2. KAPITTEL 2 LITTERATURGJENNOMGANG
2.1 B EGREPER SOM DANNER GRUNNLAG FOR STUDIEN
Com relação à concepção de vida, o budismo tibetano possui uma forma bem peculiar. Segundo a doutrina, a vida é constituída de sucessivos estados de consciência, nos quais acontecem as transformações que determinam o processo de libertação ou simplesmente o retorno à roda de renascimentos. A consciência do nascimento é o primeiro estado e a consciência da morte é o último, este acontecendo no exato momento da morte. O espaço entre estes dois estados de consciência é o que os budistas chamam de estado intermediário (Antarábháva) ou Bardo (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p. LIX).
No Bardo, vários estágios se desenvolvem de acordo com as orientações prescritas no Bardo Thödol, cada estágio contém instruções específicas a serem seguidas objetivando um fim. No intervalo onde estão situados os estágios acontece a transformação do ser, levando em conta o karma acumulado, seja negativo ou positivo. Há uma crença profunda no budismo tibetano quanto à infinidade de renascimentos após a morte. Estes renascimentos passam por existências onde há sofrimento, angústia, dor e insatisfação. Ao conjunto das possibilidades de existência condicionada dá-se o nome de Samsara (cf. RIMPOCHE, 1997, p. 45).
Conforme Redyson (2012, p. 235-236), “O Samsara pode ser visualizado e compreendido dentro do budismo tibetano através da Roda da Vida [...]. A Roda da vida é uma das mais belas artes pintadas até hoje, expressa com maestria os sentimentos, as dores e os horrores do povo tibetano em busca de libertação, paz e harmonia”. Esta iconografia do Samsara ou Roda da Vida (Bhavachakra) representa as existências as quais os seres sencientes podem renascer, não só em termos de estados físicos, mas também de estados psicológicos. A Roda da Vida (figura abaixo) é dividida em seis partes chamadas de domínios ou reinos do ser, estes nominados de renascimentos afortunados e renascimentos desafortunados (cf. PEACOCK, 2005, p.116).
Figura 1: Roda da Vida Fonte: www.blogdoari.com
Na parte superior da roda da existência encontramos os três domínios afortunados. O domínio dos deuses (devas), o qual representa a mais alta forma de existência, porém, uma vez esgotados os merecimentos kármicos, o renascimento só será possível num dos três domínios inferiores; o domínio dos deuses ciumentos (asuras), os quais invejam o bom karma dos devas; e o domínio humano, considerado o reino mais precioso por oferecer as melhores oportunidades de compreensão das questões existenciais.
Do mesmo modo, encontramos na parte inferior da roda mais três domínios, só que estes são os desafortunados. Uma característica comum aos reinos inferiores é a existência de um sofrimento intenso. No domínio dos espíritos famintos (pretas) existe fome e sede sem fim, é o desejo sem limites; no domínio animal, os
seres se limitam a comer, procriar e defecar, sendo raro o acúmulo de karma positivo neste reino; e por fim, o domínio infernal, ao qual se chega através de sentimentos negativos como o ódio e a inveja, todavia podendo sair deste com apenas um ato ou pensamento positivo e renascer num reino superior (cf. PEACOCK, 2005, p. 118).
Na parte central da roda, estão situados os três venenos espirituais simbolizados por três animais: o porco (ignorância e delusão); a serpente (inveja e raiva); e o galo (desejo), cada um representando sentimentos negativos existentes no ser humano. A roda seguinte a esta possui duas partes, uma clara, onde se vê pessoas vestidas e felizes, representando os bons renascimentos; e uma escura, na qual visualizamos homens nus acorrentados, representando os maus renascimentos (cf. REDYSON, 2012, p. 236,238).
Existem ainda no anel que circunda a Roda da Vida, doze imagens que representam elos (niddana) que são dependentes entre si. Para Peacock (2005, p.119), “Os tibetanos acreditam que, a menos que os elos dessa cadeia sejam quebrados, a roda de samsara vai girar eternamente e nós vamos passar por sofrimentos intermináveis. A relação entre os elos é de dependência: cada um deles cria as condições necessárias para que o outro surja”.
A cadeia de elos inicia com a imagem de um cego com um bastão, simbolizando a “ignorância” (avidya) da realidade; o segundo elo é um oleiro, representando as “formações kármicas” ou “tendências” (samskaras); o terceiro elo é um macaco pulando de galho em galho, representando a “consciência” (vijnana); o quarto elo tem a imagem de um barco (o corpo) com quatro passageiros (consciência, sentimento, discernimento e formações), simbolizando a “mente e forma” (namarupa); o quinto elo é uma casa vazia (indica a não-existência do Eu) com seis janelas, representando os seis sentidos (saday-atana), que são os cinco sentidos do corpo mais a própria mente; o próximo elo, que é o sexto, possui a imagem de um homem e uma mulher em união sexual, simbolizando o “contato”(sparsha).
Continuando a cadeia de elos, o sétimo tem a imagem de um homem com uma flecha no olho, representando o “sentimento” (vedana); o oitavo elo é uma mulher servindo uma bebida para um homem, simbolizando a “sofreguidão” ou
“desejo” (trshna); o nono é um homem colhendo uma fruta, representando o “apego” (upadana); o décimo elo é a imagem de uma mulher grávida, simbolizando o “tornar- se”, o décimo-primeiro contém a imagem de uma mulher dando a luz, representando o “nascimento” efetivo (jati); e finalmente, no décimo-segundo e último elo, aparece um homem levando um cadáver para o cemitério, representando a “velhice e a morte” (jaramarana) (cf. PEACOCK, 2005, p.119-121).
Segurando a roda da vida encontramos Yama, o senhor da morte, aquele que representa o ciclo interminável do samsara. Diz a lenda que Yama foi subjugado pelo destruidor da morte (Yamantaka), sendo designado para ser o protetor (dharmapala) e regente do inferno. Acima de sua cabeça temos cinco caveiras representando os cinco agregados da existência, que são: forma ou matéria, sensações, percepções, formações mentais e consciência. Na parte superior direita temos o Buda, representando o estado livre de nascimento e sofrimento (cf. PEACOCK, 2005, p. 117-118).
A iconografia da roda da vida retrata todo o percurso a ser cumprido pelo homem no ciclo de renascimentos. É fundamentalmente destinada a todos aqueles que ainda não alcançaram o estágio de libertação espiritual, pois revela através de imagens simbólicas, a essência dos ensinamentos do Buda, que são as “Quatro Nobres Verdades”. Segundo Laumakis (2010, p. 66-67), esse é o segundo ensinamento básico do Buda, o primeiro é o ensinamento do “Caminho do Meio ”64 e
o terceiro ensinamento é o “Caminho Óctuplo ”65.
As Quatro Nobres Verdades revela um modo peculiar de enxergar e compreender o mundo, assim como seu aspecto metafísico. Elas constituem um caminho para se libertar do karma e do ciclo de renascimentos a partir da “reorientação do conhecimento, da compreensão e da interação causal do indivíduo com o mundo”. A Primeira Nobre Verdade passa pela compreensão de que “tudo envolve o dukkha” (sofrimento), desde o nascer até o envelhecer (cf. LAUMAKIS, 2010, p. 69,71).
64 O Caminho do Meio é o ensinamento a ser se
guido visando abandonar os “extremos do prazer sensual da autoindulgência e os rigores da automortificação ascética” (cf. LAUMAKIS, 2010, p. 66).
65
O ensinamento do Caminho Óctuplo se traduz como um “método prático de pensar, viver e se relacionar com o mundo” visando à cessação do sofrimento. Para atingi-lo é necessário seguir alguns passos éticos, que são: visão certa e adequada; pensamento certo e adequado; discurso certo e adequado; ação certa e adequada; subsistência certa e adequada; esforço certo e adequado; consciência certa e adequada e concentração certa e adequada (cf. LAUMAKIS, 2010, p. 69-70).
A Segunda Nobre Verdade diz que “o dukkha tem uma origem ou causa e condição”. Dessa forma, a origem do sofrimento envolve o desejo egoísta (tanha), contribuindo de modo causal no renascimento e no ciclo do samsara (p. 69,75). A Terceira Nobre Verdade diz que “o dukkha pode ser superado ou curado”, isto é, o sofrimento pode ser interrompido, cessado, mas para isso é necessário combater a causa, que é o desejo (cf. LAUMAKIS, 2010, p. 69,76).
Finalizando temos a Quarta Nobre Verdade, que diz que “existe um Caminho Óctuplo para a reorientação das práticas e da vida do indivíduo”. Aqui é apontado o caminho que faz cessar o dukkha, isto é, através dos oito caminhos corretos, que inclui a visão, o pensamento, o discurso, a ação, a subsistência, o esforço, a consciência e a concentração (cf. LAUMAKIS, 2010, p. 69,78). Estas Quatro Nobres Verdades foram ensinadas aos tibetanos pelo Monge indiano Santaraksita, juntamente com os princípios do Dharma e da originação dependente (cf. INSTITUTO NYINGMA DO BRASIL, 1994, p.192).
O budismo tibetano tem uma noção bem clara e profunda a respeito da transitoriedade da existência humana. De acordo com o Centro de Estudos Búdicos66 de Jacareí - SP, os ensinamentos do Buda evidenciam algumas características inerentes a esta existência, destacando três delas. A impermanência (anicca), que se caracteriza pelo constante estado de mudança dos fenômenos, onde todos os cinco agregados da existência estão sempre sujeitos a transformações. Cada fase da existência, do nascimento à morte, é marcada por um dinâmico processo de transformação, visto que nossas próprias células se modificam a cada segundo. Para o budismo nada é permanente. O universo dos fenômenos sofre constante mutação, esta essencial para a sua própria sobrevivência.
Outro aspecto marcante da existência é a insatisfatoriedade ou sofrimento (dukkha). Poderíamos pensar na cessação do sofrimento através da morte, mas na concepção budista, a morte ainda é incapaz de acabar com o sofrimento. A ignorância, o desejo e o ódio conduzem a perambulação no samsara até a completa extinção destes, em outras palavras, o karma continua subsistindo a morte.
66 Com relação às três características dos ensinamentos do Buda (impermanência, insatisfatoriedade
e Insubstancialidade), tomamos como fonte de pesquisa o próprio sítio do Centro de Estudos Búdicos de Itacareí – SP. http://www.centrobudista.com/Textos/rodavida.htm
Enquanto o ser humano possuir um karma, estará sempre condicionado ao ciclo de renascimentos, afinal, é o karma que provoca a reencarnação.
A terceira característica dos ensinamentos do Buda é a Insubstancialidade ou o “não-eu” (anattá). Este aspecto da existência se refere à natureza de impermanência de todas as coisas, tanto físicas quanto mentais. Embora o “eu” surja da relação entre os cinco agregados, estes, por sua vez, não se constituem num “eu” permanente. Pois que eles - os cinco agregados - se modificam constantemente, causando não só o apego, mas até a crença na existência de um “eu”. Enfim, o “não-eu” representa o estado de mudança o qual o homem está sujeito na sua existência.
Referindo-se também a estas três características ou sinais da existência, Redyson (2012), nos acrescenta que:
Ao mesmo tempo que as coisas se mostram como impermanentes, as mesmas se mostraram como insatisfatórias, que nos levaram ao completo sofrimento e em consequência disso a concreta realidade de que, dentro da impermanência e da insatisfatoriedade tudo se consuma em uma espécie de insubstancialidade no mundo, na existência, nas coisas e nos próprios sentimentos. No mundo não há nada que não seja impermanente, todas as coisas que existem estão fora do plano espiritual, todos nos trazem a insatisfatoriedade e se consomem na insubstancialidade, nada é permanente, nada é satisfatório e nada é substancial, tudo passa, isto é, tudo faz parte de um processo de início, meio e fim (cf. REDYSON, 2012, p. 113-114).
Os ensinamentos budistas nos revelam uma necessidade humana de supressão da dor, do egoísmo e do mal, nos quais o aniquilamento do “eu” é um convite a libertar-se das amarras do samsara. Para entendermos o processo do bardo da morte, precisamos compreender dentre muitos conceitos já explicitados e outros a explicitar, este especificamente, que se refere à doutrina dos três corpos do ser (Trikaya).
O primeiro deles, de acordo com Coleman & Jinpa (2010, p. 384) é o Corpo Búdico de Realidade (dharmakaya). Este corpo é a “essência suprema da mente iluminada, a qual é incriada [...], vazia de existência intrínseca”. A realização deste corpo búdico está mais propensa a acontecer no estado intermediário do momento da morte, isto é, no Chikhai Bardo. O segundo é o Corpo Búdico de Riqueza Perfeita
(sambhogakaya), que se refere às imagens e formas resplandecentes produzidas pela pura energia da mente iluminada. Dá-se através da presença e manifestação das divindades pacíficas e iradas. O melhor momento para a realização deste corpo búdico é o Estado Intermediário de Realidade (Chonyid Bardo).
Por fim, o terceiro corpo, o Corpo Búdico de Emanação (nirmanakaya). Para Coleman & Jinpa (2010, p. 383), aqui se realiza “a manifestação visível e geralmente física dos seres plenamente iluminados, que surge espontaneamente da infinitude do Corpo Búdico de Realidade sempre que essa manifestação é adequada às diversas disposições dos seres sencientes”.
Evans-Wentz (2013) também apresenta significações dos três corpos do ser. O Dharmakaya, que é o primeiro dos três kayas67, é considerado o mais elevado dos três corpos e significa “Divino Corpo da Verdade”. É a iluminação perfeita, o corpo da verdade absoluta, literalmente, o “Corpo da Lei” (cf. p. 8-9). Ainda caracteriza o Dharmakaya da seguinte forma:
A meta do budista é o estado de Buda e a essência do estado de Buda é o
Dharmakaya, a totalidade de todas essas leis que permeiam os fatos da
vida e cujo reconhecimento exato constitui a iluminação. O Dharmakaya é o nome mais abrangente com o qual o budista resume sua compreensão e também seu sentimento do universo. Dharmakaya significa que o universo, para o budista, não aparece como um simples mecanismo, mas sim como algo que pulsa com a vida (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p.174-175).
Já o Sambhogakaya atribui-se o “Divino Corpo do Dom Perfeito”, literalmente, “Corpo de Compensação” ou “Corpo Adornado”, e o Nirmanakaya, o “Divino Corpo de Encarnação” ou de “Emanação”, literalmente “Corpo Mutável ou Transformado”. Conforme Evans-Wentz (2013), os três corpos são assim compreendidos:
O Não-criado, o Não-formado e o Não-modificado é o Dharmakaya. A Descendência, a Modificação do Não-modificado, a manifestação de todos os atributos perfeitos num único corpo, é o Sambhogakaya: “a encarnação de tudo o que é sábio, generoso e amoroso no Dharmakaya – [...] diz-se ser o Sambhogakaya”. A condensação e diferenciação do Corpo Único em muitos é o Nirmanakaya ou Encarnações Divinas entre seres sensíveis, ou seja, entre seres imersos na ilusão chamada Samgsara, nos fenômenos, na
existência mundana. Todos os seres iluminados que renascem neste ou em qualquer outro mundo com plena consciência, com seres que trabalham pelo melhoramento de seus semelhantes, são considerados encarnados do
Nirmanakaya (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p. 9).
2. Bardo Thödol: um tratado filosófico sobre a arte de morrer
O Bardo Thödol é um livro essencialmente budista, que traduzido do tibetano significa “A Grande Libertação pela Auscultação nos Estados Intermediários”. É considerado um livro sagrado porque contém instruções místicas para um “outro mundo”, onde o nascimento e a morte são fronteiras necessárias para o ciclo de renascimentos. Possui grande importância religiosa, filosófica e histórica, visto que se trata de uma obra tântrica baseada fundamentalmente na filosofia do Tantra- Yoga tibetano68. Foi e ainda continua sendo considerado um livro “fechado” por
conter instruções que necessitam especialmente de entendimento espiritual, atributo o qual só se consegue através de experiências e treinos adequados.
Sua origem remonta do século VIII d.C. Foi trazido da Colina de Gampodar (Gampo-dar) para as margens do Serdan ( Gser-ldan) por Rigzin Karma Ling-pa, considerado a encarnação do fundador do Lamaísmo, Padmasambhava (cf. EVANS- WENTZ, 2013, p. 49-50). Quando o Bardo Thödol foi traduzido pela primeira vez para o inglês, seu título ficou prejudicado por não trazer corretamente a verdadeira compreensão da intenção do mesmo, pois que não trata apenas da transição da vida para a morte, mas também da própria vida (cf. PEACOCK, 2005, p.130-131).
Este livro, que faz parte da literatura tibetana, ficou mais conhecido pelos ocidentais como “O Livro Tibetano dos Mortos”, por expressar desta maneira, toda a essência contida nas suas instruções, facilitando sua compreensão. Além disso, ao traduzir o título desta forma, criou-se no âmbito de seu lançamento, uma conexão
68 Os ensinamentos e práticas tântricas que se desenvolvem no Tibete costumam ser atribuídas aos
iogues indianos que viveram por volta do século V e VI, d.C. - período em que o Budismo se desloca para esta região, vindo da Índia. Sobre o Tantra há uma série de opiniões divergentes, e alguns praticantes defendem que as origens do tantra são muito mais antigas. No entanto, no âmbito desta pesquisa, o que nos interessa é a forma como o tantra se desenvolve, e, posteriormente, chega ao Tibete, através da figura de Padmasambhava.
com o Livro dos Mortos egípcio - obra que fez grande sucesso após seu lançamento no ocidente, no fim do século XIX. Segundo Jung, em seu comentário psicológico no prefácio introdutório (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p. 45), no livro tibetano dos mortos é descrito o caminho de iniciação de preparação da alma rumo à existência física, ou seja, um caminho que segue totalmente em via contrária às expectativas escatológicas da cristandade.
O Bardo Thödol se configura como um tratado tibetano sobre a ciência da morte e do renascimento, um manual no qual estão contidas grandes mensagens reveladoras sobre a arte de morrer, já que esta é tão importante quanto à arte de viver, por isso ambas se completam. Nesse sentido, trata-se de um processo psíquico e espiritual a ser percorrido visando o correto aprendizado de uma morte corretamente controlada. Nele, os sábios ensinam que a meta final do homem é a transcendência sobre a transitoriedade.
Prefaciando o livro tibetano dos mortos (2013), John Woodroff diz que o manual tibetano possui três características marcantes que contribuem para o entendimento da ciência da morte. A primeira característica é que nesta obra, a arte de morrer se apresenta como algo tão importante quanto a arte de viver; a segunda é que este manual instrui o moribundo através de rituais a se comportar adequadamente frente aos últimos momentos de vida; e a terceira característica se refere a instrução e descrição das experiências do morto no estado intermediário servindo de guia para experiências em outros mundos (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p. LX).
Todas as escolas budistas possuem seus escritos que versam sobre a vida, a morte, os estados de transição e o renascimento. O Bardo Thödol se constitui como um escrito integrante dessa literatura tibetana, pois é um terma69 “tesouro
escondido” da escola mais antiga do Tibete, a Nyingma70. Nele, encontramos vida e
morte como elementos fundamentais para os processos transitórios, configurando-
69 De acordo com Peacock (2005, p. 45), os termas podem ser visto como um meio pelo qual os
ensinamentos da tradição Nyingma são continuamente revigorados. Eles são considerados verdadeiros tesouros que foram escondidos por Padma-Sambhava para posteriormente virem à tona em época mais auspiciosa.
70 Esta escola incorporou muitos escritos da primeira difusão do Budismo, sendo os cânones
se um guia a ser percorrido através dos vários bardos e de suas imagens bondosas ou apavorantes (cf. PEACOCK, 2005, p.131-132).
Essa famosa obra literária tibetana, o Bardo Thödol, traz uma grande mensagem sobre a ciência da morte e do renascimento, revelando ao ocidente orientações que até então eram conhecidas e praticadas somente pelos orientais. Esta obra ritual possibilita a compreensão da filosofia e psicologia desse complexo sistema de crenças. Muitos cientistas ocidentais estão se enveredando em pesquisas cada vez mais promissoras nesse campo até bem pouco tempo atrás desconhecido. Citamos como exemplo o Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba (PPGCR-UFPB), onde este empreende sucessivos esforços em ampliar seu campo de pesquisas, possibilitando um maior intercâmbio entre a cultura ocidental e oriental.
O Lama Anagarika Govinda, referindo-se ao Bardo Thödol no prefácio introdutório (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p. 49), alerta para o perigo de ele ser mal interpretado e consequentemente incompreendido, acarretando sérios problemas para aqueles que não conseguiram apreender corretamente sua mensagem, visto que foi um livro até então lacrado com os sete selos do silêncio como também sua escrita se encontra em linguagem simbólica. Além disso, trata-se de um manual a ser “praticado” com a devida orientação dos lamas e mestres iniciados.
Com relação à morte, Lama Govinda diz que todo ser vivo já passou por ela várias vezes, para logo retornar à vida em outra encarnação. Para o mestre budista, esse ciclo é contínuo e ininterrupto, pois sempre se está morrendo e nascendo novamente, até porque na fisiologia humana, células nascem e morrem constantemente. Por isso, O Bardo Thödol é destinado a todo ser encarnado que reconhece o verdadeiro sentido e significado da existência humana e não somente àqueles que pressentem que seu fim está próximo ou que já estão prestes a morrer (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p. 54). De acordo com os ensinamentos budistas, somente nascendo como ser humano é que se é oferecida a oportunidade de libertação, que acontece através de empenho pessoal e de uma profunda reformulação da consciência humana.
Evans-Wentz (2013), se referindo ao Livro Tibetano dos Mortos no prefácio da sua segunda edição diz que:
Aquele que está para morrer deverá enfrentar a morte não só lúcida, calma e heroicamente, mas com o intelecto corretamente treinado e dirigido, transcendendo mentalmente, se for necessário, os sofrimentos e enfermidades do corpo, como se tivesse podido praticar eficientemente durante sua vida ativa a Arte de Viver, e, próximo da morte, a Arte de Morrer (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p. XX).
Ele cita o exemplo de Milarepa, o santo mestre da Yoga do Tibete. Quando Milarepa estava prestes a morrer, procurou não só o local onde deveria viver seus últimos momentos, que foi numa caverna no Tibete, mas também buscou estabilizar seu estado interior, mantendo o equilíbrio mental que o aproximava do Nirvana,