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4. Resultater

4.9 Blodberedskap

O campo jornalístico8, sugere Pierre Bourdieu, dota os jornalistas de “óculos especiais a partir dos quais (eles) vêem certas coisas e não outras e vêem de certa maneira as coisas que vêem. Eles operam uma seleção e uma construção do que é selecionado”. (BOURDIEU, 1997, p.25) É possível constatar, então, que os jornalistas adquirem, no jogo de forças travado no interior do campo jornalístico, um

8Dentre as características de um campo, Pierre Bourdieu cita o fato dele se constituir de “um grupo especializado que afirma

olhar particular e singular da realidade, e, a partir de técnicas próprias da profissão, (re) constroem e (re) organizam essa realidade para a sociedade.

A noção de campo assimila também o conceito de profissionalização. A profissão professa certa independência e autoridade sobre determinado tipo de conhecimento, e exibe uma performance identitária e ideológica própria. Nelson Traquina define a ideologia profissional como “sistemas de crenças através dos quais os praticantes dão sentido à sua experiência de trabalho”. (TRAQUINA, 2005, v.II, p.22) Os jornalistas ou os media afirmam saber o que outros não sabem, especialmente o que é notícia e como produzi-las.

A profissionalização possibilita a criação de uma cultura própria, com valores, crenças, normas, guias de comportamento, definição de papéis, símbolos, mitos, ética. Ao agrupamento de profissionais jornalistas em torno do campo jornalístico, Traquina se refere como “tribo” - tomando emprestada a noção que o sociólogo francês Michel Maffesoli possui dos agrupamentos humanos, atualmente - ou como “comunidade interpretativa”, baseando-se em Barbie Zelizer. Essa “tribo” ou “comunidade interpretativa” que são os jornalistas deteria um modo próprio de ser e estar no mundo, de ver, de agir e de falar que traduzem uma competência profissional específica, bem como uma cultura bastante particular e rica.

Edificada sobre os valores de liberdade e democracia, a profissão de jornalista, segundo Nelson Traquina, é das mais profícuas em mitos. Talvez isso se dê em função de ser esta uma profissão que exige muita dedicação daqueles que a adotam – um jornalista, em tese, é jornalista 24 horas por dia -; por se tratar de uma atividade que, ao ser exercida, encarna a própria noção de liberdade e de democracia sobre a qual ela está assentada; porque seus profissionais são, de uma certa forma, organizadores da vida social quando selecionam, dentre as diversas ocorrências cotidianas, aquelas que são acontecimentos e aquelas que merecem ser noticiadas; porque os jornalistas narram estórias espetaculares, desvendam mistérios, denunciam os desvios cometidos em sociedade e exigem o cumprimento da lei ... Por essas e por outras razões, a imagem dos jornalistas para a sociedade em geral costuma ser a de um profissional que, de alguma forma, contribui para o bom funcionamento social.

A especificidade da “tribo” jornalística alocaria o jornalista em um tipo de lugar imaginário nomeado por Nelson Traquina de “novaslândia” ou newsland: uma terra em que os relógios dão o tom da paisagem. (TRAQUINA, 2005, v.II, p.37) Ele

está seguro de que, mais do qualquer outro profissional, o jornalista faz do tempo a medida da sua performance. Um bom jornalista é aquele que “não é vítima, mas conquistador do tempo”, diz ele. (TRAQUINA, 2005, v.II, p.41) É o tempo e o esforço cotidiano e incansável do jornalista em dominá-lo que dota a profissão de uma carga permanente de excitação e perigo, favorecendo também à mitificação da profissão.

Em conseqüência dessa relação de intimidade mantida com o tempo, a “tribo” jornalística se destacaria pelo seu pragmatismo - sob o império do tempo, não se pode pensar, é preciso agir - alega Nelson Traquina. Por isso, segundo ele, os jornalistas sofrem de uma expressiva dificuldade reflexiva, não conseguindo, muitas vezes, explicar “os critérios de noticiabilidade que utilizam no processo de produção de notícias”. (TRAQUINA, 2005, v.II, p. 45)

A esse respeito, Pierre Bourdieu relata que os jornalistas vivem na “evidência total”, uma vez que “suas categorias de percepção estão ajustadas às exigências objetivas” (BOURDIEU, 1997, p.36) ou seja, os jornalistas estão de tal forma sintonizados com a sua audiência e encaixados no formato-padrão-processo de produção noticiosa do veículo comunicativo ao qual pertencem que eles não refletem sobre os “por quês”, mas agem como se as suas atitudes fossem completamente evidentes por si mesmas.

O jornalista produz um bem – a notícia – regido pela atualidade e pela imediaticidade. Portanto, ou o jornalista se constrói como um profissional do imediato em todos os sentidos, ou possivelmente ele não teria condições de ser um produtor de notícias diárias, sob as condições de produção industrial próprias dos veículos de comunicação de massa.

2.9.1 O jornalista como um operador do tempo

O psicanalista francês Jacques Lacan criou, em 1945, o tempo lógico na psicanálise. Ele dividiu o tempo analítico em três fases: instante de ver, tempo de compreender e momento de concluir. (LACAN, 1998, p.197-213) Lacan demonstra, com a sua teoria do tempo lógico, que a psicanálise pode propiciar ao sujeito a solução de seu próprio dilema, por intermédio do manejo adequado do tempo. A solução viria com o tempo. Ou seria: o tempo é a solução? Ou mesmo: a solução

está no tempo? Um tempo certamente objetivado, trabalhado, (e) laborado no sentido de promover o deslocamento do sujeito em análise.

O processo comunicativo é todo ele permeado pelo tempo. Mas, o que interessa aqui é a comunicação objetivada na notícia, a qual, transmitida pelo rádio, pela televisão ou pelo jornal impresso, é demarcada pelo tempo, estruturada e viabilizada no tempo. A notícia é aquela que se produz dependendo do tempo que se tem para noticiá-la. Portanto, ela é o que o tempo lhe possibilita ser. E o mesmo acontece com a notícia que se lê, que se ouve e que se vê. O tempo de que dispomos para realizar essa tarefa é um dos dispositivos que nos garante o teor da informação que assimilamos.

Produzir uma notícia é, concreta e objetivamente, percorrer as três estratificações do tempo organizadas por Jacques Lacan na sua teoria do tempo lógico. O jornalista, diante do fato, atualiza, às vezes em questões de minutos, o estratagema lacaniano. O instante de ver do repórter é a sua confrontação com o fato. É quando o repórter percebe o novo, concebe a sua dimensão informativa e noticiosa. É um processo intuitivo, mas de uma intuição aprendida, desenvolvida, aperfeiçoada e valorizada dentro do campo jornalístico. É uma espécie de savoir

faire do jornalista que é endossado e partilhado pela comunidade jornalística.

No instante de ver, o jornalista já antecipa o momento de concluir. E como isso funciona? Qualquer fato é visto pelo jornalista sob duas possibilidades: ou ele é noticiável ou ele não é. Para efetivar essa seleção com presteza, o jornalista tem que ter uma boa noção do seu público: seus valores, suas prioridades, necessidades, curiosidades, costumes, etc. Ao mesmo tempo, esse profissional tem que estar afinado com as expectativas da empresa para a qual ele trabalha. Com esses dois parâmetros bem assimilados, o jornalista, ao se deparar com o fato que ele julga ser noticiável, já vislumbra o seu formato noticioso final.

Não se pode dizer, então, que o momento de concluir do jornalista - a redação da notícia e a sua publicação - seja da ordem do inesperado. Nada disso. O jornalista geralmente já termina a apuração dos dados sabendo como ele abrirá o

lead (o primeiro parágrafo da notícia, responsável pelo esclarecimento das informações básicas) da matéria na redação. Por mais surpreendente que seja um fato, o jornalista sempre olha para ele sob algum ângulo. E essa angulação, embora possa ser alterada no decorrer do processo de apuração, sempre está em consonância com o público ao qual a informação é dirigida.

E quanto ao tempo de compreender? Esse é o tempo da reflexão, do entendimento alargado, ampliado, complexificado. E o jornalista não dispõe de “capital temporal” 9 para efetuar essa compreensão que requer certo distanciamento, certo recolhimento. Impossível para o jornalista do cotidiano se ater a tal empreitada. Assim como é impossível que o formato noticioso dê conta de informar completamente o público. O lead da notícia condensa, geralmente em um só parágrafo, todas as informações básicas necessárias para que o leitor-ouvinte- telespectador possa, ele também, percorrer, em minutos, a triologia lacaniana: ver, compreender e concluir. Obviamente que ver e concluir mais do que realmente compreender - assim como o jornalista.

Pode-se dizer, então, que a lógica noticiosa incorporada pelo jornalista é uma lógica marcada pelo instante de ver e pelo momento de concluir. Trata-se de um percurso, portanto, que suprime ou encurta o tempo da compreensão. Esse tempo é repassado para o público ao qual se dirige a notícia, e que, em caso de interesse, vai se demorar sobre a notícia ou vai procurar outras fontes noticiosas complementares sobre o assunto.

O jornalista é, assim, um profissional que objetiva o tempo. Sua atividade se relaciona diretamente ao tempo de que ele dispõe para realizá-la. Quando lhe oferecem mais tempo, ele produz uma reportagem, que é uma notícia onde o tempo de compreender se expande, tanto para ele quanto para o receptor, o seu público. Com isso, é viável depreender-se que não se pode esperar da notícia o que ela não tem condições de oferecer. Seu formato condiciona suas potencialidades.

A notícia não compreende, ela mostra. A falta, a incompletude, a precariedade, tudo isso acompanha a condição de imediatismo da notícia. Impossível para o relato noticioso apreender os detalhes, ouvir todos os atores envolvidos direta ou indiretamente no fato, dar voz a todos os que desejam se manifestar, efetuar variadas correlações entre os fatos. A notícia tem que ir ao ar. O jornal tem que fechar. É preciso concluir. É a conclusão possibilitada pela urgência. É a melhor conclusão? Nunca se sabe. É a possível. A viável.

Tais limitações da notícia não querem dizer que ela é apropriada para os recém-chegados à profissão, ou que ela requisita pouco talento dos jornalistas e que ela não oferece qualquer dificuldade, podendo ser produzida de uma forma menos exigente. Pelo contrário. A notícia, dadas as suas características de imediatismo - e,

portanto, de abreviação do tempo de compreender -, exige um olhar e um savoir

faire do profissional aguçados.

É a experiência cotidiana na profissão que talha o jornalista noticioso. A notícia requer competência profissional. Condensar, priorizar, ordenar e sistematizar os dados em tempo reduzido não são funções fáceis para os inexperientes. É a lida nas redações que, com o tempo, forma o jornalista capaz de ver e concluir, em instantes, um fato noticiável, ou seja, um fato dotado de valor-notícia.