Apesar de a maioria das mulheres migrantes entrevistadas gostarem do bairro em que moram e não pensarem em deixá-lo enquanto estiverem vivendo em São Carlos, muitas delas se queixam e reconhecem o estigma que ele carrega, o de ser um bairro violento e perigoso. Afirmam que as pessoas em São Carlos discriminam exacerbadamente o bairro por ele ser pobre e de periferia e, consequentemente, as pessoas que nele residem. De fato, muitas pessoas na cidade, no ponto de ônibus, nas regiões próximas ao bairro, aconselharam-me para ter cuidado ao andar no bairro, sobretudo se fosse à noite. É certo que as pessoas, residentes no bairro, sofrem muito com esse preconceito.
Este é um ponto de unanimidade nas falas das entrevistadas: sabem que vivem e convivem num bairro altamente estigmatizado em São Carlos. A mesma constatação foi feita por Silva (2006). A autora, em sua tese de doutorado, analisa as redes de relações sociais em que estão envolvidos estes migrantes e, gradativamente, vai percebendo não apenas o estigma que o bairro carrega, mas também que os seus moradores, independentemente de sua procedência, ocupação, posição e relação com o bairro, identificam e reconhecem o estigma do bairro e o preconceito que sofrem por serem moradores do Aracy. De acordo com a autora, os moradores do Aracy compreendem que estão lidando com esse estigma ao se inserirem na cidade de São Carlos, principalmente ao tentarem se inserir no mercado de trabalho da cidade. Reconhecem a dificuldade de conseguir emprego quando declaram serem residentes do Cidade Aracy. “Mesmo o bairro tendo melhorado em diversos quesitos – ruas asfaltadas, serviços públicos, igrejas, bancos – os moradores ainda convivem com o estigma – e o reconhecem” (SILVA, 2006: p. 70).
Assim como em Silva (2006), as falas das mulheres migrantes, paranaenses e nordestinas, denunciam o preconceito que sofrem por morar no Aracy. Todas elas, sem exceção, compreendem a grande Cidade Aracy como um bairro extremamente estigmatizado pela população em geral de São Carlos. Afirmam que a maioria dos moradores de outros bairros da cidade enxerga o Cidade Aracy como um bairro pobre, perigoso, habitado por marginais e criminosos, falas que revelam o ressentimento e a tristeza dessas mulheres com parte da população de São Carlos, que desconhece a realidade do bairro e faz uma representação ruim dele e das pessoas que nele moram.
O Cidade Aracy não é bem visto. Muito mal visto. Porque como tem muita gente pobre, porque na verdade todo mundo que mora aqui no Cidade Aracy são de baixa renda. Foi o único lugar que a gente conseguiu comprar uma casinha. Então, por isso eles acham que é um lugar ruim. Mas não é não! Aqui tem gente muito boa. Tem algumas pessoas. Mas tem muita gente boa, gente que trabalha. Todo mundo aqui trabalha nessa rua (Adelaide, 27, nordestina).
Eles discriminam muito. Eu tava no ponto do ônibus, aí o homem perguntou: “que ônibus é aquele?” Eu disse: “Aracy”. Ai ele disse: “Deus me livre”. Eu falei: “pois eu estou esperando o ônibus do Antenor Garcia”. Ele estava discriminando. Ai o povo pensa que o povo daqui é todo ruim (Tereza, 67,
nordestina).
Mulheres Paranaenses:
O pessoal de São Carlos tem preconceito, discrimina quem mora aqui (Josefa,
60 anos, paranaense).
Ah, sei lá, tem muita gente que não gosta daqui. Diz que tem muito bandido. Mas todo dia sai ônibus lotado de gente que vai trabalhar. Mas tem gente que tem uma péssima visão daqui (Lurdes, 53, paranaense).
As pessoas falam que é muito violento, muito perigoso. Mas eu como moro aqui quase oito anos. Eu acho um lugar super sossegado, super tranquilo. É um bairro humilde, mas um bairro que tem bastante pessoas boas. Mas eles pensam muito mal. Pensam muito mal. Eu acredito que eles pensam mal por não dar uma oportunidade para conhecer. Em todos lugares há pessoas boas e ruins. E por uma pessoa que fez alguma coisa ruim que mora no bairro, então eles julgam todo mundo. Tipo, mora no Antenor, mora no Aracy, já não dão oportunidade nem de trabalho. Só que quem convive aqui dentro e é uma pessoa boa, vê que tem muitas pessoas boas. Pessoas ruins têm, não vou dizer que não. Em todos os bairros tem, em bairros bons também têm (Cida, 32 anos,
paranaense).
Este estigma que o Cidade Aracy carrega e que é percebido pela população ali residente, afeta, decisivamente, a conquista de empregos. Muitos afirmam que deixaram de conseguir emprego pelo simples fato de residirem no bairro, visto que os potenciais empregadores o encaram como um bairro perigoso, onde residem bandidos e pessoas que não merecem o seu voto de confiança. Os relatos das entrevistadas comprovam isso:
Ah, tem muito preconceito, ainda existe preconceito. Porque você vai trabalhar... isso já aconteceu comigo, de eu ir procurar emprego e a pessoa
perguntar onde eu moro, e eu falo e a pessoa não quer mais. Às vezes, o serviço estava até certo e eu chegar lá e falar que eu moro no Cidade Aracy e perder o emprego. Eu trabalhava num emprego que minha patroa falava assim: “Ah, minha amiga fala que eu sou doida de ter uma empregada que mora no Cidade Aracy, porque minha empregada é de Ibaté”. Aí eu falei: “Então fala para a sua amiga arrumar uma empregada de Ibaté para a senhora”. E hoje, graças a Deus, todo lugar que eu trabalho, o povo gosta muito de mim. Depois que eu entro o povo pega aquela confiança. Esses dias mesmo ligou uma moça para mim e perguntou onde eu morava. Eu falei que morava no Cidade Aracy. Aí ela falou: “Ah, então eu não quero”. Ainda tem muita gente que tem preconceito desse lugar, mas não sabe que mora muita gente boa nesse lugar. Muita gente humilde aqui nesse lugar (Natália, 34, paranaense).
Ave Maria, se você chega num lugar e disser que é do Cidade Aracy, só vê gente saindo com medo. Mas eles acham assim: que as pessoas daqui são tudo gente pobre, que veio lutar a vida. São tudo preconceito. Eu já ouvi isso no banco de emprego. Inclusive meu filho fez currículo para distribuir e não colocou o endereço daqui. Colocou o endereço da tia dele lá do Cruzeiro do Sul. Eles vê: se você for da Cidade Aracy, eles não chamam. Porque a gente aqui é tudo gente pobre que trabalha, ninguém fica parado. Tudo mundo tem uma ocupação. Só por isso é o preconceito por ser pobre. Aqui na Aracy são gente tudo trabalhador (Suzana, 41, nordestina).
O pessoal de São Carlos tem preconceito com esse bairro. Eu lembro que eu ia procurar emprego, e falava que eu morava no Aracy, o pessoal já olhava meio torto. O pessoal falava que quem morava aqui ou vai ser bandido ou prostituta, ou vai ser empregada doméstica. Então, foi a maior dificuldade arrumar emprego. Eu lembro que quando meu marido chegou, ele ia trabalhar numa empresa. Mas quando ele chegou lá e deu o endereço, aí falaram: “ah, você mora longe”. Aí ele falou “ah, mas eu arrumo condução”. Mas não deram a vaga para ele (Sandra, 35 anos, nordestina).
Na visão das migrantes entrevistadas, há bairros do grande Cidade Aracy que são mais discriminados e, por isso, sua população sofre ainda mais com a dificuldade em conseguir emprego. Moradores do Antenor Garcia e parte do Cidade Aracy II são os mais afetados e, frequentemente, são obrigados a mentir o endereço residencial, visando pleitear uma vaga de emprego.
Ah, tem preconceito. Para você arrumar serviço, você tem que falar que você mora no Cruzeiro, lá no Aracy I, se não ninguém dá. Se você falar que mora aqui, no Aracy II ou no Antenor, ninguém dá. Eles acham que as pessoas são pessoas assim, malandras (Irene, 63 anos, paranaense).
Por tudo isso, conforme afirmou Silva (2006), independentemente de sua origem, ocupação, posição e relação com o bairro, os moradores do Cidade Aracy reconhecem o preconceito que sofrem por pertencerem ao bairro. Sabem que são todos ali tidos como
moradores do Aracy, moradores de um bairro bastante estigmatizado pela população de São
Carlos. Portanto, partem de uma posição social ruim. Mas, apesar disso, afirmaram que não têm vergonha nenhuma em declarar para as pessoas de São Carlos que são moradores do Cidade Aracy. Em suas entrevistas, percebemos que muitas têm orgulho de morar neste bairro, pois vivem uma vida digna ali. Se às vezes elas, ou membros de suas famílias, têm que mentir o endereço em uma entrevista de emprego, fazem isso simplesmente porque o preconceito e a discriminação do outro os levam a fazê-lo, caso contrário não conseguiriam o emprego. Mas não se sentem bem, visto que a sua vontade era declarar o verdadeiro endereço.