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15 Kompetanseutvikling

15.3 Kompetansutvikling i skolen

ALFABETIZAÇÃO E LITERACIA

Os conceitos de alfabetização e de literacia são ob- viamente teoricamente elaborados e resultam de um proces- so de construção sócio-histórica. A própria emergência do campo da educação de adultos, ao longo do século XIX e no quadro da afirmação da Modernidade, esteve muito asso- ciada ao esforço de alfabetização de adultos, através de dois processos complementares: a formação de sistemas escola- res nacionais e o desenvolvimento de movimentos sociais de massas (SILVA, 1990, p.11).

Este esforço de instrução elementar dos adultos é complementar ao desenvolvimento do sistema escolar, mes- mo em Portugal, onde o processo de alfabetização se revelou muito lento. Apesar de algumas medidas empreendidas tan- to no tempo do liberalismo como da 1ª República, as taxas de analfabetismo permanecerão muito elevadas: em 1878, a taxa de analfabetismo da população com idades iguais ou superiores a 7 anos era de 78%; em 1911, logo após a im- plantação da República, essa taxa era de 69%; e, em 1930, quatro anos depois da instalação da ditadura, era ainda de 62% (CANDEIAS, 2001, p.55).

O período posterior ao fim da 2.ª guerra mundial foi também marcado pelo ressurgimento das preocupações de alfabetização dos adultos e de reforço dos movimentos de educação popular em diferentes regiões do planeta, ainda que, em Portugal, estes processos tenham sido claramente penalizados pela persistência do regime político ditatorial. Portugal consegue melhorar as suas taxas de alfabetização, mas a verdade é que tal acontece numa altura em que, na generalidade dos países europeus, essas taxas se tornavam progressivamente residuais.

Em Portugal, as taxas permanecem muito elevadas e, no Censos de 1970, a taxa da população residente anal- fabeta, com 10 e mais anos, era ainda de 25,7%! Com a democratização do país, a partir de 1974, os resultados irão melhorar, ainda que a realidade permaneça difícil e as po- líticas públicas neste setor continuem marcadas por incon- sistências e insuficiências evidentes.

A par dos avanços que se foram verificando na alfa- betização, neste pós-guerra, um pouco por todo o mundo, a educação de adultos foi, progressivamente, assumindo in- tenções de promoção de competências educativas e sociais mais amplas. A alfabetização passou de um conceito literal a funcional. A UNESCO teve um papel importante nesta tran- sição, advogando que “é funcionalmente alfabetizada uma pessoa capaz de exercer todas as atividades para as quais a alfabetização é necessária, no interesse do bom funciona- mento do seu grupo e da sua comunidade e, também, para lhe permitir continuar a ler, escrever e calcular, tendo em vista o seu próprio desenvolvimento e da comunidade a que pertence” (UNESCO, 1962).

A afirmação desta renovada conceção de alfabetiza- ção confirma a existência de entendimentos mais abrangen- tes do trabalho educativo com adultos e de novas perspeti- vas programáticas para o setor: alargam-se as competências reconhecidas como fundamentais para que um adulto se possa considerar alfabetizado, expande-se o universo dos adultos que se considera necessário abranger e, sobretudo, modificam-se os processos de concretização da ação alfabe- tizadora. Efetivamente, ao enfatizar-se o papel instrumental da alfabetização e ao afirmar-se a sua importância para o de-

senvolvimento, consciente e crítico, das tarefas económicas e também sociais e cívicas, a alfabetização desescolariza-se. Há uma dupla expansão da ação alfabetizadora: passa a assumir um carácter permanente – já não se trata apenas de possibi- litar o domínio da leitura e da escrita – e multiplicam-se os espaços sociais onde se justificam e desenvolvem as interven- ções educativas alfabetizadoras.

É no quadro deste processo de renovação conceptual que foi ganhando relevo, também em Portugal, a mobilização do conceito de literacia: “define-se então literacia como: as ca- pacidades de processamento de informação em cada momen- to indispensável à vida social quotidiana, sendo certo que o nível desta informação é cada vez mais exigente” (BENAVEN- TE et al., 1996: 4). As dificuldades em matéria de literacia são assumidas como um problema social e não como “handicap” das pessoas: não está em causa a sua riqueza cultural, mas a fragilidade em que são colocadas por um contexto social em transformação acelerada.

Entretanto, a variedade de sentidos usados para falar de literacia, em contextos de educação e formação de adultos, aconselha a que se procure uma terminologia que seja clara, respeitadora e adequada ao propósito comunicativo. A litera- cia deve ser encarada como a capacidade de leitura e escrita (incluindo, claro, ler e escrever digitalmente), com recurso e com base em diversos materiais escritos (textos, documentos, gráficos) de uso corrente na vida quotidiana (social, profissio- nal e pessoal). É, pois, uma capacidade distinta da que está presente no registo oral, ainda que a ele esteja fortemente ligada. A literacia constitui, ainda, uma base essencial para o desenvolvimento de outras competências, incluindo as que se relacionam com o cálculo ou com as tecnologias de infor- mação e comunicação, a saúde ou a participação cívica. As competências de literacia são também indispensáveis como fundamento para a participação dos adultos nas dinâmicas de aprendizagem muito diversas que marcam a vida social contemporânea.

É verdade que o conceito de literacia vem sendo alar- gado, de modo a englobar outras competências considera- das fundamentais, ou chave, nas sociedades atuais (ÁVILA, 2008). Será útil, contudo, por uma questão de clareza, não

dar ao conceito de literacia outros usos habituais, como o que corresponde à descrição da capacidade de cálculo (preferen- cialmente designada como numeracia) ou alguns mais difu- sos, como o de “literacia cultural” ou o de “literacia emocio- nal”. Porém, é igualmente importante reconhecer que aquela aceção mais ampla existe e contribui para o entendimento de que o conceito de literacia pode ser mobilizado para todos os tipos de capacidades, intelectuais e outras, e para a afirma- ção da necessidade de as promover, tanto em termos indivi- duais como sociais. Isso favorece, em parte, os discursos de desgraça ou pânico sobre a presumida queda dos níveis de literacia (DUNCAN & SCHWAB, 2015).

O conceito de literacia define-se, pois, por duas ca- racterísticas essenciais: permitir a análise da capacidade efetiva de utilização na vida quotidiana das competências de leitura e escrita; e remeter, numa abordagem não dicotómi- ca, para um contínuo de competências que se traduzem em níveis de literacia com graus de profundidade e amplitude distintos, os quais não são confundíveis com os níveis de ha- bilitação escolar formal. Sublinhe-se, entretanto, para evitar desentendimentos habituais, que não são as pessoas que se distribuem por níveis, mas sim as suas competências.

O que nos parece fundamental é sublinhar que o de- senvolvimento das diferentes competências essenciais deve estar associado à promoção da literacia, no quadro do esfor- ço de educação básica de adultos, a qual compreende, neste contexto, dimensões educativas elementares para uma par- ticipação cultural e social independente, incluindo, assim, literacia, numeracia, capacidades digitais, educação para a saúde ou participação cívica.

EDUCAÇÃO BÁSICA DE ADULTOS, ESCOLARIZAÇÃO E EDUCAÇÃO SOCIAL

Estaremos agora em melhores condições para avan- çar com a caracterização do domínio específico da educação básica de adultos. É um esforço fundamental, tanto mais

que, como acontece com a educação inicial de crianças, aquela está marcada por alguns entendimentos que não

ajudam a esclarecer o domínio em causa. É o que acontece quando se adota uma visão predominantemente administra- tiva de educação básica de adultos, associando-a a proces- sos de escolarização que permitem a obtenção de diplomas equivalentes aos do ensino básico regular ou a ações de for- mação conducentes à obtenção dos níveis mais elementares de qualificação profissional; ou quando, de qualquer modo, com este conceito se designam práticas educativas dirigi- das a adultos pouco escolarizados e qualificados profissio- nalmente, definidas implícita ou explicitamente por relação com o sistema escolar ou profissional.

Precisamos de um entendimento de educação bá- sica de adultos que, reconhecendo o carácter relativo e so- cialmente construído do conceito de educação básica, dê conta da abrangência deste conceito, considerando a pro- moção das competências que, em determinado contexto so- cial, são consideradas essenciais – portanto, básicas – para o desenvolvimento pessoal, profissional e social das pessoas adultas. Estaremos assim a elucidar uma dupla expansão da educação básica: ao nível dos respetivos âmbitos, con- siderando a educação formal, mas também a não formal e a aprendizagem informal, tanto dirigida preferencialmente a indivíduos, como a grupos e comunidades; e ao nível dos grupos etários abrangidos, sublinhando que se realiza ao longo de toda a vida. É neste quadro que ganha sentido falar em – e analisar a – educação básica de adultos (ROTHES, 2009). Esta perspetiva mais abrangente torna bem clara a inadequação de uma identificação da educação básica de adultos com a escolarização dos mesmos, já que o domínio das competências reconhecidas como essenciais está longe de ser alcançado exclusivamente através de processos edu- cativos formais, concretizados por via de práticas e institui- ções sociais que conduzem à validação académica de sabe- res e competências.

Por outro lado, há que insistir nos efeitos ambiva- lentes que tem para os adultos o processo de massificação escolar. A par dos benefícios em termos de realização do di- reito à educação, a investigação aponta para a tendência de manifestação de um efeito desnivelador da escola: à medida que avança o nível de escolarização, tanto obrigatória como

real, aumenta o número daqueles que não atingiram a nova fasquia exigida, sacrificando sobretudo a população adulta, com especial incidência nos indivíduos mais envelhecidos e nos socialmente mais desfavorecidos (FLECHA, 1990).

Daí decorrerão inevitáveis consequências no modo de concebermos a educação básica de adultos: num contex- to de continuado alargamento da escolarização obrigatória, não é razoável admitir que apenas por vias que têm como referência o modelo escolar se consiga responder adequada- mente às expectativas dos adultos que, vendo acentuar-se a sua distância em termos de qualificação académica rela- tivamente aos mais jovens, desejam suprir as novas limi- tações em termos de competências formalmente reconhe- cidas. Obrigar os adultos a realizarem percursos escolares similares aos do ensino regular dirigidos aos mais novos é, por um lado, negar que as competências se desenvolvem e usam também em contextos não formais e que, portanto, há, em cada adulto, um lastro valioso de aprendizagens que faz sentido considerar e valorizar nos processos educativos em que os adultos são os protagonistas; e, por outro lado, é também não ponderar o absurdo de colocar os adultos a realizar percursos longos que, sendo aceitáveis em jovens que não acederam ainda à vida ativa, são totalmente despro- positados para quem procura ver realizadas, em tempo útil, possibilidades de melhorar qualificações num contexto mar- cado permanentemente por novas exigências, assim como oportunidades de realização de aspirações profissionais e sociais (FLECHA, 1990, ROTHES, 2009).

Esta recusa da idealização da escola na realização do direito dos adultos à educação não corresponde, eviden- temente, a uma negação da importância de estes verem alargadas as suas possibilidades de se qualificarem acade- micamente, condição útil, mesmo que não suficiente, para se afirmarem na vida social contemporânea. O sistema edu- cativo formal pode continuar a desempenhar – e desempe- nhará seguramente – um papel importante na educação de adultos, desde que seja capaz de abandonar tentações tota- lizantes, (re)pensando-se no quadro de um leque alargado de instituições que podem responder aos desafios educativos atuais. A educação social, numa postura muito devedora dos

contributos dos movimentos de educação popular e no pros- seguimento de uma larga tradição da educação de adultos, continuará a ter que assumir um papel decisivo nos pro- cessos de promoção de literacia e de educação básica de adultos.

CARACTERIZAÇÃO DA REALIDADE