• No results found

Årsaker til nedbrytning i henhold til NS-EN 1504-9

Kapitel 4 Skader og nedbrytingsmekanismer

4.2 Årsaker til nedbrytning i henhold til NS-EN 1504-9

Para podermos ampliar as nossas discussões sobre a perspectiva histórico-social acerca da linguagem proposta por Bakhtin, bem como as expectativas interlocutivas constituintes do discurso, faz-se necessário discutir um outro aspecto relevante, a saber: a enunciação. Na perspectiva bakhtiniana, a situação sócio-histórica é vital na constituição dos enunciados. Em outras palavras, a enunciação é concebida em uma época e num grupo determinados: “A situação social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1982, p. 113). Dessa forma, segundo a proposta do autor, “a enunciação é o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados e, mesmo que não haja um interlocutor real, este pode ser substituído pelo representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor” (Id., ibid., p. 112).

Diante disso, pode-se dizer que a teoria da enunciação a partir de Bakhtin caracteriza-se por considerar o sujeito central no processo em que se constitui a linguagem, sendo que o enunciado pode ser considerado como o “ já realizado” e a enunciação como “o ato de produzir o enunciado”. Dessa forma, o objeto de interesse é, portanto, o processo, ou seja, as marcas do sujeito naquilo que ele diz. A língua é considerada a partir do seu uso e a enunciação, portanto, é um fenômeno social que se estabelece na relação entre o sujeito e a sociedade.

Nessa mesma perspectiva, Orlandi (1996, p. 60) afirma que a teoria bakhtiniana vem mostrar que a enunciação não se constitui como um fenômeno meramente individual, mas social. Conforme assinala Orlandi (1996, p. 60), o autor estabelece sua proposta teórica levando em consideração a relação social que se constitui dialogicamente entre o falante e o ouvinte. Ainda segundo a autora, a língua é produzida em um terreno de disputas e conflitos estabelecidos na relação entre o sujeito e a sociedade, assim ela só existe de fato onde for estabelecida a comunicação como interação social, e é exatamente esse o espaço da enunciação. Sendo assim, pode-se afirmar que o pilar da língua é a enunciação, ou seja, um instrumento que possibilita a concretização de todos os discursos e de todas as manifestações ideológicas. Nesse

sentido, a fala (enunciação) está intrinsecamente ligada às estruturas sociais, e é através dela que se fundamentam as perspectivas bakhtinianas acerca da linguagem.

Segundo Bakhtin/Volochinov (1982), a enunciação não existe fora de um contexto sócio-ideológico e seu locutor se estabelece a partir de um horizonte social bem definido, e os seus ouvintes, por sua vez, também são bem definidos.

Na perspectiva do autor, a enunciação é compreendida sempre como uma réplica do diálogo que, por sua vez, é sempre produzido socialmente. Sendo de natureza social, a língua é sempre um produto ideológico e não existe fora do âmbito social, pois, como já afirmamos, “há sempre um interlocutor, ao menos potencial. O locutor pensa e se exprime para um auditório social bem definido” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1982, p. 16). Ainda segundo o autor, o ato enunciativo é constituído sempre a partir de um processo de pressuposição do destinatário. Assim, os discursos têm sempre uma natureza dialógica e polifônica que se estabelece a partir da apropriação de outros enunciados sócio-historicamente disponibilizados. Conforme Bakhtin (2003, p. 261), todas as atividades humanas estão condicionadas à utilização da língua e a sua compreensão só é possível a partir da interação verbal entre os envolvidos:

A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes de uma ou de outra esfera daatividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não apenas por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua, recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais, mas também e, sobretudo, por sua construção composicional.

Dessa forma, segundo as definições bakhtinianas, as fronteiras do enunciado estabelecido como uma unidade de comunicação verbal são determinadas pela alternância dos sujeitos falantes: o locutor finaliza o seu enunciado para estabelecer um espaço para a resposta do outro ou mesmo para o outro poder dar a sua resposta ativa na simples forma de compreensão, assim “o enunciado não é uma unidade convencional, é uma unidade real, precisamente delimitada pela alternância dos sujeitos do discurso, a qual termina com a transmissão da palavra ao outro [...]” (BAKHTIN, 2003, p. 275). Esta alternância dos sujeitos falantes constitui o contexto do enunciado e é no diálogo real que ela é observada de modo mais direto e evidente. O acabamento do enunciado, por parte do locutor, pode ser determinado a partir de critérios particulares. O primeiro e

mais importante dos critérios de acabamento do enunciado é a possibilidade de responder, mais exatamente de adotar uma atitude responsiva para com ele.

Assim, a perspectiva bakhtiniana indica aspectos da enunciação que ultrapassam os limites da análise linguística a partir da estrutura da sua forma. Nessa expectativa,

a enunciação é o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados e, mesmo que não haja um interlocutor real, este pode ser substituído pelo representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor. A palavra dirige-se ao interlocutor: ela é a função da pessoa desse interlocutor: variará se se tratar de uma pessoa do mesmo grupo social ou não, se esta for inferior ou superior na hierarquia social, se estiver ligada ao locutor por laços sociais mais ou menos estreitos (pai, mãe, marido, etc.) (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1982, p. 116).

Desse modo, pode-se afirmar que a enunciação não existe fora da realidade vivida e o homem é um ser axiológico. Além disso, toda produção de discurso é sempre orientada para o outro, por isso não existe interlocutor abstrato e cada horizonte social e cada época determinam a nossa constituição socioideológica. Essa orientação da palavra se dá sempre em função do interlocutor.

Em concordância com as expectativas bakhtinianas acerca da enunciação, Pires (2003, p. 39-40) afirma:

Tudo o que me diz respeito vem-me do mundo exterior por meio da palavra do outro. Todo enunciado é apenas um elo de uma cadeia infinita deenunciados, um ponto de encontro de opiniões e visões de mundo. Nessa rede dialógica que é o discurso, instituem-se sentidos que não são originários do momento da enunciação, mas que fazem parte de um continuum. Oindivíduo não é a origem de seu dizer. [...] O fenômeno social da interação é, portanto, a realidade fundamental da linguagem, realizando-se como uma troca de enunciados, na dimensão de um diálogo e através da enunciação.

Assim, conforme a autora, a teoria bakhtiniana, foi e continua sendo essencial para os estudos que envolvem a enunciação, “pois expressa de forma clara, engajada e coerente a relação sujeito-linguagem-história-sociedade, vendo na enunciação o verdadeiro fundamento dessa relação” (PIRES, 2003, p. 47).

Convém ainda ressaltar que “[...] o enunciado é um elo na cadeia da comunicação discursiva e não pode ser separado dos elos precedentes que o

determinaram tanto de fora quanto de dentro, gerando nele atitudes responsivas diretas e ressonâncias dialógicas” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1982, p. 300).

Cada enunciado deve ser visto antes de tudo como uma ‘resposta’ aos enunciados precedentes de um determinado campo: ela os rejeita, confirma completa, baseia-se neles, subtende-os como conhecidos, de certo modo os leva em conta. Porque o enunciado ocupa uma posição definida em uma dada esfera de comunicação, em uma dada questão, em um dado assunto, etc. É impossível alguém definir sua posição sem correlacioná-las com outras posições. Por isso, cada enunciado é pleno de variadas atitudes responsivas a outros enunciados, de doutra esfera da comunicação discursiva (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1982, p. 297).

Há que se destacar, portanto, que o sujeito na concepção enunciativa de Bakhtin/Volochinov (1982) é concebido a partir da perspectiva da responsividade, pois a enunciação é um evento impossível de se constituir senão participativamente. Assim, apesar do discurso ser um entrelaçamento da interação entre várias vozes, ele será sempre novo, porque, na forma com que se constitui em um dado momento do tempo, nunca se estabeleceu anteriormente. Nesse sentido, o enunciado é a unidade passível de análise das relações dialógicas e discursivas.

Outra característica essencial da enunciação é a sua inesgotabilidade, pois as fronteiras da comunicação verbal estão associadas aos enunciados anteriores e aos anseios da responsividade dos interlocutores. Nesse sentido, esse fenômeno tanto determina quanto é determinado pela escolha do gênero em que se estruturará o enunciado. Destaque-se que essa escolha se dá em virtude das especificidades da esfera humana em que se constituem os enunciados, bem como das necessidades comunicativas entre os falantes.

Assim, vale adentrarmos, ainda que rapidamente, em outro terreno profícuo da teoria bakhtiniana: os gêneros do discurso. Segundo o autor, da mesma forma que as atividades humanas são inesgotáveis, a diversidade e a infinidade do delineamento do discurso em face delas também se fazem relevantes.