Documentário, primeiro trabalho fílmico com a direção de Rogério Sganzerla, tangencia as discussões cinematográficas que eram levadas adiante nos jornais pelo (ainda) crítico de cinema em meados da década de 1960. As referências do crítico- cineasta passeiam por todo o curta-metragem, numa linguagem fílmica que mescla Howard Hawks, Samuel Fuller e Jean-Luc Godard, entre outros. Apesar de ter interesse pelas filmagens em si, situação que até então não era levada adiante em concomitância à atividade de crítico, Documentário “surgiu” na trajetória de Rogério Sganzerla de forma prosaica. É o próprio Sganzerla quem relata:
Nunca pensei em ser crítico. Sempre quis mesmo foi dirigir. Mas gosto do que faço porque enquanto pude, fiz cinema com a máquina
de escrever. Não diferencio o escrever sobre cinema do escrever
cinema. No ano passado, Maurice Legeard veio de Santos e me deu algum dinheiro para eu filmar o que quisesse. Resolvi fazer uns 16 mm. Os atores foram dois amigos meus a quem recorri na última hora. (...) A fotografia é a melhor coisa do filminho que ainda não está sonorizado – não tenho produção nem muito dinheiro, por isso, tudo vai devagar. Foi totalmente rodado nas ruas de São Paulo com paupérrimos recursos. Gosto entretanto do que fiz porque os seus 14 minutos (sic) estão narrados com mise-en-scène.99
Filmado em ruas centrais da cidade de São Paulo, Documentário versa sobre o tédio, a apatia de dois rapazes que, “sem ter o que fazer”, discutem cinema no “coração” da metrópole paulistana. As bancas de revistas, o trânsito de automóveis, as revistas em quadrinhos, os cartazes de filmes nas entradas dos cinemas do centro da cidade compõem um quadro cênico no qual a cultura de massa se imiscui ao ambiente urbano. O cinema, como mais um “ícone” da cidade que se transforma, torna-se um amálgama, uma referência sugerida no curta-metragem pelo diretor com o objetivo de proporcionar ação aos dois personagens.
O curta-metragem se inicia com a marcação do tempo e na tela surge a informação: “Três horas”. Em 10 minutos (tempo de duração do curta), chega-se às “Seis horas”, num “aviso” de encerramento na tela que nos remete a uma efeméride temporal que dá um indício das “futuras” opções cinematográficas de Sganzerla: fusão de elementos e
99 ALENCAR, Miriam. As promessas do tédio e da coragem. Publicada originalmente no Jornal do
Brasil em 1966. In: CANUTO, Roberta (Org.). Rogério Sganzerla: encontros. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2007. p15.
experimentação de linguagens. Cinema russo, inglês, americano, italiano, brasileiro: todos os “cinemas” alocados numa mesma lente da mise-en-scène de Sganzerla, num estilo documental no qual os personagens “indecisos”, colocam em dúvida a todo instante o próprio estatuto do cinema. Em certo trecho do filme, um diálogo entre os personagens Marcelo e Vítor é sugestivo quanto a esse aspecto colocado em pauta por Sganzerla:
Marcelo pergunta: “E o documentário que você ia fazer pra televisão da Argentina?”
Vítor responde: “Não vamos mais falar de novo de cinema, vai...!! Vamos mudar de assunto, falar de outra coisa.”
Marcelo: “E do que você quer que eu fale aqui em São Paulo?” Vítor: “É que cinema ta ficando sério demais.”
Há uma evidente incursão de Rogério Sganzerla pelos pressupostos teóricos e cinematográficos com os quais ele já dialogava nas páginas do Suplemento Literário. Em Documentário, percebemos traços das noções de cinema moderno discutidas pelo crítico em sua coluna jornalística:
Em primeiro lugar, o filme se localiza diante da realidade, muito vasta e profícua para ser abstraída e composta em doses, ou seja, obedecendo uma estrutura cartesiana. A câmera individualiza-se e toma posição frente à intriga; já não se situa em todos os lugares, posições, e até dois lugares ao mesmo tempo (montagem paralela).100 Diante de conceitos que remetem a aspectos modernos do cinema, Rogério Sganzerla elege Documentário como um primeiro lugar de experimentação. A necessidade em se desprender de fatores considerados ultrapassados (idéia de absoluto, narrativa linear, noção de clímax, etc.) presentes no cinema tradicional, faz com que o crítico-cineasta enverede pelo caminho da “exacerbação” das suas influências. As noções de cinema moderno apregoadas por Sganzerla no Suplemento Literário na década de 1960, voltam à cena com veemência em Documentário:
Verifica-se (...) uma busca do concreto. Grande parte dos filmes modernos passa-se em exteriores reais, localiza-se no contato com a realidade bruta. Invade objetos como automóveis, corredores, o
100 SGANZERLA, Rogério. Noções de cinema moderno. Jornal O Estado de São Paulo, Suplemento
elevador e a rua, em movimento, onde se sente as limitações da captação do real.101
Em Documentário todos esses elementos encontram-se presentes, apesar de dispersos. A aproximação com o gênero documentário coloca em relevo, na opinião de Sganzerla, ao caráter relativista do cinema moderno.
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O desfile de referências a determinados longas-metragens no interior do curta- metragem de Rogério Sganzerla (explicitadas no olhar do diretor sobre os cartazes desses filmes), dimensionam as influências do crítico-cineasta catarinense: O esporte
favorito do homem (Howard Hawks, 1964), O diário de uma camareira (Luís Buñuel, 1964), Alphaville (Jean-Luc Godard, 1965), Mosqueteiros do mal (Leslie Fenton, 1949), além de referências explícitas a Alfred Hitchcock, Orson Welles, Jerry Lewis, entre outros, se justapõem às imagens da entrada de cinemas paulistanos, tais como o Cine Windsor, o Arizona e o Los Angeles:
Não há situações preconcebidas, estas nascem em contato com o espaço e tempo reais, determinados, concretos e individuais. Uma parede imprevista, um gesto não ensaiado, um reflexo solto, são instantes espontâneos e fugazes que, registrados pela objetiva, tornam-se preciosos e vitais: são instantes de liberdade.102
A “liberdade” sugerida pelo crítico pode ser percebida com mais sutileza com o seu primeiro longa-metragem, O bandido da luz vermelha. Até chegar à sua produção, Rogério Sganzerla vai rever o seu posicionamento sobre a importância do cinema moderno e, neste sentido, passará a criticar os mesmos pressupostos teóricos que
101 SGANZERLA, Rogério. Noções de cinema moderno. Jornal O Estado de São Paulo, Suplemento
Literário, 30 jan. 1965.
outrora defendia. Ainda em 1966, em entrevista ao Jornal do Brasil, Sganzerla vê o cinema moderno com “outros olhos”:
Penso que o cinema moderno está entrando numa nova fase. Chega ao fim a moda da câmera na mão, dos longos travellings, do acúmulo de diálogos, de um cinema redundante.
Mesmo no trecho final de Documentário, já é possível percebermos a guinada teórica intentada pelo cineasta. Enquanto os personagens Vítor e Marcelo dialogam, ouve-se ao fundo a voz do diretor Rogério Sganzerla, que afirma: “precisa acabar com esse estilo Nouvelle Vague importada. Cinema, nunca se consegue fazer o máximo, tem que se contentar com o que tá aí na tela, quebra o galho (sic). Da próxima vez vou fazer tudo diferente”. E fez.