Entender a árvore como símbolo matricial é identificar o seu arquétipo
feminino bem como a sua universalidade, o que lhe garante maior abrangência. Segundo Durand (2001) os arquétipos determinam gêneros estruturais e coerentes que manifestam uma realidade de que podemos descobrir o sentido completo.
Em quase todas as culturas do mundo, conforme Pontes (1998), a árvore é um símbolo feminino por excelência, e representam os instintos da maternidade, da gestação, da fecundidade, pois cria a vida, alimenta e protege. Portanto, é um símbolo que conta com as emoções mais profundas do ser humano. A associação da natureza com a mulher é imediata, a copa da árvore, por exemplo, lembra a cabeleira da mulher, e de dentro da árvore sai à seiva que tira o alimento da terra, faz a ligação com o céu; mediando os dois reinos, da terra e o celeste, além de servir de abrigo. De forma geral encontramos nas religiões mais tradicionais ritos, mitos e cultos consagrados à árvore, pois são tidas como sagradas.
“E disse Deus ainda: Eis que vos tenho dado Todas às ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento” (GÊNESIS 1.29) Assim a árvore representa a mulher que tem o poder para alimentar a humanidade. Ela cuida
do ser humano e supre as suas necessidades básicas. A mãe, antes de comer pensa nos filhos, ela muitas vezes se esquece de si mesma, mas, jamais se esquece dos que dela dependem. A árvore é a imagem da mulher, antropomorficamente falando.
As imagens que corresponde ao schème do aconchego na intimidade; sendo relacionado ao arquétipo da mãe como base para tudo, como a que cuida do lar, da nação, a que tem o domínio desde a psique à cultura. Essa imagem é sinônima de pátria, de santa, de lei, de mãe, de avó; a ela se deve respeito e obediência acima de tudo, pois ela é a razão do existir. Assim, o mito da grande mãe atravessa pelo imaginário dos umbrais simbólicos e se torna vida na existência do mundo judaico- cristão.
As árvores protetoras, nos diz Girard (1997), desempenharam papéis na vida dos primeiros homens, nos seus mitos e universo onírico e davam respostas a quase todas as suas necessidades. Sendo consideradas manifestações da presença de deuses na terra, além de cada árvore com sua essência particular que levava o homem a intuir que a natureza e o divino se interpenetravam.
Ao relacionarmos a árvore ao arquétipo feminino, temos, segundo Ottermann (2005), imagens de deusas que viviam e vivem no Oriente Médio e Mediterrâneo, região vasta na qual foi formada a religião cristã; possui também ramificações no judaísmo e em outras religiões do Antigo Oriente. Um exemplo disso é a tamareira e sua ligação a uma deusa que teve suas primeiras representações na Suméria e no Egito, são do terceiro ou segundo milênio a.C. Nas pinturas egípcias o tronco da palmeira se confunde com o da deusa. O tipo de deusa não é individualizado, pois nelas estão alguns nomes diferentes como Hator e Nut principalmente em sepulturas, que as mostram buscando renovação e ressurreição.
Ainda conforme Ottermann (2005), a maior elaboração desse imaginário foi na Suméria a primeira cultura alta da Mesopotâmia desenvolvida em cidades que ficavam em torno dos rios Eufrates e Tigres, atual Iraque. O que se observa são um vínculo das condições de vida e os segmentos sociais que permeavam o imaginário religioso. No Egito, o tronco da palmeira confunde-se com uma deusa cujos braços serviam comida e bebida para os que a adoravam. Sua imagem possui diferentes
nomes. Era a tamareira que tornava presente um tipo ou representações dessa deusa.
É possível que na imagem surja um modelo de autoconstrução da psique. Pois, a humanidade, as sociedades e os grupos constroem sua psique através das imagens. O homem, na sua eterna procura por respostas aos seus dilemas existenciais contra as faces do tempo e da morte, faz uso dos símbolos vivenciados pelos seus antepassados, como também os cria e os recria.
Ottermann diz (2005) que na região onde foram formadas Canaã e Israel, na Bíblia hebraica, na idade do bronze, ao longo do segundo milênio o divino era representado pela deusa-árvore que também tinha sua representação em objetos domésticos do cotidiano, e estavam localizadas em palácios e templos.
No Oriente Médio articula Ottermann (2005), a deusa-árvore possuía orelhas grandes que expressavam sua disposição de ouvir os seres humanos. Quando ela estava em objetos, localizava-se centralizada entre ramos o que desvelava seu elo com a vegetação sinônimo de fertilidade e crescimento; essa ligação era tão forte que a “Deusa nua” de Canaã e do Israel primitivo personificava o poder da terra em frutificar, sendo chamada de “Deusa-árvore” com os seus poderes femininos de doar e alimentar a humanidade. Além disso, as frutas e folhas que saíam do seu corpo tinham o poder da longevidade.
Profere Ottermann (2005) que Aserá era na maior parte do tempo venerada como uma árvore, cujo culto ocorria diante de uma árvore natural, ao ar livre, no topo de uma colina, ou sob a forma de um poste, ao lado de um altar ou de outra divindade. Todavia provêm do Egito e da Suméria as primeiras imagens de uma deusa ligada à tamareira.
Nas religiões do Oriente Médio e do Mediterrâneo, a tamareira tem sido, desde primórdios, uma das principais representações da presença divina, e nela, o corpo da deusa que faz nascer a vida e a alimenta confundiu-se, ao longo dos séculos, com o imaginário da árvore da vida (OTTERMANN, 2005, p.42).
A árvore mãe, mulher, amada, deusa são imagens correlatas em que o ser humano busca compreender seu mundo. Essa figura está ainda hoje forte na imagem de Maria que, em certos contextos do mundo judaico-cristão, é uma mulher
escolhida para ser a mãe do salvador, e, em outro contexto, é conhecida como a mãe de Deus. No imaginário, ela é a figura da deusa.