A Comensurabilidade é um termo que diz respeito à Ciência, com uma forte presença na Filosofia e, dentro desta, muito aprofundado na Linguística [Haag e Othero, 2010]. A razão deste aprofundamento na Linguística prende-se com a forte conotação da comensurabilidade no que diz respeito à comunicação entre diferentes linguagens. Não vemos através da linguagem, mas percebemos o mundo através da linguagem e alcançamos a verdade apenas quando podemos comunicar o que a contém [Davidson 1967, 2001].
Neste projecto visa-se avaliar o grau de comensurabilidade entre dois tipos de métodos diferentes, no entanto, a maioria dos registos bibliográficos encontrados sobre este conceito referem-se a ele na antítese, ou seja, referem-se à incomensurabilidade [Agazzi 1985; Haag e Othero 2010; Kuhn 1982; Filho 2000; Niiniluoto 1999]. Na verdade, a maior parte dos autores refere-se ao problema da incomensurabilidade como sendo um problema de comunicação, nomeadamente entre tradução, sentido e significado de objectos que podem ser linguísticos ou representacionais [Kuhn 1982; Miranda 2008; Davidson 1967; Davidson 2001; Filho 2000; Haag e Othero 2010 e Niiniluoto 1999]. Apesar de a comensurabilidade não ser sobretudo comparabilidade, pode-se afirmar que a comparabilidade implica alguma medida de comensurabilidade [Miranda 2008], daí que se se estiver perante a total incomparabilidade entre duas teorias, será o mesmo que dizer que são incomensuráveis [Agazzi 1985].
Dados os pontos de vista divergentes e a forma como são apresentados, numa primeira subsecção será apresentado o conceito de comensurabilidade e incomensurabilidade no que respeita à análise literária levada a cabo neste estudo e numa segunda subsecção, a partir deste
conceito, chegar-se-á à forma como pode ser então avaliada a comensurabilidade entre duas teorias distintas.
2.2.1 Definição de Comensurabilidade e Incomensurabilidade
Para que seja compreensível o conceito de comensurabilidade, analise-se o que leva a que duas teorias possam ser consideradas incomensuráveis. Miranda [2008] refere que diferenças entre esquemas conceptuais conduzem a verdades incomensuráveis se os conceitos pelos quais são moldados ou organizados os pensamentos e percepções foram diferentes, conduzindo a verdades incomensuráveis. Apesar deste aspecto, é reconhecido que apesar de se dispor de duas teorias diferentes, que podem construir objectos teóricos distintos, se se verificar que se está perante o mesmo objecto, então pode-se afirmar que essas duas teorias são comensuráveis [Haag e Othero 2010]. Por isso, se duas teorias diferentes falam sobre a mesma coisa, então apresentam-se como respostas diferentes para o mesmo problema cognitivo [Niiniluoto 1999]. Nesta linha de pensamento, Agazzi [1985] afirma que quando duas teorias não falam dos mesmos objectos, pode-se afirmar que são incomensuráveis.
Outros autores referem-se à comensurabilidade como comparação racional (seja parcial ou total) entre duas teorias. Haag e Othero [2010] definem incomensurabilidade como uma incompatibilidade total na construção de objectos teóricos de paradigmas rivais, o que impossibilita uma comparação racional entre teorias. Filho [2000] define que o ‘ser incomensurável’ é não poder haver nenhuma comparação lógica.
Guba e Lincoln [1994, 2011] abordam a questão da comensurabilidade, enquadrando-a nos paradigmas da investigação. Um paradigma pode ser visto como um conjunto de crenças básicas (ou metafísicas) que lidam com princípios. Definem para os seus detentores, a natureza do mundo, o seu lugar individual nele e o alcance das possíveis relações para com o mundo e para com as suas partes. Assim, os paradigmas de investigação representam, de forma simples, a mais informada e sofisticada visão que os seus proponentes poderiam conceber, dada a forma como escolheriam responder a cada uma das três questões definidoras: a ontológica (questões que se relacionam com a existência real ou as acções reais), epistemológica (relação entre o que é conhecido e o que pode ser conhecido) e metodológica (como pode o inquiridor saber como procurar aquilo que acredita poder ser conhecido?) [Guba e Lincoln 1994].
Guba e Lincoln [1994] apresentam quatro paradigmas de investigação: positivismo, teoria critica, pós-positivismo e o construtivismo. O positivismo denota a 'visão recebida', a teoria crítica engloba uma série de paradigmas alternativos, o pós-positivismo representa os esforços para responder de uma forma limitada às mais problemáticas críticas ao positivismo e o construtivismo denota um paradigma alternativo cuja suposição de quebra é a mudança do realismo ontológico para o relativismo ontológico.
No que diz respeito ao positivismo e ao pós-positivismo, os proponentes destes dois paradigmas acreditam que existe ou pode ser encontrada alguma estrutura racional em que todas as questões de diferença possam ser referenciadas para a resolução do diferendo. A postura deste ponto de vista, é reducionista e assume a possibilidade de comparações ponto a ponto, o que consideram como comensurabilidade, uma questão que, segundo Guba e Lincoln [1994] é alvo de grande discórdia.
Os positivistas e pós-positivistas alegam que os paradigmas, em certa medida, são comensuráveis, isto é, que podem ser adaptados uns aos outros para que a prática de ambos em simultâneo seja possível. A comensurabilidade é possível se os modelos (paradigmas) partilharem elementos axiomáticos que sejam similares ou que ressoem fortemente entre eles. Assim, o positivismo e o pós-positivismo são claramente comensuráveis. A comensurabilidade é um problema quando os investigadores querem 'pegar e escolher' de entre os axiomas dos modelos positivista e interpretativista, porque os axiomas são contraditórios e mutuamente exclusivos [Guba e Lincoln 2011].
Por sua vez, na teoria crítica e no construtivismo, os proponentes destes dois paradigmas estão juntos na afirmação da incomensurabilidade dos paradigmas (ainda assim podem acreditar que o positivismo e o pós-positivismo são comensuráveis ou que a teoria critica e o construtivismo são comensuráveis). As crenças básicas de cada um dos paradigmas são contraditórias na sua essência. Para os construtivistas ou existe realidade ou não existe e assim o construtivismo e o positivismo/pós-positivismo não podem ser logicamente acomodados.
Ao apresentarem desta forma a comensurabilidade ou a incomensurabilidade, relativa aos paradigmas, Guba e Lincoln [1994, 2011] referem-se à filosofia subjacente a cada um dos paradigmas. Neste cenário pode-se considerar relevante uma análise à filosofia subjacente aos desenvolvedores de DSI e de DSIS, o que permitirá, à luz destes paradigmas, traçar perspectivas de comensurabilidade ou incomensurabilidade entre esses mesmos desenvolvedores. No entanto, a análise não deverá incidir apenas sobre o campo filosófico dos seus desenvolvedores,
dado que os processos de desenvolvimento (como se verá nos capítulos seguintes) são processos que envolvem uma maior complexidade e que sendo influenciados por paradigmas filosóficos, não são sobretudo constituídos por estes.
As palavras desempenham um papel importante na comensurabilidade entre teorias distintas. Kuhn [1982] define, por exemplo, que se se retirar uma palavra de uma linguagem do passado e a tentarmos incorporar na linguagem corrente, verifica-se que a experiência vivida e sentida no passado (experiência que é provocada pelo significado e intenção dessa palavra no passado) diferem da experiência vivida e sentida actualmente. Isso traduz uma incomensurabilidade entre as linguagens naturais, fruto da sua evolução [Kuhn 1982]. O desalinhamento encontra-se nas palavras e no seu significado verdadeiro e são incomensuráveis precisamente porque não se consegue traduzi-las integralmente de um esquema temporal para o outro [Miranda, 2008]. Kuhn [1982] considera, por isso, que duas teorias são incomensuráveis se estiverem definidas em linguagens mutuamente indefinidas. Assim, para aquele autor, o termo incomensurabilidade funciona de forma metafórica, o que significa que quando duas teorias são incomensuráveis é porque não existe nenhuma linguagem nas quais ambas possam ser traduzidas sem que haja ‘resíduos’ ou ‘perdas’.
Agazzi [1985] vai mais longe e afirma que nenhuma palavra ou conceito tem significado independente, sendo que o significado é sempre dependente do contexto. Como consequência, duas teorias diferentes nunca podem ser realmente comparadas e, portanto, são incomensuráveis [Agazzi 1985].
Dado que no caso das palavras a incomensurabilidade implica não se conseguir traduzir [Miranda, 2008], esta abordagem de Kuhn e Agazzi é considerada um pouco radical, dado que nesta perspectiva nunca é possível efectuar uma tradução completa de nenhuma linguagem noutra, sendo que acabam todas por ser incomensuráveis [Niiniluoto 1999].
Dado que as palavras e os objectos, como elementos de uma qualquer linguagem, também representam um papel importante na definição da comensurabilidade ou da incomensurabilidade, é importante que se definam dois dos aspectos mais importantes relativos à comensurabilidade, designadamente a intenção e o significado.
Boghossian [2005] afirma que as palavras traduzem um significado pelo simples facto de as utilizarmos de acordo com certas regras. Em relação ao sentido, afirma que para uma palavra ser intencional deve ser formulada com base na crença e no desejo.
Face ao exposto, a visão de comensurabilidade defendida neste estudo pode traduzir-se por uma comparação racional entre duas teorias, para que ambas estejam em sintonia relativamente ao significado e intenção dos objectos representacionais ou da linguagem que defendem, levando a que atinjam os seus objectivos num contexto que não implique a mútua exclusividade. Ou seja, duas teorias serão comensuráveis se forem capazes de comunicar uma com a outra, sem que no atingir dos objectivos de uma se esteja a eliminar a possibilidade da ocorrência dos objectivos da outra.
2.2.2 Avaliação da Comensurabilidade entre Duas Teorias Distintas
Quando se fala em avaliar a comensurabilidade entre duas teorias diferentes, a mesma pode advir de duas formas distintas: através da redução a uma medida comum entre as duas teorias ou através do estabelecer de relações entre o todo e as partes das diferentes teorias [Miranda 2008].
Como refere Miranda [2008], no primeiro caso efectua-se uma comparação por medidas comuns, destacando as características de entidades complexas e sujeitando-as a medidas comuns de variação, procurando derivar generalizações e aplicando medidas independentes do contexto. No segundo caso trata-se de construir um modelo do todo, tomando em consideração os valores próprios da entidade sociocultural a que pertence, levando em conta a tradição em que se insere [Miranda 2008].
A comensurabilidade admite-se no sentido de que uma teoria mais generalista possa conter casos particulares de teorias menos generalistas que já estejam corroboradas nos seus domínios de validade comensurável [Filho 2000], o que significa que no caso de se encontrarem partes de uma dada teoria comensuráveis com outra que mesmo assim não se traduzam no todo, pode-se considerar existir comensurabilidade parcial entre essas teorias.
Posto isto e, resumindo, a comensurabilidade pode ser avaliada da seguinte forma:
Comparar por medidas comuns;
Comparar os pressupostos tradicionais que estão na base da teoria;
No caso de não se verificar a comensurabilidade do todo, pode admitir-se a comensurabilidade das partes;
Avaliando a significação da notação de uma dada linguagem através da capacidade dessa linguagem em obedecer a certos constructos com base na sua origem;
Avaliando a capacidade de comunicação de linguagens distintas pela forma como traduzem, mesmo utilizando expressões diferentes, os mesmos objectos;
Avaliando as crenças e desejos presentes na notação, ou seja, qual é a sua intenção de aplicação.
Esta avaliação da comensurabilidade vai permitir definir de que forma os métodos de DSI e de DSIS poderão ser avaliados. Será com base neste conjunto de especificações de avaliação que será definida uma forma de avaliar os métodos no âmbito dos SI, uma vez que é esse o foco deste estudo. Para isso e, após a explicitação da análise da literatura referente à integração dos processos de DSI e de DSIS, irá ser possível, com o cruzamento destes pontos de avaliação, no que concerne à comensurabilidade, traçar uma lista de critérios que possam auxiliar na avaliação justificada da comensurabilidade entre ambos os processos de desenvolvimento que irão, posteriormente, constituir evidências através da validação empírica levada a cabo neste estudo.