1 - Do velho ao idoso: da noção ancestral de velho ao conceito actual de idoso.
Etimologicamente a palavra velho deriva do termo latino vetus, cujo sentido literal é “do ano anterior”; por sua vez, tal designação latina derivou da locução indo-europeia wetos, cujo significado é “anoso” ou seja, literalmente, “com muitos anos, avançado na idade” (Casteleiro, 2001). Sendo certo que existiu uma evolução linguística, variável ao longo dos tempos, não se sabe, porém, o que é ser velho ou quando começa, precisamente, a velhice.
Convenhamos: a interiorização da ideia daquilo que é ser velho não é nova, sendo tão ou mais antiga quanto o mito de Matusalém1.
Ainda que não tenha ocorrido uma aquiescência consensual sobre as significações e o valor nocional de velho e de velhice, o facto é que são poucas as pessoas que resistem, mais cedo ou mais tarde, a falar de ambas, seja do que é ser-se velho (na versão contemporânea, ser-se idoso) ou da velhice (na sua denominação politicamente correcta, do envelhecimento). Tais alocuções são feitas ora sob a forma de enaltecimento ora como repúdio já que, como veremos adiante, os velhos e a velhice têm despertado interpretações e atribuições de valores diferentes conforme as pessoas, as épocas e as sociedades.
Numa certa literatura associada à visão romântica do mundo parece existir a crença de que, ao longo dos séculos, os velhos foram uma espécie de repositório aureolado da sabedoria popular, tão valiosos quanto a Biblioteca Real de Alexandria foi para os eruditos da antiguidade, a Encyclopaedia Britannica para os letrados desde o século XVIII ou, mais actualmente, a internet é para os cibernautas.
Contudo, tal visão parece-nos desfasada da realidade histórica, sobretudo no que respeita à generalização absoluta do suposto estatuto social dos indivíduos mais velhos, entre os velhos de então.
Por um lado, ao longo da evolução da humanidade, o prestígio e o poder dos (ou de alguns) longevos é uma ocorrência relativamente autêntica, especialmente porque ao longo da história foi possível para alguns indivíduos, quase sempre nas classes
1 Mesmo que tendo sido excepcional, à época, a idade real daquele patriarca hebreu, segundo os nossos
cálculos a sua idade provável rondaria a vetusta idade de 78 anos e 4,2757 meses, um record para o padrão de longevidade daquele tempo. Vide Anexo 1 dos Anexos do Capítulo I.
dominantes, alcançarem a condição de ancião2 e, como tal, usufruírem das vantagens decorrentes da influência que advém do conhecimento experiencial e/ou erudito e, com relativa frequência nesses casos elitistas, exercer o poder material e politico acumulado.
Por outro lado, também não é menos verdade que, ao longo da história humana (pejada por sucessivas épocas de crise, cruelmente marcada a ferro e fogo pela guerra, sofrida pela fome e pelas doenças que desde sempre recaíram sobre a plebe, isto é, sobre quase a totalidade da população) nem sempre chegar à velhice foi sinónimo de alegria, riqueza, de préstimo para a governação, de utilidade para o sagaz conselho ou de autoridade moral.
Ao longo dos tempos, na maior parte das civilizações antigas conhecidas, chegar pobre à velhice seria tão-somente ser-se reduzido à condição de criatura sobrevivente, amiúde doente e improdutiva, que ora subsiste graças à generosidade de parentes ou vizinhos ou que deambulará mendicante por entre muitos outros indivíduos famintos.
É certo que tais cenários de miséria absoluta generalizada são difíceis de imaginar (não quer isto dizer que ainda não persistam no planeta) porque já não são tão frequentes nas sociedades desenvolvidas contemporâneas a que pertencemos; porém tais situações foram habituais em muitas épocas e em muitos lugares.
Do estudo da História dimanam distintos episódios do longo percurso civilizacional prosseguido. O conhecimento de tal narrativa permite-nos aceder à formidável viagem humana ao longo das épocas até aos dias de hoje, cuja essência diferencial relativamente aos outros animais se tem consolidado por complexas transformações antropogénicas, sociais e culturais, por outras palavras, graças à Civilização. Tais modificações, por sua vez, são representadas pelas sucessivas conquistas tecnológicas, económicas e politicas que influíram positivamente nas condições de vida das populações e cujos efeitos foram admiráveis a múltiplos níveis, entre os quais podemos desde já destacar os enormes avanços quanto à morbilidade, à sobrevivência e à longevidade, aspectos que são indissociáveis da (r)evolução demográfica contemporânea.
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Só mais tarde o termo idoso irá surgir e incorporar um constructo social moderno, sendo actualmente definido e categorizável, conforme descrito no Item 1.6 do presente Capítulo.
1.1 - A representação do velho na Antiguidade Grega.
Se nos debruçarmos sobre a história ocidental, cuja influência no mundo é inegável e, também, por ser aquela narrativa sócio-cultural que mais próxima está da nossa realidade como povo e como nação, constatamos que ao longo do desenvolvimento da mitologia e da literatura gregas podemos encontrar diferentes exemplos da (o)posição entre os estatutos da juventude e da velhice, e até mesmo desvendar como foram simbolicamente engendrados e regulados os conflitos geracionais e psicológicos entre os mais novos e os mais velhos.
Tomemos como exemplo a narração homérica da Guerra de Troia3, a qual contém aspectos simbólicos e concretos, tais como o poder que advém do vigor na força da idade, a influência variável da sageza dos mais velhos sobre os actos dos mais jovens, a passagem, a luta geracional ou a influência decisiva da juventude sobre a mudança, aqui personificada tanto na impulsividade de Páris como no heroísmo de Ulisses. Neste episódio real, contudo mitológico na narrativa, tal como em vários outros exemplos da narrativa alegórica grega mais primitiva, podemos depreender que os velhos tiveram sistematicamente um papel mais honorífico do que pragmático, principalmente enquanto a Grécia viveu num regime feudal.
Contudo, a extensa e atribulada consolidação da civilização grega culminou num paradigma prevalecente no qual os mais velhos não apenas conservavam a riqueza e poder mas também gozavam de um estatuto especial, o de ancião. Esta condição possuía um enorme valor social, principalmente no plano político como guardiões da Lei e vigilantes da Ordem vigente na Sociedade, sendo certo que a narrativa dos filósofos e dos poetas, neste âmbito, nem sempre é concordante.
No decorrer do desenvolvimento cultural da matriz filosófica grega e sobre a concepção sobre a velhice, a corrente filosófica de Platão4 veio alterar a percepção do valor social atribuído ao estatuto do jovem e do ancião ao considerar o homem velho como um repositório do conhecimento e, logo, guardião da sabedoria que fortalece o poder da Cidade. Tal papel assume enorme relevância porque, para Platão, a Polis ideal era aquela que garantia a felicidade do homem, sendo a felicidade uma virtude que emana do conhecimento da verdade (Beauvoir,1990).
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Vide Anexo 1.1 dos Anexos do Capítulo I.
A assumpção daquele papel indica que Platão agregou o critério da idade ao atributo do valor, resultando ambos num estatuto de poder e de cidadania privilegiada do ancião. Estamos perante a ideia de valor da idade o qual, mais tarde, fortalecerá o advento social do conceito de idoso5 como um estatuto respeitável.
Por outro lado, em oposição à filosofia platónica, Aristóteles consideraria que a alma não era o puro intelecto; a alma e o corpo estariam unidos, pelo que o homem só existiria por meio da união da mente e do corpo. Tal concepção implicará a interpretação de que a degradação do corpo afecta negativamente o espírito, ou seja, os males que afectam o corpo atingem o indivíduo na sua totalidade.
Portanto, para Aristóteles a velhice sobrevém como um período de degeneração, sofrimento e amargura em que os prazeres da vida já não podem ser plenamente apreciados o que – progressivamente – tornará a vida do velho pior do que a morte. Assim, ao contrário de Platão, Aristóteles defenderá que é forçoso que o corpo permaneça intacto para que o Homem, na sua totalidade corpo-alma, possa vivenciar uma velhice feliz (King, 2001). Nessa conceptualização da vetustez, a juventude seria calorosa e apaixonada e a velhice o seu oposto, pelo que o lugar dos velhos não seria à frente dos destinos da Polis (Ross, 1955). Por esta lógica, Aristóteles argumentaria que o velho acertou toda uma longa vida entre desacertos e isso não lhe poderia conferir superioridade sobre os mais jovens que não acumularam tantos erros. Ao contrário de Platão, da noção aristotélica a velhice decorre a desvalorização da idade como uma qualidade própria e inerente. Segundo Beauvoir, a concepção de velhice de Aristóteles, ao contrário de Platão, impele-o a afastar do poder os anciãos por ver naqueles indivíduos enfraquecidos:
(…) porque viveram inúmeros anos, porque muitas vezes foram enganados, porque cometeram erros, porque as coisas humanas são, quase sempre, más e os velhos não têm segurança em nada, e o seu desempenho em tudo está manifestamente aquém do que seria necessário.(Beauvoir, 1990: 136-137).
1.2 - A representação do velho no Império Romano.
Consideremos o percurso de outra grande civilização clássica que marcou fortemente a nossa matriz ocidental: na história Romana parece-nos ter existido uma estreita relação entre a condição do velho e a estabilidade da sociedade.
Entre os romanos6 (cuja conduta social foi regida por valores morais e éticos fortemente influenciados pelo poder político e material) o estatuto social dos velhos dependeu fortemente da posição classista sendo correlativo ao poder político e monetário. Nesse âmbito, podemos apresentar como exemplo a constituição do Senado7, a mais remota assembleia política da Roma Antiga, fundamentalmente constituído por cidadãos mais velhos – os pater ou patriarcas – que tinham reunido vasta riqueza e influência política ao longo de suas vidas (Bloch, 1985).
Do ponto de vista filosófico, a réplica mais consistente à posição de Platão quanto ao estatuto social dos homens velhos veio dos estóicos8, os quais inspiraram o teor do De Senectude9 de Túlio Marco Cícero (106 a.C. – 43 a.C.); nesse intemporal texto, Cícero utilizou a fórmula do diálogo através da personagem de Catão, o Velho.
Uma parte do De Senectude é dedicada a rebater pressupostos intemporais, os quais ainda hoje podem ser discutidos quando se debate a relação entre a velhice e a felicidade: pela voz do senso comum, a velhice força-nos a sair da vida activa porque debilita-nos o corpo, extingue-nos o fogo da paixão e o gozo pelos prazeres físicos; como uma ameaça permanente, aproxima-nos do precipício da morte. Em todos estes casos, argumentou Cícero pela voz de Catão, há nessa ideia uma parte de verdade sendo, contudo, parcial (adaptado a partir de Cícero; tradução de Gomes, 1998).
6 Vide Anexo 1.2 dos Anexos do Capítulo I.
7 O termo latino senātus deriva de senex cujo significado é "homem velho". Portanto, Senado significa,
literalmente, "conselho de anciãos" ou seja, o conselho dos pater famílias (pais ou chefes das famílias patrícias) que provinha desde o tempo da monarquia romana (Bloch, 1985).
8 O estoicismo é uma escola de filosofia fundada em Atenas por Zenão de Cítio no início do século III
a.C. Para os estóicos as emoções destrutivas derivam de erros de julgamento, pelo que o desenvolvimento do autocontrole e da estabilidade é um meio para superar emoções destrutivas: ao pensador claro e imparcial é permitida a compreensão da razão universal (logos). O estoicismo advoga a vida de acordo com a lei racional da natureza e aconselha a indiferença (apathea) a tudo o que é externo ao ser: pela razão da lei natural, o homem sábio reconhece-se como apenas mais um elemento na ordem e no propósito do universo, devendo, por isso, conservar a serenidade perante as tragédias ou as coisas boas da vida (Zalta, 2012).
Pelo discurso de Catão, Cícero deixa claro que saber envelhecer é saber viver. Segundo o filósofo, o conhecimento adquirido e o contributo de ideias experientes e sensatas para o debate, os grandes feitos legados para a humanidade, o prazer pelos momentos simples e uma boa saúde são formas de ter uma velhice digna e feliz. Apesar de ter sido escrito no século I a.C., o teor do pensamento de Cícero permanece actual:
A forma ideal de morrer é com o espírito sem nuvens e em plena posse de todas as faculdades, quando a natureza dissolve por si própria o que havia posto em conjunto. Por isso, os velhos não devem agarrar-se aos restos de vida que ainda possuem de forma gananciosa nem, por outro lado, abandonar-se à morte antes de isso ser necessário. (Cícero, Trad. Gomes, 1998: 35).
Pela lógica de Cícero a inevitabilidade da velhice não pode ser evitada pelo que devemos aceitá-la, ou seja, nem negar e nem desejar que venha antes da hora. A este respeito, e quando se torna necessário o abandono à morte, segundo Beauvoir (1990), entre os antigos romanos, nas classes populares, não seria incomum o hábito das famílias se livrarem dos seus parentes moribundos – afogando-os – sendo tal acto denominado por ad pontem ou, no caso das classes superiores, depontani.
Com o devido distanciamento face ao acto primitivo, eis-nos chegados a um tema sensível: o direito dos indivíduos em sofrimento à morte assistida, discussão que permanece na ordem civilizacional contemporânea através do debate sobre eutanásia10. A este propósito, apenas para recordar quão próxima de nós está ainda este tema, Miguel Torga incluiu no seu conto «O Alma Grande» a personagem o abafador11: homem que nas aldeias transmontanas abreviava, a pedido das famílias, a vida e o sofrimento agonizante dos velhos moribundos. Tendo em conta o passado ou as (ainda) dissimuladas práticas hospitalares actuais (por exemplo, a administração de morfina aos doentes terminais) não nos afastámos muito da supracitada intenção romana.
10 No debate actual sobre a eutanásia, é inegável a herança cultural que nos revela uma visão pragmática
face à continuidade da vida humana em sofrimento irreversível, tendo sido os mais novos a auxiliarem os mais velhos a solucionarem o sofrimento e à dor através da facilitação da boa morte.
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Citando: «Entrava, atravessava impávido e silencioso a multidão que há três dias, na sala, esperava impacientemente o último alento do agonizante, metia-se pelo quarto dentro, fechava a porta, e pouco depois saía com uma paz no rosto pelo menos igual à da que tinha deixado ao morto. Os de fora olhavam- nos ao mesmo tempo com terror e gratidão.» (Torga, 1977: 15).
1.3 - A representação do velho a partir da Idade Média.
A consequência da pulverização do Império Romano foi um longo esforço de reorganização e de consolidação da sociedade12, principalmente a europeia. Ao longo daquele período, concomitante ao processo de luta pelo poder e pelo domínio territorial, decorreu um prolongado combate político-religioso, em grande parte sustido pela Igreja Católica através da evangelização das populações, associado à unificação moral e da conduta social: em concomitância com a queda do Império Romano, o advento do Cristianismo assumiu gradualmente relevância na organização social e na coesão religiosa e política dos povos ocidentais; contudo, a sua essência solidária não teve, à época, grande efeito favorável sobre aos velhos.
Sejamos objectivos: durante quase mil anos da história europeia o estatuto e as condições de vida não foram propícios à maioria dos indivíduos que atingiam a condição de velho, na medida em que, entre os séculos V e XIV, os sujeitos que sobreviviam até à velhice encontravam a subsistência na boa vontade dos parentes ou como mendigos: “A situação dos velhos em todos os sectores da sociedade é extremamente desfavorecida. Tanto entre os nobres, quanto entre os camponeses, a forçafísica prevalecia: os fracos não tinham lugar. A juventude constituía uma classe de idade de considerável importância.” (Beauvoir, 1990: 162).
À medida que as relações comerciais foram assumindo relevância, a partir do final da Alta Idade Média uma nova classe social, a Burguesia, crescentemente mais endinheirada e influente, assumiu um novo posicionamento na tradicional estratificação classista tripartida (Nobreza, Clero e Povo). Tal imposição, suportada pela força do ouro e por normas legais necessárias à regulação mercantilista, financeira e da propriedade, forçou a que as relações de poder entre os indivíduos se alterassem, o que originou, complementarmente, a mudanças no estatuto dos velhos na sociedade13. Porquê? Podemos dizê-lo sem receio de simplificar excessivamente: porque no âmbito daquele emergente paradigma sócio-económico a robustez física, tão imprescindível à arte da guerra, deixou de ser a condição sine qua non para a arte do comércio, então o novo fundamento da prosperidade, do prestígio e do acesso, indirecto ou directo, ao Poder.
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Vide Anexo 1.3 dos Anexos do Capítulo I.
Naquele contexto, em que se assistiu ao desenvolvimento mercantilista e à consolidação da Burguesia, aos velhos passam a ser legalmente reconhecidos os direitos formais e responsabilidades gestionárias: são proprietários, acumularam riqueza e têm a autoridade para decidir como partilhar ou a quem legar os seus bens. Em consequência da força da Lei, particularmente os mais indivíduos com mais idade e economicamente mais afortunados, passam a usufruir crescentemente de um estatuto social mais elevado.
Contudo, aquela gradual readquisição do estatuto do velho não foi homogénea. O período que decorreu aproximadamente entre os finais do século XIV e o início do XVII, denominado por Renascimento (ou Renascença), foi marcado por mudanças em muitas áreas da vida humana, não apenas na organização política da Sociedade mas também nas relações económicas e sociais. Tais alterações foram também evidentes na religião, nas ciências, na filosofia e nas artes(Mattoso, 1980). Assim, o Renascimento foi um período que fez ressurgir os valores clássicos da estética e da beleza,o culto do corpo sadio e o vigor da juventude. Deu-se a redescoberta e a revalorização das referências culturais da Antiguidade Clássica, que passaram a ser exaltadas na arte e na crítica social. Entre outras, as representações dos velhos na pintura, na escultura e na literatura revelam desdém pelo corpo envelhecido e obstaculizariam a que o estatuto social dos velhos, neste período, fosse mais digno, homogéneo e consensual.
Com o advento do Iluminismo e ao longo do século XVIII deram-se alterações políticas, assistenciais, higienistas e avanços técnicos como nunca antes haviam ocorrido, sobretudo numa área que começava a tomar a dianteira na vida humana e no mundo: a Medicina. Foi nesta época que se criaram as condições que resultariam em avanços medicinais significativos nos séculos seguintes (Halfon & Hochstein, 2002). Contudo, se é verdade que neste século o número de octogenários cresceu, a realidade é que a melhoria das condições de vida não foi igualmente repartida, pelo que o aumento da longevidade não beneficiou a maioria da população. Nesse âmbito, aos poucos longevos das classes pobres esperava, ainda, a miséria e a mendicidade, situação que foi sendo alterada no final do século XVIII, com a difusão das acções assistencialistas consubstanciada através da fundação dos primeiros asilos para velhos e desvalidos (provável consequência do sentimentalismo imperante à época) o que fez com que o velho fosse representado na literatura como um ser bondoso e não mais como um decrépito ridículo (Beauvoir, 1990).
1.4 - O início da distinção da representação social do velho e do idoso.
Como temos vindo a referir, ao longo das épocas que marcaram a civilização ocidental, o estatuto dos velhos esteve associado à evolução sócio-económica e cultural das populações. Desde o final da Baixa Idade Média, passando pelo Renascimento dos séculos XV e XVI, pelo período Barroco do século XVII e até ao Iluminismo do século XVIII14, a ascensão e consolidação do estatuto burguês foi contínua15 pelo que tal facto não é despiciendo para a representação social do velho e, posteriormente, do idoso.
Note-se que após o êxodo rural para as minas e para as fábricas, e dada a penúria das condições de vida das aglomerações urbanas no dealbar do século XIX, tornou-se evidente que mais de metade da população, sobretudo a que tinha ultrapassado a fasquia dos 65 anos, vivia em condições muito precárias naquela prosperidade industrial, não recebia quaisquer salários ou pensões e sobrevivia na dependência dos filhos que tinham trabalho, ou recebiam auxílio das instituições assistencialistas. Assim, a velhice passou a ser tratada como uma questão legítima, primeiro no campo do pensamento erudito e na área social-assistencialista mutualista (embrião do sindicalismo contemporâneo e dos movimentos socialistas) e depois, face à gravidade da pobreza do proletariado – sendo os mais atingidos os trabalhadores mais velhos – no campo da política do Estado.
A partir daquela evolução social, económica e cultural decorrerá o advento do