Observando o conjunto das respostas dos estudantes relacionadas ao significado do ER, constatamos que 06 (seis) confirmaram a existência de significado, mas com uma explicação de certa forma vaga, sem clareza, como mostram as respostas seguintes:
“Muitas coisas” (EC1; EC8); “Muitas coisas boas” (EC5);
“Quase nada” (EC9);
“Ensina muitos assuntos interessantes” (EC20); “Uma coisa muito boa” (EC26);
“Interessante” (EC39).
Nas respostas dos estudantes elencadas nesta categoria, percebemos que a maioria deles aparenta admitir um significado ao ER. Contudo, eles não deixam claro qual seria esse
significado (EC1; EC8; EC5; EC20 e EC26 ). As respostas do EC9 e EC39 parecem revelar uma dimensão diferente. Para eles, o ER de certa forma, possui um significado, “Quase nada” (EC9) e “Interessante” (EC39).
Ao utilizar o termo “quase”, EC9 não descarta totalmente a ausência de significado do ER. Esse termo parece definir um significado menor em relação aos demais estudantes. Da mesma forma EC39 ao classificar como “interessante”, aparenta encontrar um significado no ER, mas não conseguiu expressar qual seria.
Já os demais estudantes utilizam advérbios de intensidade, talvez, revelando maior intensidade relacionada ao significado que atribuem ao ER. Eles expressaram em suas respostas o adverbio de intensidade: muito (EC26), muitos (EC20) e muitas (EC1; EC8 e EC5).
Vase ressaltar que somente EC20, destacou um termo “assuntos” sinalizando algo que considera significativo no âmbito de ER – os assuntos. Ao declarar “muitos assuntos interessantes”, é provável que este estudante encontre nesses assuntos alguma ligação com a sua vida. Ou, de certa forma, que estes assuntos representam um tipo de congruência enquanto representando o “meio” e a estrutura do estudante, possivelmente, capaz de gerar mudanças. Desse modo, aparentemente, sua expressão “assuntos interessantes” sinaliza um acoplamento estrutural (MATURANA; VARELA, 2001, p. 115).
Para estes autores, o meio funciona como um “contínuo seletor” das mudanças. Estas mudanças, porém, ocorrem como numa via de mão dupla, pois tanto organismo (o estudante), como o meio, no caso, os assuntos de ER, são modificados simultaneamente. Ao admitir que o ER “ensina muitos assuntos interessantes” este Colaborador poderá está expressando uma conexão, ou uma ligação entre o que é trabalhado e a sua experiência pessoal, a sua subjetividade.
Dessa forma, a expressão “assuntos interessantes” sinaliza indícios da efetivação de uma comunicação entre o estudante e os assuntos permeada pela emoção que os referidos assuntos geram, potencializando mudanças.
Tratando das mudanças necessárias ao processo de formação humana Gonsalves (2012), aborda alguns elementos indispensáveis à prática educativa. Dentre estes destaca a questão do comunicar associado à emoção. Para esta pesquisadora,
a comunicação não envolve apenas a informação e, por sua vez, a informação por si só não gera mudança de comportamento. Entre a informação e a mudança de comportamento existe um espaço, uma lacuna que só é preenchida pelo significado que atribuímos. E esse significado é, necessariamente, comprometido emocionalmente. Assim, para ocorrer a mudança comportamental é preciso tocar na emoção das pessoas (p. 59).
Ao declarar “muitos assuntos interessantes”, EC20 sinaliza uma ligação emocional entre a sua estrutura interior, a sua subjetividade que abrange o aspecto emocional levando-o a encontrar significado no ER enquanto um componente curricular.
O reconhecimento do significado do ER por parte de estudantes também foi constatado por Holmes (2010). Segundo esta pesquisadora:
Considerando suas preferências pela disciplina, a representatividade das aulas de ER para eles, os conteúdos estudados, avaliação das aulas e a importância do livro didático, fica evidente que estes já conhecem a importância desse componente curricular na escola e que tem muito a contribuir na formação cidadã (p. 148).
Em sua pesquisa, Holmes (2010) investigou as preferências pelas disciplinas com estudantes do 8º e do 9º ano. Ela constatou que, no conjunto das disciplinas, a preferência dos estudantes do 8º ano pelo ER ocupa a 3ª posição e dos estudantes do 9º ano, ocupa também a 3ª posição (p. 149), pois empatou com História. Esse dado revela que no conjunto de 9 (nove) disciplinas do ensino fundamental os estudantes do 8º e 9º ano apontam uma posição privilegiada para o ER, 3ª posição na ordem de preferência.
No caso do 8º ano este componente curricular foi antecedido por Educação Física (20%) e Português (18%), ao passo que, Ensino Religioso obteve (16%) na ordem de preferência dos estudantes. Já no 9º ano o ER foi precedido por Matemática (18%), Educação Física (16%) e História (14%). Esta última, entretanto, comparada ao percentual de preferência do ER apresenta-se na posição de empate, pois ambas obtiveram (14%). Esse dado confirmou o ER também em 3º lugar na ordem de preferência dos componentes curriculares dos estudantes do 9º ano.
Esta compreensão acerca do significado do ER para os estudantes também encontra respaldo nas respostas atribuídas pelos Estudantes Colaboradores do presente estudo à questão 9: O que é trabalhado nas aulas de ER representa alguma contribuição para a sua vida? Justifique sua resposta. No conjunto, 31 (trinta e um) estudantes afirmaram sim, 9 (nove) responderam não e 1 (um) não respondeu.
Dos 9 (nove) estudantes que responderam “não”, 2 (dois) justificaram o porque de não encontrarem contribuição para suas vidas por meio do que é trabalhado nas aulas de ER. Assim, eles se expressaram:
“Não, as aulas não contribuem com minha vida, mas com meu aprendizado” (EC38).
Com relação a justificativa apresentada por EC9 ao declarar que, o que é trabalhado nas aulas de ER não representa nenhuma contribuição para sua vida “porque não abrange assuntos da nossa religião”, nos pareceu revelar a inexistência de um diálogo entre docente e estudante, no sentido de abranger conteúdos partindo do conhecimento que os estudantes já possuem.
Refletir inicialmente sobre as experiências do estudante é o que está definido nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso (PCNER, 2009, p. 21). Então, isto é o ponto de partida para adentrar assuntos mais gerais. Sem isso, corre-se o risco de gerar certo distanciamento entre o conteúdo proposto nas aulas e as experiências vivenciadas pelo estudante que constituem sua estrutura, impedindo que perceba significado no que está estudando. Ou, que se estabeleça um acoplamento estrutural entre sua estrutura e o meio, no caso, os assuntos (MATURANA; VARELA, 2001).
Essa é uma prática que favorece a desmotivação do estudante por não conseguir “unir” o que está sendo ensinado com aquilo que ele convive e conhece. Acaba consistindo numa relação deficiente na qual a comunicação não se efetiva e, de certa forma, reflete também uma relação autoritária na medida em que não houve diálogo.
Os estudantes, seu modo de vida, suas expectativas em relação ao que está sendo estudado provavelmente foram descartados. Se a escolha do que é trabalhado nas aulas de ER descarta a participação do estudante, revela uma intencionalidade desfavorável ao seu desenvolvimento, a sua constituição enquanto pessoa que vive e conhece enquanto vive.
Para Gonsalves (2012) “viver é fazer pequenas opções cotidianas. Aparentemente insignificantes; no entanto, pequenas escolhas revelam intencionalidades – conscientes ou não – e resultam em grandes possibilidades” (p.59).
Conforme percebemos, muitas vezes, as intencionalidades que estão por detrás das ações que realizamos no processo educativo, mesmo sem termos clareza, estão refletindo um tipo de pessoa, para um determinado tipo de sociedade e, nesse contexto, a forma como lidamos com os estudantes, com o conteúdo das aulas, nem sempre é favorável ao desenvolvimento de seus potenciais humanos. Se procedermos de forma autoritária, não estaremos contribuindo para a formação de indivíduos autônomos, criativos, participativos.
Por esta razão, às vezes, os estudantes reagem a isso e uma forma de expressarem essa reação é não se submeter ao que lhe é imposto. No caso das aulas de ER isso é um fato. Essa
resistência dos estudantes pode ser observada por meio de depoimentos dos docentes de ER em reuniões de planejamento que foram observadas. Em um desses depoimentos foi revelado “Um aluno disse que não queria aula de religião porque já tinha a religião dele”. Outras declarações dos docentes demonstram angústias em relação a estas resistências dos estudantes em participarem das aulas deste componente curricular.
Na realidade, conforme demonstrou EC9 em sua justificativa quanto ao fato dos conteúdos trabalhados nas aulas de ER não representarem nenhuma contribuição para a vida por não abordarem assuntos da sua religião, é perceptível esse distanciamento docentes/discentes e conteúdos/experiências vividas. Dessa forma, repetimos, impede que ocorra acoplamento estrutural gerador do conhecer simultaneamente ao viver e ao se constituir “ser” mundo, no mundo.
Para Maturana e Varela (2001), “o acoplamento estrutural é sempre mútuo; organismo e meio sofrem transformações” (p. 115). Este distanciamento entre o que é trabalhado no ER enquanto estrutura do meio e a experiência de vida do estudante enquanto estrutura do organismo vivo, no caso o estudante, não aciona a emoção e impede acoplamentos na interação.
Nessa perspectiva, abordar religiões distantes, sem partir da experiência religiosa vivida é algo arbitrário que não favorece o conhecer nem o ser, pois enquanto seres vivos “somos sistemas tais que, quando algo externo incide sobre nós, o que acontece conosco depende de nós, da nossa estrutura nesse momento, e não de algo externo” (MATURANA, 2001, p. 27).
Associando estas reflexões acerca da resposta de EC9 de que, o que é trabalhado nas aulas de ER não representa nenhuma contribuição para sua vida “porque não abrange assuntos da nossa religião”, nos reportamos à justificativa externada pelo EC38:
“Não, as aulas não contribuem com minha vida, mas com meu aprendizado” (EC38). A justificativa do EC38 confirma o distanciamento entre a vida e o conteúdo trabalhado nas aulas de ER. Além disso, este estudante colaborador da pesquisa afirma que as aulas contribuem para o seu aprendizado. Desta forma, percebe-se que, para ele, o aprendizado nas aulas de ER é algo externo à vida, notadamente, considera algo exclusivo da escola. Sendo no âmbito do ER, de certa forma, reafirma a dicotomia ou o distanciamento revelado por EC9.
Ao compararmos as declarações do EC09 e do EC38, percebemos uma aproximação com a prática transmissiva onde os conteúdos são desvinculados tanto da experiência religiosa pessoal quanto da vida de forma geral. O distanciamento, relacionado à experiência religiosa do estudante, gera o desinteresse pelo o que é trabalhado no ER. Já EC38 coloca esse distanciamento entre o conteúdo trabalhado e a sua vida, mas aproxima o conteúdo do aprendizado.
Desta forma, associa o conteúdo ao aprendizado, mas um aprendizado separado da sua vida. Expressa, pois, à inexistência de uma interrelação entre conteúdo/vida e aprendizado/vida, retratando a escola e no seu âmbito, o ER como um mundo à parte.
Alertando contra esta modalidade de prática educativa Maturana (2001) argumenta: Não se pode tomar o fenômeno do conhecer como se houvesse “fatos” ou objetos lá fora, que alguém capta e introduz na cabeça. A experiência de qualquer coisa lá fora é validada de uma maneira particular pela estrutura humana, que torna possível a “coisa” que surge na descrição (p.31).
Corroborando com este argumento encontramos Silva (2010) que aborda a valorização da vida cotidiana em correlação com o desenvolvimento da ciência. Para este pesquisador as pessoas, as coisas e o próprio mundo não existem isoladamente, mas mantém íntima correlação entre si. Mesmo que cada pessoa constitua um “mundo”, o seu próprio, ela o faz na relação com-o-outro, que também constitui outro mundo e é esse conjunto de mundos que constituem o mundo em sua dimensão maior. Desse modo, afirma,
ao ser humano é essencialmente inerente o ser-no-mundo. Encontra-se em cada momento da vida, na experiência cotidiana, uma familiaridade imediata e pré-reflexiva que não provém daquilo que a ciência nos ensina. É a partir e dentro dessa vivência diária que se desenvolvem todas as atividades inclusive as científicas, que determinam os objetivos e ideais dos sujeitos. A experiência cotidiana imediata é o cenário dentro do qual decorre a vida; ser- no-mundo é a sua estrutura fundamental (p.35).
No que se refere ao ER como um dos componentes curriculares da Educação Básica do ser humano, esta é uma visão necessária para que consista numa via de acesso ao sentido profundo do ser em suas relações e interrelações, na busca de respostas às questões da vida, como expressa o EC38. Ao invés de consistir simples transmissão de conhecimentos, orientações autoritárias e/ou doutrinárias, além de discurso abstrato, distantes da realidade dos estudantes, o ER deve ser garantia de:
Relações interpessoais mais humanas e fraternas para cultivar a esperança de um mundo melhor aqui e agora. Seu compromisso é ajudar o ser humano a encontrar-se consigo mesmo, a comprometer-se com a sociedade e conscientizar-se de ser parte de um todo, bem como a interpretar em profundidade suas vivências e experiências com o transcendente e com o sagrado (OLIVEIRA et al, 2007, p.162-163).
Na perspectiva abordada por estes autores o ER terá sentido na educação das crianças e dos jovens na medida em que favoreça o desenvolvimento e a formação da pessoa integral, em sua realidade existencial, no aqui e agora.
Tecidas estas reflexões acerca da percepção dos EC incluídas na Categoria 1: significado vago, sem definição clara, passamos ao que definimos como a Categoria 2: percepção de ER associando à religião.