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Det nye Europa

In document Folk og Land 1967-75 (sider 48-76)

No seguimento das ideias anteriores, e relativamente à importância de seleccionar os temas posteriormente transformados em notícias, im- porta examinar o conceito de “gatekeeper”, introduzido num artigo pu- blicado em 1947 pelo psicólogo Kurt Lewin. Tratou-se de um trabalho sobre as decisões domésticas relativas à aquisição de alimentos. Esta ideia tinha por objectivo explicar um “processo através do qual as men- sagens existentes passam por uma série de áreas de decisão (gates) até chegarem ao destinatário ou consumidor. O termo gatekeeper refere-se à pessoa que toma a decisão” (Soloski, 1993, p. 134). A noção de ga- tekeeping e a sua aplicação ao jornalismo foi desenvolvida por David Manning White, num artigo publicado em 195058. Com este trabalho, o autor procurou determinar os motivos que estariam na base da selecção ou rejeição de artigos, bem como estabelecer a importância do gate- keeper no caso específico da comunicação de massas (White, 1993, p. 143). Contudo, quando analisou os motivos apontados por “Mr. Ga- tes” para a rejeição das notícias, White constatou que “a comunicação de “notícias” é extremamente subjectiva e dependente de juízos de valor

58Neste estudo David Manning White observa a forma como “Mr. Gates”, um jor-

nalista de 40 anos, com cerca de 25 anos de experiência, que desenvolve a sua activi- dade (repórter e revisor) num jornal com uma tiragem que ronda os 30 mil exemplares, numa cidade com 100 mil habitantes. A sua tarefa passava por fazer a selecção diária de informações provenientes de três agências noticiosas.

baseados na experiência, atitudes e expectativas do gatekeeper” (White, 1993, p.145) que seria assim uma espécie de porteiro ou guardião. Esta metáfora é adoptada pelo autor para explicar a selecção de notícias. O procedimento caracteriza-se pelo momento em que é decidido publicar uma notícia e não outra. White considera o papel de gatekeeper muito importante no processo de comunicação, mas acredita que as suas deci- sões são subjectivas, reconhecendo elementos que podem condicionar a decisão, como o factor tempo. Após muitos estudos realizados nin- guém duvida que existem outros parâmetros relevantes para a decisão de seleccionar uma história e não outra, para além da subjectividade do jornalista, como é o caso dos constrangimentos organizacionais e da relação com as fontes.

Os profissionais do jornalismo têm necessariamente de, em cada momento, mediante complicados processos de se- lecção e avaliação, construir relatos e interpretações, a par- tir de dados e informações que procuram e recolhem de diferentes modos e em diversas fontes. O processo pro- dutivo ocorre frequentemente em condições de pressão – desde logo de espaço e de tempo – que exigem a definição de critérios de classificação e a implementação de rotinas de produção, para fazer face à imprevisibilidade e multipli- cidade de áreas das ocorrências da vida social (Pinto, 1999, 84).

Numa altura em que, hipoteticamente, todos podem publicar na Web, a teoria do gatekeeping deixou de fazer sentido? Que importância têm estas funções de filtrar, seleccionar e organizar a informação numa era caracterizada pela publicação ilimitada e consequente abundância informativa? Para Jane Singer (2008), se o jornalista perde a função de gatekeeper perde o pilar onde assenta a sua profissão. Segundo Breier (2004), apesar das transformações na relação entre emissores e recepto- res dos media, o conceito de gatekeeper não foi eliminado, mas ganhou uma nova dimensão. Por considerar que esta ideia deixou de fazer sen- tido perante a facilidade de publicação na Web e o contexto em que esta se desenvolve, Axel Bruns (2005) introduz o conceito de gatewatching que podemos associar ao jornalismo participativo e à possibilidade de

qualquer cidadão poder participar no processo noticioso. “Na Web, as práticas de gatewatching são omnipresentes, assim como são comuns as práticas de gatekeeping noutros meios” (Bruns, 2005, p. 11). O autor aborda a ideia de colaboração nas notícias tendo em especial atenção al- guns exemplos concretos como os sites Indymedia, Slashdot, a própria Wikipédia, os blogs, entre outros. Neste sentido, muitos dos elemen- tos que caracterizavam as funções inerentes ao gatekeeping deixaram de fazer sentido. Por um lado, a selecção imposta pelo simples limite de espaço nos jornais, ou de tempo, na televisão e na rádio, e, por ou- tro lado, a própria enumeração de critérios de noticiabilidade parece ser alargada porque, hipoteticamente, tudo pode ser publicado.

Bruns considera o modelo de gatekeeper utilizado pelos media tra- dicionais ultrapassado pela abertura à colaboração e pela ausência de mediação e intervenção editorial. Para além disso, o tradicional guar- dião ou porteiro passa assim também a ser vigiado. Gatewatching é a “observação dos portões de saída da informação noticiosa e outras fon- tes, no sentido de identificar material importante assim que ele esteja disponível” (Bruns, 2005, p. 17). Podemos reconhecer a existência no papel que muitos bloggers desempenham diariamente nas mais diversas áreas. O autor vê assim a necessidade de algumas alterações no próprio papel do webjornalista a quem passará a caber a função de direccio- nar os leitores para as informações do seu interesse. O autor compara estas funções às de um bibliotecário, alguém que “observa o material disponível e interessante e identifica informação relevante, com vista a canalizar este material em notícias estruturadas e actualizadas que po- dem incluir guias para conteúdo relevante e excertos de material selec- cionado” (Bruns, 2005, p. 18). “O gatewatcher combinaria funções de bibliotecário e repórter” (Primo e Trasel, 2006, p. 8). Ao utilizar a metáfora do bibliotecário, Bruns adianta ainda que os “bibliotecários” on-line, ao contrário dos tradicionais, estão necessariamente envolvi- dos na publicação. Estamos assim perante uma mudança de paradigma caracterizada pela passagem do jornalista tradicional como gatekeeper para uma espécie de gatewatching colectivo, onde a abundância infor- mativa e o espaço ilimitado da Internet fazem com que o mais plausível seja agora indicar onde estão os dados mais interessantes e relevantes (Masip, Díaz-Noci, Domingo, Micó-Sanz, Salaverría, 2010, p. 571).

Em muitas circunstâncias, qualquer utilizador tem possibilidade de aceder a documentos e fontes de informação, acrescentando ainda os seus próprios comentários e “a própria estrutura hipertextual favorece a referência às fontes primárias da notícia, de modo que o repórter fique livre da necessidade de condensar todos os dados no seu próprio texto” (Primo e Trasel, 2006, p. 8).

A empresa jornalística é composta por todo um conjunto de profis- sionais onde o editor (ou editores) ocupa um lugar central. Existe uma avaliação de notícias, uma aceitação ou recusa de determinados temas a tratar, de acordo com a linha editorial do órgão de comunicação. Hoje é possível falar de um “gatekeeping misto” (Alonso e Martínez, 2003, p. 279), no sentido em que a selecção já não depende unicamente do emissor (como nos recorda o clássico modelo de Lasswell) mas também do receptor, uma relação que tem vindo a ser completamente alterada com base na interactividade e participação activa. Mas, não podemos confundir o facto de qualquer pessoa poder emitir mensagens na Inter- net, com o trabalho profissional desempenhado pelo jornalista, “uma ta- refa que deve oferecer garantias de veracidade, rigor, e comportamento ético” (Edo, 2003, p. 13).

Um estudo de Shoemaker, Johnson, Seo e Wang (2010) compara os valores das notícias dos leitores no Brasil, na China e nos Estados Uni- dos. Neste trabalho, os autores procuraram analisar o papel dos próprios leitores como gatekeepers das notícias online. Considerando o poten- cial interactivo da Web, os autores salientam aspectos como a possibili- dade de comentários, o envio de notícias via e-mail, a existência de um arquivo, a partilha de informação nas redes sociais e a classificação dos artigos publicados. A movimentação dos utilizadores e as actividades desenvolvidas num determinado espaço informativo permitem conhe- cer quais as notícias mais lidas, as mais comentadas e as mais enviadas, dados normalmente disponíveis em grande parte dos jornais online. A anteceder este processo está todo um trabalho profissional. “Enquanto todo o mundo pode fazer um levantamento do meio envolvente e julgar o valor noticiário de um evento, os jornalistas são pagos para fazer um levantamento do mundo para o resto de nós (Shoemaker, Johnson, Seo & Wang, 2010, p. 64).

Para estes autores, a avaliação das notícias por parte dos utilizadores evidencia também que a audiência tem agora mais poder no processo de gatekeepinge falam por isso num fenómeno que designam por audience gatekeeping, no sentido em que os utilizadores fornecem informações e sugestões de leitura uns aos outros.

O novo papel da audiência no gatekeeping é represen- tado no modelo revisado de gatekeeping como um terceiro canal pelo qual as informações podem fluir, que mostra como as audiências das notícias on-line podem influenciar, através dos seus comentários sobre os itens de notícias, as decisões subsequentes das fontes e dos jornalistas. Este modelo novo ilustra o fluxo mais circular das informações e um aumento substancial do poder da audiência dentro do processo de gatekeeping (Shoemaker, Johnson, Seo e Wang, 2010, p. 65).

Não será demais sublinhar que, segundo este trabalho de investiga- ção, “os leitores estão interessados no esquisito e incomum, eventos im- previsíveis ou que assustam” (Shoemaker, Johnson, Seo e Wang, 2010, p. 72). Neste estudo comparativo, os autores confirmam que há um au- mento do processo de gatekeeping quando os leitores comunicam uns com os outros, sendo que as suas opções podem não ser o reflexo dos valores das notícias dos jornalistas. Algumas investigações (Hermida e Thurman, 2008; Domingo et al, 2008) têm demonstrado que os meios de comunicação continuam a preservar o papel de gatekeeping e con- trolam a participação.

João Canavilhas (2010) analisou o potencial das redes sociais na re- distribuição de conteúdos informativos defendendo a existência de “um novo tipo de gatekeeping desenvolvido pelos media nos canais sociais, mas também por cidadãos com prestígio (gatewatchers) em torno dos quais se constroem comunidades virtuais” (p. 1). No seguimento desta ideia é possível dizer que os leitores se assumem como gatekeepers no sentido em que seleccionam e difundem determinados conteúdos in- formativos para os membros da sua rede pessoal de amigos (nomeada- mente quando falamos no caso do Facebook).

Esta realidade permite verificar que à primeira acção de gatekeeping dos jornalistas, segue-se uma segunda prota- gonizada por utilizadores de referência, porém esta segunda acção de selecção apresenta características diferentes da an- terior: já não se trata de seleccionar/resumir informação, mas sim de indicar pistas de leitura (Canavilhas, 2010, p. 5).

No contexto das redes sociais, o autor vê os gatewatchers como di- namizadores da comunidade, e conclui que existe uma relação entre a publicação do link para uma notícia e o aumento do número de leito- res dessa mesma informação. Mas, o aumento do número de visitas é distribuído ao longo do dia ou seja, não se verifica um aumento brusco, mas uma progressão linear do número de visitas. “Esta constatação per- mite dizer que as leituras não resultam de visitas de impulso resultantes do surgimento da referência no mural, mas de uma pesquisa dos ami- gos/seguidores no perfil do gatewatcher” (Canavilhas, 2010, p. 9).

Singer (2013) argumenta que a visibilidade dos temas pode agora ser determinada pelos utilizadores, sobretudo se pensarmos em redes sociais como o Facebook onde, mais do que fazer comentários, os uti- lizadores podem partilhar conteúdos. A autora considera que a parti- cipação online facilita o processo de gatekeeping em duas etapas. Os jornalistas continuam a decidir o que publicar tendo em conta certos critérios. “Contudo, os membros individuais da audiência agora são gatekeeperssecundários para um grupo diferente de pessoas, talvez al- guns entre a audiência do meio de comunicação original e outros pro- vavelmente não” (Singer, 2013, p. 4). O gatekeeping converteu-se num processo mais colaborativo. “O resultado é um processo de gatekee- pingem dois passos, no qual as decisões editoriais iniciais de recusa ou inclusão de um ponto no produto informativo são seguidas de decisões dos utilizadores em dar mais ou menos visibilidade a esse tema para una audiência secundária” (Singer, 2013, p. 13). Por isso, a autora sustenta que “há mais gatekeepers que nunca” (Idem).

A questão fulcral aqui é que podemos não estar somente a falar na difusão de conteúdos jornalísticos, mas de todo o tipo de informação. Não é por acaso que os media têm também a sua própria conta nas re- des sociais, onde encontram uma nova forma de difusão de conteúdos

criando simultaneamente novas dinâmicas com os leitores. Elementos que, por algum motivo não são publicados num jornal, podem ser dados a conhecer num qualquer outro espaço da Web e replicados depois nas redes sociais. Aqui voltamos a uma questão base que consiste em cons- tatar que, se por um lado, tudo pode ser publicado, a verdade é que nem tudo pode ser lido. Bruns fala de um outro conceito, publicizing, que contrapõe a publishing, no sentido de evidenciar a necessidade de dar relevo a determinado tipo de informações para que elas se destaquem, através de links (Bruns, 2005, p. 19), etc. Na sua argumentação, Bruns define a relação entre produtores e consumidores numa nova realidade em que estes dois pólos se confundem como “produsers” (Bruns, 2005, p. 23).

Como menciona Singer (2003), profissionais de organizações como o The New York Times ou a CNN repartem o espaço da web com uma enorme variedade de produtores de conteúdos distribuídos on-line e que “podem legitimamente reivindicar-se como formas de jornalismo” (p. 147). “Na Internet, ninguém tem de ser um gatekeeper, mas todos po- dem ser”, defende Niles (2010) sublinhando que a informação flui agora por mais intermediários do que nunca e dá o seguinte exemplo: uma de- terminada fonte publica um tweet, que aparece depois em blogs, é cap- tado por uma rádio, publicado num jornal e posteriormente divulgado numa rede social, pode dar origem a comentários, novos tweets, etc., naquela que na prática é a aplicação do modelo de Bradshaw explanado no ponto que se segue.

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