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A facilidade de acesso a motocicleta pode ser compreendida ao se analisar as profundas transformações institucionais na economia brasileira nos anos 1990, quando a indústria do país passou por um processo de radical liberalização.

Bielschowsky (2002) observa que o setor industrial, no Brasil, foi o único que entrou na fase de estabilização pós-Real, com todas as principais reformas praticamente implantadas. O autor avalia que, pelo lado favorável do investimento, contribuíram os seguintes fatores. Primeiro, o êxito no controle inflacionário. Segundo, o aumento nos salários reais em cerca de 30%, entre julho de 1994 e fim de 1997. Terceiro, o restabelecimento do financiamento ao consumo de bens duráveis após a estabilização. Quarto, o barateamento dos preços dos bens de capital até 1998. Além disso, suprimiu-se por decreto a proibição de remessas referentes a pagamentos de royalties por marcas e patentes em empresas multinacionais. Houve forte redução na tributação sobre remessa de lucros. As outras iniciativas relevantes foram as privatizações, a eliminação de restrições à “propriedade industrial” (patentes etc.), a introdução de novas regras de liberalização do investimento estrangeiro e a eliminação de controles de preços e da maioria dos subsídios e incentivos fiscais concedidos no passado pelo governo federal.

Dentre as novas regras do jogo introduzidas para a eliminação da intervenção do Estado no setor industrial, a mais importante foi, evidentemente, a abertura comercial, a transição de economia fechada e fortemente estatizada a economia aberta e com menor participação direta estatal.

O comércio140 de veículos, entre os anos de 1996 e 2003, mudou para se tornar competitivo. A abertura do mercado brasileiro gerou mais competição no comércio, a

139 O aumento da poluição ligada ao crescente uso da motocicleta é preocupante, especialmente na Ásia

reestruturação em muitas empresas, a implementação de novos métodos gerenciais, terceirizações, automação comercial e a introdução de modernos sistemas de logística. Também houve a entrada de empresas estrangeiras no mercado brasileiro por meio de incorporações e fusões (IBGE, 2003).

No segmento de veículos, peças e motocicletas aumentou a competição interna devido à entrada de novas marcas de motocicletas no país. Cresceu o volume de vendas de motocicletas e surgiram novas concessionárias e mais empresas de menor porte no Brasil (IBGE, 2003).

A partir de setembro de 1992, início do quarto semestre, a economia do país passa a exibir sinais de recuperação. Os dados do IBGE sobre PIB mostram que houve crescimento acelerado da produção141 entre o período de setembro de 1992 e março de 1993, onde a indústria cresceu 20,2%, influenciada principalmente pela produção da indústria de transformação (OLIVEIRA; SILVA, Antônio; CONSIDERA, Cláudio, 1994). O que se observa a partir de 1993 é que “[...] inicia-se uma nova etapa de ajuste; a superação do quadro recessivo, o prosseguimento do processo de abertura e o cenário de estabilização (inaugurado em 1994), fizeram avançar o processo de ajustamento da indústria através da recuperação dos níveis de investimento” (BONELLI; GONÇALVES, 1998, p. 625).

A série histórica da produção de motociclos no país apresenta tendência de crescimento no período 1986-2005 (Gráfico 10). Faz-se necessário destacar que há dois comportamentos opostos da série. Pela comparação gráfica das trajetórias das quantidades de unidades produzidas no país é possível observar que a produção de motociclos apresenta destacados crescimentos anuais a partir de 1994, com exceção do registrado no ano de 1999, onde a produção reduziu 0,4%. No período, entre os anos de 1986 e 1993, ocorrem decréscimo médio anual da produção de -8,7%, enquanto que no período de 1994 e 2004 se observa o crescimento médio anual da produção em +27,6%. A produção nacional de motocicleta, no período 1986 à 1993, reduziu 50%. A produção nacional de motocicleta, no período 1994 à 2005, aumentou 760%. Esta mudança em relação à tendência a partir do ano de 1994 pode estar associada às alterações verificadas no ambiente macroeconômico, bem

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Os dados mais recentes demonstram que tanto no estado do Amazonas como no Pará, o comércio é um setor- chave, pelo seu dinamismo e por apresentar efeito de encadeamento produtivo para frente e para trás e mostrar, simultaneamente, que tal setor criou extensa e equilibrada rede de conexões inter-setoriais a montante e a jusante (ou “efeitos em cadeias retrospectivos e prospectivos”, ou “repercussões retrospectivas e prospectivas”) (SANTANA, FILGUEIRA, SANTOS, ROCHA & JUNIOR, 1999).

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Na verdade “[...] o ritmo e a natureza da produção e circulação de mercadorias escapam inteiramente às determinações do espaço nacional tradicional para se processarem no interior de um novo circuito homogêneo transnacionalizado [...] no âmbito do qual transitam bens, serviços, homens, conhecimentos e tecnologias” (MELLO, 1999, p. 238).

como no conjunto de políticas voltadas, direta ou indiretamente, para o desenvolvimento do setor industrial. 0 25.000 50.000 75.000 100.000 125.000 150.000 175.000 200.000 225.000 86 87 88 89 90 91 92 93 Ano

Unidades produzidas Linear (Unidades produzidas)

0 100.000 200.000 300.000 400.000 500.000 600.000 700.000 800.000 900.000 1.000.000 1.100.000 1.200.000 1.300.000 94 95 96 97 98 99 00 01 02 03 04 05 Ano

Unidades produzidas Linear (Unidades produzidas)

Gráfico 10 – Evolução anual da produção de motociclos no Brasil (1986 a 2005) Fonte: Abraciclo.

Vale lembrar que os anos 1990 e 1991 constituíram um período singular para as empresas do setor industrial. Ao mesmo tempo em que enfrentaram condições econômicas particularmente adversas142, resultantes do contexto macroeconômico, o período foi marcado pelo início de um processo externo de ajuste microeconômico das empresas transnacionais do setor industrial brasileiro143.

Esta investigação indica que, no Brasil, o moto-táxi surgiu na cidade de Tefé, Estado do Amazonas, no ano de 1985, e não na data de 1996, conforme afirmado por Coelho (1997). Para Coelho o primeiro moto-táxi no Brasil havia surgido na cidade Crateús, estado do Ceará. Na realidade, o que se observa a partir do ano de 1996 é o início do rápido crescimento da utilização da motocicleta como meio de transporte remunerado de passageiro no país.

Os dados acusam que dois anos antes da expansão do transporte, em 1994, há inversão da trajetória da série histórica da produção de motociclos no Brasil. Logo, a retomada do

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Foram anos marcadamente ruins para o setor industrial brasileiro. Entre os componentes variados e mais ou menos concomitantes da aguda crise no Brasil se destacam: a) medidas antiinflacionárias extremadas, incluindo o confisco da poupança, que viraram um hiato nas operações regulares das empresas durante boa parte do primeiro semestre de 1990; b) controle de preços; c) renitentes pressões inflacionarias; d) profunda recessão interna; e) altas taxas de juros; f) exagerada supervalorização do cruzeiro (com forte baixa na taxa de câmbio); g) recessão mundial e sensível queda do valor das exportações; h) eliminação de barreiras de importação e implantação de um programa de redução de tarifas [...] Além disso, uma forte onda de críticas internacionais à política econômica do Brasil, em boa medida logo repetida pela impressa nacional, exarcebou o clima de incerteza já prevalecente nos meios empresariais brasileiros” (BIELSCHOWSKY, 2002, p. 182).

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Esse processo tem sido bastante abrangente, englobando elementos tais como importantes mudanças gerenciais, racionalização dos processos de produção, introdução de novas técnicas organizacionais, especialização na produção e redução da integração vertical - todos com vistas ao incremento da eficiência (BIELSCHOWSKY, 2002).

crescimento da produção de motocicleta (1994) é anterior a expansão do moto-táxi no país (1996).

Uma outra observação importante é que, em ambos os períodos, há um predomínio da produção de motociclos de fabricação Honda. Porém, sua participação no mercado brasileiro se eleva também a partir do ano de 1994. Entre os anos de 1986 e 1993, os dados indicam que a empresa possuía, no período, 73% da produção nacional média, para cada ano. Entre os anos de 1994 e 2004, ela detinha em média, por ano, 87% da produção no Brasil.

A produção acelerada de motocicletas no país (a partir de 1994), que precede cronologicamente a expansão do moto-táxi (a partir de 1996), e a facilidade de aquisição do veículo por meio de consórcio ou financiamento, certamente contribuíram para a difusão de aspirações e de formas de comportamento social que favoreceu a utilização crescente da motocicleta como no transporte de passageiro.

A produção brasileira é voltada principalmente para a produção de motocicletas de baixa cilindradas direcionadas para o mercado interno. As exportações são baixas quando comparadas ao volume da produção interna. As importações também são ínfimas, voltadas para segmentos de mercado de alto poder aquisitivo. Os dados mostram que grande parte das vendas nacional de motociclos é para o mercado interno, enquanto que somente uma reduzida proporção é exportada, com uma observação para o ano de 1992, onde 40% da produção foram exportados. Verifica-se que entre os anos de 1994 e 2004 as vendas para o mercado interno representavam, em média, 92% ao ano. Dos mais de trinta países que receberam a produção nacional em 2004, os países do México e Argentina têm alta concentração (TAKEUCHI, 2006). Obviamente, com o aumento do número de motocicletas produzidas e vendidas no país tem-se como resultado maior quantidade desses veículos circulando em nossas vias.

No Brasil, o crescimento das vendas internas de motocicleta, a partir da década de 1990, deve-se a vários fatores. A motocicleta vem se tornando a solução para muitos consumidores enfrentarem a queda da renda e o aumento do desemprego. Para economizar com estacionamento, gasolina e pedágio, muitos consumidores estão trocando seus carros por motos. A moto se tornou importante meio de transporte para firmas de entrega devido ao crescimento dos congestionamentos nas grandes cidades (HORIE, ano)144.

Apesar da proporção de vendas de motociclos na região Norte em relação ao Brasil ter diminuído de 11%, em 1998, para 8%, em 2005, os dados disponíveis mostram acentuado

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crescimento da proporção das vendas de motociclos no Estado do Pará e Amazonas em relação à região Norte. Para termos uma noção, dentre os 48.773 motociclos vendidos na região Norte em 1998, percebe-se que aproximadamente 4% deles foram para o Pará e apenas 1% para o Amazonas. No ano de 2005, dentre os 83.985 motociclos vendidos na região, verifica-se que aproximadamente 39% deles foram para o Pará e 16% foram para o Amazonas.

Embora até o ano de 2005 não nos seja possível descrever com precisão a correlação entre a expansão do moto-táxi e o aumento da produção de setores de atividades da indústria, comércio ou serviços devido à falta de estatísticas no Brasil, duas ressalvas devem ser feitas. Primeiro, apesar da falta de estudos, é possível que o moto-táxi contribua para aquecer uma série de atividades setoriais, como produção e venda de motocicletas e peças associadas a esse veículo. Segundo, com ou sem moto-táxi, o crescimento da produção industrial de motocicleta no Brasil ocorreria, devido a uma série de fatores, porém, a um ritmo menor com a ausência do transporte de passageiro em motocicleta.

Pode-se fazer importantes observações quanto à produção de motocicleta no país. Apesar da dificuldade de relacionar a expansão do mercado de motocicleta e o aumento do moto-táxi no Brasil, e segundo a análise dos dados é possível dizer que o crescimento da produção de motocicleta é posterior ao surgimento do moto-táxi, e anterior a vigorosa expansão do moto-táxi no país. Conclui-se que o mercado de motocicleta não é condição suficiente para o surgimento do moto-táxi, porém, ele tem elevada influência para, em tão pouco tempo, agilizar a vigorosa expansão deste transporte alternativo no país.

Além disso, se pode fazer duas outras importantes observações. Primeiro, a visível influência da estabilização econômica possibilitada pelo Plano Real para o crescimento da produção e venda de motocicletas no país. O Plano é um marco para o estudo do transporte de passageiro em motocicleta no Brasil. As evidências sugerem uma grande influência que a estabilização econômica em 1993 teve para o vigoroso crescimento da produção e vendas de motocicletas no país. Portanto, fatores econômicos no nível macro determinando a expansão do mercado de motocicleta no Brasil. Segundo, as empresas que produzem esse tipo de veículo. Dentre as empresas do setor, se destaca a multinacional Honda que antes do plano e principalmente depois do Real permaneceu com fantástica participação no mercado brasileiro de motocicletas.