Kapittel 6 Diskusjon
6.2. Grunnen til dagens utvikling av fritidsboliger ut ifra klimapolitikken
A amizade construída por meio da correspondência trocada entre Mário de Andrade e Henriqueta Lisboa 149 refletiu-se de forma decisiva na produção de ambos os
poetas, como pudemos avaliar nos documentos estudados. Conhecê-la no detalhe desse diálogo epistolar é quase uma imposição para aqueles que desejam realmente empreender uma autêntica heurística e, assim, atualizar a nossa historiografia literária. No que diz respeito à influência de Mário no fazer poético de Henriqueta, cremos que já está bastante divulgado em muitos estudos 150, porém, naquilo que compete à
intervenção da escritora no trabalho do autor, efetivamente, parece-nos ainda muito pouco acentuado. Para ficarmos, por ora, a título de ilustração, em apenas um desses momentos, lembremos que foi muito por insistência da amiga mineira que Mário nos brindou com o importante testemunho sobre a Semana de 22, vinte anos depois, em , naquela que é considerada a famosa conferência sobre o Movimento Modernista, o seu mea culpa. Essa avaliação, apesar do tom bastante amargo, bastante pessimista em relação àquilo que realmente significou, não só para sua geração, ainda se mantém como um documento imprescindível para compreendermos o Movimento Modernista brasileiro.
Na verdade, Henriqueta queria um livro que registrasse o seu testemunho, e o amigo se negava a fazê-lo, dizendo: Não, Henriqueta, eu não posso contar a Semana [...] 151. E ela respondia, pacientemente:
Não insistirei no pedido do livro. Compreendo os seus escrúpulos, as suas razões de generosa elegância moral, de orgulho bem posto. E calculo o desprendimento, a luta interior que lhe custou anos afora manter, viver esse ideal! 152
149 As cartas de Mário de Andrade para Henriqueta Lisboa foram inicialmente publicadas em Querida
Henriqueta: cartas de Mário de Andrade a Henriqueta Lisboa. 2. ed. Org. Abigail de Oliveira Carvalho;
transcrição dos manuscritos Rozani C. do Nascimento; revisão, introdução e notas Pe. Lauro Palú. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1991. E a correspondência mútua encontra-se publicada em: SOUZA, Eneida Maria de. (Org.) Correspondência – Mário de Andrade & Henriqueta Lisboa. São Paulo: Editora Peirópolis: Edusp, 2010.
150 Verificar, entre outros, o estudo de Marilda Ionta, As cores da amizade: cartas de Anita Malfatti, Oneyda Alvarenga, Henriqueta Lisboa e Mário de Andrade. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2007.
151 SOUZA, 2010, p. 164 (carta de meados (sic) de setembro de 1941). 152 Id., ibid., p. 169 (carta de 9 out. 1941).
Porém, Mário acaba cedendo, não exatamente do modo como Henriqueta desejava, realizando o estudo em livro, mas registrando, documentando o seu olhar a partir do interior do movimento, fazendo a sua confissão , que posteriormente seria incorporada junto a outros estudos seus à obra Aspectos da literatura brasileira, em 1943.
Portanto, as palavras de Henriqueta, talvez somadas a outras vozes, obtiveram êxito e ajudaram a quebrar a resistência do escritor. A amiga mineira reconhecia o quanto era necessário e urgente aquele relato e insistiu antes de ceder à sua negativa, argumentando: O surto de maior importância da nossa literatura, e do qual foi você o esteio, não pode não deve ser (sic) estudado senão por você, particularmente nas suas consequências 153.
O contributo de Henriqueta Lisboa para nossa história literária é bastante significativo, e nosso estudo pretende mostrar como ele se deu, não apenas a partir da realização da própria obra, que naturalmente se justifica, mas também pelo muito que fez em prol de obras de outros escritores, principalmente quando recupera autores esquecidos, insistindo nas publicações e recomendando estudos críticos. Assim ela procedeu em relação ao próprio Alphonsus de Guimaraens, já em 1937, com sua conferência, quando a produção dele ainda estava toda dispersa. E o fez talvez atendendo a um apelo que Mário de Andrade já havia feito aos editores, logo depois da sua visita ao poeta, em 1919, nestes termos:
[...] Não haverá no Brasil um editor que lhe agasalhe os poemas, tirando-os da escuridão? Não existirá a piedade dum novo bandeirante que vá descobrir nas Minas Gerais essa mina de diamantes castiços e lapidados, e deslumbre os da nossa raça com os tesoiros que Alphonsus guarda junto de si? Onde? quando o abra-te Sésamo dessa gruta encantada?... 154
Mário publica o artigo cujo excerto supracitamos na Revista A cigarra, em 1º de agosto de 1919, e a primeira edição da lírica de Alphonsus de Guimaraens, organizada pelo filho do poeta, o ficcionista João Alphonsus de Guimaraens (1901-1944), vem a lume somente em 1938.
153 SOUZA, 2010, p. 161 (carta de 31 jul. 1941).
154 ANDRADE, Mário de; BANDEIRA, Manuel. Itinerários: cartas a Alphonsus de Guimaraens Filho, 1974, p. 72. Em todas as citações de Mário de Andrade manteremos a grafia original do autor.
Henriqueta Lisboa, citada por Alphonsus de Guimaraens Filho como biógrafa do poeta de Pauvre lyre, não poupou esforços para coletar material para sua conferência, escrevendo até mesmo para o mecenas da Villa Kyrial, Freitas Valle (1870-1958) — o Jacques D Avray —, em 1937 155, na época, subprocurador-geral do Estado de São Paulo.
O texto da conferência se tornaria mais tarde, em 1945, a primeira publicação, em livro, de um estudo crítico-literário de Henriqueta Lisboa, conforme já mencionado, com o título Alphonsus de Guimaraens. Este trabalho, segundo a Autora, representa um de seus primeiros esforços para a divulgação de um grande poeta, considerado por ela o mais suave dos místicos, o mais fino dos poetas brasileiros 156.
Sublinhamos que a iniciativa da conferência e a sua participação no projeto partiu da própria Henriqueta, conforme atesta a carta do amigo, e mentor, Basílio de Magalhães (1874-1957) 157:
[...] ainda não foi possível assentar quando lhe será feito o convite, visto depender do Capanema a data de encerramento da série de cada ano. Fica, entretanto, a meu cuidado o resolver dentro em breve, com o próprio ministro, o caso da sua conferência sobre Alphonsus de Guimaraens, que bem merece ser relembrado por uma inspirada poetisa da terra mineira, qual D. Henriqueta Lisbôa (sic). 158
Outro contributo importante de Henriqueta, no mesmo sentido, deu-se em favor do poeta José Severiano de Rezende (1871-1931). Natural de Mariana (MG), Rezende foi amigo de Alphonsus de Guimaraens e com este frequentou, junto a outros iniciados do Símbolo, os saraus literários promovidos pelo já citado Freitas Valle, antes mesmo da inauguração da Villa Kyrial 159. Seu livro Mistérios (1920) foi reeditado em função do
centenário do autor, em 1971, com um ensaio crítico de Henriqueta Lisboa, e muito pelo empenho desta, conforme atestam os documentos que se encontram no seu acervo.
Reinaldo Marques, referindo-se especialmente ao ofício da tradução em Henriqueta Lisboa, destaca a sua atuação como mediadora cultural, argumentando que a
155 Cf. GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Alphonsus de Guimaraens no seu ambiente. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, Departamento Nacional do Livro, 1995, p. 292-293.
156 LISBOA, Henriqueta. Alphonsus de Guimaraens, 1945, p. 22, e texto de apresentação da obra.
157 Basílio de Magalhães foi professor, jornalista, historiador, folclorista e político militante, conforme consta na Súmula biobibliográfica elaborada pela própria Henriqueta Lisboa. Era amigo da família Lisboa e muito influenciou na formação da poeta. Cf. Pasta Produção Intelectual do Titular (Biografias), no AEM/UFMG.
158 A carta é enviada do Rio de Janeiro, em 30 set. 1937. Cf. Pasta Correspondência Pessoal, no AEM/UFMG. 159 Cf. CAMARGOS, Marcia. Villa Kyrial: crônica da Belle Époque paulistana. 2. ed. São Paulo: Editora SENAC, 2001, p. 135 et. seq.
reflexão teórico-crítica sobre a literatura, assim como a própria literatura, constitui também espaços de mediação na produção de valores estéticos e éticos 160. Este fato,
somando-se à prática da divulgação de obras e autores, dessa tentativa quase solitária de preservação da nossa memória literária, permite-nos dimensionar a tarefa que a intelectual Henriqueta Lisboa realizava entre seus pares.
Como uma verdadeira zeladora da memória, Henriqueta guardava e catalogava, com precisão, recortes, cartas e documentos, listando objetos — além dos livros, revistas e discos —, inventariando o próprio acervo. Entre seus diversos apontamentos em manuscritos, encontramos uma relação com mais de sessenta nomes, entre renomados escritores e instituições, para os quais foram enviados exemplares do livro Mistérios (1971), do poeta José Severiano de Rezende. Assim ela agia com seus próprios livros, numa quase compulsão arquivística e logística .
Em uma das cartas escritas a Mário de Andrade, nos anos quarenta, enquanto discute sobre a questão de moral em arte , Henriqueta dirige ao amigo uma pergunta que talvez, hoje, caiba a nós responder:
Querer dar à poesia um sentido de perpetuidade será orgulho, Mário, ou apenas instinto de conservação quando nos sentimos fugir — para sempre? 161
O resultado da pesquisa no Acervo de Escritores Mineiros, que contou, uma vez mais, com o auxílio do CNPq por meio da Bolsa Sanduíche País, durante quatro meses, está concretizado nas páginas que se seguem, principalmente naqueles momentos em que trazemos a voz de Henriqueta Lisboa para o centro de nossa argumentação, extraída de entrevistas, cartas, ensaios, discursos, muitos deles inéditos. Este material ajudou-nos a fazer uma verdadeira cartografia da obra da poeta mineira, bem como a definir as linhas do seu perfil de um modo mais claro, naquilo que nos foi possível captar, confrontando informações, analisando dados, intuindo conclusões, que, por sua natureza, jamais serão definitivas.
160 MARQUES, Reinaldo. Henriqueta Lisboa: tradução e mediação cultural. Disponível em: <http://www.ufmg.br/aem/inicial/publicacoes/artigos/marques_hlisboa.htm> Acesso em 18 dez. 2011. 161 SOUZA, 2010, p. 216 (carta de 16 jul. 1942).