3.2 Clarification of ETO strategy
3.2.2 Illustration of the inconsistent use of the term ETO
O corpus desta pesquisa é formado por onze matérias publicadas pelas revistas semanais de circulação nacional Veja e IstoÉ, entre o início de abril e o início de outubro de 2010. Esse período compreende o começo da campanha eleitoral propriamente dita – com o licenciamento da candidata Dilma Rousseff do cargo ocupado à época, de ministra chefe da Casa Civil – até o fim do primeiro turno das eleições.52 A opção por periódicos semanais, ao invés de jornais diários, busca priorizar matérias descoladas da cobertura diária da corrida ao Palácio do Planalto, que, em geral, enfatiza as agendas dos/as candidatos/as, o andamento das campanhas, os bate-bocas
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A discussão sobre o aborto, que resgatou uma série de percepções conservadoras sobre a candidata Dilma Rousseff, só ganhou maior relevância no segundo turno da eleição. O assunto teve grande repercussão na imprensa de todo o país e foi tema de capa da primeira edição da Revista Veja durante o segundo turno do pleito. Ainda assim, não será considerado, pois extrapola os objetivos propostos nesta pesquisa. A reportagem especula que Dilma teria deixado de vencer no primeiro turno das eleições devido ao seu posicionamento favorável ao aborto, conforme declaração que teria sido dada pela candidata em 2007. A posição supostamente favorável da candidata ao aborto foi a tônica de parte da cobertura jornalística sobre Dilma Rousseff no início do segundo turno das eleições presidenciais de 2010.
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entre adversários/as políticos/as, entre outras polêmicas corriqueiras que os/as interpelam, no curso de uma campanha presidencial.
A ideia é buscar uma aproximação com matérias de cunho mais interpretativo, menos orientadas para o andamento das campanhas propriamente ditas, e mais direcionadas à construção do perfil dos/as candidatos/as e as descrições que deles/as são feitas. Além disso, são publicações semanais que, de uma forma geral, desempenham um papel importante na formação de opiniões e no agendamento de outros veículos de comunicação do país, especialmente nos temas relacionados à política nacional. As revistas semanais, conforme apontam Miguel e Biroli (2011, p. 131, acréscimos nossos) têm grande importância, pois:
ao produzir uma síntese semanal no noticiário político, voltada para determinados segmentos da população, não se restringe aos períodos eleitorais ou a eventos particulares – tendem a adotar um estilo mais opinativo e a intenção, nada disfarçada, de orientar a apreciação do mundo por seus[suas] leitores[as].53
É importante destacar, ainda, que as revistas selecionadas estão entre os periódicos semanais mais lidos do Brasil, e que Veja está na liderança da preferência dos/as leitores/as, com uma circulação mensal de 1.088.152 exemplares54. Além disso, esses veículos, dialeticamente, formam a opinião e são formadas pelos interesses da classe política dirigente. Segundo levantamento feito por Miguel e Biroli (2011), com base em dados da FSB Comunicação, em 2008, 87,8% dos/as deputados/as federais afirmaram ler revistas todas as semanas; sendo que a revista Veja está na preferência dos/as parlamentares, tendo em vista que é lida por 78% deles/as, seguida pelas revistas IstoÉ (52,8%), Época (40,2%) e Carta Capital (25,2%).
Após a seleção de que revistas comporiam o corpus, optamos por desconsiderar todas as inserções assumidamente opinativas, como colunas e editoriais, cujo estilo é marcado pela emissão mais explícita de opiniões pessoais e juízos de valor. Verificou-se
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A esse respeito, os autores salientam o papel desempenhado pelo jornalismo semanal brasileiro na “produção da visibilidade (negativa ou positiva)” a respeito da eleição e do impeachment do ex- presidente Fernando Collor de Melo. A dimensão dessa relevância pode ser ilustrada nos dias atuais pelo impacto das denúncias de corrupção, de autoria da revista Veja, que levaram à queda da ministra Erenice Guerra, em setembro de 2010. Ela havia substituído Dilma Rousseff no cargo de ministra chefe da Casa Civil, que se licenciara para concorrer à Presidência da República. O assunto ganhou destaque em duas capas seguidas publicadas pela Veja às vésperas do primeiro turno das eleições.
54 Informação extraída de tabela que cita como fonte dados do Instituto Verificador de Circulação – IVC (out.2011). Disponível em: <http://publicidade.abril.com.br/tabelas-gerais/revistas/circulacao-geral/ imprimir>. Acesso em: Fevereiro de 2012.
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que mesmo a cobertura regular poderia atuar no reforço de estereótipos de gênero e representar a mulher como um sujeito deslocado do espaço de poder político. É preciso ressaltar, ainda, que o objetivo da presente pesquisa não é a análise das estratégias da cobertura política de ambas as revistas, sob o prisma do apoio a determinados/as candidatos/as em detrimento de outros/as.
Pretendemos verificar, especificamente, como as mulheres candidatas foram representadas pelas revistas em análise, e, se determinados estereótipos de gênero foram associados a elas. Assim, os direcionamentos políticos somente foram considerados na medida em que contribuíram para evidenciar: (i) determinadas tendências na cobertura da mulher política no país; (ii) se, a despeito das diferenças editoriais, ambas as publicações reforçaram papéis sociais atribuídos cultural e historicamente ao feminino; e (iii) como essas publicações se inscrevem nos processos de legitimação ou deslegitimação da mulher no papel de protagonista do jogo político.
Para a construção do corpus, estabelecemos, primeiramente, que somente seriam consideradas, como parte da cobertura sobre Marina Silva e Dilma Rousseff, aquelas matérias que mencionassem pelo menos quatro vezes uma das referidas candidatas, ainda que o seu conteúdo versasse sobre os vice-candidatos das respectivas candidatas, coordenadores/as de campanha, ou mesmo sobre a candidatura do então presidenciável José Serra ou outros temas relacionados à eleição.
Esse recorte baseou-se nos critérios adotados por Trimble (2007) para mensurar a presença e a visibilidade de mulheres líderes do Partido Conservador do Canadá na cobertura jornalística do Jornal Globe and Mail. No caso da presente dissertação, não raro verificou-se que uma notícia sobre algum/a dos candidatos/as mencionava, pelo menos, uma ou duas vezes o nome de Marina Silva e/ou Dilma Rousseff; ainda assim, esses casos denotavam uma presença residual que não caracterizava uma cobertura a respeito das candidatas em questão.
Para chegar a este primeiro conjunto de textos, salienta-se que foram consideradas menções feitas a elas no título, subtítulo, legenda de fotos, bem como, nos textos verbais das matérias. Além do nome das candidatas, também foram consideradas válidas expressões relativas a elas, tais como: ‘ex-ministra da Casa Civil’, ‘candidata petista’, ‘candidata do PT’, ‘candidata do Lula’, ‘candidata verde’, ‘candidata do PV’, ‘ex-ministra do Meio Ambiente’, entre outros epítetos. Isso porque, como foi constatado em levantamento preliminar, essas foram formas corriqueiramente empregadas pelas revistas para referir-se a Marina Silva e a Dilma Rousseff.
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Assim, essa primeira seleção resultou em 41 textos publicados sobre as candidatas pela Veja e 59 pela IstoÉ, mas que ainda representavam um número muito grande para uma análise em profundidade, conforme o proposto nesta dissertação. Ressalte-se que as entrevistas ping-pong (no formato de perguntas e repostas) que se seguiram a algumas matérias de maior destaque sobre a campanha presidencial, mas que integraram o mesmo conteúdo noticioso, não foram computadas separadamente. É o caso, por exemplo, das entrevistas que acompanharam as matérias de perfil sobre Marina Silva e Dilma Rousseff, publicadas com chamada na capa da IstoÉ, no início da campanha presidencial. Já as entrevistas ping-pong descoladas de notícias principais ou mesmo secundárias, a exemplo das Páginas Amarelas da Revista Veja, que entrevistou ambas as candidatas, foram contadas separadamente.
A decisão seguinte consistiu em eliminar as notícias focadas essencialmente na disputa eleitoral55, trazendo os mais recentes resultados de intenção de voto dos institutos de pesquisa e informações correlatas que, em geral, dominaram a cobertura da eleição presidencial de 2010 nas revistas analisadas, com destaque para a IstoÉ. Tendência que, todavia, não reflete apenas a experiência brasileira, sendo verificada também em outros países56.
Além disso, também se decidiu não analisar as entrevistas ping-pong com as candidatas, publicadas por ambas as revistas, independentemente do destaque recebido. Essa decisão se deveu ao fato de entendermos que este é um espaço no qual os/as entrevistados/as têm mais ascendência sobre o conteúdo que será publicado, já que se trata de um formato de perguntas e respostas diretas. Apesar disso, não se pretende, com isso, ingenuamente crer que as entrevistas não sejam editadas de acordo com as linhas editoriais das publicações. Há, evidentemente, um processo de mediação e edição das respostas mesmo nesses casos, mas tomou-se a decisão de priorizar as matérias nas
55 O termo usualmente empregado pelas pesquisas internacionais sobre o tema para descrever este tipo de
cobertura é horserace coverage, expressão que na Língua Portuguesa significa literalmente ‘cobertura da corrida de cavalos’.
56 Um estudo conduzido por Benoit et al. (2007, apud DUNAWAY, 2008) mostra que 65% das notícias
sobre as Primárias do Partido Democrata no Estado do Missouri, nos Estados Unidos, abordaram temas relacionados à disputa propriamente dita, como as estratégias dos/as candidatos/as e eventos que tratavam da campanha. Apenas 13% das notícias abordaram questões relacionadas às propostas dos/as candidatos/as. Outra pesquisa, a respeito da campanha presidencial dos EUA em 2000, realizada pelo
Center for Media and Public Affairs/Brookings Institute, também citada por Dunaway (2008), revelou a
prevalência de 71% da cobertura noticiosa no andamento da disputa eleitoral, sem discussões sobre os programas de governo dos/as candidatos/as.
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quais o processo de construção de sentidos por parte do jornalismo pudesse ser mais evidente.
Feitos esses recortes, a opção seguinte consistiu em priorizar matérias especiais sobre as candidatas e que apresentassem maior apelo junto ao público leitor, por se tratar de notícias publicadas nas capas. Para os textos que não atendessem a essa condição, definiu-se que os nomes das candidatas devessem ter sido citados no título da reportagem. Segundo Trimble (2007, p. 977, tradução nossa), “é, particularmente, importante verificar a menção às candidatas nas manchetes, pois essas definem as histórias ao resumir a ideia principal do acontecimento e também sinalizam quem ou o que é mais importante” 57.
Além disso, a autora acrescenta que as manchetes tendem a ser mais lidas pelos/as eleitores/as, comparativamente ao conteúdo disponibilizado no corpo do texto, e que um/a candidato/a cujo nome aparece por primeiro no título e é citado/a várias vezes ganha mais notabilidade comparativamente aos/às concorrentes citados/as uma única vez. Para ela (2007, p. 977, tradução nossa), “indicadores de visibilidade podem ter um impacto cumulativo sobre os/as leitores/as”.58 Com base nesses critérios, foram escolhidos para análise seis textos publicados pela IstoÉ e cinco publicados pela Veja.