Ana é uma professora de trinta anos de idade, jovem e na época da entrevista, possuía experiência de quatro anos lecionando Português para o ensino fundamental. Ana mostrava-se pessoa dinâmica, organizada e firme com a disciplina da turma. Revelou não estar muito satisfeita com a carreira do magistério. Por isso, frequentava um curso noturno e pretendia mudar de profissão.
Quando questionada sobre o uso do livro didático, ela revelou usar com frequência em suas aulas. Entretanto, em sua perspectiva, o LDP não atendia totalmente as suas necessidades e as dos alunos. Isso a fazia buscar outras atividades para complementar suas aulas.
―9. P: O livro didático eu utilizo sempre com auxílio de algum outro material porque na /10. maioria das vezes, ele não oferece suporte suficiente que possa... é... esclarecer as /11.dúvidas dos alunos e que possa oferecer conheci... é aquele tipo de conhecimento /12.que a gente busca é... fornecer para os alunos. Não é tudo que você encontra no livro/
13.didático, então alguma coisa você tem que complementar...‖ (Trechos da entrevista da professora Ana)
Para complementação de atividades, Ana fazia busca em outros livros didáticos acreditando que eles pudessem oferecer atividades e textos mais interessantes; pesquisava também na internet.
Sobre as principais dificuldades dos alunos, Ana acredita que eles precisam de mais ajuda na leitura e interpretação de texto. Segundo ela, a dificuldades dos alunos está concentrada na dificuldade de ler textos ―grandes‖ e compreender algumas palavras.
33. P: Oh... Na leitura dos textos, os alunos reclamam bastante porque os textos são /34. muito grandes, geralmente são grandes. E nas questões também eles têm bastante/35. dificuldade, tanto é que o tempo inteiro eu tenho que ficar ajudando o tempo todo,/ 36. porque eles não conseguem entender o enunciado das questões. E às vezes, assim,/37. só de você chegar e explicar o significado de uma palavra, eles já conseguem/38. resolver. É,
às vezes, é questão pouca!, é só o jeito de formular a questão que /39. dificulta o entendimento deles... (Trechos da entrevista da professora Ana)
Diferentemente dos alunos, ela acredita que eles não têm muitos problemas com os conhecimentos gramaticais, especialmente com as atividades que, segundo ela, eles realizam sem dificuldades. Para este eixo, ela usa muitas atividades complementares.
44.P: De conhecimento linguístico eu até acho que nem tanto, apesar de que eu acho/ 43. que é, em questão de... é naquela parte em que eles vêm explicando a matéria que/44. vem trazendo conceito, explicação do quê que eles estão tratando deixa a desejar um/45. pouquinho então por isso você tem que buscar complementação fora, mas na/46. questão dos exercícios eles não têm muita dificuldade com relação ao conhecimento
47. gramático não. Mas em relação à produção de texto, deste livro principalmente, eles/48. têm uma dificuldade enorme porque o tempo inteiro, o texto, o livro primeiro pede/49. que os alunos é...façam tipo um planejamento do texto, e eles não conseguem/50. entender isso (Trechos da entrevista da professora Ana).
Outra dificuldade que ela aponta é a produção de texto e a não compreensão dos alunos de que é necessário planejar o texto antes de produzi-lo.
Sobre a mediação que ela realiza nas aulas com o LDP para ajudar aos alunos quando eles têm dúvidas, Ana reafirma o uso de outras atividades porque acredita que o livro apresenta deficiências. Usa, ainda, outras estratégias como as descritas a seguir.
57. P: Na maioria das vezes é: eu utilizo outros materiais né: que possam suprir essa/58.deficiência do livro didático e ajudando também, às vezes eu coloco trabalho em/59.grupo, às vezes é: eu coloco um aluno que tem uma facilidade maior junto com um/60.aluno que tem dificuldade, né, na hora de fazer a atividade ,no mais, é isso mesmo./61.E: Pelas suas explicações e pela sua exposição.../62.P: Também. Hãhã. (Trechos da entrevista da professora Ana)
Na visão de Ana, os alunos não gostam do LDP. Para ela, isso ocorre devido às dificuldades enfrentadas pelos estudantes com a leitura e compreensão dos textos e atividades. Ela reafirma que a extensão dos textos é um problema.
64. P: Olha eu acho que eles não gostam muito não./65. E: E aí você atribuiria esse ―não gostam‖ a quê?/66. P: Eu acho que é justamente por causa dessa dificuldade que eles têm em lidar com /67. o livro. Pede... Na hora que começa a unidade, que vai fazer a leitura de um gênero, /68. por exemplo, o gênero é grande, o texto é muito grande, então eles ficam /69.desanimados e ler, aí na hora que vai fazer as atividades, eles não conseguem fazer /70.as atividades sozinhos. Então o tempo inteiro tem que ficar pedindo ajuda. Quando /71.pede para fazer a atividade em casa, a maioria vem com a atividade errada. Fazem só /72. por fazer mesmo...
73. E: E aí você acha que é por que eles não entendem realmente ou por que eles têm /74. um: desânimo, vamos falar assim, uma certa preguiça para fazer?/75. P: Eu acho, pesa as duas coisas, mas em alguns casos assim, que são alunos mais /76. dedicados, você vê que não entendeu mesmo (Trechos da entrevista da professora Ana).
Pelo depoimento de Ana, é possível observar que ela usa o LDP com frequência, mas parece não estar muito satisfeita com ele e não acreditar muito nas propostas de atividades e na seleção textual que oferece. Ela faz uso de atividades complementares com frequência como deixa claro em muitos momentos da entrevista. Para ela, os alunos não gostam do material, contudo, isso evidencia muito mais sua percepção do LDP do que realmente dos alunos. Sobre suas estratégias de mediação, ela busca diversificar um pouco, mas não faz muitas variações. Ela acredita que, ao trazer outras atividades, já caracteriza sua forma de mediar.