Conforme pesquisas de Berenchtein Neto (2007), o relato de suicídio mais antigo data de 2.500 a.C., quando a ingestão voluntária de uma bebida envenenada matou doze pessoas que, pacientemente, se deitaram para aguardar seu efeito na cidade de Ur, na Mesopotâmia. Na Antiguidade, diversos povos ocidentais preconizavam o suicídio aos idosos para serem privados dos desconfortos da velhice, além de que preceitos religiosos garantiam- lhes uma morada além da vida repleta de delícias.
Na Grécia antiga cada corrente filosófica defendia uma posição. Aquelas que consideravam a vida como um bem pessoal como os epicurianos, estóicos e cínicos defendiam o direito ao suicídio. Já entre os que consideravam o sujeito como um ser social como os pitagóricos, o suicídio era condenado. Aristóteles foi mais um a condenar radicalmente, enquanto Platão, embora também não concordasse, abria exceções, como no caso de condenação, de uma dor insuportável ou doença incurável, ou mesmo no caso de pobreza extrema ou grande vergonha (Kurcgant; Wang, 2004).
No século II d.C., o direito romano não mais permitiu a livre escolha pela morte. Até então escravos e soldados eram proibidos de se matar enquanto suicídios heróicos eram aceitos. Para o poeta Virgílio, àqueles que se matavam por patriotismo estavam reservados os Campos Elíseos. Já para os que suicidavam por desgosto da vida, o inferno (Kurcgant; Wang, 2004).
Durante a Idade Média, a morte voluntária era considerada crime e vista com um ato de loucura ou uma tentação demoníaca. Dapieve (2007) fez um breve relato da visão da morte pelo cristianismo e afirmou que São Tomás de Aquino considerava que o ato de se matar era um atentado contra a natureza e a caridade, contra a sociedade e contra Deus, a quem devemos nossa vida. Esta visão norteou a Igreja Católica por muitos séculos. O enterro dos corpos dos suicidas, considerados assassinos de si mesmos e, portanto, hereges, não era permitido nos campos santos.
Como Igreja e Estado se confundiam, a família do suicida sofria sanções além da perda da herança, bem como era obrigada a assistir às crueldades a que o corpo do morto era submetido. Tal posição só foi revista em 1918, pelo Papa Bento XV, que admitiu a possibilidade de um desconforto mental, uma insanidade dos suicidas. Desta maneira, a Igreja passou a admitir a possibilidade de um arrependimento na hora da morte, o que permite rituais tradicionais do catolicismo para esses mortos. Mesmo assim, a visão de suicídio como um pecado mortal ainda se encontra impregnada na cultura cristã (Corrêa; Barrero, 2006).
Com o surgimento do Renascimento, houve retorno ao ideal humanista – o homem é um ser supremo governador de sua conduta. O Estado e as Igrejas, tanto a católica quanto as protestantes, ainda reprimiam o suicídio, porém alguns filósofos e intelectuais defendiam o direito de o indivíduo escolher a hora da sua morte. Esta posição não era unânime. Dante Alighieri, na Divina Comédia, coloca os suicidas no centro do inferno. Nessa época, o aspecto mais digno de nota foi a questão ser colocada em debate.
No final do século XVI, início do século XVII foi publicado o livro Biothanatos – a declaration of that paradoxe, or thesis, that self-homicide is not so naturally sinne, that it may never be otherwise2, de John Donne. Poeta, capelão anglicano da Corte da Inglaterra, doutor em Teologia por Cambridge e professor na maior escola de Direito da Londres da época, defendia a ideia de que o suicídio não era pecado, mas consequência da melancolia e da solidão, sendo, portanto, uma doença, contradizendo tudo o que até então as Igrejas defendiam. O livro só foi impresso em escala comercial 16 anos após a morte do autor. Ele próprio, ao encaminhar uma das raras cópias a um amigo, fez questão de ressaltar que quem escrevia era o “doutor” (Dapieve, 2007).
No século XVIII, conhecido como o século das luzes em função do Movimento Iluminista, trouxe consigo ideais de liberalidade e tolerância também com o suicídio. O
2 Biothanatos: uma declaração sobre o paradoxo, ou tese, de que o auto-homicídio não é um pecado tão natural,
assunto se tornou debate público. A pessoa que cometia o suicídio começou a ser vista como um infeliz. Um exemplo foi a constituição francesa, consequência da revolução, que além de não citar o suicídio como crime também proibia a desonra dos familiares, o confisco dos bens dos condenados e a exclusão da sepultura comum. A imprensa ajudou a difundir a ideia de que a morte voluntária era mais consequência de fatores sociais e psicológicos que problema ligado à justiça e a religião. Na Inglaterra, berço da Revolução Industrial, a penalização religiosa só foi abolida em 1823 e as sanções civis em 18703. O mais importante de se observar neste período é que as discussões sobre as causas do suicídio começaram a ganhar espaço (Kurcgant; Wang, 2004).
Em 1983, dois franceses, Claude Guillon e Yves Le Bonniec publicaram o livro ‘Suicídio: modos de usar’. De caráter político, segundo seus autores, o livro se propõe a ser um manifesto sobre a vida e a dignidade. Um dos capítulos mais polêmicos é o dedicado às maneiras mais eficazes de promover a própria morte. Em alguns países sua publicação foi proibida e, na própria França, que tem a liberdade como um de seus lemas, tentou-se também proibi-lo, mas sem sucesso (Guillon; Le Bonniec, 1984).
Hoje, século XXI, apesar de o suicídio estar sendo cada vez mais estudado, nossa perplexidade diante do fenômeno continua (Kurcgant; Wang 2004), bem como sua ambivalência. Se, por um lado, consideramos o engajamento religioso como uma proteção a situações de risco, temos aqueles que o praticam em nome da religião (Almeida; Almeida Neto, 2004; Werlang; Asnis, 2004).