5.1 Case Evaluation
5.1.2 Total Software Solution
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo. Manoel de Barros6
Uma criação de arte, um texto ou um poema é um relato subjetivo, uma ficção própria da natureza humana, um trabalho que se desenvolve em torno do vazio, do indizível, promovendo, em seu fazer, uma transfiguração do lugar comum em um lugar novo, inventado. O interesse de Freud pela criação artística se desdobra no questionamento sobre o que a psicanálise pode aprender com a arte e, em seu percurso
teórico, convoca desde a expressão estética até o processo de criação poética e subversão da linguagem como interlocutores da prática analítica.
Freud encontrou na arte um ponto no qual apoiar suas descobertas sobre o inconsciente e, consequentemente, suas formulações teóricas, seja procurando elucidar os enigmas relativos às emoções e à subjetividade, seja destacando aproximações estruturais como os jogos de palavras, a criação de outra realidade, a encenação, a preservação e o interesse pelo enigma. Segundo ele, há um trabalho na criação poética no qual a forma dada à obra de arte permite um jogo de luz e sombra, de dito e de dizer, de comunicação e de equívoco, o que faz com que o leitor sinta, ao mesmo tempo, um distanciamento e uma intimidade com o que aparece nos textos poéticos.
Lacan, no retorno que faz a obra freudiana, enfatiza a relação entre o campo da psicanálise e o da arte pelo viés da linguagem. Em aula a estudantes de letras, Lacan relembra a importância que Freud confere à literatura, apontando a universitas litterarum como o lugar ideal para a psicanálise. O especial interesse de Lacan pela poesia aponta para o que permeia seu ensino: o sujeito como um efeito de linguagem em sua estrutura e em sua incompletude, ou seja, naquilo que é possível ser veiculado pela palavra – o significante – e naquilo que a estrutura simbólica da palavra não consegue abarcar, o real, a letra, o traço radical de um sujeito. A poesia traz, em seus mecanismos de linguagem, formas semelhantes de articulação e de uso da palavra à função e à organização do significante e da letra no inconsciente.
A linguagem é o instrumento da psicanálise e da poesia. Freud, ao descrever as manifestações do inconsciente – sonhos, atos falhos, chistes, sintomas –, desvela a estrutura de linguagem presente no inconsciente, demonstrando a relação linguagem e inconsciente como determinantes do sujeito. É Lacan, no entanto, quem formaliza tal relação, afirmando que o inconsciente funciona segundo as mesmas regras da
linguagem, enfatizando a linguagem como condição para o inconsciente e propondo que, para explicar a constituição do sujeito, é necessário considerar, primeiramente, o campo a partir do qual ele se constitui: o campo da fala e da linguagem.
Com Lacan, vemos, por meio da primazia do significante e do conceito de letra, a aproximação entre a linguagem do inconsciente e a linguagem poética. Ao subverter o algoritmo saussuriano que encerra o signo, trazendo como marca distintiva a primazia do significante, Lacan coloca o significante na posição de comando, apontando que há algo mais no significante que o significado não dá conta. Essa subversão, feita por Lacan, marca com precisão de que se trata a linguagem que vigora no inconsciente e, portanto, na clínica psicanalítica: a linguagem em seu aspecto sonoro, uma linguagem vazia de sentido e que, justamente por isso, pode abrigar as mais diversas significações, onde cada sujeito poderá produzir sua significação, única e singular.
Os significantes (simbólicos), que marcam cada sujeito, tocam um traço que porta a singularidade radical do sujeito por alojar-se em um ponto o qual a palavra não alcança, mas contorna, esse ponto é a Letra. Lacan situa a Letra como “litoral, separando territórios distintos, como aquilo que do simbólico constitui a borda que avança sobre o real” (Ribeiro, 2000, p.72). A Letra, então, é uma marca real, despojada de sentido, que limita a cadeia significante, apontando a impossibilidade do sujeito se representar todo pelo significante. Nela está inscrita a forma de gozar de cada sujeito, a marca que insiste em suas repetições.
Chegamos ao ponto que nos permite pensar a linguagem que vigora na clínica psicanalítica, a saber, a linguagem cifrada, equivocada, que se apresenta como senha para o inconsciente na medida em que se serve do simbólico para veicular o real do trauma.
Um dia Lacan estava falando de sua prática durante seu seminário L´Insu que sai de l´Une-bévue: “Só a poesia permite a interpretação. E é por isso que já não consigo, na minha técnica, que ela se mantenha; não sou suficientemente pohâte.” Na verdade, ele acaba de dizer nesse seminário que a poesia é um efeito de sentido, bem como um efeito de furo. Poète [poeta] é sentido. Pohâte é furo. Foi em 17 de maio de 1977 (Julien, 2009, p. 51).
A linguagem que vigora no campo da poesia não se submete à significação estática, é uma linguagem que se produz a partir da subversão do código da língua, uma licença para que algo novo se produza visando a um efeito estético e a uma abertura à pluralidade de sentidos. Para tanto, podemos pensar que ambos os campos do conhecimento apontam para uma linguagem homofônica e polifônica, que não se encerra no exercício da língua enquanto código social. São estruturas de linguagem que privilegiam o não-dito como abertura à interpretação.
Sobre o lugar da interpretação na experiência psicanalítica, partimos da linguagem permeada pelo equívoco como forma de acesso à verdade de cada sujeito. A linguagem cifrada, sabemos, é a linguagem presente tanto na estrutura do inconsciente, como na poesia. Por isso propomos pensar em que ponto a linguagem poética pode entrar como interlocutora na clínica psicanalítica: uma clínica que busca fazer emergir o vazio de sentido, para que seja possível a cada sujeito a criação de uma nova significação.
Na experiência analítica, por meio de um percurso que vai da palavra vazia (falar para nada dizer) à palavra plena (fala como revelação), “trata-se de ligar o sujeito às suas contradições, de fazê-lo assinar o que diz, e de engajar assim a sua palavra numa dialética” (Lacan, 1953-1954/2009, p. 299). A psicanálise, portanto, é uma prática dirigida àqueles que desejam questionar-se sobre sua posição na produção do seu
sintoma e, com isso, acessar sua verdade. Essa verdade reside no inconsciente e aparece escondida sob o véu do sintoma.
Apoiado na transferência, o analista ocupa o lugar de suposto saber sobre essa verdade e é justamente por nada saber sobre ela que elege a palavra em seu valor significante, vinda do sujeito, como veiculadora de um saber que não se sabe, um saber inconsciente.
Na análise, a verdade surge pelo que é o representante mais manifesto da equivocação – o lapso, a ação a que se chama impropriamente falhada. Nossos atos falhos são atos que são bem sucedidos, nossas palavras que tropeçam são palavras que confessam. Eles, elas, revelam uma verdade de detrás. No interior do que se chamam associações livres, imagens do sonho, sintomas, manifesta-se uma palavra que traz a verdade (Lacan, 1953-1954/2009, p. 345).
A linguagem poética pode contribuir com a psicanálise nesse ponto da autoridade da palavra enquanto significante vazio de sentido, despojado de significado. É neste ponto que reside a Letra. Segundo Mandil (2003), quanto mais funcionando como Letra, mais o significante produzirá uma significância em direção à verdade do sujeito. “Residiria aí o poder poético das palavras, qual seja, o de evocar uma multiplicidade de significações por meio de um movimento de suspensão de qualquer decisão semântica” (Mandil, 2003, p. 31). A poesia respeita a língua enquanto patrimônio coletivo criando comunidade e identidade e, ao mesmo tempo, mantém em exercício a língua individual (Eco, 2003). É necessário desarrumar a linguagem, diz Manoel de Barros (2008), para chegar mais perto das fantasias e desejos inconscientes.
A poesia assim, como a psicanálise, mostra como utilizamos a linguagem e como somos surpreendidos por ela. É no inesperado da frase onde uma palavra irrompe fora de hora, fora da continuidade sintática, que um efeito novo se produz. Pela poesia é
possível privilegiar a acústica das palavras, a lalação contida no ritmo, na sonoridade e na harmonia.
Há um ponto, porque não dizer cego no psiquismo, em que não é possível ver o que se passa, no qual a compreensão falha e a interpretação explicativa não basta para traduzir o sintoma. A interpretação é uma criação do analisando a partir do furo que a marcação/ato/intervenção do analista provoca em sua fala. Ao pontuar, o analista abre uma passagem para um vazio criador, a possibilidade de uma nova produção. A marcação de um significante que produz negação de sentido faz furo no simbólico, graças à Letra que, como traço real, resiste à simbolização e, com isso, conduz à singularidade do sujeito, nos diz Julien (2009).
Se o funcionamento do inconsciente supõe como efeito a cifra, cabe à interpretação decifrar tal texto, decifrar aqui entendido como transliterar – o que é precisamente da ordem do não-sentido, uma vez que o resultado se dá a ler mantendo a equivocidade, efeito do real, como impossível de ser dito (Ribeiro, 2000, p. 71).
Recorrer à Poesia é admitir a necessidade de um encontro com o vazio de sentido. É deparar-se com o furo que o equívoco provoca no saber, apontando que a palavra não deve ser tomada com fixidez, ao contrário, seu poder deve residir no fato de que ela comporta o vazio em sua estrutura. A palavra deve esvaziar-se do seu sentido habitual e, com isso, suscitar algo novo, inesperado. Recorrer à linguagem poética no manejo clínico psicanalítico é apostar em uma interpretação que faça um furo no sentido, abrindo um espaço vazio no qual, no lugar da angústia advinda da repetição, se interponha um vazio criador.