Quando o neurótico entra na experiência do inconsciente ele fala da discórdia em sua família e com sua família, do drama que se alimenta desse mal-entendido familiar. Ao falar da família, fala do encontro com o gozo, os meios de gozar e do modo como se tem perdido o gozo, ou seja, da castração. Desse modo, traz à tona a forma como tem se arranjado com essa língua familiar e materna (Miller, 1993).
De acordo com Bassols (1993), há diferentes formas de responder à castração do Outro familiar: seja se identificando ao falo familiar, seja denunciando e se identificando à falta do Outro. Mas, de acordo com o autor, a saída normativa e que funda a família seria a mulher intercambiar o falo por uma criança, dando lugar à filiação e fazendo efetiva a transmissão do que nomeamos como Nome do Pai.
O autor se pergunta qual seria o destino de uma família em uma análise.
Primeiramente, afirma, não recebemos o sujeito enquanto um elemento de sua família e nem entendemos uma família como a soma de seus elementos. Essa posição diferencia o modo como a psicanálise entende e opera com a família, por exemplo, das teorias que dão sustentação às terapias familiares. Em uma análise, extraímos do discurso do sujeito os significantes privilegiados que provêm de sua história familiar. Desse modo, a família fica reduzida a um discurso com uma série de identificações e as condições que assinalam seu lugar de objeto. A análise é uma elaboração de saber na
qual o peso dos personagens familiares é esvaziado em favor das funções simbólicas. A família se desvela com sua função de fantasma para o sujeito, permitindo ou impedindo o acesso aos objetos fora dela. Nesse sentido, uma análise opera uma desfamiliarização com o mais familiar, um atravessamento dos emblemas e dos objetos familiares para decifrar seu ser de objeto e seu desejo significado no campo do Outro. A psicanálise leva o sujeito a desfamiliarizar-se consigo mesmo e a encontrar em sua história o que não se justifica por seu mito ou seu fantasma familiar e que causa a eleição do seu desejo.
O efeito disso é a responsabilização do sujeito e o rompimento com a ideia de que a causadora da neurose, de todo sofrimento, alegria ou desgraça seria a família do sujeito. Como afirma Lacan em Ciência e Verdade (1966), “por nossa posição de sujeito, sempre somos responsáveis” (LACAN [1966] 1998, p.873), apesar de levarmos em consideração aquilo que foi ofertado pelo campo do Outro. Portanto, não se trata de desresponsabilizar o sujeito localizando na família a causa de sua neurose.
É isso que Lacan indica, ao criticar os analistas pós-freudianos, em sua proposição de 9 de outubro de 1967, por terem confundido a causa do sujeito com a família. Lacan cita a ideologia edípica propiciada pela própria psicanálise e o apego as coordenadas da família. Esse apego às coordenadas do fantasma familiar e às identificações tornaram-se um obstáculo para os próprios psicanalistas na hora de conduzir o tratamento. Lacan propõe nesse texto a necessidade lógica de que o analista de sua escola vá mais além do apego ao fantasma familiar (Bassols, 1993).
Portanto, podemos entender que esse apego à família, presente no discurso que a acusa de todos os percalços na vida de um sujeito, faz parte da estratégia de idealizá-la ou enaltecê-la, fruto da própria neurose.
De acordo com Asnoun (1995), Lacan deixa a cargo do sujeito a eleição de seu ser sexuado independentemente de sua anatomia e mostra um limite ao determinismo da origem, das palavras do Outro. O analisante fala de sua família em sua análise, fala da incidência dessa história familiar sobre seu ser. Entretanto, é possível, por meio do discurso psicanalítico, elaborar uma clínica não da família, mas uma clínica do sujeito entendido como resultado de uma constelação familiar particular, que permita desfazer a determinação. Portanto, a psicanálise, diferentemente das psicoterapias, busca superar as causalidades familiares traumáticas e implicar a eleição do sujeito. O discurso analítico permite produzir o novo sobre a família, o novo entre a eleição do sujeito e o
destino de sua história familiar. Sua operação visa suspender o peso desse último fazendo surgir o que determinava o sujeito em sua repetição.
De acordo com Laurent (2007), Lacan interroga a “ideologia edipiana” denunciada por ele como uma das formas do familiarismo delirante. De acordo com Miller (1993), a psicanálise em sua versão popular tem praticado uma decifração da vida a partir da família, como se na vida encontrasse somente distintas metonímias do pai, da mãe, dos irmãos e irmãs. Assim, esse modo de apropriação da psicanálise contribui muito para a familiarização do mundo como se ela tivesse deixado se absorver pela neurose. Laurent (2007) nomeou esse processo como um familiarismo delirante que, na França, nos anos 40 serviu para evitar que se interrogasse a função de semblante (da expressão faire semblant cunhada por Lacan) da família.
Desse modo, a análise, na contramão do que produz a neurose, opera a desfamiliarização do sujeito, o atravessamento dos emblemas e objetos familiares. Trata-se de um caminho do familiar ao mais singular. Opera, portanto, a desfamiliarização do sentido familiar.
Para finalizar esse capítulo podemos afirmar que, como demonstrado por Freud no texto Romances Familiares, a família humana é mais um discurso do que um sistema de relações que inclui o modo como o sujeito se situa nela em relação ao desejo do Outro. Na experiência analítica é comum que o neurótico fale da discórdia em sua família, do drama que se alimenta nesse mal-entendido. Entretanto, sobre a família, somente podemos ter o relato que cada sujeito nos faz dela durante uma análise que se constitui como uma experiência de discurso por excelência. Desse modo, ela se revela como uma construção mítica elaborada pelo sujeito que ancora sua economia psíquica (Bassols, 1993).
Nessa mesma linha de argumentação, afirma Lucci (2007), os laços da família humana são inteiramente produto de uma articulação significante. Incluído em uma sucessão, transmite um nome e oferece ao sujeito uma inscrição simbólica. Isso permite a passagem do ser vivente ao sujeito, ao possibilitar se alojar em uma falta no campo do Outro. No sujeito infantil isso se traduz como algo que falta à mãe – Outro primordial – e se interpreta como um chamado para que venha a ocupar esse lugar, como o falo que falta a ela.
Enfim, a forma como a psicanálise de orientação lacaniana concebe a família rompe com a leitura ambientalista presente nas explicações para o fracasso escolar. Não se trata da família constituída de pessoas, mas de uma estrutura simbólica, edípica, constituída de funções. Assim, de acordo com essa perspectiva, qualquer tentativa de explicação do fracasso escolar pela via das noções de carência afetiva, ausência dos pais, desestruturação da família ou conflitos familiares, tomadas em seu caráter ambiental, torna-se insuficiente.
De acordo com Reymundo (2001), o discurso da carência afetiva cria os especialistas em Psicologia da Criança, uma vez que o conceito de carência liga as falhas reais das atenções maternas/paternas ou características da mãe/pai aos distúrbios do desenvolvimento. Para o autor, trata-se de discursos naturalizados que nos falam sobre o ideal da boa mãe/pai, do filho ideal ou da mãe suficientemente boa que frustra seu filho na justa medida, ou do mito do instinto materno. As práticas terapêuticas que tentam amenizar o conflito familiar não fazem mais do que legitimar esse discurso. O autor lembra-nos que, no Seminário 17, Lacan situa o papel materno, sempre idealizado, de outro modo. “O papel da mãe é o desejo da mãe. É capital. O desejo da mãe não é
algo que se possa suportar assim, que lhes seja indiferente. Carreia sempre estragos”
(Lacan [1969-1970]1992, p.105). Ou seja, trata-se do grande crocodilo, bocarra que pode se fechar e engolir os filhos.
Enfim, se por um lado encontramos nessa teorização lacaniana uma importante função da família para a constituição subjetiva, por outro, ela revela que a produção de um sujeito que se responsabilize pelos seus atos e suas palavras depende da operação de desfamiliarização, ou seja, o reconhecimento pelo sujeito de sua causa do desejo para além da causa familiar.