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I N F L U Ê N C I A S

Os questionamentos também presentes nas informações veiculadas pela RP revela-nos que igualmente se buscavam transformações: “[...] não é um arquiteto cem por cento, o

Corbusier” (R1S3); “é bom saber que existem arquitetos no Brasil que sabem que existem

outros arquitetos além de Le Corbusier” (R8S5).

Mesmo com todo o esforço em buscar a “renovação e a discussão” (R11S5) que poderia definir posicionamentos para a arquitetura brasileira a ser produzida, a RP reverencia a arquitetura internacional. Em entrevista a RP, Lucio Costa comenta:

Não existe arquitetura brasileira agora, existe arquitetura internacional, das revistas inglesas, americanas. A arquitetura é como um comboio, e a brasileira é um vagão junto com os outros. [...] Isto chocava muito, arquitetos

estrangeiros, que vinham à procura das coisas verdadeiras, antes de ver as obras autênticas, qualificadas, viam tanta coisa imitando, medíocre, e aquilo foi chateando um pouco, desgostando. [...] Hoje arquitetos brasileiros já se

sentem com autonomia de não ter que prestar homenagem ao Oscar, pedir licença ao Oscar para fazer isto ou fazer aquilo, como se fossem vassalos, já estão saturados disso e não estão satisfeitos. Todos os arquitetos brasileiros, moços e menos moços, preferem seguir a arquitetura mundial (R1S3).

Guedes (2000), em entrevista a Revista ProjetoDesign revela a sua opinião sobre a atual produção arquitetônica:

[...] a arquitetura vai mal, basta olhar para as avenidas das grandes cidades do país, que apresentam a arquitetura de Dallas, Houston etc. Toda a forma urbana sai hoje das revistas internacionais, e se sai das revistas, os nossos problemas não estão sendo considerados. Se fossem, não poderiam ter essa face...

Esse direcionamento à arquitetura internacional justifica-se, já que as propostas e pensamentos nacionalistas apresentam princípios comuns e contraditórios.

a arquitetura [...] se embaraça, emergindo às vezes sem uma definição de princípios ou colocações claras como seria o exigido. Surgem movimentos naturais, que tentam racionalizar determinados posicionamentos de uma corrente filosófica e artística, movimentos aleatórios ou com nomenclaturas para se organizar este confuso quadro (R8S3).

C O N S E Q U Ê N C I A S

A totalidade da história da arquitetura brasileira, assim, tem sido a manifestação de uma verdade, isto é, a apropriação de preceitos elaborados para a construção de cidades desenvolvidas estrangeiras, mas não brasileiras. Hoje, vivemos as cidades como testemunhas das conseqüências dessa afirmação; inegavelmente, as cidades brasileiras não se ajustaram ao desenvolvimento urbano acelerado ditado nas primeiras décadas do século XX. Nesse contexto, as favelas se firmaram como representantes físicos da deterioração das estruturas urbanas, mas que, na realidade, seriam respostas às imposições sociais, políticas e econômicas de uma população não inserida nos moldes europeus e norte-americanos.

Corremos o risco de vivenciarmos uma arquitetura construída sob os princípios de uma identidade comprometida, e, conseqüentemente, vazia de historicidade e cultura.

As idéias e os alicerces que fundamentam o campo – o barroco, o funcionalismo, o modernismo, Brasília – são transmitidos pela estrutura informacional da RP, mas ainda há questionamentos não superados sobre como entender a arquitetura e a profissão de arquiteto.

No X Congresso Brasileiro de Arquitetos, cerca de cinco mil arquitetos e estudantes discutiram a situação atual da arquitetura brasileira, sintetizada e apresentada pela RP n.2, evidenciando um campo afastado da sociedade, do canteiro de obras e da atividade de pesquisa, produzindo “espaços de expressão estereotipada por imposição do cliente ou

pressão de mercado”, sendo “expressão das classes dominantes” e explicitando sua ineficiência “na criação de novas linguagens” (R2S4).

R E N O V A Ç Ã O

A RP promulga a idéia de que é necessário recomeçar: “se nós temos tudo por fazer, a

única atitude nossa é ser otimista, eu tenho de acreditar na capacidade de trabalhar o que não está trabalhado, construir o que não foi construído, fazer o que não foi feito” (R3S3).

A expectativa da RP é que, para que a renovação aconteça, novos arquitetos necessariamente “muito competentes, bem brasileiros” (R1S3) devam surgir e fazer, de fato, arquitetura brasileira. Somente a partir daí, pode-se estabelecer o começo. “Tão importante

quanto acharmos nossos valores culturais é também expressá-los de novo modo” (R9S5). Sendo o recomeço importante, a RP conclama os arquitetos e estabelece:

É hora de reconstruir nossas idéias e nosso país. Nada pior ou melhor que uma crise. A crise gera reflexão. Reflexão de abandonar as pesquisas fantásticas que arquitetos de órgãos oficiais produzem aos montes e são “devidamente” engavetadas. Como se o Brasil se desse ao luxo de uma potência que se atirasse à pesquisa da descoberta do modulor nativo ideal. [...] É hora de trabalhar nas ruas, praças, povoados, largar as mordomias globais do sul maravilha. Esquecer as lições etilistas e estilísticas das universidades que se sufocam no próprio pó de sua mumificação. Não existem empregos. Há trabalho, e como! Vamos guardar por uns tempos as nossas guitarras elétricas, nossos sintetizadores e fazer arquitetura com cabaças e sanfonas. [...] Não vamos apagar as luzes. O que restou de uma pequena vela de esperança é a energia de acendermos novas luzes. A arquitetura é intrínseca como manifestação dos valores culturais do homem. Ela está ai. Temos que fazê-la nas suas condições sociais, econômicas e históricas. O fazer exige trabalho. Mãos à obra! (R10S1)

Sabe-se também que o campo vive as conseqüências do passado, marcado pela pouca fé nos caminhos trilhados para o futuro. O passado vivido também deixou promessas que, para a RP, devem ser sempre cobradas: “é importante que se continue a cobrá-las, porque a

memória do Homem é curta e os seus interesses mudam com facilidade” (R4S5).

A proposição da mudança estabelece para o campo a necessidade de novas posturas no que se refere ao modo de lidar com o Homem, este o denominador comum de todos os enfrentamentos: “deveremos considerá-lo igual, não importando país, região, localidade,

etc... Que o arquiteto não fique apenas em torno de alguns, mas que funcione para com o todo” (R1S2). A arquitetura deve assumir a responsabilidade pela qualidade de vida deste

Homem e, para tal, a RP sugere, por exemplo, que cargos de decisão sejam ocupados por arquitetos e urbanistas competentes traduzindo a aspiração da população.

É dito que o arquiteto é cada vez mais um profissional do qual a sociedade prescinde, mas defendemos que nossa realidade necessita arquitetos preparados para cumprir com segurança todas as etapas do processo de produção arquitetônica, desde a interpretação sociológica e econômica dos programas até o detalhamento das soluções técnicas (R1S7).

O discurso de renovação é premente também nas escolas de arquitetura: “que os

órgãos nacionais de ensino de arquitetura e urbanismo revisem suas políticas de atuação, assumindo posicionamento compatível com as condições reais de ensino de arquitetura no Brasil” (R1S7). E mais: “que as escolas de arquitetura sirvam como instrumento de

superação dos atuais estágios” (R2S4).

As proposições da novidade são colocadas como possibilidade de repensar as coisas, e também “de começar a dominar as nossas individualidades” (R4S3). Para tal, questionamentos surgem sobre como o arquiteto deve (ou pode) caminhar:

Através de uma consciência social até o processo de democratização, temos que ver qual o caminho do arquiteto, qual o caminho dessa sociedade que queremos construir. N [...] Temos de resgatar, a partir do homem, os valores que respondam a essas necessidades, para que ele não passe a ser um solitário nas multidões. Creio que é a busca de identidade do homem como pessoa; é tratar de buscar de que maneira podemos viver mais humanamente. [...] A saída é apontar e resgatar o verdadeiro conteúdo da Arquitetura que se perdeu (R5S3).

Assim, as intenções da RP ao publicar essas informações são, de uma forma, geral, possibilitar a produção de objetos e espaços tectônicos mais coerentes com o que o campo deseja. E para tal, divulga suas metas: a RP quer “unificar a vida, tornar a vida uma

totalidade, um produto final da prática humana”, promover “uma maior miscigenação e

preservação dos valores culturais do nosso povo” (R3S5).

Criam-se, também, expectativas com a própria RP: “que a simpática, morena e

num ano tutelar do nosso solo feraz e generoso e do nosso subsolo cheio de riquezas e de mistérios não sonhados. [...] Poderiam ser importantes, então, os estímulos à criação e ao desenvolvimento de linhas editoriais voltadas para a divulgação da produção teórica e prática da arquitetura entre nós” (R4S5).