5. DISKUSJON OG REFLEKSJON
5.2 Forskningsspørsmål 1
movimentos de sem-terra, Duailibi e Cabral (2006, p. 51) asseguram que boa parte da massa que compõe essas organizações “é formada por brasileiros pobres e humildes, que querem
apenas um meio para melhorar de vida. Gente simples que, em condições de normalidade, jamais patrocinaria cenas de vandalismo explicito”.
Mas quais seriam, na perspectiva dos sujeitos, as motivações que os impulsionaram a aproximarem-se e, posteriormente, aderirem ao MST? Em seus depoimentos, as pessoas, em sua quase totalidade, relacionam sua aproximação e inserção no MST ao desejo (vontade e necessidade) de obtenção de terra para trabalho e, conseqüentemente, condições dignas de vida. Essa organização popular se apresenta como uma opção viável e imediata, diante do desespero, da falta de perspectivas e do anseio que têm as pessoas de permanecer no campo48. Por essa razão, o jurista e diplomata Rubens Ricupero entende que: “[...] ninguém, por grande agitador que seja, é capaz de levar dezenas de milhares de pessoas à ação organizada, a fazer homens e mulheres afrontar a brutalidade de jagunços e policiais até o sacrifício da vida, se não houver por trás muito desespero e sofrimento.” (RICUPERO, 1998, p. 157).
Mesmo quando determinadas conjunturas condicionam o deslocamento dos(as) trabalhadores e trabalhadoras rurais para a cidade, estes mantêm, afetivamente, uma íntima ligação com a terra.
Um dos narradores participou das articulações para criação do MST, por pertencer ao Movimento dos Agricultores Sem Terra do Oeste do Paraná (MASTRO), instituído para resolução do problema que se abateu sobre os camponeses e as camponesas atingidos pela barragem de Itaipu.
Foi aí que surgiu a idéia de fundar esse movimento aqui no Oeste do Paraná, chamado MASTRO. A letra O no final representa a região Oeste. Depois foi criando nomes semelhantes em outras regiões: o Norte acabava com N, o Sudoeste com S. Mas o primeiro movimento organizado foi nessa região, com o pessoal do Lago de Itaipu. E como tinha essa conscientização, através da Pastoral, da necessidade da organização desse povo marginalizado, que tinha que deixar a terra e não tinha o que fazer na cidade, não foi tão difícil organizar o Movimento. Começaram as grandes reuniões e assembléias, com duas, três mil pessoas, mesmo dentro do regime militar, no começo da década de 1980. Mas é claro que esses encontros eram sempre muito sigilosos, muito via Igreja, porque era uma instituição que tinha um respeito grande do próprio regime militar. Alguns padres, pastores, sempre na linha de frente para tentar ser o nosso pára- choque. Quero destacar o padre Adriano, da Igreja Católica, e o pastor Fucks, da Luterana aqui da nossa região, que estavam sempre na linha de frente. É claro que nem todas as paróquias assumiam, porque até hoje é
48 Para Martins (1997, p. 59-60), o Movimento Sem Terra “é o mais conseqüente movimento de modernização e
ressocialização das populações do campo que já houve na história do Brasil. [...] você pode tirar o sujeito da mais absoluta falta de destino, da mais absoluta miséria e transformá-lo num sujeito que vive num estado de bem-estar social.”
assim: onde os pastores não eram da Teologia da Libertação, não faziam. No nosso caso, a paróquia de Medianeira foi uma das grandes paróquias aqui da região. Nós ganhamos o primeiro sindicato, onde aconteciam as grandes reuniões da região Oeste. Grandes movimentações, grandes assembléias. Surgiu a idéia de fundar o MASTRO, em 1982. E começaram as ocupações de terras. Em 1983 fizemos a primeira ocupação na Fazenda Cavernoso, em Cantagalo, centro do Paraná. E o Movimento começou a tomar corpo. (AFONSO, 51, Paraná, Assentado, Frente de Massa).
– “Então, a minha idéia era de conquistar a terra para trabalhar”: a construção de uma identidade coletiva
As circunstâncias através das quais os sujeitos tomaram conhecimento da existência do MST, entraram em contato e se incorporaram ao Movimento variam de uma pessoa para outra. Registra-se uma multiplicidade de episódios, não raro incidentais, que proporcionaram a mudança de identidade de agricultores(as) sem terra, ou trabalhadores(as) sem-terra, porque membros de organizações coletivas de luta por terra, para trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra, situação pela qual passou Lewy:
Eu não conhecia MST. Na verdade, quando entrei no Movimento, 31 de julho de 1990, não entrei por convicção de luta ou pela reforma agrária... Nem sabia o que era reforma agrária. Não compreendia nada disso. Na verdade, entrei no Movimento Sem Terra porque, mesmo sendo novo, eu vivia desesperado com aquela vida que levava trabalhando na roça... Não conseguia ver perspectiva nenhuma naquilo que eu levava na vida... Não queria ir para a cidade, achava que não tinha assim jeito, condição de ir para a cidade, então, a minha idéia era de conquistar a terra para trabalhar, permanecer na terra, enfim, ter um lote de terra. Então, mesmo a família sendo contra, em julho decidi procurar o Movimento, porque não tinha ninguém do MST na região fazendo trabalho de base. Mas eu sabia que ia ter uma ocupação de terra e uns oito meses antes da ocupação comecei, meio escondido, a ir para as reuniões. Às vezes caminhava até 15 km a pé, porque eu queria participar. E assim, para começar a compreender, ver um pouquinho o que era o MST. Vieram me avisar que a ocupação ia acontecer. E a gente ocupou uma fazenda completamente improdutiva na zona das missões, Palmeira das Missões. Foi minha primeira experiência com o Movimento. Doze dias depois fomos despejados. Levei umas pancadas, acabei apanhando no dia do despejo. Essa foi a forma como me tornei Sem Terra. (MILTON LEWY, 34, Paraíba, Direção Estadual e Frente de Massa).
– “Fiquei impressionado com aquela cidade de lona preta”: influências dos laços de amizade Os amigos e as amigas são referências fundamentais na aproximação das pessoas com o MST, por convidarem-nas – face a face ou através de outros meios, como
ligações telefônicas – para visitas aos acampamentos e assentamentos ou por oferecer-lhes terra, situação vivida por José Eterno:
Eu nasci no município de Inhumas, no Estado de Goiás. Vivia no interior, na zona rural, e depois fui para a cidade de Aparecida, neste mesmo Estado. Em seguida fui para Goiânia. Trabalhava fazendo bicos na cidade, mas estava desanimado, deslocado, vivendo na cidade. Um dia, um amigo ligou para mim, ofereceu terra através do Movimento Sem Terra e eu fui para o acampamento. Lá, fiquei impressionado com aquela cidade de lona preta. Cinco dias depois, acampei. No dia 26 de novembro de 1997, na comemoração dos cem anos da Guerra de Canudos, que aconteceu na Bahia, fizemos a primeira ocupação de terra. Hoje sou assentado no Assentamento Canudos, em Campestre, Goiás. (JOSÉ ETERNO, 55, Goiás, Assentado, Coordenador de Grupos).
Há, ainda, famílias assentadas que disponibilizam dependências de suas casas como moradias provisórias para pessoas amigas, as quais, por algum motivo, estão sem abrigo. Três entrevistados ingressaram no MST por manterem laços de amizade com integrantes do Movimento e duas foram acolhidas nas habitações de assentados(as).
– “E alguns membros do MST de Pernambuco foram fazendo um trabalho de base na feira”: táticas de convencimento, mobilização, organização popular
O trabalho de base da militância do Movimento Sem Terra, realizado através de conversas com homens e mulheres nas suas residências, feiras livres, escolas, fábricas, universidades, favelas, é um forma comumente utilizada para convencer as pessoas a participarem da ação política do MST. Um quinto dos sujeitos dessa pesquisa, sete pessoas, dispuseram-se a participar de ocupações de terras a partir dos juízos formados por meio do contato com militantes e dirigentes do Movimento, a exemplo de Valdemar e José Marcos:
Aos quinze anos fui prestar serviço na Universidade Federal da Bahia, como ajudante geral, junto com meu cunhado, que trabalhava lá também. E, posteriormente, conheci o MST, em 1992. Eu conheci na Universidade alguns companheiros: Valmir, Joelson e outros. Iam fazer debates na Universidade. E eu, curiosamente, fui participar daqueles debates e fui entendendo também a luta que a gente travava dentro de Salvador, com os estudantes, junto do MNU [Movimento Negro Unificado] e mais outros movimentos que existiam naquele município. A partir daí, comecei a ter uma relação mais próxima com o MST. Em 1996, comecei a participar ativamente da vida orgânica do Movimento. Até 1995 eu fazia parte de um acampamento, acompanhava internamente o acampamento no Recôncavo.
Posterior a isso, vim a me engajar de fato definitivo na luta, como militante ativo da Organização. (VALDEMAR, 31, Bahia, Assentado, Setor de Formação).
O que me fez a participar diretamente do Movimento... No ano 2000, estávamos em casa e no povoado do nosso município tinha uma feira no domingo, a feira na Vila Cruzeiro, município de Quipapá. E alguns membros do MST de Pernambuco foram fazendo um trabalho de base na feira, escolhendo as pessoas, perguntando se aceitariam fazer uma grande ocupação. E aí minha mãe se inscreveu, meus tios, e a gente fez uma grande ocupação na fazenda São Joaquim, em Jurema, que é outro município de Pernambuco. E diante desse processo todo, eu ainda não tinha bem uma visão do que era o Movimento, fui convidado a participar de um curso de formação. Como eu me destacava no acampamento, fui convidado para esse curso no Centro de Formação Paulo Freire, em Caruaru. E comecei a gostar. Nos primeiros momentos do curso, senti muita dificuldade, pessoas estranhas, o entrosamento com a turma, algumas contradições, mas superando. A gente caiu num limite certo, uma equipe, uma coordenação pedagógica muito responsável. E aí foi onde eu vim a ingressar, a começar a descobrir o MST e participar de mais ocupações, de mobilizações, de marchas, neste período do curso. E deu-se uma seqüência, a gente encerrou, saiu com um encaminhamento de trabalho de base na região agreste do Estado. (JOSÉ MARCOS, 23, Pernambuco, Acampado, Setor de Formação).
– “E foi nesse conhecer que fiz o cadastro e permaneci até hoje na luta”: a influência de pais e parentes na decisão de ingressar no MST
Sete jovens dispuseram-se a tomar parte nas ações do Movimento porque seus pais resolveram acampar, para conquistar um pedaço de terra, decisão tomada devido à revolta pela exploração da sua força de trabalho e inexistência de recursos materiais necessários à sobrevivência, ou então conseguiram ser assentados. E as mães se mostram mais determinadas à incorporação na luta dos(as) Sem Terra, para darem melhores condições de vida aos filhos, muitas vezes por se constituírem em provedoras das necessidades da família ou por terem se separado dos maridos e buscarem autonomia financeira. Tais jovens, que muitas vezes viviam nas cidades trabalhando ou estudando, geralmente retornaram ao convívio com seus genitores quando estes obtiveram a posse da terra. Um deles nasceu enquanto a família ainda era acampada e dois foram pequenos para as áreas em que seus pais ficaram assentados. Dizem Messilene e Roselandia:
Sou filha de camponês e a gente morava numa comunidade de pequenos agricultores. Em 1998, meus pais foram convidados para ir para o acampamento. Eles foram em 1999 com toda a família, mas eu fiquei na
cidade estudando. Eu estava fazendo o Ensino Médio na época, que lá no campo não proporcionava. Fui para a cidade, meus pais foram para o acampamento. Eu sempre visitava o acampamento e achava interessante, uma coisa diferente para mim que morava lá na comunidade e não conhecia essa outra realidade. Sempre ia visitar minha família no assentamento e o Setor de Educação me convidou para trabalhar com educação de jovens e adultos, pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA). Eu aceitei o convite. Em 2000, fui contribuir com as escolas, com a educação do Movimento na região, o sertão do São Francisco, em Pernambuco. E aí fiquei, vim para o Movimento, entrei na militância. (MESSILENE, 24, Pernambuco, Assentada, Setor de Formação e Direção Estadual/Nacional do MST)
Então quando eu cheguei de São Paulo, em 1995, meu pai já estava acampado, no acampamento Lagoa e Caldeirão, do município de Vitória da Conquista. E assim que eu cheguei, no dia 27 de dezembro, no dia 1º de janeiro eu já estava lá. 1º de janeiro de 1996. A partir desta data eu não consegui mais viver fora do Movimento. Nós chegamos por lá, ficamos acampados durante um ano, recebemos a imissão49 de posse, continuamos
ainda em acampamento, barraco de lona, mas fazendo as nossas terras, cultivando: agricultura de subsistência, para garantir o nosso sustento no processo mesmo, ainda sem ter a divisão dos lotes. Por volta de 97, a gente conseguiu o primeiro investimento para a lavoura de café e criação de gado e, também, lavoura de mandioca. Era um custeio e a gente, nesse ano, construiu as casas. Nesse assentamento foram assentadas cento e vinte famílias. Em janeiro de 98 a gente passou já a morar nas casas, que é uma única agrovila, com essas cento e vinte casas. (ROSELANDIA, 25, Bahia, Assentada, Setor de Educação).
Parentes assentados, ou na condição de militantes e dirigentes, também constituíram incentivo à entrada de três pessoas no MST: irmãos que acampam e, depois que são assentados, levam o restante da família para viver no campo e trabalhar na terra conquistada; sujeitos com diferentes graus de parentesco e que fazem parte da militância, coordenação ou direção de instâncias do Movimento Sem Terra nos Estados influenciam a participação de familiares, através de informações prestadas ou narração de acontecimentos. Conta-nos José Porfírio:
Meu conhecimento do Movimento deu-se porque eu já tinha dois cunhados que são assentados lá no Estado, em duas fazendas: na Brasileira e na Varédia. Foi por intermédio deles, da própria família da minha esposa, que já são assentados. Foi quando eu saí da empresa e resolvi conhecer... Era contra o Movimento. Para ser sincero, não dava valor nem apoio a nenhum movimento social. E quando conheci o MST, meu sogro falou: - ali tem
49 “Imissão de posse é o documento com que o Poder Executivo (no caso, o INCRA) recebe do Poder Judiciário
a posse do imóvel desapropriado, podendo assim destinar este ao assentamento de famílias no processo de reforma agrária.” (MORISSAWA, 2001, p. 249).
uma vaga, praticamente já está saindo a desapropriação. E eu disse: - Vou conhecer. E foi nesse conhecer que fiz o cadastro e permaneci até hoje na luta. (JOSÉ PORFÍRIO, 46, Alagoas, Assentado, Setor de Direitos Humanos).
Visitar alguém da família ou passar férias em assentamentos rurais ocasionalmente resulta em permanência definitiva no local, algumas pessoas obtendo lotes vagos ou remanescentes do processo de desapropriação da fazenda.
– “Aquele ali é o povo do MST: as pessoas que dão terra para o pessoal”: a sedução exercida pelas mobilizações populares
Há pessoas que, transitando pelas ruas das cidades se defrontam, inesperadamente, com atos públicos do Movimento e são atraídas pela grande quantidade de gente e de bandeiras. Ao procurarem saber do que se trata, são informadas sobre o MST, este representado no imaginário popular como um conjunto de pessoas que distribuem terra. Resolvem, assim, se juntar ao grupo, situação ocorrida com a narradora Maria Zelzuíta:
Eu conheci o MST numa época em que fui lá a Eldorado, na Prefeitura. Ia pegar um remédio para meu menino, que estava doente. Quando vi aquela multidão de gente, muito grandera... Estava tudo fechado. Pensei: meu Deus do céu! Que negócio é esse? Fui na casa duma senhora no Km 2 e perguntei: - Dona Mariquinha, o que significa aquele tanto de gente lá na Prefeitura, com um bocado de bandeira vermelha? Ela assim: - Maria, aquele ali é o povo do MST: as pessoas que dão terra para o pessoal. Eu disse é, é? Voltei para trás, estava trabalhando ainda... Quando surgiu o cadastro, fiz esse cadastro, assisti a reunião deles lá no Trinta. Muita gente, aquelas músicas de cantoria muito bonita. Passamos o dia todo lá. Retornei à noite. Quando foi no outro dia, já peguei minha bagagem, fui para o acampamento com meu filho. Tinha que fazer barraco. Fui para o mato, tirei madeira, palha, fiz meu barraco, estourei minhas mãos todas. Ficou todo seco, fiz meu barraco e fui para debaixo. Pensei: e agora, o que é que eu vou comer, eu com meu filho? Não podia sair para trabalhar e só tinha oito dias que a gente estava lá. A gente num arruma emprego só para oito dias... Lavagem de roupa também não encontrava. Fui trabalhar dentro dos Sem Terra mesmo, no barraco de outro senhor, que se chama Marcio. Foi como consegui ficar nesse Movimento, no acampamento. Que eu acho que se esse velho senhor não tivesse me dado apoio, eu não tinha ficado, porque não tinha o que comer mais meu filho... Foi com mais de trinta dias que a gente conseguiu a cesta básica. Aí começou a melhorar um pouquinho. A cesta básica não é tão aquela, mas vinha muita milharina e dava para sobreviver, que quando a gente quer conseguir alguma coisa, a gente tem que lutar muito. (MARIA ZELZUÍTA, 42, Pará, Assentada, Trabalhadora Rural).
– “O INCRA está partindo a terra para dar para o povo pobre”: a atração exercida pelo rumor convertido em certeza
Ocorre, também, o rumor: informações vagas e imprecisas que são difundidas publicamente, comunicando pela oralidade que o INCRA está distribuindo terras para os lavradores e as lavradoras necessitados. Agricultores(as) pobres, ou pobres que não são necessariamente agricultores, mesmo sem verificar se existem evidências seguras sobre o que está sendo veiculado, reúnem-se ao conjunto de pessoas mobilizadas pelo MST. É o caso de Dona Delzuí, que revela ter sido atraída ao MST pela crença nos boatos:
Um dia, no Rio Maria, um homem veio pra cá. Chegou lá e disse: - Ei, lá no Cem o INCRA está partindo a terra para dar para o povo pobre, que não tem casa para morar, num tem nada. Então eu disse: - Velho, sabe, vamos embora para lá, talvez a gente melhore nossa vida, ganhe o nosso, nós vamos trabalhar bem. Nós pegamos o carro de lá do Rio Maria para cá. Chegamos no Cem, uma cidade cá atrás. Nós ficamos lá. Quando chegamos, o motorista disse: para onde é que vocês vão? Eu disse: nós andamos na procura de uma terra, porque disseram que o INCRA está partindo terra, dando para o povo. E o motorista disse: - Não, não é assim. É assim: eles são os Sem Terra. Vão para lá, ficam lá. O INCRA depois é que vai fazer a vistoria. Aí é que eles vão partir a terra com os pobres, não é agora. Eu disse: pois eu quero que você me leve lá nesse lugar. Quando nós chegamos aqui, estava com 47 dias que eles vieram para cá, no dia 17 de abril. Nós chegamos, eles estavam aqui. Só aquelas varetinhas e as casinhas que estavam fazendo. Nós ficamos. Quando chegamos ali, foi no primeiro dia da cesta. Estava uma folia na casinha. Ali no grupo que nós estamos tinha um que disse: vocês andam fazendo o quê? Eu disse: - Nós andamos que nem vocês, encontrar o que vocês procuram, nós queremos também. - Pois, pode ficar aqui. Tem mais gente? - Não, só é nós dois, por hora... Eu fui fazer logo o almoço e ficou de terminar de carregar a cesta. Fiquei lá mais meu velho. Aí ele disse: - Agora vocês vão cadastrar. Vão cadastrar? Eu disse: - vamos! Do jeitinho que vocês fizerem nós fazemos. Fomos, subimos dentro da paredinha, lá para cima. Eu cadastrei e ficamos. Quando chegamos, eu num sabia nem como era. Fomos aprendendo como era que fazia, eles ensinando como era que nós trabalhávamos na luta. Fomos aprendendo e agora sei tudo que passa, estou por dentro de tudo. Até agora, graças a Deus, nunca me dei mal, nunca passei um dia de fome nem nada. Nós botamos a roça, colhemos arroz, feijão, tudo. Abóbora, gerimum, melancia, tudinho. Planta tudo. É bom, estou ali no meu barraquinho, nunca saí para lugar nenhum. Então, minha casinha é miudinha, é tampadinha de barro na frente, por trás é de palha. E agora nós vamos tampar ela todinha ao redor, de barro, para ficar bem bonita. Acho muito bom, eu e meu velho, acho muito bom. (DELZUÍ, 58, Pará, Acampada, Trabalhadora Rural).
– “Nós fazíamos um trabalho nas comunidades de base”: a ação e o envolvimento de pessoas religiosas
Padres das paróquias nas localidades em que as pessoas moram, irmãs franciscanas adeptas da Teologia da Libertação, pastores luteranos e outros religiosos, incentivaram católicos e protestantes a fazerem ocupações, a lutar por terra e reforma agrária. Esclarecem os fiéis sobre seus direitos, encorajam a participação nas mobilizações, entram em contato com o Movimento e conseguem autorização para os(as) interessados(as) acamparem, propiciam visitas aos assentamentos e acampamentos. Um seminarista e uma estudante de convento, ao realizarem atividades missionárias em áreas de acampamento ou participarem de uma Romaria da Terra e dos primeiros Jejuns pela Reforma Agrária, conheceram pessoas do