DEL 5: Konklusjon og avslutning
5.0 Konklusjon og avslutning
Aqui em Rio Verde não tem nada pra gente fazer. Nem para crianças e nem pra gente. O meu marido reclama que todas as vezes que tem o Ciranda eu sumo com as crianças. Ora, tenha paciência, né! Ele tem o seu futebol, os seus amigos... fica o dia inteirin jogando baralho com aquela cambada de à toa. Eu, além de cuidar de três meninos ainda lavo, passo, faço comida, arrumo casa... Tô cansada dessa vida! Agora, eu pego os meninos, venho pra cá, trago uns biscoitinhos, uns bolinhos, ajeito aqui na grama, nessa sombrinha gostosa, e deixo os meninos fazer o que eles quiserem. De sofrimento basta o meu. (Ana Maria Tavares, 31 anos, professora rural no Distrito de Santo Antônio, moradora de Rio Verde)
A história de Ana Maria não é uma exceção. Num universo de 270 mães pesquisadas no Ciranda, 86% se sentem infelizes. Os 14% restantes se dividem entre mães solteiras (6%) e satisfeitas (8%). Contudo, ao penetrarmos no mundo das satisfeitas, a realidade se apresenta nua e crua: “Ele não deixa faltar nada em casa” ou “Ele trata bem os meninos” ou “Ele nunca me bateu” são, em sua grande maioria, as razões para a tal felicidade. Do outro lado, no universo masculino, a situação não é muito diferente. 72% dos pais entrevistados se sentem infelizes. O desemprego, a falta de moradia e a falta de perspectiva de uma vida melhor povoam o cotidiano. 56% deles alegaram que a companheira “Não ajuda em nada e vive reclamando”; 27% informaram que não namoram mais as esposas. Pior: 76% deles estavam casados havia menos de cinco anos. “Quem é que agüenta ser humilhado, espisoteado o dia inteiro e ainda ter que comparecer pra muié à noite?”. “O povo fala que Rio Verde tá cheio de serviço, cadê?” desabafa Arlindo de Castro Mendes, 34 anos, operador de colheitadeira e há três anos desempregado.
Os relatos são claros: nossas pretensões de querer entender a sociedade de forma global, perceber o mundo através de teorias unificadoras, como as tentações de trazer o complexo ao mais simples e ao mais estável, estão desencorajadas. Ilya Prigogine e Isabelle Stengers afirmam:
Não são mais as situações estáveis e as permanências que primeiro nos interessam, mas as evoluções, as crises e as instabilidades... não apenas o que permanece, mas o que se transforma, as perturbações geológicas
e climáticas, a evolução das espécies, a gênese e as mutações das normas que vicejam nos comportamentos sociais. (1997: 46)
Balandier, em A desordem, complementa:
A vida não é um caminho reto, plano e sem fim. Uma subida ao céu intermitente, um mergulho no caos para todo o sempre. Subir, descer, afundar, boiar, voar fazem parte do cotidiano humano desde que o primeiro homem (ou mulher) abriu os olhos e se deparou com o natural. E foi no primeiro resmungo, na primeira reflexão, no primeiro “ver” que o humano deu início ao processo totalizante do conhecer, do educar, do transmitir não apenas uma continuidade biológica, mas, também, deixar um legado de normas, tradições, costumes, símbolos e crenças, sem o que nenhuma sociedade funcionaria. E, se educação significa educar para os outros, descobriu-se que divulgar o conhecimento acumulado é um processo de socialização, uma forma de convivência social, uma opção pela cidadania, a implementação dos direitos humanos, dos direitos do cidadão, ou seja, dos direitos civis, sociais e políticos.
Modernamente, escola, Igreja, meios de comunicação de massa, sindicatos, movimentos sociais e, é claro, a família compõem essa argamassa chamada educação, base de toda a cidadania.
Dentro desse contexto, o Projeto Ciranda é uma “colcha de retalhos” formada de milhares de panos “tecidos juntos” pelas camadas subalternas da sociedade, os populares, que têm como objetivo específico tentar obter um melhor nível de lazer em seus sábados desprovidos de pão, circo e sorriso. Alie-se a isso, um novo modelo de ascensão social, amparado na tentativa de obter acesso aos bens de consumo individual e coletivo, da garantia da satisfação dos direitos básicos da sobrevivência e dos direitos de participação política na sociedade, como, por exemplo, os serviços de atendimento à doença, a escola em bairros carentes, moradia através dos “mutirões”, reforma agrária, entre outros.
O simples se torna complexo, o múltiplo prevalece sobre o singular, o aleatório sobre o determinado, e a desordem toma o lugar da ordem (...) A própria idéia de sociedade, enquanto totalidade estabelecida na permanência, começa a ser recusada: ilusão sobre a natureza das coisas sociais, ou projeção em um futuro que se afasta sempre, ou perversão que desemboca no autoritarismo. (1997:103)
Contudo, inversamente ao papel das ONGs, que se definem como organizações formais, privadas, porém com fins públicos e sem fins lucrativos, a Organização Jaime Câmara é uma empresa que realiza marketing social, com fins lucrativos, seja de imagem corporativa, seja através da comercialização de cotas de patrocínio dos vários eventos que realiza no Centro-Norte do país. Martín-Barbero, em seu texto Modernidade e Mediação de
Massa na América Latina, orienta sobre o descompasso entre Estado- Forte e déficit-Nação, o papel dos meios de massa na formação das culturas nacionais, o nascimento do hibridismo cultural e a importância das mediações (escola, família, igreja, associações) na reconstrução e apropriação dos sentidos. O conceito introduzido por Martín-Barbero mediação/mediações vem negar o controle hegemônico das mídias e das indústrias culturais sobre o popular, as culturas e as classes, afirmando que o desenvolvimento das mídias e dos conteúdos está vinculado às formas de apropriação que a introdução de novas tecnologias, novas políticas culturais e novos conteúdos. As mediações realizadas dentro de uma comunicação interpessoal constituem pontos de articulação entre os processos de produção e das mídias e das indústrias culturais, e os processos de utilização quotidiana dos mesmos. Nessa articulação, onde existem múltiplas trocas entre narrativas de diversas procedências culturais, as audiências constroem e reconstroem, continuamente, e em função dos seus interesses e necessidades, as suas identidades singulares e coletivas. Barbero lembra ainda que a recepção é parte tanto de processos subjetivos quanto objetivos, de processos micro, controlados pelo sujeito, e macro, relativos a estruturas sociais e relações de poder que fogem ao seu controle.
Por outro lado, Roger Silverstone, na obra Television and Everyday Life, de 1994, critica os estudos recentes sobre audiência e recepção. Para ele, os estudos de audiência são cada vez mais problemáticos na
medida em que qualquer investigação terá conseqüências em termos políticos e econômicos. No seu entendimento, os estudos de audiência devem admitir o poder das mídias, principalmente da televisão, e reconhecer as relações sociais e culturais complexas que envolvem as audiências, não focando apenas a análise de um conjunto pré- construído de indivíduos nem a de grupos sociais definidos rigidamente. Estes estudos devem, sim, inserir-se numa teoria mediadora da audiência televisiva recorrendo a todos os indicadores (sociais, psicológicos, antropológicos, filosóficos, etnográficos, geográficos, etc.) disponíveis, de forma a captar, compreender e interpretar, da forma mais completa possível, a totalidade das práticas e discursos quotidianos, dentro dos quais se realiza o ato de recepção/visualização das mídias. Silverstone entende que a mídia se tornou central para a experiência humana. Ele entende que esse poder não é demonstrado apenas nas grandes catástrofes, nos fatos expostos em letras garrafais ou nos plantões dos jornais nacionais, mas principalmente nos fatos ditos irrelevantes do cotidiano. Para ele, a cidadania do século XXI requer um conhecimento mais apropriado dos meios de comunicação de massa que poucos ainda têm, por isso mesmo, precisa ser estudada. Ao sugerir foco no fenômeno, Silverstone propõe que os cidadãos devem procurar conhecer em mais profundidade os segredos das mídias. O conhecimento da mídia e sua democratização levará ao surgimento de um Quarto Poder. Se até pouco tempo atrás, as ferramentas de trabalho na área de comunicação eram restritas apenas aos seus profissionais, hoje já não acontece o mesmo. Barbero complementa ao criticar e propor aos professores que revejam os seus preconceitos, uma vez que sempre vêem a mídia com desconfiança e não raro se posicionam quase sempre no “frontalmente contra”. A escola moderna deve aprender outras formas de ver/ler/aprender. Ao reduzir a comunicação educativa à sua dimensão instrumental, isto é, ao uso das mídias, a escola deixa de fora aquilo que é mais estratégico pensar: a inserção da educação nos processos complexos de comunicação da sociedade atual.
Silverstone e Barbero comungam sobre a importância do papel das mídias no mundo contemporâneo, influenciando movimentos, propondo novos hábitos, resgatando memórias, valorizando práticas. Por isso, não há como o homem moderno distanciar-se diante do fenômeno que as novas tecnologias na área de comunicação estão produzindo.
As conseqüências das investigações interdisciplinares dos Cultural Studies propiciaram o surgimento de uma série de teorias empíricas com base em métodos qualitativos e quantitativos, focados quer na análise das mensagens quer na análise das audiências e na recepção. Nesta última perspectiva, as investigações não só utilizaram e desenvolveram metodologias quantitativas assentadas em análises estatísticas de comportamentos e conteúdos (sondagens, entrevistas, questionários etc.), como promoveram estudos qualitativos fundados em princípios inerentes ao interacionismo simbólico, à etnometodologia e às teorias dos usos e gratificações (análise de grupos restritos, observação participativa, entrevistas em profundidade, focus group, etc.).