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Konklusjon: Folk og Land 1967-75. Fra rehabilitering til nyfascistisk

In document Folk og Land 1967-75 (sider 94-105)

De um modo geral, o webjornalismo tem tido dificuldades em conseguir explorar totalmente as potencialidades do novo meio (Paulussen, 2004; Singer, 2001, 2004, O’Sullivan, 2005). Para se referir à interactividade, Díaz-Noci (2008) utiliza a metáfora da “apresentação caleidoscópica e polifónica” permitida pela pluralidade de agentes envolvidos, para ex- plicar a descolagem do paradigma da comunicação de massas, conside- rando que é a interactividade que está a provocar “profundas mudanças na autoria da informação: o autor não é só quem propõe o texto, porque este completa-se, modifica-se, ou substitui-se através da intervenção do leitor” (p. 69).

Numa tentativa de explicar a afirmação feita no livro The Language of New Media (1999), sobre o “mito” da interactividade, Lev Mano- vich64lembra que “todas as experiências culturais, no fundo, podem ser

64 Para o investigador russo, conceitos como “virtual”, “ciberespaço” e “cibercul-

tura” deixaram de fazer sentido, considerando a realidade que esteve por detrás destas ideias nas décadas de 80 e 90. “Agora, a web é uma realidade para milhões, e a dose diária de ‘ciberespaço’ é tão grande na vida de uma pessoa que o termo não faz mais muito sentido” (cfr.

http://blog.estadao.com.br/blog/link/?title=para_lev_manovich_falar_em_cibercul tura&more=1&c=1&tb=1&pb=).

definidas como uma forma de interacção”. O autor considera necessá- rio desenvolver termos diferentes para os vários tipos de interactividade existentes. Interactividade e interacção são conceitos que se utilizam frequentemente de forma aleatória, sem distinção. Não deixa, por isso, de ser importante ver as definições de cada um destes conceitos no Dici- onário da Língua Portuguesa65. Interacção é “1. acção recíproca entre

dois ou mais corpos; 2. intercâmbio de comunicação que se processa entre indivíduos ou grupos de um sistema de signos”. Interactividade é “1. comunicação recíproca; 2. possibilidade de interacção entre indiví- duos ou elementos de um sistema; 3. (Informática) grau de intervenção do utilizador no sistema informático através da introdução de dados e comandos”. No mesmo dicionário os termos confundem-se mesmo na definição de interactivo: “1. relativo a interacção; 2. em que existe in- teracção ou interactividade; 3. (Informática) que possibilita ou implica a troca de informação entre o sistema informático e o seu utilizador”.

A ideia de interactividade surge associada à evolução dos próprios media, mas Rafaeli (1988) chama a atenção para o facto de esta ser “uma variável característica de sequências comunicativas” (p. 111) e não ser uma exclusividade dos meios de comunicação. Basta pensar- mos em muitos meios que conhecemos, que na verdade permitem muito pouca interactividade. “A expressão da extensão em que, numa dada sé- rie de trocas comunicativas, uma terceira (ou ulterior) transmissão (ou mensagem) está relacionada com o grau segundo o qual trocas prévias se referiam a transmissões efectuadas anteriormente” (Rafaeli, 1988, p. 111). O autor distingue comunicação num sentido, comunicação em dois sentidos ou reactiva (quase-interactiva ou feedback) e comuni- cação interactiva (Rafaeli, 1997). Considerando estas ideias podemos dizer que a interactividade será algo mais do que uma simples reacção. Ao estudar a interacção mediada por computador, Alex Primo (2005) analisa o conceito de interactividade sob várias perspectivas distintas: transmissiva, informacional, tecnicista, mercadológica e antropomór- fica. Como ponto de partida, destaque para elementos da Teoria Ma- temática da Comunicação de Shannon e Weaver, como a importância do canal, por exemplo. Seguindo algumas ideias de Bateson (1980), acaba por defender uma “perspectiva sistémico-relacional, que enfatiza

o aspecto relacional da interacção e procura valorizar a complexidade do sistema interactivo” (Primo, 2005, p.11). O autor propõe dois tipos de interacção mediada por computador que se contrastam: a interacção mútua (na medida em que os “interagentes” se reúnem em torno de pro- blematizações contínuas, numa perspectiva de “negociação relacional”) e a interacção reactiva (depende da previsibilidade e da automatização das trocas). Primo lembra ainda que muitos processos comunicacionais não se concretizam através de um único canal.

Pode-se então pensar em algo como uma multi-interac- ção, no sentido de que várias podem ser as interacções si- multâneas. Por exemplo, em uma situação presencial uma interacção com outra pessoa pode-se dar através da fala, de gestos, perfumes, etc. Além disso, cada um interage com seu contexto e intrapessoalmente. Já num chat, ao mesmo tempo em que se conversa com outra pessoa também se in- terage com a interface do software e também com o rato, com o teclado. Nesse sentido, em muitos casos tanto se pode estabelecer interacções reactivas quanto mútuas, si- multaneamente (Primo, 2005, p. 14).

Hanssen et al (1996) relacionam a interactividade com a participa- ção num determinado processo comunicativo, mas também com a possi- bilidade de introduzir alterações. Assim sendo, os autores estabelecem três níveis distintos: uma maior interactividade quando se realiza entre indivíduos, de forma presencial e uma interactividade mínima quando só é permitido aceder à informação, não tendo o utilizador possibilidade de introduzir alterações. No meio-termo encontramos a capacidade de interacção entre utilizadores e meios, e que, em certa medida, permite alterações nos conteúdos. O grau de participação está assim directa- mente relacionado com a existência de uma maior ou menor interacti- vidade.

Rost (2006) considera a interactividade com os conteúdos ou com a máquina, que denomina por interactividade selectiva, mas também a interactividade com outros indivíduos, que designa por interactividade comunicativa. Considerando a abordagem de Jensen (1998) prossegue,

para além da divisão entre disciplinas66, e distingue três perspectivas: a) selectiva (permite a interacção do utilizador com os conteúdos); b) comunicativa ou participativa (permite a interacção entre indivíduos); c) selectiva e comunicativa (permite a interacção com os conteúdos e entre os indivíduos). A interactividade é “a capacidade gradual que um meio de comunicação tem para dar aos leitores/utilizadores um maior poder na construção da actualidade oferecendo tanto possibilidades de selecção (interactividade selectiva) como de expressão e comunicação (interactividade comunicativa)” (Rost, 2007, p.1).

Nos estudos que realizou, nomeadamente no âmbito da sua tese de doutoramento, Alejandro Rost (2006, 2007) preocupou-se com a forma como um jornal online pode explorar ao máximo as suas possibilida- des interactivas. O autor baseou-se no modo de funcionamento de sites como Kuro5hin.org, Slashdot.org, Ohmynews, Indymedia, entre outros, e apontou um conjunto de ideias para aperfeiçoar este elemento.

Para melhorar a interactividade selectiva, Rost (2007) propõe a exis- tência de uma estrutura hipertextual mista que consiga conciliar orga- nização e liberdade, referindo que o utilizador deve poder controlar, de forma simples, a sequência de conteúdos que pretende explorar. O autor sublinha ainda a importância de procurar modelos próprios de constru- ção de notícias e de outros conteúdos para a Web como reportagens multimédia e infografias interactivas. Ainda que sem o referir explicita- mente, Rost (2007) considera a importância da memória ao referir que “as ligações a conteúdos publicados anteriormente são a chave para en- tender o background da notícia actual” (p. 376). Para além deste tipo de links, são ainda fundamentais as ligações e documentos originais que possam ser referidos como leis, decisões judiciais, etc.

No caso da interactividade comunicativa, Rost (2007:376) defende que é necessário “amplificar a voz dos utilizadores”. Por exemplo, a

66Jens F. Jensen (1998:188) identifica interactividade com interacção e aborda este

conceito em três perspectivas diferentes: sociológica (relação entre indivíduos), estu- dos em comunicação (relação do indivíduo com os conteúdos) e informática (relação entre o indivíduo e o computador). Apesar de reconhecer a utilidade desta delimita- ção, Rost (2006) lembra a dificuldade em delimitar, por exemplo, a área das Ciências da Comunicação, uma vez que nesta disciplina enquadra-se também a relação entre indivíduos.

página dos leitores deve ter um lugar de destaque no início do site, deve existir a possibilidade de comentários por baixo de cada notícia67, os lei-

tores podem ser convidados a criar os seus próprios blogs, a enviar fotos, áudio e vídeo, etc. No seguimento destas ideias, o leitor deve ter a possi- bilidade de intervir nos conteúdos, não só através dos comentários, mas também através do envio de mais informação sobre um determinado tema, sugestão de notícias relacionadas, etc. Estas novas possibilida- des comunicativas abrem também espaço para um trabalho jornalístico reforçado, nomeadamente na verificação dos factos e confirmação de dados. O autor reconhece a existência de iniciativas interessantes como as entrevistas online (síncronas ou assíncronas) e aponta para a criação de espaço para os newsmakers onde actores políticos, artistas e outros personagens do momento possam dialogar com os cidadãos. Também os jornalistas devem ser capazes de incentivar este diálogo, o que im- plica esforços, nomeadamente na área da formação. Um dos objectivos da nossa investigação passou por analisar se os casos observados cons- tituem efectivamente espaços de interacção com os leitores e se está, de facto, o público integrado no próprio meio.

Para Rost (2007), um jornal digital interactivo “deve explorar as possibilidades expressivas da linguagem hipertextual e oferecer, atra- vés de uma retórica própria da actualidade, múltiplas possibilidades de selecção de conteúdos aos utilizadores” (p. 384), conteúdos esses que podem ter diferentes níveis de profundidade. O autor atribui grande importância à participação dos cidadãos que deve ser promovida com insistência e de forma criativa, de modo a que estes possam intervir “na construção da actualidade, em distintos papéis e espaços conseguindo conteúdos confiáveis, boa visibilidade e possibilidades de transcendên- cia pública entre os conteúdos do meio” (p. 384). Na perspectiva do autor, um meio desta natureza caracteriza-se por conseguir “promover um espaço para a actuação e participação do leitor/cidadão no discurso público do meio oferecendo-lhe a possibilidade de interagir tanto com os conteúdos como com outros indivíduos (jornalistas, personalidades, outros leitores)” (Rost, 2007, p.21). Como refere Pavlik (2001), “a rela-

67No que se refere aos comentários, o autor reconhece a necessidade de edição dos

mesmos de forma a salientar os melhores e esconder os piores. Uma das hipóteses apontadas passa pelo sistema de votação dos próprios leitores, que poderiam atribuir entre 1 a 3 pontos a cada comentário.

ção mais importante de qualquer meio informativo é a que mantém com o seu público. É a base económica da imprensa comercial” (p.201). É por isso importante saber estabelecer uma boa relação com a audiência. Como já vimos o jornalismo depara-se hoje com um poder por parte dos receptores que habitualmente não conhecia. É uma forma de co- municação a que Rosental Calmon Alves (2006) chama “eu-cêntrica” (p.97), uma vez que perante as opções oferecidas pela Internet, o recep- tor tem poder de decisão, pode informar e ser informado, da forma que entender e quando assim o desejar.

Num estudo publicado em 2008, Zamith concluiu que os jornais online portugueses de informação geral de âmbito nacional aproveitam menos de um quarto das potencialidades máximas permitidas pela In- ternet. Os parâmetros analisados foram os seguintes: interactividade, hipertextualidade, multimedialidade, instantaneidade, ubiquidade, me- mória, personalização, criatividade68. “A instantaneidade é a única po- tencialidade com um aproveitamento superior a 50% (51,5%, Quadro 3), o que demonstra que, na generalidade, os ciberjornais portugueses já se desprenderam das “amarras” das classificações periódicas tradici- onais da imprensa, rádio e televisão, difundindo material jornalístico a qualquer momento, como sempre fizeram as agências noticiosas” (Za- mith, 2007, p. 14-15). Neste estudo a interactividade (assim como a personalização) ficou abaixo dos 20%, “o que confirma a grande distân- cia a que os ciberjornais “mainstream” ainda mantêm os seus visitantes e utilizadores, persistindo em produtos massificados e não abertos à es- colha e participação individual” (Zamith, 2007, p. 15). Em relação à interactividade – em certa medida relacionada com a hipertextualidade – há ainda alguns dados curiosos. Os jornais on-line portugueses de in- formação geral de âmbito nacional tinham em Novembro de 2006 um nível de disponibilização das opções de interacção inferior ao dos si- tes dos jornais norte-americanos no Verão de 1998 (Zamith, 2007, p. 18-19).

Do ponto de vista da produção jornalística, a informa- ção digital tem dois pontos fortes: interactividade com os

68A criatividade foi um elemento incluído no sentido de valorizar aproveitamentos

leitores e informação em tempo real sempre actualizada. Estas forças podem também representar fraquezas: meios técnicos e humanos para responder à constante actualiza- ção e inovação, para satisfazer e fidelizar leitores/visitantes, e sedentarização da produção jornalística. Este último é um risco para a autonomia profissional (Cascais, 2001, p. 122- 123).

Mas é aqui que a interactividade joga um papel fundamental, até porque pode ser sinónimo de “um novo canal de informação entre o jor- nalista e os utilizadores, de modo a que estes últimos se transformem em fontes de informação” (Canavilhas, 2007, p. 218). Esta ideia podia ser impulsionada com a simples indicação do endereço de correio electró- nico dos jornalistas juntos da assinatura nos textos que escrevem, o que em muitas publicações não acontece. Nas vias que poderiam ser abertas para um novo intercâmbio comunicacional permanecem assim algumas barreiras. É inegável que existiriam muitas vantagens para o jornalismo se os meios ouvissem mais os seus leitores, aceitassem sugestões e, por- que não, se os deixassem participar. Contrariando as visões da Internet como algo que revolucionaria o jornalismo, e que Domingo (2006) clas- sificou de utópicas, percebemos assim a maioria dos media analisados estão longe de aproveitar todas potencialidades permitidas pela Internet. No caso da interactividade, estudos realizados (Domingo et al, 2008; García de Torres et al, 2009), indicam que muitos meios de comunica- ção ainda não acertaram com as fórmulas adequadas para fazer com que a sua audiência participe. Chung e Yoo (2009) identificam a pro- cura de informação, a socialização e o entretenimento como três das principais motivações que levam a audiência a participar. Algumas in- vestigações (Hermida e Thurman, 2008; Vujnovic et al., 2010) revelam que os media criaram espaços destinados à participação dos cidadãos com o objectivo principal de fidelizar leitores, aumentar o tráfego nos respectivos sites e em última análise com interesses económicos. Um estudo desenvolvido na Universidade de Kentucky69 procurou identifi- car várias formas de interactividade, a utilização que os leitores fazem das mesmas, e que factores poderão sustentar essa utilização em maior

69 Ver também estudo da Universidade de Tennessee sobre três graus de interac-

ou menor grau. Com base num inquérito realizado a 542 participan- tes, o trabalho acabou por revelar que a interactividade era muito baixa (Chung, 2008; pp. 658-679).

A diferença principal do jornalismo tradicional e do webjornalismo participativo está em contar com interac- ções mais profundas com e entre os colaboradores. A rigor, sem tal participação, Wikinews, CMI, Slashdot ou Ohmy- Newsnão se realizam. Veículos tradicionais, embora pos- sam obter vantagens com a interacção com o leitor, não de- pendem necessariamente desse processo para a produção de seus produtos jornalísticos, visto que contam com assi- natura de agências de notícias e equipas de repórteres de- dicadas à elaboração de material original (Primo e Träsel, 2006, p. 15).

Gillmor considera que existem ideias interessantes que se encon- tram, por exemplo, nos fóruns do The New York Times, mas duvida que estas cheguem aos jornalistas que trabalham na redacção. “Se os jorna- listas não tomam parte na discussão, ficam apenas leitores a falar uns com os outros — e para isso não precisam do Times” (Gillmor, 2005, p. 120).

Os comentários às notícias online constituem uma das formas mais utilizadas pelos media no sentido de permitir a participação dos lei- tores. Palacios (2010) lembra, por exemplo, que a investigação sobre os comentários dos leitores no webjornalismo se tem concentrado em vertentes como a possível expansão da esfera pública através de novos espaços de debate e deliberação, a criação de novos modelos de negó- cio onde se enquadra a fidelização de leitores, os efeitos que a resolução semântica pode ter na informação jornalística e as questões éticas. No que se refere a este último ponto basta observarmos os muitos exemplos de comentários ofensivos e difamatórios que, a cada instante, invadem, de forma assombrosa e aparentemente difícil de controlar, as caixas de comentários dos jornais online.

research traditions: Users, documents and systems”, in Lievrouw, L. & Livingstone, S. (Eds.), The Handbook of New Media, Thousand Oaks, Ca: Sage, pp. 163-182.

Hermida (2011) faz referência à história do jornalismo, nomeada- mente à Inglaterra do século XVIII, quando os jornais deixavam espaço em branco para os comentários dos leitores, uma possiblidade que havia terminado com a profissionalização do jornalismo, o início da gestão in- dustrial e o aparecimento da figura do repórter. Restaram as cartas ao director sujeitas ao espaço disponível e ao crivo dos editores. Palacios (2010) estabelece um paralelismo entre a Marginália clássica, feita em livros, e os comentários dos leitores nas notícias online, tendo em con- sideração o conceito de memória. A ideia que habitualmente se refere a anotações realizadas nas margens dos livros em papel, é agora trans- posta para a Internet, referindo-se a um espaço onde os leitores têm agora a oportunidade de registar/publicar a sua opinião em relação ao trabalho jornalístico. “A Marginália jornalística na forma de comentá- rios tem como destinatários outros leitores da notícia e os seus autores” (2010, p. 119). Palacios distingue ainda a espontaneidade que caracte- riza os comentários feitos a notícias, dos comentários publicados, por exemplo, num fórum, a um tema ou uma questão determinada à partida, e refere que do primeiro caso pode mesmo resultar uma “agenda pú- blica de carácter secundário, filtrada a partir da agenda geral mediática proposta pelo veículo de comunicação” (Palacios, 2010, p. 119-120), sendo que, deste modo, o próprio processo de gatekeeping ganha uma nova dimensão (Christians et al, 2009; Deuze, 2008).

Neste sentido foi colocada a seguinte hipótese: a possibilidade de comentar os textos dos cidadãos no espaço dos jornais e consequen- temente o número de comentários gerados sublinha a predisposição dos leitores para uma participação activa.

Para uma epistemologia do jornalismo

participativo

4.1

Jornalismo público/cívico: antecendente

do jornalismo participativo?

Ainda que se refiram a práticas distintas, o diálogo, a conversação e uma maior proximidade entre jornalistas e leitores parecem ser elementos em comum entre o jornalismo público e o jornalismo participativo, o que conduziu alguns autores a uma tentativa de estabelecer proximidades e diferenças entre ambos (Bowman e Willis, 2003; Haas e Steiner, 2006, Borges, 2009).

Para estudar o denominado jornalismo público (Haas, 2006 e 2007, Rosen, 2000 e 2003, Coleman, 2003) é importante ponderar os seus antecedentes intelectuais, bem como as suas fundações filosóficas. A herança do jornalismo público teve um importante catalisador nas pro- postas da Comissão Hutchins em 1947, sobre uma imprensa livre e responsável, evidenciando-se mais tarde na campanha presidencial de 1988, nos Estados Unidos (Coleman, 2003). Historicamente devemos ainda identificar raízes do jornalismo público no início do século XX, através das ideias apresentadas por John Dewey sobre a relação entre imprensa livre e democracia.

A obra The Public and its problems (1927)1 da autoria de John Dewey, é uma resposta a dois livros publicados por Walter Lippmann: Public Opinion (1922) e The Phantom Public (1925), e constitui “um dos grandes diagnósticos da crise de legitimação da primeira grande sociedade capitalista e, em particular, uma enérgica defesa da demo- cracia popular justamente quando o capitalismo descobria nos bens de consumo e nos mass media uma nova e poderosa forma de controlo das massas” (Castillo, 2004, p. 11). Procurando identificar traços marcantes do pensamento de Lippmann e de Dewey importa referir que o primeiro defende uma concepção liberal, mais individualista ou se quisermos até elitista da democracia, enquanto o segundo defende uma perspectiva mais participativa e democrática (Pinto, 2008).

Nas obras de Lippmann estava patente a desconfiança no que se refere às ideias relacionadas com a democracia popular. O autor acre- ditava que “uma população imersa na cultura do espectáculo e do con- sumo nunca seria capaz de se constituir como uma verdadeira opinião pública” (Castillo, 2004, p. 11). Dewey (1927) depositava esperanças nos meios de comunicação de massas inevitavelmente associados à de- mocracia, defendendo a existência de um público informado e partici- pativo. Já Lippmann (1922, 1925) era céptico em relação à valorização do público e reduzia os cidadãos ao papel de espectadores, conside- rando que deveriam ser os especialistas a encarregar-se dos problemas públicos. Esta ideia era para Dewey sinónimo da demissão da própria democracia (Rosen, 2003, p. 36), por isso “contestou frontalmente esta visão, recusando que a democracia pudesse ser entendida como uma acção apropriada por pseudo-iluminados” (Pinto, 2008, p. 6). Convém ressalvar que Dewey não menosprezou a importância de especialistas nas mais diversas áreas, mas era também defensor de uma ideia mais abrangente de público, nomeadamente nos processos de decisão polí- tica. “Dois requisitos ou factores decisivos eram, porém, apontados,

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