Os fundamentos filosóficos do processo de DSI desempenham um papel muito importante no desenvolvimento. Todos os desenvolvedores de uma forma ou de outra acabam por desempenhar as suas tarefas com um número de suposições explícitas e implícitas que afectam o desenho e a implementação do sistema [Hirchheim e Klein 1989, Hirschheim et al. 1995]. As suposições filosóficas dos desenvolvedores de SI são assim importantes, sendo necessário perceber os constructos filosóficos na base destas que, inegavelmente conduzem a filosofia subjacente ao DSI, uma vez que esse processo depende fortemente dos seus desenvolvedores. Define-se então suposição do DSI como uma crença fundamental mantida pelos diversos actores durante o DSI [Hirschheim et al. 1995].
Para que seja compreensível a relação entre estas suposições dos desenvolvedores e o próprio processo de DSI, é necessário compreender o que é o paradigma de DSI e de que forma este se relaciona com o processo de DSI [Hirschheim et al. 1995]. Hirschheim et al. [1995] definem paradigma como sendo o conjunto fundamental das suposições do DSI, adoptadas por uma dada comunidade profissional, permitindo-lhes partilhar percepções similares e comprometer-se com essas práticas partilhadas comuns [Hirschheim et al. 1995]. Tipicamente, um paradigma é composto por suposições acerca do conhecimento (perspectiva filosófica ontológica) e de como adquirir conhecimento sobre o mundo físico e social (perspectiva filosófica epistemológica). Como os desenvolvedores têm que conduzir inquéritos como uma parte do desenho do sistema e têm que intervir no mundo social como parte da implementação de sistemas, é natural através desses processos identificarem-se dois tipos de suposições: as que estão relacionadas com a forma como os desenvolvedores de sistemas adquirem o conhecimento necessário para desenharem o sistema (epistemológicas) e aquelas relacionadas com a sua visão do mundo técnico e social (ontológicas) [Hirchheim et al. 1995].
A classificação das suposições de cada um dos paradigmas pode seguir duas dimensões: a subjectivista-objectivista e a de ordem-conflito. Na primeira dimensão, a posição objectivista aplica os métodos derivados das ciências naturais ao estudo dos assuntos humanos, tratando o mundo social como que se fosse o mundo natural [Burrell e Morgan 1979 apud Hirschheim et al. 1995]. Ainda na primeira dimensão, a posição subjectivista é o oposto da objectivista, uma vez que pretende estudar de que forma o ser humano modifica e interpreta o mundo em que se encontra [Burrell e Morgan 1979 apud Hirschheim et al. 1995]. Na segunda
dimensão, a posição de ordem caracteriza um mundo social pela ordem, estabilidade, integração, consenso e coordenação funcional [Hirschheim et al. 1995], enquanto a posição conflito diz respeito à mudança, conflito, desintegração e coerção [Hirschheim et al. 1995].
Figura 1 – Paradigmas Filosóficos do DSI
Adaptado de Burrel e Morgan [1979 apud Hirschheim et al. 1995]
Tal como é possível observar na Figura 1, os quatro paradigmas são mapeados através das dimensões: funcionalismo (ordem-objectiva), relativismo social (ordem-subjectiva), estruturalismo radical (conflito-objectivo) e neo-humanismo (conflito-subjectivo) [Hirschheim et al. 1995].
O funcionalismo procura explicar de que forma os elementos individuais de um sistema social interagem uns com os outros para trabalharem como um todo. O paradigma relativista social procura explicar através do domínio da consciência individual e da subjectividade. O paradigma estruturalista radical tem uma visão da sociedade e das organizações que dá ênfase à necessidade de ultrapassar ou transcender as limitações existentes nas disposições sociais e organizacionais. O último dos paradigmas, o neo-humanista, procura a mudança radical, a emancipação e a potencialidade, e pressiona o papel que as diferentes forças sociais e organizacionais têm em perceber a mudança [Hirschheim et al. 1995].
Através destes paradigmas filosóficos, Hirschheim et al [1995] mapearam as implicações paradigmáticas sobre o processo de DSI, conforme se apresenta na Tabela 1.
Tabela 1 – Implicações dos Paradigmas Filosóficos para o DSI Adaptado de Hirschheim et al. [1995]
Paradigma Papel do Desenvolvedor de SI
Objectivos para a Representação e Utilização
dos SI
Funcionalista Actua como um ESPECIALISTA: como um engenheiro que domina os meios para atingir os fins
O DSI está preocupado com o encaixar da tecnologia numa
solução para o sistema de informação. Essas soluções para o
sistema de informação são utilizadas para ultrapassar as limitações do homem e melhorar a
produtividade.
Relativista Social
Actua como um CATALISADOR: suaviza a transformação entre as fases do sistema social do qual faz parte
Desenvolver sistemas que implementem o espírito dos
tempos. Os objectivos de desenvolvimento e os modos de utilização são coerentes com as
condições que prevalecem, ajudando os utilizadores a preocuparem-se com eles e a
aceitá-los.
Estruturalista Radical
Actua como um GUERREIRO: do lado das forças do progresso social
O processo de DSI tem que ser um processo para uma melhor compreensão dos requisitos
impostos pela evolução da sociedade e o lugar da organização na mesma. A utilização do sistema de informação deve ser dos grupos
de interesse e não do homem comum.
Neo-humanista Actua como EMANCIPADOR: das barreiras sociais e psicológicas
O DSI deve estar preocupado em remover as tendências e distorções
devidas às restrições naturais. As barreiras externas e internas ao
discurso racional devem ser removidas.
Numa análise aos paradigmas filosóficos utilizados pelos métodos de DSI de acordo com a sua evolução no tempo, White e Dhillon [2005] caracterizam de forma temporal de que modo estes estão presentes nos desenvolvedores que conduzem o processo de DSI. No passado, o processo de DSI expos a perspectiva funcionalista, que tinha a preocupação de adaptar a tecnologia a uma situação específica para melhor compreender os objectivos de negócio pré- definidos [White e Dhillon 2005]. Apesar dos métodos serem ainda na sua maioria funcionalistas, já se nota uma preocupação crescente na incorporação de aspectos sociais ou organizacionais no desenvolvimento [White e Dhillon 2005]. No futuro, White e Dhillon [2005] acreditam que o DSI irá caminhar numa perspectiva relativista social.
Avison e Fitzgerald [2003] dão ainda outro contributo importante no que toca à filosofia adjacente ao processo de DSI. Para aqueles autores são dois os paradigmas de relevância presentes no processo de DSI: o da ciência e o dos sistemas. Esta classificação básica define que os métodos podem corresponder a apenas dois paradigmas filosóficos. Um método que corresponda ao paradigma da ciência é um método que apresenta uma visão naturalista e reducionista do mundo, enquanto um método que corresponda ao paradigma dos sistemas apresenta a visão de que o todo é maior do que a soma das partes, sendo portanto sistémico [Avison e Fitzgerald 2003].
Os fundamentos filosóficos do processo de DSI são extremamente importantes, pois influenciam, através dos desenvolvedores, a solução final resultante desse processo. Estas questões filosóficas prendem-se desde logo pelos conceitos e visões adoptadas por quem desenvolve SI. Por isso, torna-se importante definir o que se entende por organização, sistema de informação e DSI.
Figura 2 – O DSI no Contexto da GSI Fonte: Amaral [2005]
Tal como demonstra a Figura 2, o DSI é um processo que deve ser visto e enquadrado na Gestão de Sistemas de Informação (GSI) [Carvalho 1996]. Trata-se de um processo que apenas decorre no caso de se verificar na organização uma necessidade de melhoramento do sistema de informação de uma organização ou então corresponde à implementação de um plano delineado no âmbito do Planeamento de Sistemas de Informação (PSI) [Carvalho 1996]. No fundo, consiste numa actividade que se caracteriza fundamentalmente como sendo um processo de mudança que visa melhorar o desempenho dos SI [Amaral 2005].
A organização concentra, por isso, a motivação para o DSI, sendo que é dela que deve partir a iniciativa de exercer a mudança sobre o seu sistema de informação [Amaral 2005]. Dado que estudos prévios (cf. de Sá-Soares [2005]) já se debruçaram sobre as diversas visões de contextualização e definição do conceito ‘organização’, para este estudo considerar-se-á a visão de que as organizações são entendidas como formas sociais evolutivas de significação e acção [de Sá-Soares 2005, p.24]. A palavra evolutiva aponta para uma natureza dinâmica destas entidades, evidenciando a sua capacidade de mudança tomada por reacção ou antecipação à ocorrência de eventos [de Sá-Soares 2005]. A palavra ‘significação’ constitui-se em categorias linguísticas que formam visões da realidade dos envolvidos, definindo as suas acções e as acções dos outros [Lofland e Lofland 1995] e a palavra ‘acção’ pretende demonstrar que a organização é um palco de acção, que encerra em si um potencial transformador [de Sá-Soares, 2005].
A organização pode também ser perspectivada sob três dimensões: técnica, formal e informal [Liebenau e Backhouse 1990 apud de Sá-Soares 2005]. A dimensão técnica inclui as diversas tecnologias que automatizam algumas partes dos elementos que compõe a dimensão formal [de Sá-Soares 2005]. Esta dimensão formal, por sua vez, encerra o comportamento organizacional regulado por regras, que consistem em representações de prescrições utilizadas para controlar as organizações [Liebenau e Backhouse 1990 apu de Sá-Soares 2005]. Por último, a dimensão informal, manifesta-se no comportamento informal da organização, através dos significados, intenções e crenças [de Sá-Soares 2005].
O conceito de sistema de informação não reúne propriamente um consenso alargado na literatura. Dado tratar-se de um conceito intimamente ligado não só às dimensões organizacionais como também ao ambiente mais técnico, surgem várias definições contraditórias sobre o mesmo. Uma definição ligada a uma perspectiva técnica é apontada por Iivari e Hirschheim [1996] que definem sistema de informação como um sistema suportado por
computador que providencia informação acerca de tópicos de interesse específicos aos utilizadores num determinado contexto organizacional.
Buckingham [1987 apud Carvalho 1996] apresenta uma visão diferente, já que define sistema de informação como um sistema que recolhe, processa, armazena e distribui informação numa organização tendo em vista que a informação esteja acessível a quem dela necessita. Um sistema de informação é assim um sistema de actividade humana que poderá ser suportado por computadores [Carvalho 1996]. A conotação óbvia do ‘poderá ser suportado por computadores’ refere que um sistema de informação pode não ser suportado por computadores e que, portanto, não deve ser confundido com um outro conceito que assim o exige: o de sistema informático [Carvalho 1996]. Sistemas informáticos são então sistemas baseados em computador, que suportam a recolha, o armazenamento, o processamento e a distribuição de informação numa organização [Carvalho 1996].
Na linha de estudos prévios efectuados [Amaral 1994, Dhillon e Backhouse 2001 apud de Sá-Soares 2005] acerca da característica inegável de que um sistema de informação é actualmente algo indissociável do conceito de organização, dado serem abstracções resultantes da observação da organização sob a perspectiva da informação, de Sá-Soares [2005, 2013a] define sistema de informação como um sistema social que tem por finalidade apoiar a significação e acção organizacionais através da síntese organizada da informação. Desta forma perspectiva-se igualmente o sistema de informação ao longo das dimensões técnica (é nesta dimensão que se encontra o sistema informático e as Tecnologias da Informação (TI)), formal e informal [de Sá-Soares 2005], conforme se ilustra na Figura 3. No âmbito deste trabalho, adopta-se também esta definição de sistema de informação.
Figura 3 – Dimensões da Organização e do Sistema de Informação Adaptado de de Sá-Soares [2013a]
O DSI é definido por Welke [1983 apud Hirschheim et al. 1995] como um processo de mudança levado a cabo em relação aos objectos do sistema, num conjunto de ambientes, por um determinado grupo de desenvolvimento, com vista a atingir ou manter objectivos pré- definidos. De uma forma mais simples, Avison e Fitzgerald [2003] definem DSI como o processo no qual os SI são concebidos, analisados, desenhados e implementados. Estas duas definições tentam englobar todo o processo de DSI de uma forma ampla, independentemente das aproximações e dos paradigmas presentes durante todo o processo e que caracterizam a filosofia subjacente à sua condução e interpretação. Uma vez que o conceito de sistema de informação pode ser alusivo a várias interpretações diferentes, tal como nota Carvalho [1996], é importante referir que aproximações e paradigmas podem ser encontrados durante este processo e de que forma se caracterizam.
Aproximação ao DSI é definida por Iivari et al. [2000] como o conjunto de características relacionadas que conduzem às interpretações e acções no DSI. A lista apresentada por aqueles autores é extensiva e do ponto de vista filosófico apresenta um admirável número de aproximações. No entanto, dado que algumas das aproximações classificadas representam apenas um método de DSI específico, considera-se que essa lista não seja de todo aconselhável para a caracterização das aproximações que o processo de DSI pode tomar [Lapke et al. 2007]. Por sua vez, Carvalho [1996], identifica três ‘cenários’ do processo de DSI com base nas diferentes analogias que pode tomar o conceito de sistema de informação e no contexto em que este pode ser aplicado. Na classificação daquele investigador não é utilizada a nomenclatura ‘aproximação ao DSI’. No entanto, considera-se que essa nomenclatura pode ser aplicada aos ‘cenários’ definidos por Carvalho [1996] uma vez que cada um deles retrata o conjunto de características diferentes para cada aplicação do conceito sistema de informação e do âmbito em que o processo de DSI se desenrola, levando a uma visão do processo de DSI diferente consoante essas características. Tal como será demonstrado, as diferentes visões dos diferentes ‘cenários’ levam à diferença na tomada de acções, daí que se represente estes ‘cenários’ como as diferentes aproximações ao DSI consideradas neste projecto.
As três aproximações de Carvalho [1996] representam o percurso do processo de desenvolvimento que possui como fundo duas dimensões: as fases do processo de desenvolvimento (percepção, concepção e implementação), por onde passa cada uma das aproximações, e o objecto da intervenção (organização, sistema de informação e sistema
informático), que distingue os vários níveis organizacionais que serão objecto de atenção durante o desenvolvimento.
Na primeira fase (percepção) os actores que conduzem o processo assumem uma atitude perceptiva, procurando compreender o ‘universo’ de acção, identificando, delimitando e formulando o problema [Carvalho 1996]. Na segunda fase (concepção) são geradas e avaliadas as soluções alternativas, seleccionando-se a mais apropriada, sendo que na terceira fase (implementação) são executados os planos que correspondem à implementação da solução escolhida [Carvalho 1996].
No que toca à segunda dimensão, a organização, o sistema de informação ou o sistema informático correspondem aos níveis onde será introduzida a mudança, sendo o foco de cada um destes objectos de intervenção diferentes, consoante cada uma das aproximações ao DSI [Carvalho 1996]. Estas aproximações são classificadas por Carvalho [1996] como aproximação à Construção de Sistemas Informáticos (CSI), aproximação à Redefinição de Processos Organizacionais (RPO) e aproximação ao DSI.
Aproximação à CSI
Esta actividade tem como objectivo a construção de sistemas informáticos que irão ser utilizados num contexto organizacional [Carvalho 1996]. Aqui a intervenção é feita essencialmente ao nível dos sistemas informáticos, sendo o principal resultado do processo de desenvolvimento, uma solução informática [Carvalho 1996]. Isto é demonstrado na Figura 4, a enfase da fase da percepção é dada à especificação dos requisitos aplicacionais, sendo nesta fase considerados os aspectos organizacionais e informacionais. Todas as outras fases, concepção e implementação, lidam única e exclusivamente com o sistema informático, uma vez que são estes o foco de intervenção.
Figura 4 – A Aproximação de CSI Fonte: Carvalho [1996]
Aproximação à RPO
Apesar de não ser uma aproximação que derive na sua essência do conceito de sistema de informação, esta aproximação diz respeito a um contexto mais abrangente e que corresponde à redefinição de processos organizacionais. O objectivo desta intervenção são os próprios processos organizacionais, daí que na Figura 5 esteja representado como nível de intervenção principal a organização [Carvalho 1996].
Figura 5 – A Aproximação à RPO Fonte: Carvalho et al. [1996]
Aproximação ao DSI
Nesta aproximação o DSI é visto como uma actividade de intervenção cujo objectivo é melhorar o seu sistema de informação [Carvalho 1996]. Note-se que quando aqui se fala de melhorar o sistema de informação, neste caso, pode implicar ou não, o desenvolvimento ou a
aquisição de sistemas informáticos [Carvalho 1996]. A Figura 6 ilustra que a ênfase de intervenção acontece no sistema de informação da organização, considerando-se também os aspectos organizacionais na fase de percepção, e os aspectos relativos ao sistema informático nas fases de concepção e implementação, sendo que é nestas fases que ocorre a escolha das TI que irão permitir levar a cabo a mudança organizacional.
Figura 6 – A Aproximação ao DSI Fonte: Carvalho [1996]
Dado o conceito de sistema de informação definido anteriormente, a aproximação ao DSI apresentada por Carvalho [1996] é assim considerada a aproximação mais correcta ao processo de DSI, uma vez que nela está centralizado o papel da informação enquanto condutor do processo de DSI, movido pela necessidade organizacional, que pode incluir as aplicações informáticas no desenrolar do processo.