Oh! que formoso jardim!
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Que belo lago no meio D’água límpida bem cheio E peixinhos a nadar!
Que intenso aroma a jasmim Embalsama o puro ar! Que raios que o sol lança! Que azul que está o céu! Com um carrinho de mão Puxado pr’um meigo cão Brinca ao longe uma criança… Essa criança sou eu!... Na relva se vê sentada Um pouco mais para além Uma senhora bordando Pela qual é vigiada A criancinha brincando… A senhora é minha mãe!... Oh! que existência tão bela Sem cuidados no porvir! Que nuvem é que há de vir Esta aurora escurecer?! E propícia a minha estrela Mais feliz não posso ser! Venturosos são também Os meus adorados pais: Meu pai ama minha mãe E por ela é muito amado… Viver tão abençoado Houve no mundo jamais?... Que alegres dias risonhos Como eram belos os sonhos Que sempre sonhava então! Mal havia de dizer
O que tinha que sofrer No mundo sem compaixão!...
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Mário de Sá-Carneiro, in Poesia, pp. 47-48.162
Poema VIII - “Os dous Horizontes”
Dous horizontes fecham nossa vida: Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar; Outro horizonte, — a esperança Dos tempos que hão de chegar; No presente, — sempre escuro,—
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa Do passado e do futuro.
Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais;
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.
Ou ambição de grandeza Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.
No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
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Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.
Que cismas, homem? – Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? – Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro. Dous horizontes fecham nossa vida. Machado de Assis, in Obra Completa, Vol.II. Pág.38.163 Poema IX - “O Poeta” Un souvenir heureux est peut-être sur terre Plus vrai que le bonheur. A. DE MUSSET Era uma noite: — eu dormia...
E nos meus sonhos revia As ilusões que sonhei! E no meu lado senti...
Meu Deus! por que não morri? Por que no sono acordei? No meu leito adormecida, Palpitante e abatida, A amante de meu amor, Os cabelos recendendo Nas minhas faces correndo, Como o luar numa flor!
163 Pequena nota biobliográfica disponível em http://www.releituras.com/machadodeassis_bio.asp
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Senti-lhe o colo cheiroso Arquejando sequioso E nos lábios, que entreabria Lânguida respiração, Um sonho do coração Que suspirando morria! Não era um sonho mentido: Meu coração iludido
O sentiu e não sonhou... E sentiu que se perdia Numa dor que não sabia... Nem ao menos a beijou! Soluçou o peito ardente, Sentiu que a alma demente Lhe desmaiava a tremer, Embriagou-se de enleio, No sono daquele seio Pensou que ele ia morrer! Que divino pensamento, Que vida num só momento Dentro do peito sentiu... Não sei!... Dorme no passado Meu pobre sonho doirado... Esperança que mentiu... Sabem as noites do céu E as luas brancas sem véu Os prantos que derramei! Contem do vale as florinhas Esse amor das noite minhas! Elas sim... que eu não direi! E se eu tremendo, senhora, Viesse pálido agora
Lembrar-vos o sonho meu, Com a fronte descorada E com a voz sufocada
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Dizer-vos baixo: — Sou eu! Sou eu! que não esqueci A noite que não dormi, Que não foi uma ilusão! Sou eu que sinto morrer A esperança de viver... Que o sinto no coração! Riríeis das esperanças,
Das minhas loucas lembranças, Que me desmaiam assim? Ou então, de noite, a medo Choraríeis em segredo Uma lágrima por mim!
Álvares de Azevedo, in Lira dos Vinte Anos. Pp.14-15.164
Poema X - “Dispersão”
Perdi-me dentro de mim Porque eu era labirinto E hoje, quando me sinto, É com saudades de mim. Passei pela minha vida Um astro doido a sonhar. Na ânsia de ultrapassar, Nem dei pela minha vida... Para mim é sempre ontem, Não tenho amanhã nem hoje: O tempo que aos outros foge Cai sobre mim feito ontem. (O Domingo de Paris Lembra-me o desaparecido Que sentia comovido
164 Pequena nota biobliográfica disponível em http://www.lpm.com.br/site/default.asp?TroncoID=805134&SecaoID=948848&SubsecaoID=0&Template= ../livros/layout_autor.asp&AutorID=940523 (29/10/2015).
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Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família, É bem-estar, é singeleza, E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família). O pobre moço das ânsias... Tu, sim, tu eras alguém! E foi por isso também
Que me abismaste nas ânsias. A grande ave doirada
Bateu asas para os céus, Mas fechou-as saciada Ao ver que ganhava os céus. Como se chora um amante, Assim me choro a mim mesmo: Eu fui amante inconstante Que se traiu a si mesmo. Não sinto o espaço que encerro Nem as linhas que protejo: Se me olho a um espelho, erro - Não me acho no que projeto. Regresso dentro de mim Mas nada me fala, nada! Tenho a alma amortalhada, Sequinha, dentro de mim. Não perdi a minha alma, Fiquei com ela, perdida. Assim eu choro, da vida, A morte da minha alma. Saudosamente recordo Uma gentil companheira Que na minha vida inteira
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Eu nunca vi... Mas recordo A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido, Em um hálito perdido Que vem na tarde doirada. (As minhas grandes saudades São do que nunca enlacei. Ai, como eu tenho saudades Dos sonhos que sonhei!...) E sinto que a minha morte - Minha dispersão total – Existe lá longe, ao norte, Numa grande capital. Vejo o meu último dia Pintado em rolos de fumo, E todo azul-de-agonia Em sombra e além me sumo. Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas... Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas... Tristes mãos longas e lindas Que eram feitas pra se dar... Ninguém mas quis apertar... Tristes mãos longas e lindas... Eu tenho pena de mim, Pobre menino ideal... Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!... Desceu-me n'alma o crepúsculo; Eu fui alguém que passou. Serei, mas já não me sou;
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Não vivo, durmo o crepúsculo. Álcool dum sono outonal Me penetrou vagamente A difundir-me dormente Em uma bruma outonal. Perdi a morte e a vida, E, louco, não enlouqueço... A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço... ……… ……… Castelos desmantelados, Leões alados sem juba... ……… ………
Mário de Sá-Carneiro, in Poesia, pp. 116-119