Conforme vimos em Lisboa (2007), a migração pode ser compreendida como uma ação social, seja ela de caráter coletivo ou individual, seja espontânea ou forçada, caracterizada pelo deslocamento interno (dentro de um país) ou externo (de um país para outro) que é marcada pelo desenraizamento do local de origem e por um novo enraizamento na nova sociedade. Muitos são os motivos que levam as pessoas ou grupos de indivíduos a se deslocarem de sua terra de origem para recomeçar a vida em outra terra, muitas vezes desconhecida. Tanto pode ser pela falta de emprego e de melhores oportunidades em sua terra de origem, bem como pela vontade individual do migrante melhorar a sua condição socioeconômica, conforme já evidenciaram as teorias micro e macrossociológicas, demonstradas por Nogueira (1991) e Peixoto (2004). Os motivos da migração também podem ter causas políticas, como ainda estar associados a dimensões subjetivas (LISBOA 2007). De acordo com Jannuzzi e Oliveira (2005), ao analisar os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios-PNAD, 2001, realizada pelo IBGE, os principais motivos que levam indivíduos e grupos de pessoas a migrarem no Brasil, são: acompanhar a família, com uma alta porcentagem de mulheres (63%) migrando por esse motivo; a procura de trabalho, moradia, assistência médica, dificuldades no relacionamento familiar, dentre outros motivos.
Ao analisarmos as entrevistas com as mulheres migrantes paranaenses e nordestinas pesquisadas, independente de terem boas ou más lembranças de suas terras natais, o motivo maior da migração consiste na procura de trabalho, seja por ela ou pelo marido, seguido do acompanhamento à família, a busca de um lugar mais sossegado e tranquilo e a busca de assistência médica. Assim, existe uma gama grande de motivos, encabeçada pela procura de emprego, que levou essas mulheres e suas respectivas famílias a migrarem. Cabe, porém, detalhar esses motivos, olhando-os pormenorizadamente, a partir das relações e dos arranjos familiares, bem como a partir da origem de nascimento delas.
Desse modo, quando nos referimos às famílias baseadas no modelo conjugal nuclear, bem como à família extensa e reconstituída, sejam elas paranaenses ou nordestinas, o principal motivo de migração da mulher e de sua respectiva família é a procura de emprego e melhores condições de vida.
Mulheres paranaenses:
Viemos para São Carlos para trabalhar, a procura de emprego. No Paraná, trabalhávamos na lavoura, mas já não tinha mais serviço lá. Lá, a gente não conseguia nada, trabalhava na lavora de arrendatário. Sofremos muito lá. Como a gente perdeu a terra que nós plantava, aí não deu mais (Aparecida, 32 anos,
paranaense, família conjugal nuclear)
A gente migrou para São Carlos porque a roça lá no Paraná, não estava dando nada. (Luana, 32 anos, paranaense, família conjugal nuclear).
O maior motivo da migração foi por causa de procurar um melhor emprego. Meus parentes, que estavam aqui, foram lá em casa passear e disseram que São Carlos era muito bom para emprego. E depois de seis meses fomos morar em São Carlos. Eles foram para lá e falaram que estava todo mundo empregado, com casa própria (Neiva, 45 anos, paranaense, família conjugal nuclear).
Eu vim para cá porque o meu marido não estava com serviço fixo lá. Tava muito fraco de serviço lá e a gente com duas crianças. E meu pai estava aqui (Natália,
34 anos, paranaense, família conjugal nuclear).
Mulheres Nordestinas:
O motivo da gente vir para cá foi porque falavam que aqui tinha serviço para trabalhar. Era isso, era aquilo. Então, nós resolvemos vim, porque todo mundo tava vindo. E, de fato, tem melhorado a nossa vida. A vida que eu vivi lá, hoje eu não dou para os meus filhos. Pelo menos a alimentação, que lá chegou a faltar para nós, né, mas aqui mesmo, nunca chegou a faltar. Tem dia que tá pouco, tá meio fraco, mas faltar mesmo nunca faltou. Lá tinha época de a gente passar a vida difícil, de só ter farinha em casa. O pai do meu marido teve treze filhos, e ele criou esses treze filhos do nada. Tem ano que o sol acaba com tudo. Tem ano que é a chuva. Esse ano foi a chuva. E a mãe dele fazia um ovo na panela para mexer e dá para treze filhos. Hoje, eles estão todos aqui. Eu, logo que cheguei aqui fui trabalhar numa fábrica. Eu trabalhava na cozinha, com alimentação. O primeiro dia que eu entrei no restaurante, nossa aquilo para mim era o máximo, sabe: nunca tinha visto tanta comida na minha vida, sabe. Aquilo para mim era muito bom. Foi uma coisa boa. (Suzana, 41 anos, nordestina, família nuclear).
A gente veio para cá, porque lá não tem emprego. Lá é um lugar muito sofrido. Tanto é que eu falo para os meus sobrinhos de lá que se quiser vir para cá para trabalhar eu dou todo apoio. Tem um sobrinho que tá lá passando dificuldade, tá muito sofrido lá. Falei para ele, se quiser vim, fica aqui comigo, ajudo até
controlar, trabalhar direitinho. Falo para ele vim. Acho que ele vai sair domingo
(Fátima, 52 anos, nordestina, família reconstituída).
Porque lá era muito difícil, não tinha emprego. Você trabalha o ano inteiro na roça, quando vai vender, não dá nada. O salário lá é muito pouco. O dia de serviço lá é o valor de um quilo de costela. Não vale nada. Lá eu plantava feijão, colhia café, já trabalhei na mandioca, para fazer farinha. Trabalhava direto, mas dinheiro não ganhava nada. Aqui é bem melhor. Aqui a gente tem trabalho, come melhor, compramos terreno, construímos nossa casa (Clotilde, 31 anos, nordestina família nuclear.).
Mas há também outros motivos, em proporção bem menor, no caso desses arranjos familiares, que as levaram a migrar, como por exemplo, acompanhar a família ou ficar próximo de algum ente querido. Geralmente, tais motivos estão associados ao acompanhamento de filhos, que se casaram e mudaram para São Carlos; ao acompanhamento de pais que, por motivo de outros filhos, parentes ou amigos, migraram para São Carlos, ou ao acompanhamento de marido que, estando sem emprego na terra de origem, resolveu migrar para São Carlos à procura de trabalho.
Mulheres Paranaenses:
A gente veio para São Carlos, porque uma filha nossa casou e veio primeiro morar em São Carlos e gostou daqui. Aí os filhos quiseram vir também, sair da lavoura. Aí viemos juntos. Foi ela que trouxe nós aqui. A gente queria ficar perto dela (Josefa, 60 anos, paranaense, família conjugal nuclear).
A gente veio para cá, porque minha mãe veio e eu não ficava longe da minha mãe. Veio minha mãe, minhas irmãs. Meu cunhado trouxe elas para cá e eu não ficava sozinha. Meu cunhado já era daqui. Ele foi no Paraná, casou com a minha irmã. Aí eles vieram para cá e trouxe a minha mãe também. Aí eu não ficava longe da minha mãe, e vim embora também (Lurdes, 53 anos, paranaense,
família reconstituída).
Mulheres Nordestinas:
O motivo da gente ter vindo para São Carlos foi porque lá tava ruim de emprego para o meu marido, pra mim não, porque eu sempre trabalhei lá, nunca fiquei
sem emprego, mas ele veio aí tive que vir também. (Sílvia, 38 anos, nordestina,
família conjugal nuclear).
O motivo da gente ter vindo para São Carlos foi o seguinte: porque conheci meu novo marido e com uma semana ele me trouxe para São Carlos. O meu marido já morou outras vezes em São Carlos. Eu é a primeira vez. Eu nem conhecia São Carlos. Meu marido veio mais por causa de uma irmã. Ela operou de um mioma e veio para morar com os filhos em São Carlos e ele disse que iria trazer uma mulher que ele estava gostando. Aí nós juntamos e viemos. Mas eu não gosto de São Carlos não. Se Deus quiser, logo vou embora daqui (Rita, 37 anos,
nordestina, família reconstituída).
Por outro lado, a mulher proveniente de família monoparental feminina também tem forte tendência em migrar à procura de emprego ou melhores condição de vida. Mas isso acontece especialmente com mulheres nordestinas que, sofrendo com a falta de emprego no local de origem, e separadas, ou mesmo solteiras, resolveram migrar. Por sua vez, constatamos que as mulheres paranaenses solteiras, quando efetivaram a migração e agora vivendo em São Carlos em família cujo arranjo é o monoparental feminino, deslocaram-se de suas terras ou estado de origem para outra localidade para ficar perto da família, geralmente, dos pais, ou para procurar um lugar mais sossegado e tranquilo, livre da violência e da criminalidade, como é o caso de Cida, de 32 anos, que veio de Curitiba:
Mulheres Paranaenses:
Eu vim para São Carlos em busca de tranquilidade. Minha mãe e minha irmã já moravam aqui. Lá em Curitiba, eu morava num bairro bom, tinha tudo. Mas sabe, o que vale é a paz, né. Não adianta você morar numa cidade grande, num bairro bom e, sabe, você não poder dormir tranquila, né, como lá em Curitiba. Sabe, lá é uma cidade muito bonita, mas é também uma cidade muito violenta, muito perigosa. E aqui fui vendo que era um bairro simples, que tinha bastante pessoas simples e legal e que eu podia dormir tranquila (Cida, 32 anos,
paranaense, família monoparental feminina).
Eu vim para São Carlos, porque a minha família veio para cá. Primeiro veio minha mãe, meus irmãos e só depois veio eu com minhas crianças. Eu fiquei sozinha lá. Falei: “O que! Eu vou embora!”. Aí eu vim para cá. (Guiomar, 33
Mulheres Nordestinas:
Porque quando eu me separei do meu esposo, que ele foi embora eu ficava lá, passava fome. Eu vim porque eu separei e lá não tinha emprego nenhum, não tinha como ajudar criar meus filhos. A gente ia trabalha de alugado: alugado as pessoas leva a gente pra trabalha pra ganha como se fosse R$ 1,50, pra dá de come pros meus filhos. Deixei meus filhos pequenos. Eu vim, só não roubei, sou sincera. Meus filhos ficaram com meus pais. E ainda às vezes o que eu ganho aqui eu ainda ajudo meus filhos (Dolores, 54 anos, nordestina, família
monoparental feminina).
Eu migrei sozinha de Recife para São Paulo, com intenção de estudar, de fazer uma faculdade. Tentei a USP dois anos. Mas não deu. Você desanima. Aí tive que trabalhar (Sandra, 35 anos, nordestina, família monoparental feminina).
Enfim, na análise das trajetórias de vida e de migração das mulheres migrantes paranaenses e nordestinas e de suas respectivas famílias, o que o depoimento dessas mulheres, indica quando analisamos os motivos de emigração, é que existe uma grande gama de motivos, encabeçada pela procura de emprego, que levaram elas próprias e suas respectivas famílias a saírem de suas terras ou estados de origem para se fixarem em outras localidades. A análise dos depoimentos revela ainda que, em geral, a família extensa, a reconstituída e especialmente a assentada no modelo conjugal nuclear, sejam elas paranaenses ou nordestinas, migram para procurar emprego e melhores condições de vida, visto que em suas terras ou estados de origem, não foi possível encontrar. Porém, nesses mesmos grupos familiares, há também outros motivos, embora em proporção menor. Neste caso, os principais motivos são: acompanhar a família e/ou ficar próximos de algum ente querido. Neste contexto, enquanto as famílias paranaenses migram mais em virtude de acompanhar a família, para ficar próximas dos parentes queridos, no caso, filhos ou pais, as famílias nordestinas migram para acompanhar a família, em virtude de trabalho.
Por sua vez, quando passamos para a análise dos depoimentos de mulheres migrantes provenientes de famílias monoparentais femininas, constata-se que em geral, há uma forte tendência de essas mulheres migrarem para procurar emprego ou melhores condições de vida na nova localidade. Mas, ao analisarmos mais detalhadamente as entrevistas, isso ocorre com mais frequência entre as mulheres nordestinas, ao passo que as mulheres paranaenses, inseridas nesses contextos familiares, efetivam o projeto migratório principalmente para ficar mais próximas da família, ou a procura de um lugar mais sossegado, também perto da família.