Mesmo com o surgimento de novas tecnologias criadas para facilitar e ampliar a comunicação entre os indivíduos na sociedade atual, talvez nenhuma delas seja tão polêmica e tão popular quanto a televisão. Nas últimas décadas, a sociedade sofreu e vem sofrendo, inúmeras transformações, principalmente no campo tecnológico e cultural, as quais foram responsáveis por alterações bruscas no cotidiano dos indivíduos.
Castells (apud WEBER, 2000) aponta para a revolução da tecnologia, da informação e da reestruturação do capitalismo como importantes elementos na transformação da dinâmica social, o que teria impacto na educação e na formação de professores. Nesse contexto, os meios de comunicação de massa teriam papel relevante na construção de sentidos relacionados à educação, ao ensinar e ao aprender. No entanto, para relacionar-se com a presença da televisão na sociedade atual, o professor precisa perceber a mudança, muitas vezes de postura, da forma de relacionar-se com o saber. Mudanças que muitas vezes são propostas em reformas educacionais.
No caso deste trabalho, não se trata apenas da mudança em si mesma, mas da direção que ela toma. Conforme apontado no capítulo anterior e tendo em vista uma educação crítica, a Televisão Comercial tem sido instrumento de manutenção da ordem sócio-econômica, a mudança, portanto, está relacionada à postura do professor perante a forma de se trabalhar com esse meio.
Fullan (1999), estudando a problemática das forças de mudança na reforma educacional, salienta a importância de se pensar o papel da aprendizagem dentro das organizações que aprendem. Para tanto, apóia-se em duas teorias:
1- Teoria da complexidade: parte do pressuposto de que a dificuldade no processo de mudança educacional advém da rapidez das mudanças ambientais (que é endêmica e
inevitável), porém, a forma de se lidar com tais mudanças pode ter sido bem sucedida outrora, em tempos mais estáveis, hoje pode não ser mais.
... o paradoxo da complexidade é que ela torna as coisas tão difíceis, que acaba dificultando a percepção de que a resposta para a situação reside dentro de suas próprias dinâmicas naturais, dinâmicas essas que podem ser designadas e estimuladas, mas que nunca podem ser totalmente controladas (FULLAN, 1999, p. 01).
A capacidade para se lidar com essa complexidade permite que a aprendizagem ocorra no limite do caos, podendo ser chamada de habilidade para trabalhar com a realidade.
2- Teoria evolucionária: estuda o comportamento interativo e cooperativo, relacionados à forma como o ser humano se desenvolve ao longo do tempo. Parte da hipótese de que grupos que apresentam comportamentos interativo e cooperativo prosperam mais que os grupos egoístas e de culturas isoladas. Segundo essa teoria, os seres humanos necessitam uns dos conhecimentos dos outros, necessitam ajudar-se mutuamente para solucionar problemas e necessitam interação constante que oportunize os atos de compartilhar e acessar informação.
Goerner (apud FULLAN, 1999) foi quem melhor complementou a idéia da Teoria Evolucionária e incluiu ao argumento três importantes lições:
• a aprendizagem: uma mente sobrevivendo à mudança é muito mais eficiente do que um corpo sobrevivendo à ela, ou seja, não é possível permanecer esperando por uma mutação genética. A aprendizagem nunca estará completa, exigirá que reorganizemos nossos ‘saberes’ a todo instante;
• a colaboração: a aprendizagem ocorre melhor quando há colaboração entre as pessoas envolvidas no processo, quando se aprende a trabalhar junto. Aprender a trabalhar em grupo e assumir um compromisso com o bem estar deste é crucial;
• a complicação: as regras da evolução dinâmica, dentro da Teoria evolucionária, ainda estão em construção. Quando o professor não está conectado e não dá vazão a criações seu mundo pode esmigalhar-se, desintegrar-se, desmoronar-se. Assim, o desenvolvimento, a produção de criações gera pontos de crise regulares que exigem freqüentes reorganizações de aprendizagens. Exige que se aprenda de novo.
Sintetizando as idéias de Goerner (apud FULLAN, 1999), a aprendizagem nunca estará completa, ela ocorre melhor na interação e colaboração com o grupo e essa interação pode provocar pontos de crise que exigirão que se aprenda novamente e constantemente.
O fato é que a verdadeira educação contínua ocorre quando, juntos, os profissionais da educação se dispõem a construir consensos éticos sobre o que é educar num contexto democrático. Quando isso não ocorre, trata-se de desperdício de tempo e de esforços. O trabalho de edificação dessa nova consciência só se tornará possível à medida que educadores optarem, coletivamente, pelo exercício do pensamento. E isto ninguém poderá realizar por eles. É preciso
... uma perspectiva didática que reconheça que as escolas não podem mudar sem o compromisso dos professores, que os professores não podem mudar sem o compromisso das instituições em que trabalham... (KEMMIS, 1987, p. 74).
Segundo Garcia (1992), atualmente as equipes docentes têm autonomia para decidir o quê, como e quando ensinar. Deste modo, a idéia que melhor traduz a formação de professores, para o autor, é a formação contínua, que ocorre em serviço, centrada nos problemas reais dos professores e tem uma dimensão participativa, ativa/investigadora, flexível e também prevê o trabalho das equipes docentes.
Ao analisar a mudança, Fullan e Hargreaves (2000) salientam que esta não ocorre como um plano em um papel ou como um fluxograma bem feito, acontece nos mundos apressados e complicados das salas de aula dos professores. Por isso é necessário conhecer a demanda do contexto de ensino. Exemplificando: ensinar nem sempre tem o mesmo significado, fatores como a idade dos estudantes, a classe social, o número de alunos por sala, o tempo destinado a cada atividade e a necessidade de “cumprir o currículo”, podem interferir nas possibilidades reais de inovação por parte do professor.
As orientações rígidas acerca do currículo afetam ainda as relações dos professores com os colegas. O trabalho em conjunto dos professores mais unidos pode ser prejudicado por um currículo que lhes pareça como definido de maneira tão rígida que lhes reste pouco em termos de cooperação. Um currículo controlado administrativamente é capaz de impor limites importantes à colaboração dos professores. Oportunizar maior responsabilidade pelo desenvolvimento do currículo aos professores e às escolas pode, quanto a isso, ser um dos desafios mais importantes na mudança de contexto do ensino. (FULLAN e HARGREAVES, 2000, p. 52)
No caso deste trabalho, a inserção dos meios de comunicação, especialmente a utilização pedagógico-crítica da televisão, nos currículos escolares pode representar esta oportunidade para o fortalecimento das equipes docentes e, conseqüentemente, da cultura de colaboração. Faz-se necessário ter em mente que um aperfeiçoamento da prática docente não se faz sem o professor.