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Ao longo de cinco páginas – três inteiras e duas pela metade -, uma reportagem roubou o sossego dos leitores naquele primeiro domingo de maio. A foto colorida ocupava toda a mancha gráfica da primeira página do Caderno Gerais, em que se via as pernas de uma possível adolescente com os pés calçados por uma sandália de salto alto dando as costas para uma boneca de pano largada sobre a calçada. Logo abaixo, rasgando a foto, uma tarja de fundo negro exibia o título de corpo gráfico avantajado: Infância Roubada.

Uma foto montada, é verdade. Uma foto, portanto, que mereceu a intromissão profissional do jornalista e do artista gráfico na sua versão final. Mas, uma foto que condensa e explicita toda a concepção editorial da reportagem. A boneca abandonada no chão indica que aquela possível adolescente ainda tinha idade para carregá-la nos braços, mas que, ao invés disso, se sustenta sobre saltos altos de sandálias que sequer ainda lhe caem bem. Esse contraste alerta o leitor para uma inadequação.

O título Infância Roubada reafirma esse contra-senso exposto pela fotografia e o caracteriza como roubo. A infância de uma parcela de crianças, na acepção da reportagem, está sendo roubada. O leitor consegue depreender, já na primeira página da matéria, que existem crianças, no Brasil, em condições de vítimas sociais. Pelo menos, essa é a direção tomada pela reportagem que se segue.

A fotografia de capa do Caderno Gerais remete o leitor à ambigüidade que permeia o tema da exploração sexual de crianças e adolescentes: a menina- criança-ingênua X a menina-mulher-explorada. Esse dilema está presente na vinheta1 de toda a reportagem, localizada à esquerda de cada página, no alto, em que uma menina esconde o seu rosto com a boneca de pano. Essa imagem carimba toda a matéria com a marca do paradoxo exposto pela reportagem: o paradoxo do

1 A vinheta é um recurso gráfico que serve para conferir identidade e unicidade à matéria jornalística. Com a vinheta, o editor

comunica ao leitor que aquelas páginas compõem uma só matéria e que elas seguem a mesma orientação editorial. Ela é muito utilizada em matérias jornalísticas extensas, que correm o risco de confundir a atenção do leitor, dispersando-o. Ao mesmo tempo, a vinheta expõe, resumidamente, a concepção ideológica do conteúdo da matéria.

absurdo representado pela realidade em que crianças deixam de viver sua infância para perambularem pelas estradas vendendo seus corpos ainda em formação por R$ 1,00 (P.27 do Anexo1).

A vinheta da menina com o rosto tampado pela boneca vem sempre seguida por uma palavra carregada de sentido (Impunidade – Submundo – Omissão – Resistência) que também norteia a leitura, uma vez que conceitua, em uma única palavra, o conteúdo da matéria tratada na página respectiva. Seguindo-se à palavra- conceito de cada página, surge um brevíssimo resumo do relato noticioso que é apresentado logo abaixo. Depois da vinheta, da palavra-conceito e do pré-texto, exibe-se a titulação da página. São quatro títulos – um para cada página -, além do título da reportagem (Infância Roubada): todos curtos e diretos em suas mensagens.

Infância Roubada utiliza um tipo de letra limpa, seca, sem qualquer

rebuscamento, bem à altura do tema tratado. Esse padrão clean só é alterado quando se trata de grafar e realçar, na página, os depoimentos entre aspas dos entrevistados e a parte reservada para a “Análise da Notícia”. Ao mudar a grafia, nessas ocasiões, o editor deseja demarcar o deslocamento do texto que passa do relato objetivo e mais imparcial para o relato basicamente opinativo, seja dos entrevistados ou do editor do Caderno, como é o caso da “Análise da Notícia”.2

A variação do tipo gráfico e de seu corpo (tamanho) é mais uma maneira que o jornalismo possui de expressar, valorizar e situar o relato noticioso para o leitor. Não seria conveniente que a diagramação, ou seja, a organização gráfica e visual do relato jornalístico utilizasse um tipo de letra romântica, por exemplo, para grafar uma reportagem sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes.

No rodapé de duas páginas, existe uma espécie de quadro super reduzido que exibe informações numéricas sobre o problema da exploração sexual de crianças e adolescentes. Esse mesmo tipo de detalhe numérico está presente na última página da reportagem, finalizando-a, antes do aparecimento dos anúncios classificados. Tanto a página 26 quanto a página 29 da reportagem cedem um espaço significativo para a veiculação publicitária.

Na página 26, o anúncio é do próprio Jornal Estado de Minas. Como esta é uma página colorida e que exibe o mapa da Polícia Rodoviária Federal sobre as rotas do crime de exploração sexual no Estado, o anúncio do Jornal aproveita para

2 A “Análise da Notícia” é um espaço circunscrito na página, em que o Jornal manifesta o seu juízo editorial sobre o assunto, na

utilizar as mesmas cores, interferindo sobremaneira no visual da página e provocando, no leitor desavisado, certa confusão de leitura. Os pequenos anúncios que finalizam a página 29 já não arriscam tanto os limites da reportagem, mas são esteticamente inoportunos.

Aliás, os dois anúncios publicitários são a grande perda estética dessa matéria que, no mais, é muito bem cuidada. O anúncio do Jornal Estado de Minas ocupando a metade da página 26 – a segunda página da reportagem – é de uma total inapropriação editorial. Um leitor sensível se pergunta se faltou conteúdo jornalístico para preencher aquele espaço da página ou se sobrou oportunismo da empresa para preenchê-lo. As duas suposições são um golpe na credibilidade do Jornal e na sua intenção de tratar um assunto tão difícil e sério como o que cerca a exploração sexual de crianças e adolescentes.

No caso dos classificados alocados na página 29 – a última página da reportagem -, embora o seu espaço esteja menos confuso na página, trata-se de uma opção infeliz para terminar uma matéria longa, de cinco páginas, extremamente bem tratada do ponto de vista da sua diagramação. Fica-se com a impressão de que o texto e as fotos da página tiveram que ser espremidos em função de cinco pequenos anúncios – dentre eles, mais um do Jornal Estado de Minas [!]

Afora a interferência negativa desses dois espaços publicitários nas páginas concedidas à reportagem, Infância Roubada faz uso de uma grande variedade de recursos gráficos e editoriais, numa clara demonstração de que esta foi uma matéria jornalística pensada e trabalhada para satisfazer aos diversos níveis de atenção e de interesse do leitor sobre o assunto.

O conteúdo informativo exibido pela reportagem é segmentado, ou seja, ao invés da matéria se prender apenas ao texto jornalístico principal de cada página, ela retira a centralidade e o impacto do grande texto e o distribui pela página, endereçando-o a cada tipo de leitor e a cada nível de investimento de leitura. Ao mesmo tempo, o manejo hábil e sutil dos recursos gráficos suavizam a página, dão- lhe movimento, dotando a reportagem de certo caráter didático e, certamente, aumentando o interesse do leitor em prosseguir com a leitura.

Além da foto em quatro cores estampada na capa do Caderno Gerais, são exibidas mais seis fotos ao longo da reportagem e um mapa localizando as rotas do crime de exploração sexual nas rodovias federais que atravessam Minas Gerais. As fotos do interior da matéria preservam a identidade dos entrevistados e as mais

factuais – embora pouco realçadas na página - são as duas que mostram o caminhão encostado na rodovia e o caminhoneiro colocando para dentro da cabine uma adolescente.

A reportagem retrata ainda o inspetor rodoviário (de perfil); um caminhoneiro (de costas) que oferece um depoimento cruel sobre a situação dessas meninas exploradas sexualmente; e, também de costas, duas vitimas dessa realidade. As fotos, em sua maioria, são ambientadas na estrada, vinculando estrada e mercado de crime sexual de forma a endossar o conteúdo da matéria.

Essa é a forma como Infância Roubada se dá a ver para o público leitor; a forma como ela se apresenta sob o ponto de vista da sua visibilidade editorial e gráfica; como ela se organiza na página e como ela se esforça para captar a atenção de leitura do público. Esse formato de Infância Roubada diz muito sobre ela, como se pode observar. Um olhar detalhado sobre as suas nuances gráficas e editoriais permite ao leitor antecipar grande parte do teor informativo ao qual ele terá acesso, na leitura da matéria.

E mais: a maneira como o conteúdo informativo dispõe da página impressa de jornal está totalmente relacionada à sua concepção noticiosa a qual, por sua vez, se remete às motivações jornalísticas que concorreram para sua seleção como acontecimento noticiável. Isso quer dizer que, analisar a construção gráfica de uma matéria jornalística é revelar e evidenciar também algo da sua noticiabilidade.

Um fator se acha vinculado ao outro. Por intermédio da forma como uma notícia ou uma reportagem se apresenta, na imprensa escrita, ao público, é possível se conhecer e se detectar muito do valor que aquele relato noticioso teve para o jornal que o reporta. Uma matéria bem posicionada e bem diagramada na página reflete para o público algo da importância que aquela determinada notícia ou reportagem tem para o veículo informativo.

A publicidade, na imprensa escrita, exibe essa noção clara e abertamente. Cada página, bem como cada quadrante de página de jornal, possui um custo diferente para o anunciante. Quanto melhor posicionado na página, ou seja, quanto mais visível, mais legível e mais ao alcance do olho do leitor, mais caro é o anúncio. O mesmo se dá em função das páginas. A primeira e a terceira páginas de um jornal são preciosas. Tudo que ali se exibe costuma ser visto e lido pelo leitor. Seu custo, portanto, é altíssimo para o anunciante.