Considerações prévias
No que respeita à resiliência, aplicámos o Inventário Measuring State and Child Resilience da autoria de Chock Hiew (1998) e já validados para a população portuguesa por Helena Martins (2005).
O Inventário apresenta como referencial teórico dois modelos: o de desenvolvimento da resiliência de Edith Grotberg (1995), e o de desenvolvimento de fatores de resiliência de Werner (1989).
Edith Grotberg (1995), defende a existência de três bases para a construção da resiliência (os fatores internos ou forças pessoais – fator I am, as competências e habilidades pessoais e sociais – fator I can e as relações e os papeis que a pessoa desempenha – fator I have).
Werner (1989), defende por seu lado que os fatores de resiliência atuam como mediadores na saúde mental e emocional face aos acontecimentos stressantes da vida, favorecendo o
coping e controlando o stresse e que o desenvolvimento da resiliência se inicia durante a
infância, sendo que os traços característicos da resiliência podem ser diferentes em termos de intensidade, tendo em conta se são dominantes no momento atual (State Resilience) ou se foram desenvolvidos durante a infância (Trait-Resilience).
Desta forma, o Inventário de Chok C. Hiew, é constituído por duas escalas (a Child
Resilience Scale ou Measuring Child Resilience que contém 18 itens e a Trait Resilience Scale ou Measuring State Resilience que contém 15 itens).
A versão portuguesa, traduzida e validada por Helena Martins tentou respeitar ao máximo as indicações do autor, seguindo a mesma estruturação das escalas que constituem o inventário. No entanto, aquando da validação, Martins (2005), optou por retirar um item da escala
Measuring State Resilience, pelo que a versão que utilizámos, sendo a adaptada e validada
para a população portuguesa, tem 14 itens.
Assim, cada uma das escalas tem uma estruturação de resposta de uma Escala tipo Likert de cinco pontos, podendo os sujeitos optar entre Discordo totalmente, Discordo, Neutro,
Concordo e Concordo totalmente.
No tratamento de dados e por ter encontrado uma análise factorial diferente da do autor, Martins (2005), optou pela utilização da escala como escala unifactorial.
Descrição do Inventário da Resiliência
O inventário que foi proposto por Chock Hiew e que foi validado e adaptado para a população portuguesa por Martins (2005), é composto por duas escalas, a Measuring Child
Resilience (com 18 itens) e a Measuring State Resilience (com 14 itens).
Quanto ao processo de cotação das escalas, é proposta pelo autor (Chock Hiew), uma avaliação do total de cada Escala e ainda avaliações parciais pelos fatores que são responsáveis pela construção da resiliência: I Am (Eu sou), I Have (Eu tenho) e I Can (Eu posso), para avaliar a resiliência total do indivíduo e ainda os fatores de proteção e de resiliência.
A Escala Measuring Child Resilience validada para a população portuguesa (Martins, 2005), contém dezoito itens, onde deve ser assinalado o grau de concordância em relação às afirmações que se referem ao passado, enquanto criança, variando a cotação da escala entre 18 e 90 pontos:
1. Esperavam que eu fosse uma pessoa útil 2. Eu era calmo(a), mesmo em tempos difíceis
3. Os outros viam-me como “vivo(a)” e fisicamente ativo(a) 4. Eu acreditava em mim
5. Os meus pais davam-me bastante atenção
6. A minha família tinha expectativas elevadas em relação a mim
7. Quando estava aborrecido(a) ou com problemas, havia habitualmente alguém para me ajudar
8. Eu tinha sucesso na Escola
9. Espontaneamente fazia coisas para ajudar os outros 10. Sinto que me percebia a mim mesmo(a)
11. Eu estava exposto(a) a situações de stress que aprendi a controlar 12. Eu sentia que as coisas iriam correr bem, mesmo em situações difíceis 13. Eu sabia como planear para o futuro
14. Habitualmente os outros ficavam contentes ao ver-me 15. Os meus pais diziam que eu tinha um feitio fácil 16. Eu tinha boas relações com os adultos
17. Eu era persistente nas minhas ações até ter sucesso
Por seu lado, a Escala Measuring State Resilience na versão adaptada à população portuguesa (Martins, 2005) contém catorze itens, onde deve ser assinalado o grau de concordância em relação às afirmações que se referem ao momento atual, variando a cotação da Escala entre 14 e 70 pontos:
1. Tenho alguém que gosta de mim
2. Tenho alguém fora de casa a quem posso falar sobre os meus problemas ou sentimentos
3. Fico satisfeito(a) quando faço as coisas sem ajuda
4. Sei que posso contar com a minha família quando preciso 5. Eu acredito que tudo me irá correr bem
6. Faço as coisas de forma simpática, o que faz as pessoas gostarem de mim 7. Tenho fé em Deus
8. Estou desejoso(a) de experimentar coisas novas 9. Gosto de fazer bem o que faço
10. Sinto que o que faço ajuda a que as coisas resultem 11. Eu gosto de mim
12. Eu posso concentrar-me numa tarefa e continuar com ela durante algum tempo 13. Eu tenho sentido de humor
14. Faço planos para realizar coisas
Estudo prévio
Tal como para o Inventário da Cultura Organizacional da Família, foi efetuado um estudo prévio do Inventário da Resiliência, tendo sido aplicadas as duas escalas que constituem o inventário, validadas por Martins (2005), numa amostra de (N=210), já caracterizada anteriormente, para verificar se os valores de consistência interna e de análise factorial se mostrariam dentro de parâmetros que permitissem a sua utilização.
Escala Measuring Child Resilience
Na aplicação da escala Measuring Child Resilience, apercebemo-nos que os sujeitos, principalmente os mais novos, estranhavam a frase “no passado quando criança”, tendo então alterado a frase para “no passado enquanto mais novo”.
Apercebemo-nos também de algumas dificuldades na compreensão de algumas palavras, independentemente da idade dos sujeitos.
Tendo em conta essas dificuldades, resolvemos, no início de cada administração de instrumentos escrever as palavras no quadro, com os seus significados, tornando uniforme todos os conceitos.
No quadro nº 5, apresentamos os vocábulos que suscitaram dúvidas e os seus sinónimos.
Quadro nº 5 - Vocábulos da MCR e seus sinónimos ou explicação
Vocábulo Sinónimo/ explicação
Espontaneamente De vontade própria
Expectativas Esperanças em relação à pessoa, esperar coisas boas
Exposto Em contacto
Feitio fácil Bem-disposto, com poucas birras Persistente Que não desiste
Stress Tensão, pressão
“Vivo” Ativo, ágil, que se mexe muito
Na tabela nº 8, podemos verificar a comparação entre o estudo de validação e adequação da Escala Measuring Child Resilience (MCR) realizado por Helena Martins (2005) e o nosso estudo prévio (N=210). Os valores de consistência interna apresentam, no nosso estudo prévio melhores resultados (Alpha de Cronbach= 0,824) que no estudo de validação (Alpha
de Cronbach= 0,7851), apresentando no entanto, quer a Média, quer o Desvio Padrão, quer
ainda um KMO com valores aproximados entre os dois estudos. No entanto, e ainda no que respeita à análise factorial, quando fizemos a análise factorial utilizando a rotação de Varimax, no nosso estudo prévio encontramos seis fatores, enquanto que no estudo de adaptação da escala à população portuguesa, Martins, encontrou o mesmo número de fatores que no estudo original de Hiew, ou seja, três fatores.
Tabela nº 8 – Comparação entre os resultados da análise factorial e da consistência interna entre o estudo de validação e adaptação da MCR e o estudo prévio da nossa investigação
Estudo de adaptação e validação (Martins, 2005)
Nosso estudo prévio N = 210
Alpha de Cronbach 0,7851 0,824
Média 68,461 68,0952
Desvio Padrão 7,83 9,21152
KMO 0,833 0,819
Análise factorial 3 fatores, variância explicada de 40,38%
6 fatores, variância explicada de 27,242%
Escala Measuring State Resilience
Na aplicação da escala Measuring State Resilience (MSR), apercebemo-nos de que o item 1 “Tenho alguém que gosta de mim”, causava constrangimento a alguns sujeitos, pelo que optámos por explicar no início da aplicação dos instrumentos que este “gostar” não é necessariamente de “namorados”.
Observámos também na aplicação desta escala que alguns sujeitos apresentavam algumas dificuldades lexicais, independentemente da sua idade. Tendo em conta essas dificuldades, resolvemos tal como para a escala MCR, no início de cada administração de instrumentos, escrever as palavras no quadro com os seus significados, tornando uniforme todos os conceitos.
No quadro nº 6, apresentamos os vocábulos que suscitaram dúvidas e os seus sinónimos ou explicação do conceito.
Quadro nº 6 - Vocábulos da escala MSR e seus sinónimos ou explicação
Vocábulo Sinónimo/ explicação
Concentrar-me Dirigir o pensamento para uma ideia
Humor Capacidade para apreciar/ gostar, do que é divertido ou cómico
Na tabela nº 9, podemos verificar a comparação entre o estudo de validação e adequação da Escala Measuring Child Resilience (MCR) realizado por Helena Martins (2005) e o nosso estudo prévio (N=210). Os valores de consistência interna apresentam, no nosso estudo prévio melhores resultados (Alpha de Cronbach= 0,814) que no estudo de validação (Alpha
de Cronbach= 0,743), apresentando os seguintes resultados, valores próximos. No que
respeita à análise factorial, seguindo os procedimentos quer de Hiew, quer de Martins, no nosso estudo prévio encontramos um KMO de 0,816, enquanto que no estudo de adequação de Martins o KMO é de 0,833. No nosso estudo prévio, encontramos quatro fatores, enquanto que no estudo de adaptação da escala à população portuguesa, Martins, encontrou o mesmo número de fatores que no estudo original de Hiew, ou seja, dois fatores.
Tabela nº 9 - Comparação dos resultados da análise factorial e da consistência interna entre o estudo de validação e adaptação da MSR e o estudo prévio da nossa investigação
Estudo de adaptação e validação (Martins, 2000)
Nosso estudo prévio N=210
Alpha de Cronbach 0,743 0,814
Média 62,490 58,7667
Desvio Padrão 6,14 6,59693
KMO 0,854 0,816
Análise factorial 2 fatores, variância explicada de 37,318%
4 fatores, variância explicada de 30,227%
Da análise psicométrica realizada às Escalas Measuring Child Resilience e Measuring State
Resilience, concluímos que estas apresentam características de fidelidade e validade que
podemos considerar satisfatórias, pelo que consideramos poder aplicar a escala à nossa população.
Depois do estudo prévio, em que verificámos que os instrumentos são válidos e fidedignos para avaliar o que pretendem, procedemos à afinação do protocolo de investigação, com as alterações gráficas aos instrumentos e com a afinação do questionário dos dados demográficos e contextuais, fazendo depois sua aplicação à população.