C
omo já tivemos a oportunidade de apontar, os autores que serão neste capítulo analisados desferiram, mesmo sem apresentar entre si um consenso de idéias, fortes golpes nos valores, nas teorias, na cosmologia medieval. São considerados renascentistas. Apresentam, portanto, alguns significativos traços do período: retomada dos autores antigos, uma certa dose de platonismo que redundou em um forte afã pelo animismo, credulidade, criticidade, indiferença às autoridades medievais, uma certa revolta contra o aristotelismo, uma exaltação até certo ponto mística da matemática. Estas características emanam, neles, ora com mais força, ora com menos intensidade.Cabe-nos dizer, também, que a análise da contribuição individual de cada um, deve expressar a contextualidade com a qual almejamos trabalhar. Assim, todos seriam evidência de uma transformação mais ampla, que em muito transcende o plano de suas contribuições específicas. Tal transformação mudará as formas de apresentação, de concepção do mundo. Mudará, também, a forma com que o sujeito olhará para si e, simultaneamente, para o mundo. Como destaca Bornheim (1998), a expressão descoberta, neste sentido, seria amplificada para além do sentido de encontro de novas configurações geográficas. Seria estendido para um homem que redescobre a si mesmo e, também, o mundo. Continuemos, portanto, tratando destas amplas, revolucionárias redescobertas.
2.1- Nicolau de Cusa e Palingenius
P
erante o mundo medieval, pequeno, fechado, a contribuição de Nicolau de Cusa é extremamente ousada. Evitando fazer uso do qualitativo infinito, Nicolau, último grande filósofo da Idade Média, afirmou ser o universo interminatum, interminável na impossibilidade que o sujeito tem de construir uma representação objetiva e unívoca dele (KOYRÉ, 2001).Todo o objeto singular, de acordo com Nicolau de Cusa, representa o universo e também Deus; sendo assim, o centro não está em parte alguma, pois está em toda parte e tal centralidade diz respeito fundamentalmente ao aspecto metafísico que envolve o conjunto do universo. Desta forma, temos que
O mundo não possui circunferência, porque se possuísse um centro e uma circunferência, e assim possuísse começo e fim em si mesmo, seria limitado com relação a alguma outra coisa, e espaço, coisas que não existem de modo algum. Portanto, uma vez que é impossível encerrar o mundo entre um centro e uma circunferência corpóreas, é [impossível para] nossa razão ter uma plena compreensão do mundo, posto que implica a compreensão de Deus, que é o seu centro e a sua circunferência (CUSA apud KOYRÉ, 2001, p.22).
Há muitas mudanças aqui implicadas. O interminável aspecto do mundo implica em uma miniaturização de um sujeito sempre disposto em transferir para o mundo o alcance da realidade permitido por sua posição específica no universo. Se compreendêssemos plenamente o mundo, teríamos uma plena compreensão de Deus (KOYRÉ, 2001). E isto é impossível para a nossa razão. A compreensão de nossa ignorância torna-se, para Nicolau, signo de sapiência, a percepção da centralidade de Deus, na sua magnitude que se espalha por tudo e que, desta feita, se faz impossível de ser mensurada fisicamente. Neste sentido, se a perfeição é um dado de Deus,
é melhor pensar a natureza pelo viés da indefinição e não enquanto materialidade (inconcebível) do Criador (SANTOS, 2001, p.61).
Em 1440, Nicolau de Cusa publicou a obra aqui focada. De Docta Ignorantia (Sobre a
poder de apreensão, por parte do sujeito, de um mundo interminável, metafisicamente centrado em Deus, presente em toda parte e em parte alguma. Um pouco mais tarde, Giordano Bruno iria na contramão desta perspectiva: invocaria a supremacia da razão sobre os sentidos para dar cabo à sua infinitização do universo.
A ignorância culta fica ainda mais explicitada, como já ressaltamos, se levarmos em conta a relatividade das apreensões de um observador sempre dependente da posição específica em que se encontra no universo.
Conseqüentemente, como sempre parecerá ao observador, esteja ele na terra, no Sol ou em outro astro, que ele sempre se encontra no centro quase imóvel e que todas (as outras coisas) estão em movimento, ele certamente determinará os pólos (Desse Movimento) com relação a si mesmo; e esses pólos serão diferentes para o observador e para aquele na Terra, e ainda diferente para os que estiverem na lua e em marte, e também para os restantes. Assim, a trama do mundo (machina mundi) quase terá o seu centro em toda parte e sua circunferência em parte alguma, porque a circunferência e o centro são Deus, que está em toda parte e em parte alguma (p.27).
Copérnico dará, posteriormente, novas evidências desse flagelo dos sentidos que não percebem serem eles também moventes no orbe circunscrito a Terra.
Santos (2001) destaca em Nicolau de Cusa um outro aspecto importante. Há nele um redimensionamento da relação Criador-criatura. Não mais há a necessidade de se vincular a disposição da Terra à moral humana. Não há vínculos diretos entre estes diferentes tipos de deficiências. A eqüidistância precisa entre os objetos, que poderia dar dimensão para a centralidade, encontra-se somente em Deus, e não fora dele. Sendo assim, há uma multiplicidade de posições do observador – e conseqüentemente de observações – e o homem perde o seu papel central na Criação, uma vez que nem a sua perspectiva cognitiva lhe permite a apreensão da totalidade da qual faz parte. Como parte, é-lhe permitida somente uma visão parcial dos fenômenos.
Koyré (2001) destaca que Nicolau de Cusa esteve, em vários aspectos, vinculado à tradição medieval. Ele acredita na existência e no movimento das esferas celestes e crê que o movimento das estrelas fixas seja o mais rápido. Também não atribui um movimento rotacional
aos planetas. Não afirma a uniformidade do espaço e, o mais importante, ele nega a possibilidade de tratamento matemático da natureza. Contudo, o aspecto histórico mais relevante de sua cosmologia, e nisto ele se aproxima dos autores modernos, é a sua rejeição da estrutura hierárquica do universo, sua negação da posição baixa e singularmente desprezível atribuída a Terra.
Neste dualismo entre tradição medieval e o desmonte moderno do cosmo aristotélico- ptolomaico, temos explícito o contraponto entre a avançada intuição metafísica de Nicolau e a sua base em concepções científicas que tenderiam a ser superadas, como ressalta Koyré (2001).
Acrescentaríamos outro aspecto complexificador nesta situação de contraposição: como aponta Santos (2001), a contribuição de Nicolau de Cusa coloca-se na seara gerada através de múltiplas determinações que advêm da retomada da matemática, do aparecimento da perspectiva, da mensuração mecânica, abstrata do tempo que, somadas, colocaram impasses lógicos e ontológicos para a cosmologia medieval, transmutando a localização do sujeito que agora, dado o seu perdido transitar entre o tudo e o nada, a perda de sua centralidade, tende a observar o mundo de diferentes partes, colocar-se no lugar do outro. Ele – o sujeito – tenderia agora a contemplar um mundo tridimensional, podendo, na tela da vida, estabelecer-se nos mais distintos lugares, assustando-se, até, com os diferentes universos que compõem a parte pela qual, assentado, contempla a imensidão de coisas cujo conhecimento e controle lhe escapa. Esta será a tendência gerada pelas contribuições dos autores que compõem este capítulo.
Marcelo Stellatus Palingenius, autor do popular Zodíacos Vitae, publicado no ano de 1534, também realizou debates em torno da questão das dimensões do universo. Palingenius não afirma a infinitude do mundo, mas sim a sua plenitude, pois Deus não imporia limites a si mesmo. Contudo, ousa menos se comparado a Nicolau de Cusa, pois mantém a finitude material do mundo cercado por oito esferas. Além dos limites do céu, existe uma luz imensa e incorpórea sendo sua fonte advinda do próprio Deus. Para ele, portanto, é o céu de Deus que é infinito. Físico e metafísico se contrapõem na trama do mundo. O primeiro finito, pautado nas limitações aristotélicas-ptolomaicas. A trama metafísica seria infinita, incorpórea, ilimitada na potência suprema que advém do Criador (KOYRÉ, 2001).
2.2- Nicolau Copérnico
Nicolau Copérnico prorrogou para depois de sua morte a publicação do De revolutionibus
orbium coelestium (A revolução dos orbes celestes). Havia nesta atitude bastante sensatez.
Quantos eruditos a sua teoria não desagradaria, tão habituados que estes estavam com a exatidão das artes liberais! É isso que o próprio Copérnico escreveu no princípio (Ao leitor sobre as
hipóteses desta obra) de seu famoso livro.
A mudança impulsionada por Copérnico foi mais ampla do que podemos imaginar. Talvez, mais do que uma mudança no plano da estrutura do universo, nos conteúdos do mundo, tenha, o astrônomo polonês, promovido um chacoalhar sobre todos os espectros que constituíam o horizonte de visão humano. Seu mundo é ainda limitado pela esfera das estrelas fixas, apesar de já ser bem mais amplo do que o medieval. A centralidade – no caso, a do Sol – é ainda elemento chave na dinâmica da máquina do mundo. Contudo, o chão fora tirado dos pés de um sujeito sempre posto a contemplar um mundo movente ao redor de seu epicêntrico olhar.
No Tratado da esfera, obra que foi usada desde o início do século XIII até o final do XVII enquanto livro introdutório básico do curso de astronomia (CAMENIETZK, 1991), Johannes de Sacrobosco, expressou o argumento aristotélico que subsidiou o geocentrismo medieval rompido, pouco a pouco, pelas inovações copernicanas.
A universal máquina do mundo se divide em duas partes: celestial e elementar. A parte elementar é sujeita à contínua alteração e divide-se em quatro: Terra, a qual está como centro do mundo no meio assentada, segue-se logo a Água e ao redor dela o Ar, e logo o Fogo puro que chega ao céu da Lua, segundo diz Aristóteles no livro dos meteoros, porque assim assentou Deus glorioso e alto. E estes quatro são chamados elementos, os quais uns pelos outros se alteram, corrompem e tornam a gerar. São os elementos corpos simples que não se podem partir em partes de diversas formas, pela mistura dos quais se fazem diversas espécies das coisas que se geram. E cada um dos três cerca de todo a Terra, senão o quanto a secura da Terra resiste à umidade da Água para manter vivos alguns animais. E todos os outros afora a Terra se movem, a qual como centro do mundo com seu peso foge igualmente de todas as partes do grande
movimento dos extremos e fica no meio da redonda esfera (SACROBOSCO, 1991, p.30-1).
Em Copérnico, a “máquina do mundo” ganharia outra trama, outra centralidade.
A transformação da posição da Terra no universo reverte bem mais coisas do que àquelas relativas ao prazeroso estudo dos céus, como dizia Copérnico. Neste novo céu, o astrônomo polonês deleitava-se com a oportunidade de sentir prazer intelectual, operando sobre as coisas do Autor de tudo.
As transformações são bem mais amplas. Como destaca Santos (2001),
Deslocar o planeta para a órbita do Sol tem um significado maior que a precisão matemática, pois carrega consigo um deslocamento na concepção de homem, natureza, ambiente, ou, em outras palavras, na conceituação de espaço e tempo (p.99).
Mudam-se muitas concepções. Outras, em verdade, saem de posições secundárias na fixidez de um olhar metafísico e saltam à frente, incrustando-se absolutas no novo olhar que se constrói. É o caso do tempo e do espaço. Contudo, fundamentalmente o que há é uma similitude entre a transformação do como se conceber as coisas, por quais caminhos o pensamento deve perscrutar a realidade e a transformação da própria realidade. Na dialética do movimento do mundo e do movimento do pensamento, ambos se alteram e uma vez rompidos os laços com o cosmo medieval, outro se impõe no horizonte, todo novo. Copérnico vivenciou o processual caminho que gerou a modernidade do seio da “escuridão” medieval. Tudo se tornava claro e, simultaneamente, confuso, gigantesco, extraordinário. Demoraria tempo para que se colocasse tamanho caos em um novo cosmo! Neste movimento, Newton diria que sabemos apenas um grão diante da imensidão da praia, do mar do conhecimento.
Em 1514, Copérnico anonimamente publica o opúsculo De hypothesibus motuum
coelestium a se constitutis commentariolus, fazendo uma exposição, sem cálculos, das principais
conclusões de seu estudo. Ninguém descobrira, naquele contexto, a identidade do autor de arrojadas conclusões.
Cerca de trinta e seis anos depois, por insistência de amigos, Copérnico deixa que a sua A
revolução dos orbes seja publicada. O fez em seu leito de morte. Como o próprio astrônomo
polaco deixa transparecer na obra Revolutionibus, de fundamental importância foi a insistência de seus amigos para que ele trouxesse ao público as suas idéias. Dentre tais amigos, se destacam o Cardeal de Cápua, o Bispo de Cúmem e o Bispo de Forsombrone, perito em astronomia, homem de confiança de Roma.
No prefácio de A revolução dos orbes celestes, dedicado ao Papa II, Copérnico destaca o principal argumento usado por estes seus amigos: quanto mais absurda parecesse agora à
maioria esta minha teoria acerca do movimento da Terra, tanto maior admiração e estima ela haveria de concitar [...] (1984, p.6).
Não podemos mensurar o real poder de atração que uma novidade como esta poderia, naquele contexto, gerar. O ambiente intelectual europeu já era bastante rico em termos de confrontos do novo com o velho e apenas iniciava-se a edificação de uma nova epistemologia do saber tendo como perspectiva a crescente queda da teologia para dar coesão e sentido para uma realidade agora de aparência bastante desafiadora.
Contudo, o desfalecimento da antiga hierarquia de valores – e para isso Copérnico fora realmente revolucionário – viria, com certeza, ao encontro dos propósitos advindos de uma nova classe que metafisicamente soergueria uma outra hierarquia, bastante incrustada no movimento do pensamento que foi sendo gerado nos princípios da modernidade. Disso, em certa medida, todos somos fruto e a novidade copernicana poderia ser reverentemente saudada.
Copérnico busca respaldo em outras autoridades para legitimar as suas conclusões. Descobriu “lendo o máximo possível de livros de filosofia”, segundo ele próprio conta, que Cícero cita Nicetas enquanto um filósofo que reconhece o movimento da Terra. Em Plutarco, verificou que existiam outros da mesma opinião: os pitagóricos Filolao e Ecfanto, e também a figura de Heráclides do Ponto. A teoria heliocêntrica dos pitagóricos só não teria sido divulgada, segundo Copérnico, pelo perfil do grupo de filósofos que não tornavam públicas as suas
descobertas, transmitindo-as, somente, entre os membros da “família”. Nisso, se assemelhavam a uma tradição esotérica.
As críticas que Copérnico dirige ao geocentrismo perpassam, fundamentalmente, por uma revisão crítica de seu arcabouço matemático. Seus representantes não foram poupados. Segundo Copérnico, eles – os matemáticos – encontravam-se, no seu tempo, [...] de tal maneira inseguros
quanto ao movimento do sol e da lua que nem a duração regular do ano corrente são capazes de explicar e formular (1984, p. 7). As críticas não param por aqui.
Tais matemáticos, de acordo com Copérnico (1984), também não conseguiam desvendar a forma do universo e a necessariamente justa simetria de suas partes. Assim
[...] Aconteceu-lhes como a alguém que fosse buscar a diferentes pessoas mãos, pés, cabeça e outros membros, perfeitamente apresentados sem dúvida mas sem formarem um corpo uno, e sem qualquer espécie de correspondência [...] mútua entre si, de tal maneira que resultaria deles mais um monstro do que um homem (p.8).
Foi tal grau de insatisfação que lançou Copérnico na leitura dos filósofos, inclusive daqueles que afirmavam a veracidade do movimento da Terra. Assim, admitindo o movimento desta, o astrônomo polonês ressalta:
[...] descobri que, se estabelecermos relação entre a rotação da Terra e os movimentos dos restantes astros, e os calcularmos em conformidade com a revolução de cada um deles, não só se hão de deduzir daí os seus fenômenos mas até se hão de interligar as ordens e grandezas de todas as esferas e astros assim como o próprio céu, de modo que, em parte nenhuma, nada de si se possa deslocar sem a confusão das restantes partes e toda a sua universalidade (p.9). A centralidade do Sol coloca-se enquanto fundamental para a harmonia de todo o sistema. Isto, segundo o astrônomo, nos é ensinado pelo princípio que preside a ordem e que constata que todos os corpos ocupam os seus lugares respectivos, atuando para a harmonia da totalidade do universo. Neste sentido, a ordem matemática do universo de Copérnico pareceria mais simples e
mais harmoniosa43. Burtt (1991) aponta que, em Copérnico, a maior parte dos fenômenos planetários poderia ser representada por meio de círculos concêntricos em volta do Sol. Aqui, a Lua seria o único intruso irregular.
Há, como ressalta Burtt, um forte vínculo entre o pitagorismo de Copérnico e o crescente movimento platônico que, neste sentido, deixa de ser o pano de fundo metafísico de um universo ordenado qualitativamente sob o prisma do aristotelismo que a escolástica absorveu via influência árabe. Neste sentido, transformam-se os referenciais advindos das autoridades – em verdade, já são, elas, outras – e, para os platônicos,
[...] a conversão das coisas na nova visão do mundo não era mais do que uma redução matemática de um complexo labirinto geométrico em um sistema simples, belo e harmonioso, com o encorajamento propiciado pelo renovado platonismo da época (BURTT, 1991, p.43).
Burtt (1991), Henry (1998) e Koyré (2001) concordam que Copérnico participou deste movimento de redução matemática de um mundo preso ainda à feição qualitativa da física aristotélica. Henry (1998) destaca, em Copérnico, o confronto entre uma incipiente matematização do mundo, advinda principalmente da tradição platônica, e o sensualista saber peripatético. É das limitações dos sentidos que advém, segundo o próprio Copérnico, o erro dos antigos na construção de uma representação geocêntrica do universo. Em Copérnico, já há fortes elementos da transgressão das aparências que promoverá a ciência moderna.
Copérnico (1984) atesta que a principal razão dos antigos para promulgar a nossa centralidade no universo advém das relações entre peso e leveza. A Terra, imóvel devido ao seu peso, permaneceria, nesta explicação, estática, constituindo-se no recipiente universal para onde todas as coisas pesadas convergem. A água seria também um elemento pesado que, como a terra, seria impelida sempre para baixo, procurando o meio. O ar e o fogo, elementos que complementariam a composição da natureza, se dirigiriam para cima. Aristóteles completaria tal
43 Não problematizaremos aqui a polêmica discussão acerca da simplicidade – ou não – do universo copernicano
frente ao ptolomaico. Para tanto, indicamos o confronto entre as idéias de E. A. Burtt e I. E. Cohen que Santos (2002) promove em seu livro. Em se tratando de uma questão que não tão determinante em nossa análise, continuaremos a nossa discussão com base na leitura que fizemos, principalmente, de Copérnico, Burtt (1991), Koyré (2001) e o próprio Santos (2002).
esquema com o Éter, compósito imutável e divino que circunda a Terra, esta constituída por movimentos de geração e degeneração.
Nicolau de Cusa nega a possibilidade que os sentidos possuem de apreender a composição de um universo que detém um caráter interminável. A potência da Criação também o é. Copérnico, neste aspecto, operará um salto mais radical: conceberá o improvável – o movimento da Terra e não do Sol – com base na negação daquilo que de mais confiável o sujeito até então detinha: os sentidos, todos claramente tocados pelo Sol que diariamente transcreve o caminho leste-oeste. O aparato matemático que comprovou a somente aparência de tal movimento seria fornecido, tempo mais tarde, por Galileu. Mas, a busca tipicamente científica de deixar o nível do sentido comum, das qualidades sensíveis da experiência imediata, destacada por Rossi (2001), já aparece em Copérnico.
Henry (1998) confirma tal perspectiva ao ressaltar que a novidade inserida por Copérnico consiste justamente na insistência da verdade física de sua teoria com base em fundamentos inteiramente matemáticos. A análise capaz de abstrações que caracterizaria a ciência moderna estaria aqui incipiente neste harmônico compósito matemático de que consiste o universo.
É o próprio movimento da Terra que traria confusão aos nossos sentidos. Daí a necessidade da abstração matemática. Copérnico ressalta que, antes de tudo, é necessário que verifiquemos qual é a relação entre a Terra e o céu. Uma vez feita tal verificação, poderemos, finalmente, sondar coisas mais elevadas e, conseqüentemente, evitar à atribuição ao céu do que pertence à Terra.
Este é o problema da física peripatética: a estabilização das aparências captadas pelos sentidos e a sua promulgação enquanto verdades absolutas. O raciocínio copernicano, que singularmente aproxima astronomia e matemática, tenta romper com tal estado de coisas e, em sentido semelhante ao que foi sugerido por Nicolau de Cusa, destaca o lugar onde se encontra o