• No results found

Existe na EDISCA uma área de Psicopedagogia, coordenada por uma psicóloga que trabalha já há 15 anos na instituição. Junto às crianças e familiares, são realizadas atividades alinhadas aos valores da escola. São oferecidos atendimentos individuais com aconselhamento psicológico ou em grupos nas atividades psicoeducativas. Esta profissional realiza a atividade chamada de GRUPO, no qual são realizadas reuniões duas vezes na semana que tratam de temáticas como sexualidade, doenças sexualmente transmissíveis, racismo, entre outros temas, sempre trabalhando a autoestima das crianças.

Trabalhavam até o ano letivo de 2014, ano que iniciei minhas observações, alguns professores de canto e teatro, contudo devido a problemas financeiros foram desligados. Porém, mesmo que de forma pontual e por meio do voluntariado ainda existe este tipo de atividade na EDISCA, que são realizadas por instituições, outras ONGs ou pessoas físicas que se disponibilizam a colaborar com as crianças, como atores voluntários, diretores de peças locais, assim como regentes que fazem trabalhos pontuais com as crianças como, por exemplo, na época de natal. Estas atividades são importantíssimas, pois as crianças no palco são personagens e muitas vezes, como pude observar em alguns espetáculos a que assisti, também utilizam a voz.

Fui forçada a retrair, e infelizmente o início dos cortes deu-se na área artística. Há quase três anos, além da dança, a EDISCA tinha em sua grade formativa o teatro e o canto coral. Hoje, trabalhamos apenas com a dança, que é a linguagem mais madura da instituição. Para nós, isso foi um golpe. Acolhíamos 400 crianças e adolescentes, além de mais 100 mulheres mães ou responsáveis por nossas crianças no programa ‘A Vida é Feminina’. Para você ter uma ideia da vitalidade desse projeto, ele ganhou o Prêmio ODM do Governo Federal, que é bem importante. Há aproximadamente três anos interrompemos o programa por falta de financiamento e, pelo mesmo motivo, reduzimos pela metade o nosso atendimento. É impossível, para mim, não considerar essa circunstância como geradora de uma tremenda perda (DEPOIMENTO DA DIRETORA DORA ANDRADE EM CONVERSA REALIZADA NO DIA 19/03/16).

O corpo de professores é incentivado a conhecer cada criança de forma individual, sua história de vida e suas vivências, logo respeitando suas experiências. Os docentes encaram os educandos como construtores do conhecimento, um sujeito e não apenas um objeto.

Conhecemos todos os alunos por nome e sobrenome, assim como sabemos sua história de vida e suas principais dificuldades e limitações. Tentamos estar atentos e acredito que todos que aqui trabalham devem ter como pré-requisito para estar aqui a sensibilidade. Percebemos quando algo está errado, não apenas quando um aluno apresenta alguma lesão em seu corpo, mas quando está mais triste, ou quando deixa cair uma lágrima na sala de aula. Assim tentamos logo ajudar e encaminhar para área pedagógica, como também por diversas vezes redirecionamos o conteúdo para outra atividade e mudamos o foco (DEPOIMENTO DA PROFESSORA DE PORTUGUÊS DO FORTALECIMENTO DO ENSINO FORMAL DURANTE CONVERSA REALIZADA NO DIA 06/04/16).

Segundo a Diretora da Escola Dora Andrade, o foco é sempre no aluno. Ela entende que para que eles consigam exercer o máximo de seu desempenho na dança, tendo um potencial criativo elevado e um melhor nível de aprendizado, devem estar bem fisicamente e espiritualmente. Por essa razão, precisam estar bem alimentados, com boa autoestima, com saúde, com a visão saudável, sem cáries, sem problemas de pele, sem piolho, sentindo-se amados, com boas notas na escola, com sua família, ou mais especificamente sua mãe, bem e próxima. Tudo isso é relevante para que, na sala de dança, consigam sempre melhores resultados, por isso todos estes professores precisam caminhar juntos dando o suporte necessário para os alunos e familiares.

Durante todo o processo de acompanhamento do trabalho dos professores na escola, pude constatar que todos trabalham com amor. No decorrer das conversas, alguns chegaram, inclusive, a se emocionar falando do seu trabalho e da contribuição proporcionada às crianças.

2.3.3 Pais

Conversei com um percentual expressivo de pais, de forma individual ou em grupo, muitas vezes no momento da chegada dos alunos, mas também no final das aulas ou mesmo durante alguma atividade. Meu objetivo com essas conversas era o de conhecer melhor suas visões, percepções e sentimentos acerca da escola. É notável a grande alegria e a expectativa dos pais em relação à evolução e ao sucesso dos filhos na dança.

Os pais são oriundos de meios familiares praticamente semelhantes aos já comentados sobre as crianças: as mães, que no caso estão mais presentes na escola têm como atividades ou profissões as seguintes: mães domésticas ou denominadas por elas como doméstica do lar, mães donas de casa, manicures, cabeleireiras, mães serventes ou ainda mães que trabalham em casa na produção e venda de doces, bolos ou artesanatos, aptidões muitas vezes desenvolvidas e despertadas pela EDISCA, além de um percentual significativo de desempregadas. Os pais com os quais pude conversar, também em um evento pontual da escola, porém em número mais reduzido, possuem como ocupação as seguintes: servente de pedreiro, motoboy, pescador, zelador, porteiro, serviços gerais e um percentual de desempregados também.

As mães sobre as quais iniciei minha observação foram as mães participantes do Projeto “A Vida é Feminina” 34, isto é, um programa de incentivos, que tem a UNICEF35

como apoiadora. Este projeto, voltado para as mães, além de profissionalizar, também trabalha com o fortalecimento do ensino formal, a alfabetização, inclusão digital, grupos de convivência psicoeducativa, prevalecendo a mesma dinâmica da educação interdimensional aplicada às crianças e aos adolescentes. Este cuidado e a atenção dada às mães impactará diretamente no bem-estar, na confiança e no aprendizado da criança, como explica a psicóloga da EDISCA36.

A grande maioria dos pais tem baixo nível de escolaridade, cursaram apenas o Ensino Fundamental; somente uma mãe cursou o Ensino Médio e outra o ensino superior, porém não concluiu.

As mães e pais que conversei relataram que sempre procuram participar de todos os eventos, atividades e reuniões promovidas pela escola e manifestaram que muitas vezes estas ocasiões são um lazer para eles e suas famílias. Também muitos comentaram que na EDISCA são sempre bem recebidos pelos profissionais, que podem sempre sugerir, além de alguns poderem participar do planejamento formal da escola como detalharemos a seguir.

Durante as conversas, pude perceber o quanto reconhecem a importância e o papel da EDISCA no desenvolvimento e na formação dos seus filhos, no avanço educativo e nas mudanças no comportamento e atitudes. Assim como não deixam escapar, em seus olhos brilhando, o sonho de um futuro melhor para seus filhos e sempre falam das viagens, que através da EDISCA, seus filhos também podem vir a fazer.

2.3.4 Colaboradores

Durante as conversas realizadas, pude perceber o quanto aqueles profissionais prezam pelos seus trabalhos e como se sentem realizados por trabalharem num ambiente cheio de amor, como ressaltam. Comentam ainda que têm uma sensação de estar sempre ajudando ao próximo, mesmo os profissionais que não têm um contato tão direto com as crianças.

34 Programa de acompanhamento às mães que detalharei na análise de dados.

35 UNICEF é uma agência das Nações Unidas que tem como objectivo promover a defesa dos direitos das

crianças, ajudar a dar resposta às suas necessidades básicas e contribuir para o seu pleno desenvolvimento. A UNICEF rege-se pela Convenção sobre os Direitos da Criança, e trabalha para que esses direitos se convertam em princípios éticos permanentes e em códigos de conduta internacionais para as crianças. Disponível em: http://www.unicef.pt/artigo.php?mid=18101110&. Acesso em: 26 abr. 2014.

Em algumas conversas, pedi aos colaboradores que comparassem a EDISCA a empregos anteriores e a sua maioria relatou que em outros empregos sentiam certa impotência de ver e não poder fazer, enquanto na EDISCA eles observam as coisas acontecendo. Também presenciei nos diálogos, além de gratidão e alegria por trabalhar naquele ambiente, muito amor às crianças e à causa. Destaco a voz de uma colaboradora da cozinha.

Todos nós somos educadores aqui na EDISCA, como reforça Dora, nossa diretora, então, temos que ter postura de educadores. Ensinamos os alunos como usar os talheres, falar baixo na mesa, como se portar em uma mesa de refeição e como usar o guardanapo para que estas crianças e adolescentes não passem vergonha em um restaurante ou na casa de um amigo. Gosto muito de trabalhar aqui e me sinto muito à vontade, e isso reflete no nosso tratamento com as crianças (DEPOIMENTO DE UMA COLABORADORA EM CONVERSA REALIZADA NO DIA 06/04/16). A maior parte dos colaboradores com quem conversei já possui mais de quatro anos na ONG.

2.4 Locus

A EDISCA - Escola de Dança e Integração Social para Crianças e Adolescentes fica localizada na Rua Desembargador Feliciano de Ataíde, nº 2309, no bairro da Água Fria, situada na cidade de Fortaleza, sendo esta sua segunda sede, já que a primeira foi na praia de Iracema, ainda em 1991, época de sua fundação. Encontra-se neste endereço desde 1999.

Foto 12 - Fachada da escola

A observação in loco durou aproximadamente vinte e quatro meses, nos anos letivos de 2014, 2015 e 2016, sendo as visitas realizadas geralmente às terças-feiras ou às quintas-feiras, à unidade de observação. As visitas realizadas durante esse período de

investigação foram primordiais para que, como investigadora, pudesse conseguir formar minha opinião e tirar minhas conclusões sobre todos os aspectos observados.