Tão importante quanto os fatores extraescolares são os fatores intraescolares. Estudos demonstram que os fatores internos à escola afetam de forma intensa os processos educativos, com significativa interferência na aprendizagem dos alunos. Isso ocorre porque os fatores internos à escola incidem diretamente nos processos de organização e gestão, nas práticas pedagógicas, no papel e nas expectativas sociais dos alunos, nos processos de participação, na dinâmica de avaliação, enfim, em tudo o que ocorre em toda a escola (DOURADO, OLIVEIRA e SANTOS, 2007).
2.3.3.1 Nível de sistema (exossistema)
Quanto às condições intraescolares, a questão do financiamento das escolas vem se destacando como um elemento de grande importância, devido à possibilidade de estabelecimento de condições objetivas para a oferta de educação de qualidade, ou seja, a definição do custo aluno/ano adequado e que assegure ensino de qualidade (DOURADO, OLIVEIRA e SANTOS, 2007).
Nesse quesito, em geral, analisam-se as condições e custos da instalação da escola, seus custos com materiais permanentes e de consumo, além da manutenção do seu funcionamento; custos de pessoal, assim como a avaliação sobre seu espaço físico, serviços oferecidos, equipamentos, bibliotecas, laboratórios específicos, áreas de convivência, de recreação e práticas desportivas, entre outros (DOURADO, OLIVEIRA e SANTOS, 2007, p. 16).
Estudos mostram que, para definir esse valor, é necessário compreender a realidade dos sistemas, as necessidades e peculiaridades de cada etapa, ciclo ou modalidade de formação, bem como as condições de cada localidade. Em geral, as instituições educativas que impactam pela oferta de ensino de qualidade atendem às seguintes condições mínimas:
Existência de salas de aula compatíveis às atividades e à clientela; ambiente escolar adequado à realização de atividades de ensino, lazer e recreação, práticas desportivas e culturais, reuniões com a comunidade, etc.; equipamentos em quantidade, qualidade e condições de uso adequadas às atividades escolares; biblioteca com espaço físico apropriado para leitura, consulta ao acervo, estudo individual e/ou em grupo, pesquisa
online, entre outros, incluindo acervo com quantidade e qualidade para
atender ao trabalho pedagógico e ao número de alunos existentes na escola; laboratório de ensino, informática, brinquedoteca, entre outros; serviço de apoio e orientação aos estudantes; garantia de condições de acessibilidade e atendimento para portadores de necessidades especiais; ambiente escolar dotado de condições de segurança para alunos, professores, funcionários, pais e comunidade em geral; programas que contribuam para uma cultura de paz na escola (DOURADO, OLIVEIRA e SANTOS, 2007, p. 17).
O Brasil, apesar dos avanços de 2006 para cá, ainda investe muito pouco em educação básica. Segundo dados do próprio Ministério da Educação, em 2007 o investimento foi de apenas R$ 2.005,00 reais por aluno/ano, seis vezes menos do que fazem os países da Comunidade Européia (RAMOS, 2010). Num país com enorme desigualdade social, como o Brasil, isso implica que as esferas públicas
repassem recursos materiais e financeiros compensatórios para que os mais pobres e marginalizados tenham condições de igualdade pedagógicas e sociais.
2.3.3.2 Nível de escola (mesossistema)
Não é possível admitir qualidade da educação sem se pensar nas condições gerais da escola: sua estrutura e características, em especial quanto aos projetos desenvolvidos; o ambiente ou o clima organizacional; o tipo e as condições de gestão; a prática pedagógica; os espaços coletivos de decisão; o projeto político pedagógico da escola; a participação da comunidade escolar; a visão de qualidade dos atores escolares; a avaliação da aprendizagem e do trabalho escolar realizado; a formação e condições de trabalho dos educadores; o aspecto do acesso, permanência e sucesso na escola, etc. (DOURADO, OLIVEIRA e SANTOS, 2007).
Alguns fatores sugeridos por Dourado, Oliveira e Santos (2007) indicam o que venha a ser uma ―boa escola‖. Entre esses fatores está a questão da demanda, isto é, quase sempre a maior procura por uma determinada unidade escolar indica um conceito positivo da qualidade da educação que ela oferece. Os pais escolhem a escola porque, em geral, têm indícios e informações que sugerem tratar-se de uma ―boa escola‖.
A satisfação e o envolvimento do aluno no processo de aprendizagem são fundamentais para o desempenho escolar, e isso começa com a escolha da escola. Outro fator que indica tratar-se de uma escola de qualidade é o destino dos egressos. Quanto maiores as chances de se colocar no mercado e de continuar os estudos por conta de melhor preparo para tal, maiores serão os indícios de que a unidade escolar oferece uma educação de qualidade. Também tem sido considerado, entre os critérios do que é uma ―boa escola‖, o desempenho dos alunos nas avaliações externas (DOURADO, OLIVEIRA e SANTOS, 2007).
Os aspectos relacionados à organização escolar também aparecem como referência. O projeto político pedagógico coletivo que contempla os fins sociais e pedagógicos da escola, mecanismos adequados de informação e de comunicação
entre todos os segmentos da escola, a relação dos educadores com a escola, a valorização e motivação para o trabalho, o uso da hora-atividade, a qualidade do ambiente escolar e de suas instalações, ou seja, ambientes planejados, humanizadores, acolhedores e atendendo às necessidades da comunidade escolar, são considerados fundamentais para a realização de um bom trabalho (DOURADO, OLIVEIRA e SANTOS, 2007).
A gestão democrática-participativa tem-se apresentado como fator indicativo de qualidade da educação, por dar condições de estabelecimento de relações entre a comunidade do entorno (pais, alunos e professores) e a escola, e também por buscar resolução de problemas, no planejamento e nos processos de tomada de decisão. Em relação ao perfil do diretor/gestor, em escolas consideradas de boa qualidade normalmente eles têm formação inicial e continuada, experiência profissional, formação específica, capacidade de comunicação e de motivação dos diferentes segmentos da comunidade escolar (DOURADO, OLIVEIRA e SANTOS, 2007).
2.3.3.3 Nível do professor
Estudos e pesquisas (UNESCO, 2002; INEP, 2004; NÓVOA, 1999 apud DOURADO, OLIVEIRA e SANTOS, 2007) apontam para o fato de que escolas de qualidade possuem um quadro de profissionais qualificados e comprometidos com o aprendizado dos alunos. Há uma relação direta entre a boa formação dos profissionais e o melhor desempenho dos alunos. Isto significa que a qualificação docente é um fator fundamental, quando se trata de educação de qualidade. De modo geral, algumas das características dos docentes das escolas de qualidade são as apontadas por Dourado, Oliveira e Santos (2007, p. 19):
Titulação/qualificação adequada ao exercício profissional, vínculo efetivo de trabalho, dedicação a uma só escola, formas de ingresso e condições de trabalho adequadas, valorização da experiência docente, progressão na carreira por meio da qualificação permanente e outros requisitos.
Nos países em que há a valorização do professor, os salários iniciais são atraentes, há uma carreira para o docente focada no mérito e na formação ao longo dos anos, a formação inicial é sólida e compatível com os desafios da educação básica e as condições de trabalho são muito boas (RAMOS, 2010). Também é fundamental a definição da relação aluno/docente adequada ao nível ou ciclo da escolarização.
Outro ponto que se destaca nas escolas de qualidade, é a possibilidade de horário específico, na jornada de trabalho, para as atividades escolares que não sejam aulas, como estudo individualizado, o trabalho coletivo, a integração entre os docentes, o planejamento de estudos, a organização de eventos, o atendimento a alunos e comunidade, e outras atividades que vão ao encontro dos objetivos da escola. Esse tempo contribui para a melhoria do clima organizacional e, como conseqüência, para a aprendizagem dos alunos (DOURADO, OLIVEIRA e SANTOS, 2007). Outros fatores relacionados aos professores estão associados a uma educação de qualidade:
Motivação, satisfação com o trabalho e maior identificação com a escola como local de trabalho são elementos fundamentais para a produção de uma educação de qualidade. Ao sentir-se valorizado e incentivado pelo grupo, o profissional pode realizar com maior satisfação e qualidade suas atividades na escola. Verifica-se que os resultados escolares são mais positivos quando o ambiente e profícuo ao estabelecimento de relações interpessoais que valorizem atitudes e práticas educativas, o que também contribui para a motivação e solidariedade no trabalho. Tais condições parecem favorecer um desenvolvimento profissional que valoriza a autonomia do professor e o trabalho coletivo, além de apontar para um processo constante de construção da identidade profissional a partir da valorização do estatuto técnico-científico e econômico da profissão (DOURADO, OLIVEIRA e SANTOS, 2007, p.19).
O que também contribui para a educação de qualidade é a assiduidade dos professores, para que os alunos tenham aulas cotidianamente.
2.3.3.4 Nível do aluno
Como se mencionou, a satisfação e o envolvimento do aluno no processo de aprendizagem são fundamentais para o desempenho escolar. Dessa forma, estar
satisfeito e feliz com a escola em que está é fator essencial para o bom desempenho do aluno. Em geral, em escolas de qualidade o que se percebe é que os alunos gostam do modo como aprendem, isto é, as aulas e as atividades dentro e fora da escola são atraentes e envolventes, pois os professores utilizam estratégias e recursos pedagógicos adequados aos conteúdos e às características dos alunos.
Os alunos reconhecem e valorizam o trabalho dos educadores, e há uma boa relação interpessoal entre eles, e também por essa razão eles se envolvem no processo de aprendizagem. O que também contribui é a percepção de que estão aprendendo, pois projetam uma trajetória escolar, acadêmica e profissional de sucesso (DOURADO, OLIVEIRA e SANTOS, 2007).
Observa-se, pois, que a temática da qualidade da educação é bastante complexa e inquietante, na medida em que interfere na possibilidade ou não de desenvolvimento humano, tema que será tratado naseqüência deste texto.