8.1 Porter’s Five Forces analyse
8.1.4 Konklusjon fra Five Forces-analysen
(expandido) SISTEMA MUSICAL (concentrado) FONEMA CONSONANTAL [6 a 95] FONEMA VOCÁLICO [3 a 46] FONEMA VOZEADO SINCRÉTICO [1] QUASE-SÍLABAS
Dessa primeira aproximação entre os dois sistemas extraímos uma conseqüência surpreendente. Se um instrumento musical é de fato um mecanismo gerador de “fonemas” e “prosodemas”, ainda que de um tipo muito especial, então uma cadeia melódica deve ser constituída de grandezas funcionalmente idênticas às sílabas.
Essa conclusão, que contraria nossa intuição do que seja uma sílaba, perde muito de seu caráter paradoxal quando refletimos sobre uma dicotomia aparentemente inofensiva como letra/melodia. Empregamos essa expressão tão espontaneamente que chegamos a nos convencer de que “letra” e “melodia” são duas instâncias independentes, a ponto de podermos cantar uma melodia “sem letra”, ou então recitar uma letra “sem melodia”. Mas essa é apenas uma meia verdade.
De fato, podemos extrair os versos, as frases e até as palavras da melodia de uma canção, mas não suas sílabas. Isso porque a sílaba, ao contrário do verso, da frase e da palavra é uma unidade do plano da expressão e, nesse sentido, toda melodia tem que ter uma “letra”. Por essa razão, as sílabas que acompanham a melodia de uma canção não
de nenhum dos funtivos que entram num sincretismo.” Prolegômenos, p. 95. Cf. também CARMO Jr, J.R. (2002) Plano da expressão verbal e músical: uma aproximação glossemática, p. 45-57.
50As línguas naturais apresentam sistemas que variam entre 6 a 95 fonemas consonantais e entre 3 a
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podem simplesmente desaparecer, ainda que essa melodia seja transposta para um instrumento musical.
Como não podemos abrir mão das sílabas, quando cantarolamos uma melodia sem “letra” – ou seja, quando empregamos o aparelho fonador como um instrumento exclusivamente musical –, o que de fato fazemos é produzir uma seqüência de sílabas indistintas (lá, rá, iá...etc) às quais não está associado nenhum elemento do plano do conteúdo. Em vão tentaremos cantar uma melodia sem produzir sílabas.
O mesmo ocorre quando a voz é substituída por um violoncelo, um trompete, ou qualquer outro instrumento musical. As sílabas da letra da canção têm que ser substituídas por uma grandeza que partilhe de algumas de suas propriedades (caso contrário não poderíamos falar em substituição). Essa grandeza, porém, não pode ser uma sílaba ordinária, pois vimos que, por possuírem um conjunto ressoador imóvel, os instrumentos são incapazes de produzir fonemas ordinários e, em conseqüência, sílabas ordinárias.
A sílaba “extraordinária” produzida pelos instrumentos musicais é uma grandeza sincrética que contém traços não específicos a todas as sílabas, e por essa razão, pode substituir qualquer uma delas, neutralizando os traços específicos que as opõem entre si51.
Esse raciocínio ajuda-nos a compreender porque lógos e mélos são universos semióticos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes. No universo do lógos, as sílabas são grandezas mínimas com as quais construímos os radicais e os morfemas de flexão e de derivação que servirão como expressão de conteúdos. Precisamos de certo número de sílabas diferentes entre si – de fato alguns milhares delas52 –, para podermos
construir as palavras e, com estas, as frases que compõem os textos. Pode-se dizer, então, que o sentido verbal se inicia já no jogo combinatório das sílabas e de seus componentes (os fonemas).
Mas no universo do mélos, ao contrário, as sílabas são como casas vazias cuja finalidade principal é veicular as grandezas de altura, duração e intensidade. O sentido aqui brota das relações entre essas grandezas e, assim sendo, quanto menos perceptíveis as diferenças entre as sílabas, melhor. Daí que, embora possamos cantarolar uma melodia
51 O número de membros de uma classe é inversamente proporcional ao número de traços que a
definem. Como a classe dessas sílabas hipotéticas tem os traços de todos os fonemas sonoros, ela somente pode ter um único membro.
52 O número de sílabas de uma língua natural é bastante variado, indo de poucas 162 no havaiano e
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com uma seqüência silábica qualquer, a tendência é a de introduzir um padrão reiterativo (lá, lá, lá...por exemplo) que, exatamente pelo efeito de redundância, é não significativo.
Num instrumento musical as sílabas extraordinárias são tão caprichosamente iguais entre si que acabam por “desaparecer” da superfície do texto. É quando as linhas e os contornos melódicos de altura, duração e intensidade parecem então flutuar sobre o “nada”. Mas é exatamente por enunciar uma sílaba assim evanescente que um instrumento musical pode criar o efeito de sentido de que está dizendo algo.
Tal explicação, fundada em critérios distribucionais, nos faz compreender as analogias existentes entre o aparelho fonador e os instrumentos melódicos, e o rearranjo que necessariamente ocorre quando uma melodia cantada – com ou sem texto – é executada por um instrumento musical. Essa nos parece uma hipótese promissora para explicar porque o aparelho fonador pode ser um instrumento a serviço de dois sistemas semióticos distintos, mas aparentados, como o lógos e o mélos.
Chamaremos essa sílaba indistinta de quase-sílaba e a grafaremos σ. Ela encontra uma materialização quase perfeita no vocalise:
“Entende-se por vocalizo (sic) uma longa melodia cantada sobre uma vogal (portanto, sobre uma única sílaba). Muitas vezes este termo designa exercícios vocais, pelo que hoje em dia tem uma conotação pejorativa; no entanto, desde tempos remotos até o início do século XIX foi grande o interesse pelo vocalizo e freqüente a sua utilização para fins artísticos”. 53
A cantilena da quinta “bachiana” de Villa-Lobos, para voz de soprano e orquestra de violoncelos, é uma boa ilustração dessa técnica vocal [faixa 1]:
53HENRIQUE, L. (1987) Instrumentos musicais, p. 376.
Cantilena, “Bachianas brasileiras n°5, Heitor Villa-Lobos
etc [†]
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Este exemplo é particularmente instrutivo porque a melodia cantada em vocalise é repetida integralmente a seguir pelo violoncelo. Assim, temos duas seqüências que diferem num único parâmetro: como a sílaba [†] não pode ser realizada por um violoncelo, ela é substituída pela quase-sílaba [σ], dando conta desse substrato comum que observamos nas duas melodias [faixa 2]:
Mas uma demonstração cabal da existência de quase-sílabas pode ser encontrada na técnica da bocca chiusa (boca fechada). Esse tipo de técnica vocal consiste na emissão das notas com os lábios cerrados, sem a participação de qualquer um dos articuladores ativos do conjunto ressoador do aparelho fonador, de modo que, assim como num instrumento musical, nenhuma articulação acompanhe as variações prosódicas. Na [faixa 3], é possível ouvir a mesma cantilena de Villa-Lobos, agora executada com essa técnica vocal.