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A cultura resulta da atividade humana, para produção e reprodução da própria existência do ser social. O mundo da cultura é inseparável da vivência humana: existe unicamente pelo ser humano e para ele. Do ponto de vista do MST (2005d, p. 172):

Entendemos por cultura tudo aquilo que as pessoas, os grupos e as sociedades produzem para representar ou expressar o seu jeito de viver, de entender e de sonhar o mundo. É a cultura que permite a comunicação humana e, portanto, permite a própria educação. São expressões culturais: a linguagem, os costumes, a tradição, a arte, os rituais, a religiosidade, os comportamentos, as normas, os saberes, o jeito de se relacionar com as outras pessoas no cotidiano, os valores éticos...

Nessa perspectiva, a quase totalidade das pessoas entrevistadas afirma que em sua ação política no MST assimilam um conjunto de convenções simbólicas, representações ou costumes da cultura das classes populares, como declarado por militantes de três diferentes regiões do País:

E esse processo de formação também é bom porque contribui no sentido de conhecer a diversidade cultural brasileira. Porque a gente acaba convivendo com pessoas de muitos lugares. E cada povoado tem uma cultura, o povo tem uma forma diferente de ser, de sobreviver. E essa forma diferente de ser é uma cultura própria deles, e a gente quando vai para esse povoado, para o assentamento ou acampamento, todos diferentes um do outro, é bom porque a gente vai aprendendo sobre novas culturas, novas formas de arte popular, as crenças das pessoas, jeitos de convivências... E vai ampliando, no sentido do conhecimento da diversidade cultural. (RENILSON, 22, Piauí, Assentado, Setor de Formação).

No Movimento Sem Terra, você aprende a lidar com as pessoas. Então você passa a conhecer um pouco mais a sua realidade, a sua cultura mesmo, que você não conhece... Você aprende a questão teórica e a questão prática. (ELENEUDA, 30, Tocantins, Setor de Educação).

A gente continua sempre aprendendo nessa vivência: a respeitar outras culturas, porque o mundo que eu vivi, eu achava que aquele era o mundo de todos. Então eu aprendi a conhecer que não era só aquilo, que tem outras formas de viver e outros jeitos de ser e que a gente tem que respeitar, que a gente aprende também, muita coisa. (ROSMERI, 32, São Paulo, Assentada, Escola Nacional Florestan Fernandes - ENFF).

A produção, reprodução e transformação de objetos artificialmente criados, de idéias e de modos de vida de uma população, contudo, são dependentes da atividade de

sujeitos concretos, condicionados pela estrutura de uma sociedade estratificada em classes sociais, em condições históricas determinadas.

É nessa perspectiva que os(as) Sem Terra analisam o papel da cultura em nossa sociedade: como um instrumento para dominação das classes subalternas, porque os produtos culturais lhes são negados ou comunicados segundo a ideologia da classe dominante, submetendo as pessoas a processos de massificação e alienação das suas consciências. Os bens culturais – obras literárias, sistemas filosóficos, conhecimentos científicos, obras de arte, crenças, valores, idéias – são convertidos em mercadoria: de valor de uso para os consumidores em valor de troca para seus produtores.

Por tudo isso, no MST a cultura popular assume o significado de uma cultura das classes populares, associada à resistência contra a dominação burguesa. A cultura das classes populares é, portanto, percebida e valorizada enquanto elemento simbólico anticolonialista e antiimperialista, forjadora de uma identidade nacional e de identidades regionais, promotora de processos de consciência referentes à realidade social e à assunção, por homens e mulheres, do papel de sujeitos criadores de cultura, agentes da história.

Assim sendo, os(as) Sem Terra vivenciam continuamente manifestações artísticas desse modo singular de cultura, objetivando a formação política das massas, no sentido de uma educação revolucionária dos integrantes do Movimento, a qual deve estender- se a outras organizações populares e a todo o corpo social.

Os sujeitos entrevistados esclarecem, no entanto, que no contexto dos assentamentos e acampamentos dos quais fazem parte, são ainda disseminados e apreendidos códigos, referências e componentes do imaginário da cultura de massas. As pessoas, além de terem sido excluídas do usufruto de bens culturais, foram seduzidas por uma “indústria cultural”, instrumento que conduz à submissão da consciência e cria a lógica da mercadoria: a arte é transformada em cultura massificada, realizadora de controle e de dominação e promotora do ajustamento dos indivíduos à sociedade, remetendo para o futuro os desejos de felicidade, realização, justiça.

O MST, então, tenta minimizar a influência desses mecanismos culturalmente homogeneizados, concretizando práticas culturais de mobilização, organização política, contestação, articulação com o real, buscando desenvolver o senso crítico do cidadão ou da cidadã ao desmascarar a irracionalidade e a injustiça do sistema capitalista. Luta por uma produção cultural que afirme interesses contrapostos aos interesses dominantes, pelo desenvolvimento de uma cultura e de uma visão de mundo proletárias, em oposição ao modo reificado de pensar da burguesia. Sobre essa questão, nos diz José Marcos:

Aprendi também um pouco do cultivo da cultura. Porque hoje a gente está lutando por uma cultura mais aperfeiçoada, na questão do indivíduo. Rejeitar o lixo cultural, que a gente sempre bate na mesma tecla: a cultura que nós temos que seguir, que a gente quer, é a cultura popular, das classes populares, e não uma cultura de massa. (JOSÉ MARCOS, 23, Sergipe, Assentado, Setor de Formação).

Mas é contraditória a concretização de práticas culturais no interior do Movimento Sem Terra. Concomitantemente à valorização e ao incentivo à produção de manifestações da cultura e da práxis artística das classes populares, sucede, principalmente nos assentamentos, a disseminação de formas burguesas de cultura e arte e o comércio de bens produzidos pela chamada indústria cultural, a exemplo da música ouvida e/ou comprada pela maioria dos jovens. Esse tipo de ocorrência foi objeto de discussão nos encontros da coordenação nacional, nas reuniões de secretarias estaduais, cursos de formação política do MST, eventos dos quais tomei parte.

3.4 DESENVOLVIMENTO DE CONDIÇÕES DE APLICAÇÃO DOS CONHECIMENTOS