobilização de setores reivindicativos da sociedade. [...] os marcos ideológicos que orientam a política educacional de cada governo [...] determinam as prioridades do financiamento governamental, as quais, por sua vez, podem influenciar as decisões em diferentes esferas administrativas do sistema. Os planos, portanto, fixam valores e diretrizes que devem ser conhecidos e debatidos em todas as instâncias responsáveis pela ação educativa e, obrigatoriamente, com a participação direta dos profissionais da escola.

Nesse contexto, segundo a autora, em um processo de amadurecimento que vinha desde os anos 1930, a partir dos educadores conhecidos como pioneiros7 que se orientavam por aspectos democráticos de acesso ao ensino, a década de 1960 foi marcada pela promulgação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (1961).

A política educacional nesse período foi delineada a partir de uma expectativa de desenvolvimento incorporada ao chamado programa de metas. Nesse sentido, a escola tinha como objetivo a qualificação de pessoal técnico para a indústria; trata-se de uma

7 A IV Conferência Nacional de Educação, promovida pela ABE em 1931, resultou numa proposta

conhecida como Manifesto dos Pioneiros, cujo objetivo era fundamentar um futuro plano nacional de educação. A Constituição de 1934 incorporou o sentido democrático do Manifesto, estabelecendo o ensino primário integral, gratuito, de frequência obrigatória e extensiva aos adultos.

vinculação entre a economia e a educação, deflagrada pelo enfoque internacional na emergência de capital Humano, instituindo metas baseadas na “demanda do mercado de trabalho” (FONSECA, 2009, p. 157).

Os educadores, entre eles Anísio Teixeira e outros membros do então Conselho Federal de Educação, criticavam a inadequação das metas internacionais às condições socioeconômicas de cada país. Contrariando o enfoque economicista das conferências internacionais, Anísio Teixeira imprimiu um sentido filosófico-humanista ao plano de 1962. [...] Pela intervenção desses educadores, as metas quantitativas dos primeiros planos de educação foram adaptadas à realidade brasileira. Do lado doutrinário, as propostas do capital humano e do enfoque de mão-de-obra foram mencionadas como meio de lograr a integração entre educação e desenvolvimento econômico (FONSECA, 2009, p. 159).

Visando então a atender a esses anseios dos especialistas em educação e ao mesmo tempo incorporar as novas visões do poder público, a partir de 1965 sob a égide do governo militar, as Diretrizes iniciais desse plano de educação foram revistas de forma a adequá-la à realidade local que estabeleceu então metas para vencer os déficits educacionais brasileiros. As perspectivas educacionais passaram a ser dirigidas pelo Decreto governamental, nº 200, de 1967, que reformou inicialmente o serviço público brasileiro e foi seguido de uma série de outras ações ao longo das décadas de 1970 e 1980.

Paralelamente a esses anseios e ações nacionais, em razão das necessidades de crédito e cooperação técnica, o Banco Mundial se constituiu no período como um elemento externo de interferência na política educacional durante esse período até a década de 1990.

Para Ogliari (2011, p. 1593), o período pós década de 1960 se destaca por ser a sedimentação de “um modelo de produção capitalista de internacionalização do capital”. Segundo o autor, de 1960 a 1990 a lógica do poder público regulamentando a educação pode ser expressa sob duas faces: de um lado, a perspectiva social da educação como direito de todos, na qual o homem é visto como o fim da educação e, de outro, a concepção funcional que elevou a escola como constituição de força de trabalho. Neste caso, o homem é considerado como meio para se atingir determinados objetivos. Nesta fase, houve um anseio mais abrangente acerca do aprofundamento na diversidade das atividades econômicas, principalmente pelo advento da expansão tecnológica na qual a

internet dava os seus primeiros passos, o que deixou ainda mais claro o a dicotomia meio/fim.

Em 1983, o cenário político nacional estava atravessando um processo de “transição democrática”, posteriormente, em 1984, o movimento “Diretas-Já” envolveu a população num projeto de reconquista da democracia. Esse movimento é abortado e surge a Nova República, que entra em declínio em 1989, coincidindo com a queda do muro de Berlim e a reorganização da nova ordem mundial. Junto com um processo de globalização que afetará todas as relações internacionais acentuadas pela crise dos países do Leste Europeu (OGLIARI, 2011, p. 1597).

Em razão desse fervor de mudanças locais e globais, o período em questão foi responsável por estabelecer um legado educacional extremamente profícuo, pois a educação passou a fazer parte de círculos de debates constantes, ampliando-se, portanto, as discussões sobre educação para o âmbito da vida política do país, o que permitiu a abertura democrática da Constituição Nacional e a formulação das Diretrizes da Educação Brasileira que se perpetuam até os dias de hoje.