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5. BØRSINTRODUKSJON OG IKT-SELSKAPER

5.1 Empiri

Introdução: Colombo e os descobrimentos

F

inal do século XV. Cristóvão Colombo começa a ruir, sem o saber, a tri-partida estrutura do mundo corrente na Geografia Medieval. Demonstra, também sem ter plena consciência, uma diversidade de temas, de conteúdos de difícil apreensão para o europeu absolutamente crédulo na infalibilidade do saber emanado pelas autoridades. Estimula, por afadigados e tortuosos percursos, a queda dos temas tratados por nós até aqui. Rompe os limites míticos do mundo – a figura do frontispício do Novum Organum de F. Bacon que discutiremos na próxima parte é bem emblemática disso –, esfacelando, em parte, o significante dos símbolos medievais pela descoberta da alteridade. Tal descoberta talvez seja a mais ampla da sua empresa. A mais importante destas alteridades descobertas será a estabelecida entre mundo e mente, sujeito e objeto. Retomaremos isso mais adiante. Abre-se o mundo, incorporam-se outros tempos. Exprime-se, também, a dificuldade de uma unidade cristã do mundo através de seu agigantamento de seus limites, de sua variedade. Abre-se o mundo, conhecem-se outras naturezas, outros conteúdos nunca antes previstos na Bíblia, na catalogação de Plínio, na enciclopédia de Aristóteles, nas transcrições da Geografia Medieval. Contudo, seria exigir muito do genovês Colombo a percepção de todas as rupturas que ele ajudara a insuflar.

Iremos, agora, discutir os termos deste conflito, e o que há também em Colombo dos conteúdos da natureza, do espaço e do tempo medievais. Além disso, discutiremos em Colombo o que não há desses conteúdos, temas que amplificam novidades, que o coloquem enquanto transfiguração de uma certa transição. É este, portanto, o objetivo da discussão que agora se inicia: identificar em Colombo elementos dos conteúdos da natureza, do espaço e tempo

medievais, bem como novidades que demonstrariam já o gérmen das rupturas de que trataremos na parte seguinte do trabalho. Iniciemos, portanto, a discussão.

Colombo inscreve-se, no cenário de nossas preocupações, dentro do tema descobrimentos. Com tal tema, desejamos explicitar o tortuoso e vacilante caminho para que os fatos particulares, bem como o próprio nominalismo que está na base da ciência moderna, ganhassem vulto, estabelecendo um tipo – novo, moderno – de relação do homem com o mundo em que conceitos e pré-conceitos se confrontam, na busca de estabelecimento da alteridade das coisas e do pensamento, construindo uma relação sujeito-objeto em que o primeiro deve despir-se, na medida do possível, dos gigantes do passado postos em seus ombros, em seus olhos.

As disposições do sujeito ocidental, europeu, sempre atentas à positividade da aparência, às comparações que transformam o jogo de semelhanças na retórica das igualizações, devem, em nome deste nominalismo, ceder lugar para um novo tipo de explicação universal, lançando mão ela também de conceitos universais que devem conter em si a força da própria realidade (BORNHEIM, 1998). O assustador caleidoscópio do mundo das sensações, que impulsiona o tipo de fuga metafísica para uma realidade transcendente, mais segura, portanto, imutável, deve servir de estímulo de apreensão desta complexidade, buscando na inteireza de cada fenômeno uma fonte para o conhecimento.

Nesta apreensão do diferente, do que escapa dos valores aceitos e, que, portanto, deve ser apreendido por mecanismos que permitam uma certa fuga de si mesmo, das igualizações do pensamento sempre atento em simplificar, em pôr graus de parentesco nas coisas do mundo, o conceito – dados os limites do subjetivo e do objetivo – deve se constituir enquanto um signo, um indicativo do que é constatado na natureza, como destaca Bornheim (1998), pondo-a, na medida do possível, em transparência. Uma vez que a existência precede a essência, ao contrário do que defendia o saber metafísico, é dela, não de um contrário forjado, que devemos partir. E como é diversa tal existência!

Os descobrimentos bem demonstraram isso, permitindo, em um certo sentido, esta passagem dos universais da teologia para os universais concretos que, na segurança do método, permitiram a apreensão dos fatos particulares.

Gradativamente, muda-se o ponto de partida para o entendimento da realidade. Às aspirações teológicas contrapõe-se a diversa inquietude da existência, escrita em uma linguagem diferente dos códigos sagrados expressos na Bíblia. Com o tempo, os códigos da natureza viriam a ser transformados pela lei do número, do algoritmo, estabilizando a prisão dos sentidos de que falara Santo Agostinho. Neste contexto, rompe-se com a metafísica e inicia-se o pensamento da finitude que

[...] quer significar tão somente a demarcação de um novo terreno, a medrança de um solo outro todo eivado de vontades outras que não as estipuladas pelo escolasticismo tradicional (BORNHEIM, 1998, p.23).

A arte e a ciência da navegação constituíram-se, segundo o referido autor, em conquista espacial, o que congrega, também, conquista da diferença, descoberta da diversidade. Mas, como enxergar de fato tamanha alteridade escancarada em uma abertura de mundo que rompe com toda uma perspectiva, uma cosmologia que organizava céus, mares e, significantemente, o próprio pensamento sobre as coisas deste mundo?

Cremos que esta questão explicitaria uma importante parte dos dramas da empresa de Colombo, tipificada, em nossa perspectiva, justamente por este jogo de semelhanças, de disposição do sujeito erguida por uma série de valores – que incluem uma concepção de espaço, de tempo e de natureza, apesar destas não serem as categorias primordiais do saber medieval – que são eles próprios postos, pouco a pouco, por terra. Contudo, antes disso, tais valores se incrustam na novidade concebida com os olhos do maravilhoso, com a grafia dos símbolos do Oriente, repletos do imaginário medieval, e, sobre as partes descobertas da América, depositam, não sem conflitos, conteúdos próximos aos presentes em uma Geografia Medieval repleta de dogmas, de desejos muitas vezes coletivos – o Paraíso é um bom exemplo – que obscurecem, de certa forma, a novidade escancarada, vinculando-se, ainda, a um tipo de saber desdobrado em palavras, nas tais das autoridades postas nos ombros, nos olhos e, porque não, no coração do observador.

Inquieto. Este parece ter sido o perfil de Colombo diante das fissuras de descompasso que brotaram da certa incompatibilidade entre teoria corrente e a novidade da realidade encontrada que por vezes parecia se sobrepor às expectativas do navegador. Observava de acordo com a tradição intelectual européia. Seu olhar dependia das teorias já aceitas. Foi, e muito, exegeta. Contudo, expressou, como já ressaltamos conflitos que, justamente, emergiam no cenário de desencontro entre o que fora escrito e o que estava sendo experenciado empiricamente. Exegese e conflitos marcariam os dramas de sua epopéia, ora teodicéia, ora somente história mundana. Expressaram, tais conflitos, ou a própria descoberta em si, uma transição, o início de uma ruptura com o que até aqui discutimos. É nesta perspectiva que realizaremos a discussão dos diários de viagem de Colombo. Vamos, então, a ela.

1.1- Alguns antecedentes: Toscanelli

A

preparação da empresa para as Índias, por parte de Colombo, encontrou em Toscanelli (1397-1482) um instrumental cartográfico que lhe permitiu, em tom de concretização de profecias, continuar uma façanha histórica que se iniciou com a expulsão dos judeus do reino de Castela e Aragão, prosseguiu junto ao triunfo dos soldados castelhanos sobre os mouros em Granada e que deveria ser finalizada com a sua chegada às costas asiático-orientais, como atesta Giucci (1992).

Há, por detrás de tal empresa, uma aspiração evangelizadora, propiciada via transposição do mar Oceano, que deveria ligar os Reis Católicos ao Grande Cã, a cristandade ao reino dos infiéis. Estabelecer uma unidade cristã e, simultaneamente, sorver todos os tesouros relatados por Marco Pólo (1254-1324), constituíram-se em princípios fundamentais, interligados e justificados plenamente pelos desígnios divinos expressos por Isaías, o profeta da conquista do Oriente.

Paolo dal Pozzo Toscanelli, cartógrafo veneziano, cosmógrafo consultor de Afonso V de Aragão, em epístola datada de 25 de junho de 1474, na cidade de Florença, seleciona notícias de caráter notável acerca dos relatos de Marco Polo, apresentando uma imagem espetacular da costa asiática, mensurando as virtudes orientais no sentido de sua apropriação por parte dos latinos. Tal descrição, segundo Giucci (1992), se estrutura em torno da idéia de benefício para a cristandade, despertando em Colombo, grande estímulo para a empresa das Índias, para a

concretização de seus ideais. A seguinte ilustração bem demonstra o estímulo, sobre Toscanelli, dos relatos de Marco Pólo.

Ilustração 5- Descrição de Toscanelli das terras narradas por Marco Pólo. Tal carta também

teria sido construída sob o estímulo de tal pensamento de Toscanelli

: estes lugares

feracíssimos em especiarias de todo o tipo e em pedraria podiam ser alcançados com relativa

facilidade pela navegação marítima rumo ao poente.

Fonte: www.geocities.com/pensamento/inicio.html

Antes deste período, no ano de 1457, Toscanelli publicara um mapa feito sobre a base de uma carta portulana (Ilustração 5), como bem demonstram as linhas loxodrômicas e a própria folha do pergaminho que serve de assento para o mapa (VV.AA apud Santos, 2002), rompendo, em vários aspectos bastante significativos, com alguns traços dos chamados mapas TOs da Idade Média, como bem destaca Santos (2002): o direcionamento para o norte; a precisão com relação aos contornos costeiros no Mediterrâneo; a evidente presença, em sua construção, de recursos geométricos, como o próprio uso da escala atesta.

Ilustração 6- Portulano de Toscanelli (1457). Fonte:

www.geocities.com/pensamento/inicio.html

O que mais salta aos olhos no mapa de Toscanelli é a mescla de cartografia da experiência que, segundo Santos (2002), garante o deslocamento seguro pelo uso da bússola e linhas de rumo, tipificando as Cartas Portulano, com a imprecisão recoberta de seres e lugares fantásticos que marcaram a identidade do Índico, do sul da África e do nordeste da Ásia. Nestes termos, a precisão matemática de tal carta restringe-se apenas, como é ponto comum nas Cartas Portulano, à resolução de problemas ligados ao comércio do Mediterrâneo, preenchendo o conteúdo do mundo que se afasta com o maravilhoso.

Lançando-se no mar Oceano, Colombo esperava justamente encontrar todo o topos maravilhoso, discutido na Idade Média, afastando-se da segurança da precisão matemática com que eram representadas certas áreas da Europa a partir do advento do Mapa Portulano em meados do século XIII. Os relatos de Marco Polo, por ele digerido, segundo Giucci (1992), através do filtro da maravilha realizado por Toscanelli – tanto o de sua cartografia, quanto o das suas epístolas -, deveriam ser encontrados mundo à frente, bem como o Paraíso terrestre, expressão fundamental de um já distante Isidoro de Sevilha, ainda influente nas representações de mundo da época. Em meio a tantas dúvidas e controvérsias, Ptolomeu, que calculou a circunferência da Terra em 180 graus, poderia estar equivocado. Martin de Tyr e seus 225 graus também

(BENASSARI, 1998). O Oriente poderia estar próximo, desde que invertêssemos as tradicionais rotas, conduzindo as naus para o Ocidente, exorcizando o Mar Tenebroso.

Pierre d’Ailly (1350-1420), o cardeal humanista que reduziu a circunferência da Terra para 105 graus, de acordo com Bennassari (1998), poderia estar certo31. Se estivesse, certa seria também a chegada nas Índias por esta rota alternativa, rumo aos espaços ainda não “cosmosificados” pela geometria dos portulanos, sendo a incerteza da distância facilmente tragada pela perícia do Almirante em ludibriar sua tripulação, temerosa de cair no precipício que parecia dar limites para o mundo até então preso pelas colunas de Hércules:

Segunda, 1 de outubro: “A conta menor que o Almirante mostrava à tripulação era de quinhentas e oitenta e quatro léguas; mas a verdadeira, que o Almirante calculava e escondia, era de setecentas e sete.” (COLOMBO, 1991, p.40). Em meio a tamanhas incertezas e ameaças de motim, Colombo, que parecia crer na providência existente por detrás de seus planos, desembarca na América.

Isto foi no diz 11 de outubro de 1492, e o primeiro a avistar terra foi Rodrigo de Triana, a bordo da Pinta.

1.2- A visão das Índias

T

oscanelli que, como tivemos a oportunidade de ver, forneceu a Colombo um estímulo gráfico com a representação cartográfica do mundo conhecido do século XV e, também, um estímulo que se refere aos conteúdos deste mundo que o Almirante tentaria atingir criando ele mesmo uma rota alternativa, confirmou, certa vez, a viabilidade de uma empresa destinada a

31 Colombo ressalta, na Carta do Almirante aos Reis Católicos, que narra os acontecimentos da terceira viagem (1498-1500), que Aristóteles disse ser este mundo pequeno e a água muito escassa, sendo fácil passar da Espanha a Índia. Segundo Colombo (1991) o cardeal Pedro de Aliaco autoriza tal afirmação; afirma que Aristóteles pôde saber bastante por causa de Alexandre Magno, Sêneca por causa de Nero e Plínio por causa do Império Romano, que gastou dinheiro e gente, empenhando-se em conhecer os segredos do mundo, divulgando-os aos povos. É, portanto, nos termos do tamanho do mundo e da quantidade de águas nele presentes que Colombo tenta situar a justificativa para a suposta ousadia de sua empresa.

trilhar o caminho do Oriente rumando para o Ocidente: estes lugares feracíssimos em especiarias

de todo o tipo e em pedraria podiam ser alcançados com relativa facilidade pela navegação marítima rumo ao poente (TOSCANELLI apud GIUCCI, 1992, p.112).

Colombo desembarca, portanto, nas Bahamas, em uma ilha hoje chamada de Watlings, não tardando em estabelecer com os nativos um tipo de contato, etnocêntrico por excelência, em que os atributos do outro se configuram em potencialidades para o tipo de igualização de horizontes necessária à conversão, uma das finalidades da empresa:

(...) porque nos demonstraram grande amizade, pois percebi que eram pessoas que melhor se entregariam e converteriam à nossa fé pelo amor e não pela força (...) Devem ser bons serviçais e habilidosos, pois noto que repetem logo o que a gente diz e creio que depressa se fariam cristãos (COLOMBO, 1991, p 44). Uma concepção das Índias, de seu conteúdo e dos fins de uma missão que lá chegasse estavam de antemão traçados por Colombo. Conversão e exploração convergiam para a realização dos desígnios da divina providência, sendo as riquezas encontradas uma espécie de subsídio necessário para a implementação da conquista.

No transcorrer das quatro viagens, os conteúdos inerentes ao Oriente, e aqui se inclui a localização do Paraíso, são encontrados em certos indícios que Colombo parece precipitadamente achar, tornando-os, desde já, convenção. Há, por detrás de toda empresa, uma espécie de exegese do Novo Mundo – que para o Almirante não era nada mais do que alguma porção do Oriente – fundamentada, principalmente, nos a prioris das autoridades que antecipavam o que deveria ser encontrado criando um nível tal de expectativa que, no máximo, poderia transfigurar o novo em conflito, em certas rupturas – como a própria forma de pêra que Colombo disse possuir o planeta, como veremos –, mas não enquanto uma realidade por si própria, a ser plenamente desbravada pelo reconhecimento de seu ineditismo.

Assim, o diário de bordo da Primeira Viagem e as próprias cartas relativas às outras três, constituem um material em que aflora, claramente, a transposição de máximas da Geografia Medieval para a escancarada novidade em que se constituía este novo continente. Tudo, no transcorrer da descoberta, parecia conduzir para confirmações, bem pouco para novidades. Foi

assim que, dez dias após a descoberta de terra firme, Colombo declara: agora, porém, já me

determinei a ir à terra firme, e também, à cidade de Quisay32 , para entregar as cartas de Vossas Majestades ao Grande Cã, pedir resposta e regressar com ela (p.53). As ilustrações 7 e 8, que

seguem, demonstram as primeiras representações das terras descobertas.

Ilustração 7- Esboço de Cristóvão Colombo sobre as terras visitadas. Destaque para a ilha de

Espanhola. 1492-1493. Fonte: www.geocities.com/pensamentobr/inicio.html. Sobre as terras encontradas, com ênfase para a ilha de Espanhola, Colombo escrevera:

Creiam Vossas

Majestades – diz o Almirante – que estas terras são tão boas e férteis, sobretudo as desta ilha

Espanhola, que não há ninguém capaz de exprimir em palavras e que só pode acreditar quem já

viu. E estes índios são dóceis e bons para receber ordens e fazê-los trabalhar, semear e tudo o

mais que for preciso, e para construir povoados, e aprender a andar vestidos e a seguir nossos

costumes’ (p.73-74).

Ilustração 8- Mapa das descobertas de Colombo.Cristóvão Colombo/Carolus

Verardus, 1493. Fonte: www.geocities.com/pensamentobr/inicio.html

Os indícios das descrições de Marco Polo preenchem vários momentos da narrativa da primeira viagem. No dia 28 de outubro, domingo, a caminho de Cuba, Colombo diz avistar minas de ouro, pérolas e um porto onde, provavelmente, deveriam ancorar as naves do Grande Cã. Dois dias depois afirma que o rei de Cuba estaria em guerra contra o Grande Cã, que os índios parecem chamar de Cami. Em 17 de novembro, narrando, como sempre fez durante todo o diário da Primeira Viagem, na terceira pessoa do singular, inclusive referindo-se a si nestes termos, diz:

achou aqui – a referência é a si próprio – nozes iguais às da Índia [...] e enormes ratões, também como os da Índia, e caranguejos imensos (p.62-3). Já na Quarta Viagem, o Almirante,

demonstrando o tom de melancolia geral intrínseco ao texto que escreveu, expressão do fracasso de uma empresa que pareceu não oferecer os resultados imediatos esperados – leia-se, a extração de riquezas, principalmente ouro -, disse, estando na Costa do Mosquito, Panamá: Eu que, como

disse, por várias vezes me vi às portas da morte, soube ali das minas de ouro da província de Ciamba, que tanto procurava (p.152-3)- Aqui, o detalhe fica por conta de que Ciamba, em

Giucci (1991) destaca que, na primeira viagem, as alusões à figura de Marco Polo se dão pela leitura indireta de sua obra feita pelo filtro de Toscanelli, que representou em seu mapa algumas das narrativas do navegador, como bem atestou a Ilustração 5. Nestes contexto, temos que

O Novo Mundo emerge como texto original no qual a inscrição da diferença vai sendo progressivamente ocultada pela superposição de identificações que tendem a satisfazer o horizonte de expectativas do receptor (GIUCCI, 1991, p.115).

Nucay. Esta parece ter sido a palavra indígena primeiramente aprendida por Colombo que, demorando-se em reconhecer a diversidade lingüística das diferentes tribos, a toma enquanto principal ponto de referência e comunicação. Quer ela dizer ouro, expressão de todas as riquezas que deveriam existir – esta premissa é fundamental na expectativa do cristão – na fabulosa Índia, localizada em um Oriente tomado enquanto símbolo.

É nestes termos que Sérgio Buarque de Holanda destaca a interpretação do genovês com relação ao discurso dos índios: é ela expressão dos significados contidos em Marco Polo (HOLANDA, 1969). De acordo com o referido autor, além de Marco Polo, autores antigos e geógrafos medievais se incrustavam na interpretação que Colombo fazia da fala dos índios antilhanos, conduzindo-as de maneira a confirmar as suas expectativas. Daí, cremos, resultaram alguns exageros presentes nos relatos da Primeira Viagem, como os relatos de rios de ouro, da temperança de um clima que não entrega ninguém à doença.

A novidade do ambiente parecia, neste contexto, esfumaçada em um pano de fundo substituído, em parte, pelos a prioris do saber livresco que Colombo procurou transpor para aquelas paragens. O aprender da linguagem, condição fundamental para a descoberta da alteridade, colocou-se, como deixa transparecer o Almirante, na não superação dos limites de si mesmo, levando a uma construção do outro que esbarra nos aprioris das expectativas e na própria transfiguração de um contexto embebido pelos afãs do maravilhoso, amenizados pelo aspecto da conquista, pela face, em princípio oculta, da dominação.

As palavras, de acordo com Giucci (1991), acabam se desdobrando em camadas ameaçadoras. Por um lado, acabam demonstrando cumplicidade para neutralizar rebeldias, oferecendo amizade para restringir as possibilidades de desarmonia. Por outro lado, elas advertem, também, em caráter paternal, visando incutir o medo, desencadear o temor. No discurso dos europeus o reino de Castela é construído de forma a parecer o reino da autoridade