O motorista de ônibus José tem aproximadamente cinquenta anos, mais de vinte anos de profissão e trabalha na Minas há sete. Completou o Ensino Fundamental e ingressou no mercado de trabalho com menos de dezoito anos. Reside com a terceira companheira, bem próximo à empresa. É pai de cinco filhos.
José apresentava-se adequadamente uniformizado. Aguardava na sala dos reservas, para ser chamado a operar se algum colega faltasse. A pesquisadora sentou-se ao seu lado, apresentou-se como estudante e perguntou se poderiam conversar sobre sua história profissional, para uma pesquisa acadêmica que estava sendo realizada. José abriu um sorriso e disse: “Claro que sim”.
Outros dois colegas que estavam perto saíram rápido da sala, estavam rindo e abaixaram a cabeça, como se fossem para algum esconderijo, sugerindo evitar a entrevista.
José contou que trabalha na Minas desde 2003, mas havia trabalhado em outras duas empresas de ônibus, também por aproximadamente seis anos cada, sendo que, na Minas, trabalhou pela primeira vez por três anos, na década de 1990. Seu pai era motorista de ônibus, e ele desejou ser como o pai. José não concluiu o Ensino Fundamental, pois necessitou trabalhar antes de completar dezoito anos. Trabalhou em serviços gerais, cobrador e manobrista. Afirma gostar do que faz quando diz:
“Nunca perdi volta, nunca me atrasei, nunca faltei, dirijo tudo, até ‘minhocão’
[ônibus com dois eixos articulados, com capacidade de transportar o dobro
de pessoas se comparado a um ônibus convencional], por isso ‘tô’ na
reserva. Qualquer carro que falta motorista eu posso ‘pegá’ pra ‘puxá’ viagem. Aí não tenho horário, olha só, se um motorista falta agora, pego a tabela dele agora e só vou ‘largá’ daqui umas quatro horas. O que também é ruim aqui é esses buracos, aqui na vila quebra muito o carro, tem muita rua sem calçamento, é muita ‘poera’”. (José – motorista)
José afirmou que gostava mais de trabalhar na Minas antes da mudança da diretoria, já que atualmente é com frequência visitado por monitores em suas viagens que falam como ele deve dirigir para economizar mais combustível.
Conforme a coordenação da monitoria, o papel dos monitores é verificar e orientar os motoristas quanto à sua habilidade de dirigir os motores eletrônicos atuais. Estes exigem um tempo mais preciso para acionar o sistema de alimentação de combustível. Para a monitoria, esses motores economizam mais quando operados nos tempos recomendados ao giro do motor, ao câmbio das marchas, às curvas e às frenagens.
José se considera um motorista experiente que não precisa de um monitor para orientá-lo na operação. Sobre essa percepção, fala de seu imaginário:
“Vieram uns carros novos pra cá, não recebi um carro novo, só ando com carro velho. Agora, ‘tão’ pegando no meu pé, antes não tinha monitor viajando comigo, não ficava tanto na reserva. ‘Tão’ fazendo sacanagem pra mim. Achei uma discriminação. Têm umas coisas como estas que as pessoas irritam na gente. Chega, no fim da linha, e um monitor diz que tu não pode dirigir um carro desses é irritante. Dos ‘patrão’ daqui eu não tenho nada pra ‘falá’, já trabalhei pro diretor João em outra empresa. Ele é como a gente, boa gente, o que a gente precisa ele ajuda, quem estraga a ‘firma’ são esses caras da escala. O seu João conversa com a gente no trecho na garagem de dia e de noite, de repente ele aparece e pergunta como a gente ‘tá’”. (José – motorista)
José afirmou que há dois anos trabalhava mais contente, agora se sente cansado por conta dos horários ruins: possui intervalo intrajornada de quatro horas, por isso falou que ficava difícil trabalhar em outra empresa para aumentar a renda.
O motorista reside perto da Minas, divide a casa com a terceira companheira e duas enteadas. Ele e a companheira atual não têm filhos juntos. Afirmou que as duas últimas companheiras eram passageiras efetivas dos horários que executava as viagens. José é pai de três filhos com a primeira companheira e de dois com a segunda. Em consequência disso, falou de suas dificuldades financeiras:
“Tenho duas pensões para pagar, mais aluguel, a prestação do carro e as contas do dia a dia. Assim, fico devendo no banco, me sinto fraco, e esses caras aí me engatam na reserva. Antes aqui era melhor, eu tinha meu horário, meu carro, não ficava engatado. Antes aqui me davam filé, agora só me dão carne de pescoço”. (José – motorista)
Nos momentos informais dos funcionários operacionais, observa-se que estes ficam em pé, formando rodas de bate-papo. Estão, normalmente, falando alto, rindo de modo extravagante, parecem querer chamar a atenção, como se estivessem operando o veículo e representando um espetáculo. Os temas dessas conversas
são, muitas vezes, sobre situações constrangedoras que algum colega passou (um “mico” ou “micão”). Um exemplo disso foi uma visita que a pesquisadora fez a um terminal de linha. Nesse dia dirigiu-se a um bar próximo ao terminal para comprar uma água – fazia muito calor. Enquanto aguardava o atendimento do caixa escutou gargalhadas e a frase:
“Sabe o ‘Jacaré’, aquele do 9263? Tu vê né, semana passada soltou mais cedo, foi pra casa e deu de cara com um cara de cueca fritando ovo na cozinha dele, foi aquele enrosco [...] Que bola nas costas foi aquela ‘guampa’”. (Genaro – motorista)
Associa-se essa fala ao tempo longo diário, exigido pela organização (estrutura e organismo) para atender aos horários das viagens. Muitos saem de casa às quatro horas da manhã e retornam à tarde ou trabalham da tarde até a madrugada. José relatou sobre o longo tempo de seu intervalo. Ausentes de casa, os motoristas acreditam que tudo pode acontecer, até uma infidelidade envolvendo sua companheira, ou amante, e o próprio colega. Essas questões podemos ver através do conceito de Giddens (2000) representando a agência dos motoristas como causa e consequência da estrutura da Minas, influenciadas por elementos individuais e coletivos, comuns à classe rodoviária.