Em inúmeros textos, Sophia irá eleger o jardim como espaço de tranquilidade e sossego, lugar onde o tempo totalizador, não conspurcado pelo consumo, insurge-se como fonte de lirismo e inspiração.
O jardim, conforme Nelson Saldanha, é região de intimidade e privacidade: “O que se edifica para a privacidade é evidentemente uma parte muito especial da instalação do ser humano no mundo, uma parte que exprime em termos concretos e particulares [...] o próprio ser do homem, com suas fraquezas e seus prolongamentos” (SALDANHA, 1993, p. 27). O jardim, conforme Saldanha, expressa a fragilidade, a topografia do ser do homem. Da mesma maneira, em Sophia, podemos vislumbrar tal espaço como correlato objetivo da efemeridade humana, da caducidade de nossa condição:
Jardim em flor, jardim de impossessão, Transbordante de imagens mas informe, Em ti se dissolveu o mundo enorme, Carregado de amor e solidão. [...]
Os instantes em ti eram eternos De possibilidade e suspensão.
Mas cada gesto em ti se quebrou, denso Dum gesto mais profundo em si contido, Pois trazias em ti sempre suspenso Outro jardim possível perdido. (ANDRESEN, 2001, p.47)
Nessa região, os gestos se quebram, os instantes, apesar de eternos, são apenas possibilidades. O jardim em Sophia é signo da própria fragilidade corpórea do homem. Tal espaço registra, em sua factualidade vegetal, efêmera, a própria deficiência do ser humano, a nossa incompletude e mortalidade.
O jardim, por outro viés, é também espaço reservado da cidade e aberto para a casa. Torna-se o último recanto, o derradeiro paraíso da natureza para o homem aprisionado na urbe
de pedra. Benedito Nunes, em sucinto, mas contundente artigo intitulado “Casa, praça, jardim e quintal”, dá-nos uma precisa descrição dessa circunstância:
Outra seria a dinâmica do jardim, lugar ambíguo, que é “e ao mesmo tempo não é um parte da casa”: surja dentro ou fora dela, acrescenta ao interior doméstico do qual se desprende, o exterior da natureza sobre o qual se abre, fechando-a, porém, num recinto cultivado que a domestica. Nesse sentido, a natureza domesticada é um segundo interior, extramuros, aberto em relação à casa e fechado em relação ao exterior urbano de ruas e praças, que se afastam da natureza. Em ambos os casos, a oposição interior/exterior reverte ao constante intensificado pela cidade, entre cultura e natureza, que o jardim recobra e alivia, como um limite tanto do espaço privado da casa em relação ao público, quanto do público em relação ao espaço natural, que é, por si, o ilimitado lugar da “instalação” humana. Sem essa dialética da vida urbana, não poderíamos reaproximar-nos da natureza de que a cidade nos distanciou: a primeira reaproximação é a do olhar que a circunvaga da perspectiva da cidade, antes de circundá-la, transformando-a em paisagem. O jardim pressupõe a paisagem, assim como a paisagem pressupõe a cidade. Mas ele traria de volta o mítico envolvimento, não paisagístico, do espaço natural edênico. (NUNES, 1996, p. 37-38)
Tal como nesses apontamentos de Nunes, o jardim para Sophia é espaço circunscrito na casa e, num âmbito mais global, encarcerado na cidade vilipendiada. O jardim, assim, irrompe como região de resgate de uma força de vida, capaz de alentar e irrigar o ânimo do eu lírico de Sophia, esse eu tão fragilizado por um tempo de mercancias e de egoísmos.
Dessa forma, a antítese jardim X cidade é frequente em sua escrita e torna-se um eixo dilemático, contradição espacial a expressar as mazelas de um tempo cujo derradeiro refúgio edênico é o frágil jardim das casas burguesas. Em um poema de esmerado feitio, Sophia expressa tal contradição, antepondo o espaço da rua, lugar da dispersão, ao do jardim, lócus onde o amor se refugia repleto de medo:
Passam os carros e fazem tremer a casa A casa em que estou só.
As coisas há muito já foram vividas: Há no ar espaços extintos
A forma gravada no vazio
Das vozes e dos gestos que outrora aqui estavam. E as minhas mãos não podem prender nada. Porém eu olho para a noite
E preciso de cada folha. [...]
Creio na nudez da minha vida.
Só tenho o sentimento suspenso de tudo Com a eternidade a boiar sobre as montanhas. Jardim, jardim perdido
Os nossos membros cercando a tua ausência... As folhas dizem uma à outra o teu segredo, E o meu amor é oculto como o medo. (ANDRESEN, 2001, p. 171-172)
Três espaços se entrecruzam nesse poema, formando um mosaico fluido de interpenetrações dimensionais, costuradas pela subjetividade lírica, dispersa em um vagar melancólico e meditativo. Do interior da casa, o eu lírico olha a noite, o jardim, perscruta a cidade pelo barulho dos carros, numa entrega sofrida ao ato de refletir sobre o passado e o agora. Da casa irrompem os ecos do que já não mais existe e a solidão contamina tudo em volta, deixando a voz poética na sua completa nudez existencial. O jardim, com efeito, será evocado pela pessoa lírica como o derradeiro refúgio do amor e do medo.
Nesse poema, a oposição jardim X cidade insere a vida íntima em uma clausura, em um aprisionamento intensificado, metaforicamente, pelo encarcerar-se em si, no inferno do eu ferido pelas memórias, pelos vestígios de sua história e de seus afetos.
Aqui, conforme apontamentos de Benedito Nunes, podemos antever o espaço do jardim como o derradeiro refúgio da intimidade burguesa:
O jardim é antes de tudo um quadro da natureza viva, que combina “de maneira interessante o ar, a terra e a água com a luz e a sombra”. Tal como na bela pintura, a pintura estética, sua contemplação incita o jogo livre da imaginação: o espaço ajardinado abre para o sujeito contemplativo menos um exterior ilimitado do que o recesso de sua vida interior, de que é o espelho reflexivo. O paisagismo assinala a estetização da natureza, que possibilitaria, na urbanização da era industrial, quando se operou o recesso do espaço público, a fixação romântica, burguesa, do jardim, como refúgio da vida privada, posta à margem do movimento das ruas e imune à avalanche das multidões nas praças. Não demora muito para que o jardim se tornasse “une paysage choisi”, interiorizado enquanto estado d’alma. (NUNES, 1996, p. 38)
Conforme Benedito Nunes, o jardim é a região onde a subjetividade contemplativa encontra guarida e expressão. Com efeito, na poesia de Sophia, o estado meditativo é inerente ao espaço do jardim, lócus onde o ser se debruça sobre si mesmo, ensimesmado, numa permanente e árdua escavação do eu. A solidão, dessa forma, torna-se expressiva nessa dimensão contemplativa, onde a natureza serve como enseada, bálsamo capaz de pelo menos permitir a vazão dos solilóquios íntimos da voz poética.
Por sua vez, a partir da autorreflexão, o eu lírico devasta, em sua sede ontológica pelo sentido do mundo, as instâncias metafísicas, em que o eterno, o divino e o mortal ganham expressão pelas delicadas formas do jardim:
Jardim perdido, a grande maravilha Pela qual eternamente em mim A tua face se ergue e brilha Foi esse teu poder de não ter fim, Nem tempo, nem lugar e não ter nome. Sempre me abandonaste à beira duma fome. As coisas nas tuas linhas oferecidas
Sempre ao meu encontro vieram já perdidas. Em cada um dos teus gestos sonhava
Um caminho de estranhas perspectivas, E cada flor no vento desdobrava Um tumulto de danças fugitivas. Os sons, os gestos, os motivos humanos Passaram em redor sem te tocar, E só os deuses vieram habitar No vazio infinito dos teus planos. (ANDRESEN, 2001, p. 146)
Nesse poema, a limitação do espaço ajardinado paradoxalmente subverte-se, ganhando a prodigalidade do infinito. Um vazio sem fim instaura-se nas formas do jardim, esboroando sua factualidade, sua presença mundana. Isso faz com que tal espaço se torne impreciso, impalpável, sem referências: “teu poder de não ter fim,/ Nem tempo, nem lugar e não ter nome”. O eu lírico, por sua vez, espelha o espaço, agregando, pelo correlato objetivo, essas marcas de imprecisão do espaço. O vazio faz-se, sobretudo, na face desse eu a se autocontemplar no lócus ajardinado: “eternamente em mim/ A tua face se ergue e brilha”. A falta de precisão temporal, de marcação espacial, agregam-se, por sua vez, a dimensão da efemeridade da existência: “As coisas nas tuas linhas oferecidas/ Sempre ao meu encontro vieram já perdidas”. Tudo no poema parece esgarçar-se, flutuar no perecimento, no esvair do vento e da dança, metáfora da fugacidade do existente: “E cada flor no vento desdobrava/ Um tumulto de danças fugitivas”. Esse espaço marcado pelo vazio, por sua vez, abre-se para a manifestação do sagrado, como força viva, porém também fincada no vazio: “E só os deuses vieram habitar/ No vazio infinito dos teus planos”. Tema recorrente, o vazio é uma obsessão para Sophia e, ontologicamente, serve como antítese à busca da densidade do real.
O vazio do jardim expresso nesse derradeiro texto acentua, paradoxalmente, a contingência do espaço florido. O paradoxo de um jardim infinito serve como hipérbole a acentuar, contraditoriamente, a grande limitação desse lócus ameno.
A contundente antítese ao jardim, como veremos mais a frente, ao analisarmos o poema “Jardim do mar”, será justamente o oceano.