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“mercado” além do Tocantins?

Tendo em consideração a opinião pessoal dos realizadores e exibidores enquanto consumidores de cinema, foram questionados se a produção cinematográfica do Tocantins tem condições estéticas e técnicas para atingir outras janelas de exibições fora do Estado. As opiniões são ponderadas em afirmar ou negar essa condição, observando sempre os cenários em que as produções estão inseridas. A programadora e responsável pelo Cine Cultura de Palmas tem uma posição muito positiva em relação a produção fílmica do Tocantins:

“Eu acredito muito, eu me emociono muito com Hélio Brito, Marcelo Silva, André Araújo, Roberto Giovannetti, Gleydisson, João Neiva. Acredito sim, a gente está em um momento bom, nós conseguimos incentivar esse regionalismo e a nossa produção tem tudo para avançar. Em Pernambuco também foi assim. Levou-se muitos anos para que tivesse esse desenvolvimento que tem hoje, mas foi através de formação, de incentivos por meio de editais, que hoje a gente vê Boi Neon em todos os festivais. Mas tem que incentivar sim, há um potencial muito grande é um processo criativo incrível e que está pronto sim e acredito que não perde ou fique aquém de nenhuma das produções”. (Elisângela Dantas, 2017)

Já Marcelo Silva afirma que não e sim. O não pelo processo burocrático e o sim pelas qualidades técnicas do filme, mas ele acredita que o processo está em maturação:

“Não está por conta dessa parte burocrática, mas tecnicamente estamos, temos condições de ser exibidos em qualquer sala, para atender as exigências do mercado burocraticamente é que não. A gente não tem um órgão governamental para auxiliar a gente, não há uma continuidade da gestão pública, não tem uma escola, uma faculdade, [...] e um bom festival de cinema. Agora nós estamos nos organizando, vamos esquecer o que foi feito lá atrás, o que foi feito de improviso, agora está vindo uma parte mais técnica que é eles fazerem uns filmes com os projetos mais elaborados, com mais planejamento e isso vai resultar em produções mais acabadas, como a gente tem visto nas produções do André e depois vai vim uma etapa da distribuição mais profissionalizada, do que está se fazendo hoje de bons projetos vão virar produções que vão desembarcar numa distribuição mais profissional.” (Marcelo Silva, 2017)

Na mesma linha, Hélio Brito diz que também não está preparado, mas que a produção local está caminhando para isso:

“Não. Até aqui, não. Nossa produção não está preparada para circular fora do Estado, de igual para igual com o que se produz em alguns polos regionais brasileiros, quando nos referimos ao mercado exibidor. Não atingimos ainda um nível de excelência técnica e artística. Mas essa situação está mudando, acredito que estamos caminhando para chegar a isso dentro de pouco tempo. Temos melhorado muito nos últimos anos”.

(Hélio Brito, 2017)

Com uma postura negativa, mas com soluções para a questão, Juliane Almeida afirma que hoje a produção não está pronta, que um dia já teve muitos curtas-metragens que poderiam ter feito sucesso, mas que perderam a sua vida útil. Ela reforça que a questão da profissionalização e uma visão mais mercadológica são pontos estratégicos para que daqui dois anos esse tipo de produção seja possível:

“Não por que a gente tem vários departamentos que a gente não encontra os líderes desses departamentos daqui, não tem esse nível de profissionalização, distribuição é um deles, som é outro, direção de arte, já que é dá nome aos bois vamos dar nome aos bois, não tem essas figuras aqui, que tenha experiência para falar que segura uma produção de 8, 10, 12 semanas de filmagem para gente fazer um longa, 5 no mínimo, não tem a figura de um coordenador de pós-produção, se a gente fala de animação também não tem, não tem um preparador de elenco. É muita coisa que falta, tudo é questão de investimento, por que a gente traz essas pessoas de fora. Assim como um dia foi em Recife, também não teve todos esses profissionais, é a produção que vai estimulando, por que daí o cara vê uma diretora de arte, e aí vai pegando uma coordenadora daqui, então essa coordenadora de arte no próximo ou dois depois vai está fazendo a direção, é assim que funciona e funciona para todo mundo em qualquer lugar é assim, ninguém começa no cinema em canto nenhum do mundo, sendo um produtor executivo ou diretor na via de regra, claro que tem exceção. [...]. Então é uma trajetória, não dá para dizer que daqui um ano ou dois anos a gente vai ter um longa que vai ‘bombar’, a menos que daqui um ano ou dois anos a gente tenha dois milhões ou mais para investir em um longa. (Juliane

Almeida, 2017)

João Luiz Neiva acredita que para as condições que são produzidos os filmes, boa parte está apto para circular fora do Estado, porém formação é fundamental para que a obra fílmica do Tocantins seja reconhecida nacionalmente:

“As produções produzidas no Estado, sem grandes equipes, tem mostrado a preocupação pela qualidade em todos os aspectos cinematográfico. Acredito que boa parte dessa produção tem plena condições de circular. Temos avançado em todos os aspectos, porém a formação é fundamental. Lamentamos profundamente que nenhuma das instituições de ensino superior tenha despertado para a importância da formação profissional. O que nos colocaria em pé de igualdade com outras unidades da federação. Nossos profissionais têm buscado através de cursos e oficinas o conhecimento, melhorando sensivelmente o resultado do produto. Todavia temos um longo caminho a percorrer em todos os aspectos citados. A nossa verve coletiva da produção audiovisual é feita com pequenas equipes”.

(João Luiz Neiva, 2017)

A partir da fala dos entrevistados, notamos as expectativas e as mazelas dos realizadores para fazer com que a sua produção circule, se apoiando nas experiências coletivas e individuais, e se respaldando no cenário cinematográfico de Pernambuco, tantas vezes citado como referência a ser seguida em todos âmbitos, seja de produção, distribuição, ou de gestão das

políticas públicas para o setor. Como já referido, a produção local está em um processo, não estagnou no tempo, e está tentando acompanhar o mercado cinematográfico de acordo com as suas limitações históricas e sociais.