Para a seleção dos sujeitos, principais participantes da pesquisa (alunos), elegemos os seguintes critérios: a) ser alfabetizando da EJA da escola selecionada; b) aceitar espontaneamente ser sujeito da pesquisa; c) autorizar, por escrito, sua participação no trabalho; d) demonstrar assiduidade às aulas. Para seleção dos sujeitos coadjuvantes (professores/gestores), os critérios foram: a) participar da gestão da escola no turno noturno ou ser professor alfabetizador da EJA; b) manifestar interesse na participação da pesquisa.
Encontramos na escola quatro turmas de alfabetização, sendo duas do 1º nível, que atendem alfabetizandos do estágio inicial de apropriação da língua escrita, atendendo 48 alunos, e duas do 2º nível, das quais fazem parte 95 alunos que já avançaram um pouco nesse processo.
Apesar do alto número de matrículas, a realidade que vivenciamos é a mesma exposta na literatura: alto índice de evasão e faltas, ocasionadas por diversos motivos, dentre eles o cansaço físico pelas condições existenciais de sobrevivência, que os obriga a trabalhar incessantemente. Tal razão é confirmada na fala de A47 (2011): “[...] sobrevivência em primeiro lugar. Tenho que trabalhar [...] Às vezes o cansaço bate muito forte. Aí não dá para ir pra escola não.” C37 (2011) compartilha da mesma opinião: “O trabalho é mais importante, porque ninguém vive sem trabalho. O estudo, só quando dá, né? Não é fácil
não, moça!.” A professora Sigma também confirma, exemplificando com casos de alunos:
X41 vende salada de frutas na Praia do Meio. Ele sai de Cidade Nova, a pé11, às 4 horas da manhã. À noite, ele
tem que cortar as frutas para o dia seguinte. Isso o impede de vir algumas vezes à escola. Alguns, quando são chamados para bicos, como segurança, ajudantes de pedreiro para finalização de construções, garçons em festas e outras coisas, fazem com que eles escolham levar um dinheirinho a mais pra casa e faltam aula mesmo. É sempre assim, é o jeito, eles precisam, né? (SIGMA, 2012).
Por essa dificuldade é que, de 143 alunos matriculados, no dia da aplicação do questionário, só estavam presentes 34 alunos, dos quais, apenas, 26 se disponibilizaram a participar da entrevista no dia posterior. Com base nos 34 alunos que preencheram os questionários12, trazemos alguns elementos que os caracterizam:
11 Para chegar até o seu destino, o aluno terá que caminhar 11,8 km.
12 Apresentamos os dados dos 34 questionários, ao invés dos 26 que participaram da
entrevista devido à preservação da identidade dos alunos, que não se identificaram no material, salientando que a entrevista não foi realizada no mesmo dia da aplicação dos questionários.
Gráfico 1 | Faixa etária dos alunos que preencheram o questionário
Fonte | Dados obtidos na pesquisa (2011)
Como se percebe, o maior contingente dos alunos possui entre 41 e 60 anos. No entanto, os dados percentuais apresentam um número significativo de alunos entre 15 e 25 anos, o que ratifica a constatação de Brunel (2008, p. 9): “O número de jovens e adolescentes nesta modalidade de ensino cresce a cada ano.”
Em busca de conhecer a trajetória escolar de tais sujeitos, verificamos que a maioria dos alunos já possui vivências em escolas anteriores, apesar de estarem estudando em uma classe de alfabetização:
Gráfico 2 | Vivências em escolas anteriores
Fonte | Dados obtidos na pesquisa (2011)
Como se percebe, apesar de estarem inseridos em um ambiente escolar, tais sujeitos não usufruíram de um processo de ensino- aprendizagem que efetivasse a apropriação e o desenvolvimento da língua escrita, inscrevendo-os em trajetórias escolares truncadas: alunos evadidos, reprovados e defasados, o que pode ser comprovado nos dados do gráfico abaixo:
Gráfico 3 | Tempo de permanência na escola
Fonte | Dados obtidos na pesquisa (2011)
Com base no gráfico número 3, podemos inferir que o período que os alunos estiveram na escola não os impediu de estarem privados dos bens simbólicos que a escolarização lhes deveria garantir. São vários indicadores que nos mostram estarmos longe da garantia universal do direito à educação para todos, entendendo esta não apenas como presença na escola, e sim como espaço de aprendizagens significativas. As carências e lacunas no percurso escolar são também refletidas nesses sujeitos, conforme se percebe no gráfico abaixo:
Gráfico 4 | Alunos que foram reprovados
Fonte | Dados obtidos na pesquisa (2011)
O alto índice de reprovação nos indica a necessidade de se repensar as práticas desenvolvidas em sala de aula, considerando as especificidades da EJA, na tentativa de quebrar a perversa exclusão social vivenciada por esses sujeitos em suas histórias, como evidenciam os dados do gráfico abaixo, que apresentam a escolarização da família de tais sujeitos.
Gráfico 5 | Grau de instrução dos pais
Fonte | Dados obtidos na pesquisa (2011)
O alto índice de pais não alfabetizados corrobora para o desenvolvimento de um ciclo de baixa escolarização autoalimentada, na qual as lacunas educacionais dos pais são refletidas em seus filhos, atuais alunos da EJA. A falta dessa escolaridade pode ser um dos indicadores para o que apresentamos abaixo:
Gráfico 6 | Renda individual
Fonte | Dados obtidos na pesquisa (2011)
Como vimos, a maioria dos alunos ganha até um salário mínimo, o que os impossibilita de usufruir os direitos sociais mais básicos. Desse modo, a visibilidade dos sujeitos da EJA é proveniente de suas vulnerabilidades. Não queremos, portanto, fortalecer o reconhecimento desses sujeitos através da elucidação de suas carências, pois os reconhecemos como sujeitos de direitos humanos.
Tal visão constitui o ideal pedagógico da Escola Emília Ramos, que busca a aproximação do possível e do ideal, reconhecendo seus limites e possibilidades. 0 2 4 6 8 10 12 14
RENDA INDIVIDUAL
Menos de 1 salário mínimo 1 Salário mínimo
Menos de 2 salários mínimos Acima de 2 salários mínimos
Conhecer o aluno da EJA impõe a necessidade de compreendê-lo no contexto histórico-social em que esse sujeito está inserido. No Brasil, o público alvo da EJA são jovens e adultos que buscam recuperar os processos escolares que não foram vivenciados em idade própria, fazendo com que sejam vistos essencialmente pelo que lhes falta, ou melhor, pelo que lhes foi negado ao longo do tempo. Contrariamente, reconhecemos esse sujeito como portador de um acervo de conhecimentos construídos no decorrer de sua história de vida, não necessariamente com vivências escolarizadas, mas partícipes de um processo educativo mais amplo.
Assim, para conhecer as especificidades dos sujeitos históricos que vivenciam a EJA, seguiremos a orientação de Arroyo (2007, p. 23), que diz: “Quanto mais se avançar na configuração da juventude e da vida adulta, teremos mais elementos para configurar a especificidade da EJA, a começar por superar visões restritivas que negativamente a marcaram.”
Ao ser considerada, desde a Constituição de 1988, como campo de ensino, essa modalidade de ensino passa a apontar mais fortemente para a importância de investigar e construir alternativas para essa demanda assumida legalmente, tais como o reconhecimento de suas especificidades, a relação desses sujeitos com o mundo e o mercado de trabalho e a elaboração de materiais apropriados exclusivamente para seus demandatários. E são esses aspectos que nos dispomos a discutir nas seções subsequentes.
3.1 Quem são esses sujeitos, alunos da Educação de Jovens e Adultos