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No final do séc. XIX, mais precisamente em 1897, a França foi balançada pelo lançamento do livro Le suicide: estude sociologique, escrito por Émile Durkheim. O livro é um estudo empírico baseado nas estatísticas de suicídio de França, Prússia, Inglaterra, Saxônia, Baviera e Dinamarca durante o período de 1841 a 1872.

O interesse de Durkheim pelo tema nasceu depois da morte por suicídio de seu amigo Hommay. Ele percebeu, então, a possibilidade de firmar a sociologia como disciplina independente, uma vez que poderia explicar sociologicamente um evento individual que parecia depender quase que exclusivamente de fatores pessoais e psicológicos, mas que significava um rompimento de vínculos entre os homens (Nunes, 1998). Essa obra é a mais citada na Suicidologia e considerada um dos pilares da sociologia. É dividida em três partes:

• No Livro Primeiro, o autor discorre sobre os fatores extra-sociais como aspectos psicopáticos, loucura, raça, hereditariedade, aspectos cósmicos como clima, temperatura, sazonalidade e também a imitação. A imitação se tornou de fundamental importância depois que em 1774, Goethe, escritor alemão, publicou a obra Os sofrimentos do jovem Werther, onde o personagem principal, Werther, se mata em consequência de uma desilusão amorosa. Na época do lançamento do livro, a Europa foi invadiada por uma onda de suicídios.

• A segunda parte de Le suicide: estude sociologique, ou Livro Segundo, é dedicado às causas e tipos sociais, discorrendo sobre o método para determiná-los e os tipos de suicídio; e

• O Livro Terceiro trata do suicídio como fenômeno social em geral (Durkheim, 2003).

Para o autor, a sociedade prevalece sobre o indivíduo e, dentro desta concepção, os fatores extra-sociais estudados no Livro Primeiro não são importantes. Portanto, não é o indivíduo que se suicida e sim a sociedade através dele. A incidência de suicídio numa determinada sociedade está diretamente relacionada tanto ao nível de integração social dos indivíduos da mesma quanto ao nível de regulação social. De acordo com este nível de

integração, Durkheim classifica os suicídios em dois tipos: o suicídio egoísta e seu correlato oposto, o altruísta. Em relação ao nível de regulação social também classifica os suicídio em mais dois tipos: o anômico e o fatalista.

O suicídio egoísta é aquele em que o indivíduo com uma fraca rede social faz sua escolha num estado de individualismo excessivo como consequência de um transtorno na sua integração com a coletividade social. O eu individual se sobrepõe ao eu social. Em oposição a ele, há o suicídio altruísta, quando o eu social se sobrepõe ao eu individual, uma vez que o indivíduo está excessivamente ligado à sociedade. Corrêa e Barrero (2006) consideram que este é o suicídio pedido pela sociedade (caso das viúvas indianas que devem se matar após a morte do esposo e do haraquiri no Japão antigo, nome popular do Seppuku, cometido por guerreiros com o propósito de recuperar a honra pessoal ou limpar o nome da família, caso essa honra fosse perdida em alguma atitude indigna). Nestes casos, não se matar seria razão de desonra ou prejuízos para a pessoa e seus familiares.

O suicídio anômico é aquele que se dá em função das normas sociais, quando há um deslocamento de valores que leva à desorientação pessoal e ao sentimento de falta de sentido da vida. Já o suicídio fatalista é citado por Durkheim em nota de rodapé, classificando-o como muito raro. Nele, a excessiva regulação moral levaria a um estado de dor insuportável e o indivíduo sentiria seu futuro imensamente limitado.

O livro termina com um capítulo denominado ‘consequências práticas’, no qual Durkheim define o suicídio como um fenômeno patológico cada vez mais ameaçador e se pergunta o que fazer para deter a expansão do fenômeno. Aponta a educação como meio de fortalecer a moral, desenvolvendo convicções contra a prática do suicídio, mesmo sabendo que isso levaria a atribuir à educação um papel que não lhe cabe. Lança a ideia de que a profilaxia não pode deixar de ‘lembrar permanentemente ao homem esse salutar sentimento de solidariedade’. Desta forma, a vida teria sentido. Ele acreditava que a criação de redes sociais fortes seria uma possibilidade de solução do problema causador desse profundo mal- estar na sociedade. Vale ressaltar que durante toda a obra ficam claras sua posição contrária ao suicídio, que considera imoral e, portanto, deve ser reprovado e sua visão de que a integração social protege contra suicídio.

A obra recebeu muitas críticas, como ter ‘confiado’ demais em estatísticas oficiais como medidas exatas e ter descartado dados com raça, sob a alegação de esse não ser um dado social e sim orgânico. Porém, não teve a mesma opinião no que diz respeito ao sexo e à idade, bem como ter utilizado aspectos orgânicos como componentes sociais.

Minayo (1998) faz duras críticas ao fato de Durkheim dar pouca importância aos aspectos individuais, considerando que ele ficou mais interessado em provar a teoria de moralidade e solidariedade do que no próprio debate. Talvez por isso não tenha se detido na discussão que dominava os psiquiatras da época sobre as correlações entre saúde mental e suicídio. O autor só considerou os estudos que defendiam uma visão semelhante à sua.

Embora ainda seja uma obra considerada fundamental para o entendimento do suicídio, as abordagens sociológicas sobre o fenômeno não se resumem ao trabalho de Durkheim. Nas décadas de 20 e 30 do século XX surgiu, na Universidade de Chicago, a abordagem ecológica, que considera o anonimato, a pobreza e o isolamento social como fatores elicidadores do suicídio (Beato, 2004).

Outros autores, como Gibbs e Martin (1958) e Powell (1958) começaram seus trabalhos criticando Durkheim. Trouxeram boas contribuições na medida em que introduziram a questão do status nos estudos, considerando que a avaliação da estabilidade e da durabilidade das relações sociais poderiam ser mais adequadas como risco de suicídio que o conceito de integração social. Powell foi um pouco além ao considerar, além do status, aspectos sociopsicológicos de frustração e agressão.

Teixeira (2003) citou os trabalhos de Villardón desenvolvidos na Espanha e que abordaram a questão do pensamento suicida ou ideação suicida. A autora viu a causa do suicídio como uma conjunção de fatores tanto no contexto micro quanto no macrossocial. Considerou que o grau de ideação suicida está relacionado com o nível de stress e com a capacidade de seu enfrentamento além de que fatores como apoio social, autoconceito, autoestima, estado do humor não podem deixar de ser observados.

Em conformidade com a visão de que o suicídio seria um fenômeno determinado pela interação do indivíduo com a sociedade, encontramos os estudos de Clemente e González (Teixeira, 2003). Os autores compreendem o suicídio como consequência da experiência do sujeito numa sociedade que lhe impõe barreiras, enviando-lhe mensagens ambivalentes.