• No results found

Kapittel 5 Funn og analyse: Del II – case-kommunene

5.5. Kommunal klimapolitikk og fritidsboliger i forhold til hverandre

Quanto ao trabalho de tradução realizado pela escritora mineira, argumentamos que, entre todos os poetas traduzidos, aquele que mais exigiu de seu talento técnico-artístico foi Cantos de Dante, publicado em 1969. Digna de nota é a lembrança de um texto seu, escrito em setembro de 1974 para uma apresentação oral, ocasião em que gravara alguns de seus poemas a convite de representantes da Biblioteca do Congresso Americano 101. No texto, Henriqueta se identifica, após relatar breves dados biográficos,

como uma tradutora de Dante, entre outros. Ciente da amplitude do evento, em termos da recepção da sua obra, a ênfase no nome de Dante naquele momento se justifica, porque Henriqueta Lisboa consta entre os melhores tradutores dos versos da Divina

comédia para a língua portuguesa 102, distinguindo-se, ainda, como a única representante

feminina a ousar em tamanha façanha literária 103.

Sobre Cantos de Dante, não faltaram à poeta os aplausos e o reconhecimento pelo esforço. O amigo Carlos Drummond de Andrade é um exemplo entre aqueles que lhe cobraram a tradução integral da trilogia dantesca, incentivando-a a fazê-lo: [...] De um

99 ROGER, 1991, p. 21.

100Cf. Pasta Entrevistas, Diálogo com Celina Ferreira , [S.d.], no AEM/UFMG. A primeira edição da obra A

educação pela arte, data de 1943.

101 Cf. Série Produção Intelectual do Titular (Depoimentos), no AEM/UFMG.

102 Cf. STERZI, Eduardo. Uma biblioteca dantesca. Revista EntreClássicos. Dante. nº 1. [2006], p. 90-97. 103 O estudo que tomamos como referência, sobre as traduções de Dante no Brasil, data de 2006, e está supracitado.

poeta como você a gente está sempre esperando o máximo. Não lhe faltam condições para a obra, e não vejo outro que a possa executar, entre nós 104.

Porém, na primeira hora, a crítica não foi unânime. Em 1969, no Brasil, o reconhecimento da mulher escritora ainda era tênue 105. Naquela que talvez tenha sido a

primeira resenha publicada sobre o livro Cantos de Dante, o crítico Leo Gilson Ribeiro (1930-2007) não contempla a poeta com uma justa apreciação do seu trabalho. Sob o título de Purgatório no Brasil , o autor da nota sugere que Henriqueta procure, para traduzir, um poeta que lhe seja mais afim: Porque, apesar de trechos de grande beleza, [...] essa incorporação ao português dos cantos do divino poeta florentino não é fiel ao

espírito viril da sublime poesia de Dante 106. E mais, a tradução de Dante exige recursos quase masculinos de força, engenho e fantasia — dotes que Henriqueta Lisboa possui em forma demasiado delicada para tarefa tão áspera e desafiadora 107. Entretanto,

passados alguns anos, em 1975, o mesmo crítico, em matéria sobre o livro O alvo

humano, que adjetivou de inquietante , vai dizer sobre a poeta que traduziu Cantos de

Dante:

Raramente rompe seu exílio voluntário em Belo Horizonte para receber prêmios literários ou a Medalha de Bronze do governo italiano por suas traduções do Purgatório de Dante Alighieri. O seu é um mundo íntimo, de uma reclusão indevassada e coerente. 108

Para Henriqueta Lisboa, entre todos os poetas, Dante ocupa o posto mais alto: pela forma exemplar, pela essência perene, pela dramaticidade humana, pela intuição divinal 109. Ao proferir a conferência de abertura do ciclo O meu Dante, em 1965, no

Instituto Cultural Ítalo-brasileiro, em São Paulo, Henriqueta justifica-se dizendo que aceitou o convite porque se tratava de um testemunho pessoal, de uma confissão, em

104 Pasta Correspondência Pessoal (ANDRADE, Carlos Drummond de.), carta de 25 jan. 1970, no AEM/UFMG.

105 Eleita, em 1963, para a Academia Mineira de Letras, Henriqueta Lisboa toma posse em 1969 como a primeira mulher, no Brasil, a conseguir tamanho feito. Lembremos que Rachel de Queiroz (1910-2003) ingressa na Academia Brasileira de Letras como primeira representante do sexo feminino somente em 1977, passados mais de oitenta anos da sua fundação.

106 RIBEIRO, Leo Gilson. Purgatório no Brasil. Edição 62. Veja. 12 nov. 1969, p. 75 [grifo nosso]. 107 Id., ibid. [grifo nosso]

108 RIBEIRO, Leo Gilson. Rara poesia. Edição 333. Veja. 22 jan. 1975, p. 73.

109Cf. Resposta ao questionário elaborado para o Projeto Manuel Bandeira , lançado pela Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, em 1980. Ver carta de 3 out. 1980, anexada às perguntas. Pasta Produção Intelectual do Titular, série Entrevistas, no AEM/UFMG.

suma, de uma página autobiográfica , conforme as palavras do organizador do evento, Edoardo Bizarri 110.

No início da sua fala, referindo-se à grande obra de Dante, Henriqueta se detém nos cantos do Purgatório , lugar que, no seu entendimento, seria a cor de seus próprios olhos , afirmando que cada um procura na dinâmica desse painel que é a

Divina comédia, aquilo que condiz com seu temperamento 111.

A preferência de Henriqueta Lisboa por Dante, portanto, e especialmente pelo Purgatório , diz muito a seu respeito. A escritora reafirma sua identificação psicológica com o poeta florentino, ainda na mesma conferência, desculpando-se pela falta de modéstia. Nas palavras finais, complementa ao dizer que Dante, o seu Dante, entre os muitos existentes, é aquele que

não fez senão obedecer a uma vocação sobrenatural, pelo que pôde realizar na terra o seu altíssimo destino de Poeta do mundo interior. 112 Para Henriqueta, o Purgatório dantesco

[...] é a hora dos crepúsculos, da contemplação e da melancolia, [...] o equilíbrio, a soma dos contrários, a síntese do bem e do mal [....], a medida exata da serenidade espiritual e do domínio artístico do poeta, dentro da concepção total do poema. 113

Nessa definição, mais uma vez, vemos refletida uma característica que encontramos na sua própria poética, que é a eterna busca do equilíbrio entre forças contrárias, busca plenamente identificada com o princípio da coincidentia

oppositorum 114. Este é um princípio concebido originalmente pelo Cardeal Nicolau de

Cusa (1401- , que Henry Corbin identificou como nada menos do que a chave para o reino da própria regeneração espiritual 115.

110 Cf. LISBOA, Henriqueta. O meu Dante. In: LISBOA, Henriqueta, et al. O meu Dante. Caderno n. 5. São Paulo: Instituto Cultural Ítalo-brasileiro, 1965, p. 9, e texto da apresentação assinada por Edoardo Bizarri, p. 5.

111 As expressões entre aspas referem-se ao texto da conferência supracitada, p. 7-20. 112 Ibid., p. 12.

113 Ibid., p. 10.

114 Cf. CUSA, Nicolau de. A douta ignorância. Tradução e notas de Reinholdo Aloysio Ullmann. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002, p. 26.

115 Cf. WASSERSTROM, Steven M. A religião além da religião: diálogos entre Gershom Scholem, Mircea Eliade e Henry Corbin em Eranos. Tradução Dimas David. São Paulo: TRIOM, 2003, p. 136-137.

Henriqueta escreve o poema Herança numa clara homenagem ao grande poeta italiano, e nos seus versos está uma verdadeira profissão de fé de alguém que reconhece o exato valor do que lhe coube na partilha. São oito tercetos e um verso — monóstico —, que revelam, já na composição — pela adoção da terza rima dantesca —, o seu pendor para o sublime discipulado:

Ouso à sombra de Dante ao meu Vergílio oferecer louvor com tal ternura

que me estremece a voz ao casto idílio. Quem mergulhou um dia na leitura do magno poeta vem transfigurado de uma consciência límpida e madura. Todo o valor do tempo no passado volve de novo em raios convergentes à lembrança de lume radicado. Tudo emerge no plano do presente — pronto, cálido e nítido — pelo ato que é promessa de vida permanente. A cada circunstância o termo exato dá testemunho da alma que está presa à contínua experiência do recato. Esse conhecimento da beleza junto à simplicidade quase rude já sobreleva os dons da natureza. Clássico sereníssimo! Que o estude sempre, alguém, à noção de que é mister entregar-se ao destino em plenitude à maneira de Eneias para obter

a expressão que transcende esse destino e é dádiva de sangue a um outro ser. O verbo humano, então, se faz divino. 116

Reinaldo Marques, em vista da intensa e significativa atividade intelectual da poeta mineira, insere-a na grande tradição moderna dos poetas-críticos, em que se inscrevem Ezra Pound (1885-1972) , T.S. Eliot (1888-1965), Octavio Paz, Haroldo de

116LISBOA, Henriqueta. Herança . Montanha viva: Caraça. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1959, p. 115-116.

Campos (1929-2003), entre outros, e destaca sua preocupação metafísica e ontológica ante o fenômeno poético como basilar de toda a sua produção artística 117.