Para a análise do discurso das empresas educacionais foram selecionados alguns conceitos teóricos da Análise do Discurso, os quais passamos a apresentar:
a) Conceito de memória: Conforme Orlandi (2004, p. 67-68), o que garante a
interpretação é a memória sob dois aspectos: a) a “memória institucionalizada”, ou seja, o arquivo o trabalho social da interpretação em que se distingue quem tem direito a ela; b) a “memória constitutiva”, ou seja, o interdiscurso, o trabalho histórico da constituição da interpretação (o dizível, o repetível, o saber discursivo). Citando Pêcheux (1999), a autora explica que a interpretação se faz, entre a memória institucional (arquivo) e os efeitos da memória (interdiscurso).
b) Conceito de interdiscurso na sua relação com o intradiscurso: Orlandi (2002)
apresenta a noção de interdiscurso que é enfatizada por Pêcheux (1999) como um saber que possibilita que nossas palavras façam sentido. Esse saber corresponde a algo falado anteriormente, em outro lugar, a algo “já dito”, entretanto ainda continua alinhavando os nossos discursos. Os sentidos vão se construindo no embate com outros sentidos. Orlandi (2004) explica que, para compreender o funcionamento dos discursos, é também fundamental considerar essa relação entre um “já-dito”, que é a memória discursiva, entendida como interdiscurso e o intradiscurso. O interdiscurso é todo conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determinam o que dizemos. Enquanto o intradiscurso se encontra no nível da formulação e representa o fio do discurso, o funcionamento do discurso em relação a ele mesmo.
c) O conceito de formações imaginárias: Citando Pêcheux (1969) Orlandi
(2001b) explica que existem nos mecanismos de toda formação social regras de projeção responsáveis por estabelecer as relações entre as situações discursivas e as posições dos diferentes participantes que são as representações imaginárias. O que funciona nos processos discursivos é uma série de formações imaginárias que designam o lugar que A e B se atribuem cada um a “si” e ao “outro”, a imagem que eles se fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro (PÊCHEUX, 1969). Todo falante a todo ouvinte ocupa um lugar na sociedade. Isso significa que os interlocutores, a situação, o contexto histórico-social, as condições de produção constituem o sentido de qualquer sequência verbal produzida (posições). Assim, quando alguém diz algo, ele diz de algum lugar da sociedade para outro alguém, também em algum lugar da sociedade, e isso faz parte da significação. Portanto, o sentido não existe em si, mas é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico em que as palavras são produzidas. Ao significar o sujeito está se significando. Ou seja, sujeito e sentido se constituem ao
mesmo tempo. As relações imaginárias podem ser, portanto, consideradas como a maneira pela qual a posição dos participantes do discurso intervém nas condições de produção desse discurso.
d) Conceito de formações discursivas: Para Orlandi (2001b, p. 58), a formação
discursiva é o lugar da constituição do sentido e da identificação do sujeito. Explica autora que as palavras mudam de sentido de acordo com as posições daqueles que as empregam e são dessas posições, ou seja, em relação às formações ideológicas nas quais essas posições se inscrevem que os sentidos se originam. Isto significa que as palavras não possuem sentido em si, seus sentidos são formados a partir das formações discursivas que as permeiam, podendo, portanto, adquirir significados diferentes, mesmo tendo grafia idêntica. Portanto, é a formação discursiva que determina o que pode e deve ser e, até mesmo, aquilo que não pode e não deve ser dito, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio- histórica; determina o dizer e o não dizer, explica Orlandi (2001b). Dessa forma, um mesmo discurso pode ser usado tanto para dizer, como para não dizer/para silenciar (silenciamento5), dependendo da formação discursiva em que se inscreve. É nesse sentido que o trabalho de interpretação busca aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente. É o funcionamento do que Orlandi (2002, p. 31) denomina como memória discursiva, pois “é o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do “pré-construído”, o já dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra”.
e) Da materialidade discursiva: Em Orlandi (2012) a noção de materialidade, na
perspectiva discursiva, não se reduz ao que está dito ou ao “dado” de qualquer natureza. A autora faz relação entre materialismo histórico e materialismo dialético para mostrar a partir de sua formação materialista, mas de sua posição de linguista, que, nesta perspectiva, a discursiva, a “matéria” é a substância suscetível de receber uma forma. A autora pensa a forma discursiva como forma material, no campo do materialismo histórico, sendo, pois, a forma linguístico-histórica e coloca o sujeito e o sentido como partes desse processo.
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Para Orlandi (2001b) o silenciamento é uma política do sentido. Dizer uma coisa para não dizer outra; é a relação dito/não dito no processo discursivo.
f) Do conceito de ideologia: O conceito de ideologia proposto pela Análise de
Discurso vem pela teoria de Louis Althusser, que a partir de uma releitura de Marx e Lacan, traz a formulação dos conceitos de Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE) e Aparelhos Repressores do Estado, na qual ele afirma que, como estrutura, a ideologia pode ter várias formas, propondo pensar a ideologia como um mecanismo de interpelação do sujeito, agindo e sendo absorvida pelo inconsciente. De acordo com Althusser (2003), a ideologia interpela indivíduos como sujeitos. Ela só existe e é possível no sujeito. Segundo Orlandi (2002a), a teoria de Althusser abriu caminho para a compreensão do conceito de ideologia na Análise do Discurso. Ideologia para Análise de Discurso não é ocultação, mas, ao contrário, está no funcionamento que faz parecerem evidentes os sentidos, quando na realidade eles constituem em intrincados processos em que entram o sujeito, as condições em que eles se produzem, sua inscrição em diferentes formações discursivas e a interpretação. Ela é, assim, constitutiva do próprio sujeito. Não se trata do conteúdo, mas do mecanismo pelo qual os sentidos são produzidos. Ela se dá pela produção de evidência e não pela ocultação de sentidos.
h) Do conceito de condições de produção do discurso: Na perspectiva
discursiva, as condições de produção compreendem fundamentalmente os sujeitos e a situação. Todo sujeito fala de algum lugar. Esse lugar é a situação entendida no contexto imediato, o sentido estrito, e no contexto amplo, o sentido lato, é entendida como o contexto sócio-histórico. Conforme Orlandi (2001b, p. 27) “Todo discurso se produz em certas condições”. Citando Pêcheux (1969), a autora explica que os interlocutores, a situação, o contexto histórico-social, ideológico, ou seja, “as condições de produção constituem o sentido da sequência verbal produzida”. Trata- se da relação entre contexto de enunciação e o contexto histórico. Pelo funcionamento da memória, através da interpretação, na instância da enunciação, o que se produz é uma forma de repetição. Mas, conforme Orlandi (2001b, p. 107) “pode dar lugar a enunciações as mais diversas e dispersas”. Aí está ligada a noção de pré-construído.