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3.1 Metode og forskningsdesign

3.3.1 Kommunekompasset og CVM

Hoje o estudo do homem é o próprio homem(...). porém o homem têm relações exteriores, e não pode ser verdadeiro filósofo sem o conhecimento das ciências naturais. (Antônio Manuel de Mello:1847)

Antônio Manuel de Mello escreveu a primeira tese de doutorado defendida na Escola Militar. Intitulada “O Sistema Planetário”, o trabalho de trinta e duas páginas tratou de temas relacionados à astronomia380, tendo sido vista e aprovada em 22 de dezembro de 1847 pelo doutor R. José Gomes Jardim. Clóvis Pereira da Silva, ao escrever sobre a matemática no Brasil, não incluiu a tese de Antônio Manuel de Mello na ordem cronológica que seguiu para analisar as produções dos bacharéis da Escola Militar. Apontou como primeira, a tese de Joaquim Gomes de Souza, a qual considerou uma das duas mais importantes, conforme visto anteriormente. Talvez tenha feito isso por não ter tido acesso as teses anteriores a 1850, salvo os trabalhos de Joaquim Gomes de Souza (1848) e João Ernesto Viriato de Medeiros (1850).

Foi Celia Pettil quem deu ao “Sistema Planetário” o lugar de primeira tese defendida na Escola Militar, porém, indicando como autor Manoel da Cunha Galvão. A autora justificou também não ter tido acesso a citada tese, retirando dos dados

380 Tese dividida nos seguintes títulos: Utilidade da Astronomia; Sistemas diversos; Leis de Kepler; Da atração universal; Determinação das distâncias dos astros; Determinação do volume, da massa e da densidade dos planetas; Dos três planetas; Planeta Le Verrier; Da Terra; Dos cometas; Das estrelas. In: MELLO, Antônio Manuel de. Dissertação sobre o systema planetário. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1847. 4 p.

154 biográficos de Cunha Galvão, contidos no dicionário de Sacramento Blake a autoria do trabalho. Ao tomarmos por base o documento, encontramos em sua última página a informação com a qual iniciamos o presente capítulo. “O Sistema Planetário” foi o título da primeira tese a ser defendida na Escola Militar e seu autor foi Antônio Manuel de Mello, que, no ano seguinte, aprovaria a tese de Luís Afonso de Escragnolle, também sobre questões referentes à astronomia.

Voltando à tese de Manoel Monteiro de Barros, seu autor procurou de forma sistemática, elaborar “uma ligeira comparação entre os conhecimentos dos antigos e dos modernos”381. Explorando sobre a “utilidade da astronomia”, deu a esse ramo da ciência moderna o crédito de ter tornado possível a descoberta do novo mundo. “Cristóvão Colombo”, lembrou, “tinha um conhecimento íntimo da esfericidade da terra, pois só esse conhecimento lhe podia inspirar a confiança com que ele dirigiu sua viagem ao ocidente” 382. Para Antônio Manuel de Mello, o navegador genovês se lançou ao mar “certo de encontrar a Ásia pelo oriente, ou quando não, encontrar um novo mundo”383. Utilizou a palavra filosofia quase como sinônimo de conhecimento e procurou diferenciar a “filosofia moderna” da “filosofia antiga”. Escreveu o autor que a filosofia moderna “deve ressentir-se das diferentes fases porque passou a humanidade”, acreditando que a história da civilização sofrera alterações as quais refletiam na filosofia ou seja, modificavam as concepções de conhecimento.

Ao descrever a humanidade como “ingênua e simples na sua origem, amorosa entre os povos pastores, guerreiras nas hordas conquistadoras; mística nas teocracias da Judéia e do Egito, filosófica e corruptora nas civilizações adiantadas, triste e sombria na velhice dos povos” nos leva a entender que a filosofia moderna a qual se referia era uma

filosofia do renascimento, para a qual no campo da ciência teve destaque o estudo da

astronomia. Na transição da idade média para a idade moderna, quando a grande revolução científica foi empreendida por Galileu Galilei, da mesma forma que Francis Bacon buscava promover uma reforma no conhecimento, a astronomia recebeu desses dois ícones da ciência moderna uma nova forma de análise. Baumer nos explica que

381 MELLO, Antônio Manuel de. Dissertação sobre o systema planetário. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1847. 4 p.

382 Ibid. 383 Ibid.

155 “Bacon, na esteira dos filósofos naturalistas do Renascimento trouxe, uma vez mais, a questão da natureza para o primeiro plano. Que é a natureza?”. 384

Para Galileu, a natureza é passível de explicação matemática conforme deixou claro nos escritos que compõe sua obra “O Ensaiador”:

A Filosofia está escrita neste grande livro, o universo, que permanece continuamente aberto aos nossos olhos. Mas o livro não pode ser compreendido a não ser que se aprenda, primeiro, a compreender a linguagem e ler as letras com que está composto. Esta escrito na

linguagem matemática e os seus caracteres são triângulo, círculos e

outras figuras geométricas, sem as quais é humanamente impossível compreender uma só palavra; sem isso o homem caminha num labirinto escuro385

Embora a leitura da tese possa remeter a ideia de um trabalho expositivo, no qual um bacharel em ciências naturais procura resumir a história da astronomia, não deve-se deixar de observar os elementos do pensamento moderno presentes no discurso do autor. Lembremos que para Antônio Manuel de Mello, o conhecimento das ciências naturais é imprescindível para o estudo do próprio homem. Não somente isso, se valendo da história, seu texto alerta para os perigos concernentes a ausência da experiência racional para o conhecimento da natureza, sobretudo quando a crença toma o lugar da ciência. Segundo Antônio Manuel de Mello, “Independentemente dessas crenças que degradam os povos, a história mostra muitos fatos, que provam os prejuízos que sofreram muitos generais e nações inteiras, pela sua ignorância da astronomia”.386

Diante desse discurso poderíamos dizer que estamos nos referindo a um físico, não fosse Antônio Manuel de Mello um militar de carreira que morreu em campanha na Guerra do Paraguai em 1866. Filho de um marechal do Exército e também presidente de província, o Dr. Manuel de Mello foi, além de militar, engenheiro, professor e ministro da guerra (1847-1848). No magistério atuou na Escola Militar e na Escola de Arquitetos do Rio de Janeiro, tendo sido, também, professor das filhas do Imperador387.

384 BAUMER, Franklin. O pensamento europeu moderno: séculos XVII e XVIII. V.1. Lisboa: Edições 70, 1977.

385 Ibid. 68 p.

386 MELLO, Antônio Manuel de. Dissertação sobre o systema planetário. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1847.

387 Os dados biográficos de Antônio Manuel de Mello encontram-se em: SILVA, Alfredo P.M. Os

Generais do Exército Brasileiro (1822 a 1889). Rio de Janeiro: M. Orosco & Co., 1906. vol. 1;

MACEDO, Joaquim Manuel de. Anno biographico brazileiro (v.1). Rio de Janeiro: Typographia e litographia do imperial instituto artístico,1876.

156 É interessante pensar que o perfil deste militar não se reduz ao dualismo das categorias científicos e tarimbeiros, pois além da formação científica, participou da Guerra Cisplatina, da Batalha do Passo do Rosário e da Guerra do Paraguai. Por outro lado, foi deputado provincial, ministro, vice-diretor da Fundição Ipanema e diretor do Arsenal da Corte. Em relação aos privilégios do oficial de Antigo Regime, apesar de ser filho de um oficial general e representante da elite política imperial, assentou praça na arma da cavalaria como tenente. Ou seja, não só iniciou a carreira militar em uma arma “não-científica”, como, consequentemente, partiu de uma patente de oficial subalterno na hierarquia militar. Chegou a general do Exército e Conselheiro do Supremo Militar, mas não antes de um longo tempo de serviço no Exército388, mesmo antes da lei de promoções. Assim como Antônio Manuel de Mello, outros oficiais, superiores ou subalternos, se lançaram ao estudo da ciência e, a partir dos autores que citavam, demonstravam-se ter conhecimento dos temas que se propunham a tratar.

Aproximadamente um terço das trinta teses apresentadas entre 1847 e 1864 versaram sobre algum tema da astronomia, outras dez acerca a física e uma terceira parte elegendo a matemática como ponto de estudo. Entre os autores, são citados desde os antigos até os contemporâneos. Se tomarmos as teses dos sócios do Instituto Politécnico Brasileiro, as quais representam dezessete documentos, encontramos Galileu, citado por sete autores e Newton por outros seis. Bacon e Descartes somam participação em oito teses. Um levantamento dos autores citados nessas teses nos mostra uma grande influência dos pensadores iluministas, mas também fortes referências de autores mais próximos como o físico François Jean Dominique Arago (1786-1853), citado em cinco teses.