Considerações prévias
O conceito de Cultura Organizacional da Família é um conceito novo, desenvolvido por Nave (2007). O instrumento utilizado para avaliar a Cultura Organizacional da Família, foi desenvolvido e validado por Nave (2007), para a população portuguesa, através de um estudo em 1092 famílias, permitindo estabelecer a constituição do Inventário da Cultura Organizacional da Família (ICOF).
O ICOF, tem como referencial uma adaptação do modelo dos valores contrastantes de Cameron & Quinn (1999), que se constitui por uma estrutura em duas dimensões e quatro quadrantes, sendo que as dimensões são a da flexibilidade versus controlo e a da orientação interna versus orientação externa. Os quatro quadrantes correspondem a quatro tipos de cultura, pressupondo um ponto de vista dinâmico e privilegiando a interação, a contradição e o paradoxo.
Deste modelo conceptual, surge o conceito central da Cultura Organizacional da Família desenvolvido por Nave (2007), que assenta numa estrutura, orientada por dois eixos: o eixo da flexibilidade/ rigidez e o eixo interno/ externo, que são contrastantes entre si e que se suportam em quatro dimensões importantes, que também estabelecem contrastes entre si e que são inerentes à cultura organizacional da família: a cultura das relações interpessoais (onde é valorizada a criação e a manutenção da coesão familiar, através da ênfase nos sentimentos de intimidade, pertença e afetividade, na comunicação efetiva, na partilha entre todos os membros familiares e no desenvolvimento individual e familiar, evitando o conflito), a cultura da heurística (em que se valoriza a capacidade de adaptação à mudança, a criatividade, a autonomia e a identidade, numa perspectiva de auto-organização), a cultura da hierarquia (em que a ênfase é dada à noção de poder e responsabilidade, em que se assumem como essenciais o estabelecimento de regras e normas claras e definidas, bem como a definição dos papeis e limites a serem tidos em conta por cada um dos membros da família) e a cultura dos objetivos sociais (a ênfase é dada na formação e manutenção da imagem social, assim como a regulação da abertura ou do encerramento à pressão social, o que abrange os movimentos de integração, reconhecimento e participação no contexto social).
Descrição do Inventário
O ICOF, é constituído por vinte e cinco itens, que se distribuem por quatro escalas. Estas quatro escalas, avaliam as características da Cultura Organizacional da Família do ponto de vista da: Cultura das Relações Interpessoais – CRI – (escala com nove itens), da Cultura da Heurística – CHE – (escala com cinco itens), da Cultura da Hierarquia – CHI – (escala com cinco itens) e da Cultura dos Objetivos Sociais – COS – (escala com seis itens), organizadas em escalas de Likert de seis pontos, num continuum entre Nunca, Quase nunca, Poucas
vezes, Algumas vezes, Quase sempre e Sempre.
Assim, todos os itens do inventário pressupõem a frase antecipada de Na minha família…, sendo cada escala do inventário constituída pelos seguintes itens:
Escala da Cultura das Relações Interpessoais (CRI):
1. Gostamos de fazer as coisas em conjunto (item 1) 2. Sentimos que pertencemos uns aos outros (item 5) 3. Basta um olhar para nos entendermos (item 7)
4. O ambiente é de “guerra aberta” (item 11) – este item é de leitura invertida 5. Compreendemo-nos uns aos outros (item 12)
6. Somos distantes uns dos outros (item 14) – este item é de leitura invertida 7. Podemos expressar os nossos sentimentos (item 15)
8. Recebemos carinho uns dos outros (item 16) 9. Fazemo-nos entender (item 25)
Escala da Cultura da Heurística:
1. Quando as “crises” são ultrapassadas, a família fica mais forte (item 4) 2. Quando alguém tem dificuldades, todos procuram ajudar (item 18) 3. Há espaço para que cada um faça o que gosta (item 20)
4. Encontram-se soluções para os problemas (item 21)
5. Cada um pode lidar à sua maneira com as novas situações (item 22)
Escala da Cultura da Hierarquia
1. É claro o papel que cada um tem para desempenhar (item 2) 2. Cada um sabe o lugar que ocupa (item 6)
3. Cada um arruma o que é seu (item 9) 4. Todos sabem até onde podem ir (item 13) 5. As regras são cumpridas (item 19)
Escala da Cultura dos Objetivos Sociais
1. Gostamos que os outros nos reconheçam como uma “boa família” (item 3)
2. Preocupamo-nos com as relações sociais (amigos, escola, trabalho, restante família (item 8)
3. Sentimo-nos integrados no meio onde vivemos (item 10) 4. Cada um sabe como comportar-se fora de casa (item 17) 5. Preocupamo-nos com a imagem que transmitimos (item 23) 6. Preocupamo-nos com o que os outros possam dizer (item 24)
Em resumo, no quadro nº 4, podemos ver os itens que constituem cada uma das escalas do Inventário da Cultura Organizacional da Família.
Quadro nº 4 - Resumo dos itens que constituem as escalas do ICOF
Escala Item
Cultura das Relações Interpessoais 1, 5, 7, 11, 12, 14, 15, 16, 25 Cultura da Heurística 4, 18, 20, 21, 22
Cultura da Hierarquia 2, 6, 9, 13, 19 Cultura dos Objetivos Sociais 3, 8, 10, 17, 23, 24
Para operacionalizar as quatro escalas de modo a possibilitar a sua comparação (devido à diferença do número de itens), transformámo-las de forma a admitirem a mesma amplitude, através da função proposta pelo seu autor (Nave, 2007):
[
(ICOF1+ICOF2+…+ ICOFn-n)x5]
x100 nO estudo que permitiu a validação do ICOF, com uma amostra de (N=1092), apresenta bons valores psicométricos, o que possibilitou a aplicação deste inventário no nosso estudo.
Estudo prévio do Inventário da Cultura Organizacional da Família
No nosso estudo prévio, contamos com uma amostra (N=210) correspondente aos pais das crianças que preencheram os restantes instrumentos. Seguidamente apresentamos as tabelas comparativas dos valores de validação do ICOF e as do nosso estudo prévio.
Na tabela nº 6, apresentamos as estatísticas descritivas das quatro escalas que constituem o ICOF, no estudo de validação e no nosso estudo prévio, demonstrando que quer as medidas de tendência central, quer as medidas de dispersão, apresentam valores aproximados, com exceção da escala da CHI que, no estudo de validação, tem média (73,06) e mediana (76,00), sendo mais baixa e uma dispersão (DP = 15,85) mais elevada que as outras escalas. Neste estudo, a escala CHI apresenta também uma média (76,62) mais baixa, apresentando contudo uma dispersão (DP = 12,41) próxima das medidas de dispersão das outras escalas.
Quanto às medidas de tendência central, no nosso estudo prévio, também apresentam valores aproximados, sendo também a CHI que apresenta média (76,07) e mediana (76,00) mais baixas e ainda uma dispersão (DP= 13,17) mais altas que as outras escalas.
Tabela nº 6 - Comparação das estatísticas descritivas do estudo de validação do ICOF e do estudo prévio da nossa investigação
Estudo de validação (Nave, 2007) Estudo prévio (n = 210)
CRI CHE CHI COS CRI CHE CHI COS
Média 81,51 81,64 73,06 80,19 81,48 83,18 76,07 78,57 Mediana 84,44 84,00 76,00 83,33 84,44 84,00 76,00 80,00 Moda 88,89 88,00 88,00 90,00 80,00 88,00 76,00 80,00 Desvio Padrão 13,34 13,48 15,85 14,75 12,80 11,98 13,17 11,81 Variância 178,09 181,73 251,27 217,81 163,99 143,63 173,62 139,68
Na tabela nº 7, apresentamos o estudo comparativo de cada uma das escalas que compõem o ICOF, quer no que respeita à análise factorial, quer no que respeita à consistência interna, no estudo de validação e no estudo prévio.
Pela análise da tabela nº 7, podemos verificar que em ambos os estudos as escalas CRI, CHI e CHE, apresentam bons valores no que respeita quer à consistência interna, quer à análise factorial. No que respeita à escala COS, apresenta valores mais baixos em relação às outras escalas no estudo de validação, quer no respeita à consistência interna, quer à análise factorial, mantendo contudo valores próximos do bom. No entanto, no nosso estudo prévio, esta escala apresenta valores pouco satisfatórios. Vamos todavia mantê-la pois faz parte integrante do ICOF. Vamos também manter o aspeto gráfico da escala.
Tabela nº 7 - Comparação dos resultados da análise factorial e da consistência interna entre o estudo de validação do ICOF e o estudo prévio da nossa investigação
Estudo de validação (Nave, 2007) Estudo prévio (n=210)
CRI CHE CHI COS CRI CHE CHI COS
Alpha de Cronbach 0,855 0,801 0,802 0,781 0,824 0,705 0,753 0,570 KMO 0,903 0,830 0,828 0,776 0,848 0,769 0,778 0,658 Valor Próprio 4,233 2,804 2,806 2,926 3,801 2,343 2,525 Factor1 1,812 Factor2 1,541 Variância explicada (%) 47,032 56,072 56,12 48,774 42,236 46,857 50,495 Factor1 30,206 Factor2 25,684