• No results found

Sammenlikning med eksisterende litteratur

4 Diskusjon

4.2 Sammenlikning med eksisterende litteratur

R A Í Z E S

Tomemos como ponto de partida o conjunto de condições que cercaram o início da produção do campo tectônico no Brasil. Enquanto na Europa, a história do exercício da Arquitetura é escrita desde os tempos de Hamurabi32 e edificada a partir do século XIII, no Brasil, somente a partir do desenvolvimento industrial do século XX, começam-se a firmar os verdadeiros caminhos da “arte de construir”.

O curso de Arquitetura no Brasil foi instaurado pelo arquiteto francês Auguste de Montigny e inserido na Academia de Belas Artes em 1827. Mas sua trajetória é marcada sob

32 Hamurabi, rei da Babilônia no 18o século A.C., criou as mais antigas leis da humanidade, que tinham como

finalidade a proteção à propriedade, à família, ao trabalho e à vida humana. Apesar de todo o seu primitivismo, o Código de Hamurabi, descoberto na Pérsia em 1901 D.C., fez inscrever diversas normas que regiam as categorias profissionais da época, seus honorários e responsabilidades, referentes aos médicos, veterinários, bateleiros, além do arquiteto. Art. 229: Se um arquiteto constrói para alguém e não o faz solidamente e a casa que construiu cai e fere de morte o proprietário, este arquiteto deve ser morto. Art. 230: Se fere de morte o filho do proprietário, deverá ser morto o filho do arquiteto (IAB/SC, 2005).

fortes críticas, revelando que a arquitetura brasileira não tinha encontrado, ainda, o caminho para a concretização de sua identidade cultural.

Por um lado, essa hesitação pode ser justificável pelo fato da formação da elite intelectual brasileira estar, até o século XX, sustentada em um tripé que excluía as artes: a medicina (cujas primeiras escolas datam de 1808), as ciências jurídicas (suas duas academias foram fundadas em 1827) e a engenharia – cuja consolidação se faria no final do século XIX (Escola Politécnica do Rio de Janeiro, 1874; Escola de Minas de Ouro Preto, 1876; e a Mackenzie College de São Paulo, de origem norte-americana, 1896) (SEGAWA, 1999).

Por outro lado, havia uma segunda variável: o desconhecimento da nacionalidade. Segawa (1999, p.39) aponta que o marco inicial de uma arquitetura identificadora da nacionalidade “[...] foi a introdução do contraponto regionalista [...] como fator de renovação” - as raízes do modernismo. O autor amplia essa discussão, lembrando as críticas da época sobre a percepção de que os arquitetos brasileiros, embebidos pelo modernismo, abandonaram os preceitos da Arquitetura e Urbanismo e se voltaram para as artes plásticas.

Em entrevista a Revista ProjetoDesign, Maia (2002) reforça a necessidade de voltarmos mais profundamente às nossas raízes, colocando que “é importante que tenhamos informação de nossa própria cultura arquitetônica, porque, do contrário, vamos sucumbir nesse processo de globalização. Se não se tem história, passado, tradição, não se tem nada. Acho que esse excesso de informação e a pouca valorização do que é feito aqui aniquila nossa cultura”.

Í C O N E S

O conjunto de idéias e pontos de vista da RP constrói-se sob as bases do passado por meio de exemplos para estabelecer uma opinião, confirmar uma possibilidade ou demonstrar uma verdade - “[...] conhecer bem o passado e dele tirar as lições para o futuro. Sem isso,

caímos nos horríveis modismos de todo o tipo que andam por aí agredindo a nossa sensibilidade” (R12S6).

É possível discernir, historicamente, uma arquitetura brasileira marcada pela produção exponencial, mas individualizada de seus arquitetos modernos. É a confirmação da história da

própria arquitetura que, a partir do Renascimento, faz-se pela história de indivíduos e nomes – temos Filippo Brunelleschi, arquiteto italiano do século XIV, como seu maior representante.

Segundo Bourdieu (1999, p.109), “quanto mais o campo estiver em condições de funcionar como o campo de uma competição pela legitimidade cultural, tanto mais a produção pode e deve orientar-se para a busca das distinções culturalmente pertinentes em um determinado estágio de um dado campo, isto é, busca dos temas, técnicas e estilos que são dotados de valor na economia específica do campo por serem capazes de fazer existir culturalmente os grupos que os produzem”.

Assim é possível entender que as influências, experiências e proposições individuais servem ao campo como elementos subjetivos e colaboradores na construção de sua história coletiva.

Brunelleschi, como exemplo, é sempre alvo de apreciação da RP: “sua arquitetura

violentando toda aquela tradição gótica que invadiu um pouco a Itália, ele com suas proporções, tudo geométrico, linhas claras, são formas puras” (R1S3).

Le Corbusier é visto como referência do movimento moderno do século XX, reconhecido por sua abordagem tríplice da arquitetura que inclui os pontos de vista tecnológico, social e artístico. O que diferencia Le Corbusier de outros arquitetos, ainda que referências para o campo como os arquitetos alemães Mies van der Rohe e Walter Gropius, é “a personalidade da obra [...] todos os outros, eram arquitetos, cada um dava o seu recado

de acordo com sua lição pessoal. [...] Era coisa diferente, apaixonante, ele com aquela facilidade de expressão que tinha, extraordinária, as conferências dele eram fantásticas, sempre com casa cheia, um entusiasmo contagiante” (R1S3).

A RP considera um absurdo esnobar a obra de Le Corbusier: “é importante resgatar

Le Corbusier, um homem com grande ambição quando buscava as cidades radiantes, onde o homem tivesse seu centro de cultura, sua vida espiritual, seu lugar de trabalho por perto”

(R5S3). O arquiteto Esquivel ratifica: “Le Corbusier é um missionário da Arquitetura” (R5S3). Para o arquiteto Mario Botta, “um grande arquiteto na renovação da linguagem

arquitetônica do século XX e um profeta teórico” (R8S3).

No que se refere ao movimento da arquitetura, dita brasileira moderna, Oscar Niemeyer é ícone sempre lembrado, restando ao resto dos arquitetos acompanhar mais ou menos o que ele fazia: “o [Affonso Eduardo] Reidy, esse, aquele outro, todos mais ou menos

racionalista que havia anteriormente com esse novo elemento que dava uma certa graça, como nenhum dos grandes arquitetos anteriores havia contribuído, com elegância, um certo charme” (R1S3), de acordo com as palavras de Lucio Costa. E continua: “sem o Oscar não

teria havido esta arquitetura que surpreendeu os países europeus, a América do Norte, Japão” (R1S3).

O conjunto da Pampulha, projetado por Oscar Niemeyer é considerado “marco da

arquitetura brasileira e, internacionalmente conhecido” (R6S2). Niemeyer contribuiu com seu “estilo pessoal, para dizer algo novo em termos da arquitetura que se fazia na época” (R1S3).

Não só Brunelleschi, Corbusier e Niemeyer, mas também Villard de Honnecourt, arquiteto francês medieval do século XIII e Antonio Gaudi, arquiteto catalão do século XIX, além do brasileiro Lúcio Costa, são lembrados pela RP como indivíduos despojados que corajosamente propuseram à comunidade “construir a utopia” (R1S1), indo além dos limites do pensamento e da discussão.

A interrupção da continuidade, caracterizada como ousadia ou idealismo, é valor para a equipe editorial da RP. É o caso dos arquitetos italianos Luis Olivieri, Luis Signorelli, Rafaello Berti e o carioca Ângelo Murgel que foram vistos como “forasteiros” ao enfrentarem “o comportamento das elites então mergulhadas no positivismo e ávidas de progresso”, lançando as “sementes do modernismo” em Belo Horizonte no início do século XX (R4S6)33.

Outro exemplo é o arquiteto Sylvio de Vasconcellos, professor da EAUFMG e primeiro teórico da arquitetura mineira, e “um dos primeiros a tentar vencer as barreiras que

o povo impunha ao modernismo, com a mesma tática de Lúcio Costa, estabelecendo paralelos entre nossa arquitetura tradicional e os dogmas da arquitetura moderna, com textos irônicos e espirituosos” (R4S6).

O quadro até aqui descrito nos diz que as influências recebidas são reconhecidas e publicadas pela RP. O pensamento e obras de arquitetos são expostos pela RP para debates: Joaquim Guedes, João Filgueiras Lima, Carlos Lemos, Siegbert Zanettini, no Brasil e Louis Khan, Mario Botta, Aldo Rossi, Agustin Goytisolo, Bob Krier no cenário internacional.

33 Os edifícios da Estação Ferroviária, Prefeitura de Belo Horizonte, Santa Casa e Ibaté, foram projetados, respectivamente,